Era uma tarefa difícil administrar duas gêmeas que não se entendiam e um primogênito que mais parecia um caçula, tudo isso já sentindo seus vestidos ficando mais justos pelo avanço da gravidez. Joffrey chegou ao seu quarto quando Cersei ainda estava com as servas, lutando para não afrouxar suas roupas mais do que o necessário para o conforto.

—A escolha da futura rainha é minha, Joffrey, não sua. Você é um príncipe, seu casamento é político, assim como o de Arya… E eu não quero mais discutir sobre isso. — A rainha falou suspirando mais de uma vez e desistindo do espartilho que já não se encaixava tão bem.

—Eu só queria poder opinar quando a hora chegar — O loiro insistiu.

—Oh, Joffrey… — A rainha fez um aceno para as servas se retirarem, e então se aproximou do primogênito com uma expressão paciente, mas firme. — Você acha que eu pude opinar quando me casei com seu pai? Eu queria pular do rochedo para o mar quando disseram que eu tinha que me casar com um selvagem do Norte. E hoje eu não imagino minha vida sem ele. É melhor que você não se meta, assim sua impulsividade juvenil não atrapalha uma decisão que precisa ser pragmática. — Cersei foi até a própria penteadeira e arrumou a tiara dourada em sua cabeça. — Sua noiva já foi escolhida, e está a caminho da corte. Então eu espero que você se conforme rápido e não envergonhe seu pai quando for recepcionar a comitiva de Dorne.

—O que?! — Ele exclamou contrariado. — Vão trazer uma serpente para a corte? Como podem confiar nos Martell? Eu não vou ter meus herdeiros com traidores!

—Você vai ter seus herdeiros com quem seu pai e eu mandamos, garoto. Não ouse questionar minha autoridade. Você pode ser um homem, um cavaleiro ungido agora, o herdeiro dos Sete Reinos, mas eu vou ser sua mãe para sempre. — A rainha devolveu encarando-o com os olhos verdes de leoa, em um tom decisivo.

Joffrey não disse mais nada, apenas saiu irritado do quarto com passos sonoros, sem dúvida para extravasar a irritação batendo em algum escudeiro. Cersei respirou fundo, bem no momento em que sentiu o chão lhe faltar e o corpo cambalear levemente.

—Wow, cuidado, minha rainha. — A voz agradável de Brandon chegou a seus ouvidos ao mesmo tempo que os braços do filho lhe deram amparo, e antes que pudesse pousar os olhos nele.

—Obrigada, querido. Eu devo ter comido pouco no desjejum. — A respiração da rainha estava rápida, e Brandon a acompanhou até uma das poltronas na varanda. — Você também tem um problema que só a rainha pode resolver?

—Não, mãe. Eu vi que as gêmeas já foram para as aulas com o Grande Meistre, e pensei em acompanhá-la em vosso passeio pelos jardins. — Respondeu com seu costumeiro tom agradável.

Era um tormento para Cersei ver que seus filhos estavam crescendo, e de todos, Brandon era o que mais gostaria de manter como um garotinho. Ele sempre fora um filho exemplar, respeitoso, amoroso, e obediente, ao menos na frente dos pais. Não se lembrava jamais de ter visto o garoto de mal humor ou irritado. Conseguia puxar das memórias a primeira vez que o segurou nos braços, o alívio que sentiu em ver seus cabelos dourados como os dela, como os de Joffrey. Parecia ter passado tão pouco tempo desde então, talvez porque tivesse sido obrigada a abdicar da maior parte dos anos dos filhos para que estes servissem a outros lordes, e virassem homens.

A rainha abriu um sorriso doce para seu secundogênito, envolvendo o braço dele com os seus, e deixando que o garoto… Perdão, o homem a guiasse. Naquela manhã eles pareciam estar combinando. Cersei usava as cores de sua casa de origem, um longo vestido vermelho com detalhes em fios de ouro, enquanto Brandon trajava suas vestes de escudeiro, um gibão carmesim, e seu brasão pessoal, um leão e um lobo diante de uma árvore coração, em dourado, que ele ostentava orgulhosamente desde que o pai lhe permitiu ter um.

—Uma pena que você e Joffrey não possam dividir seu bom temperamento. — A rainha soltou aquelas palavras em um suspiro, depois de já terem avançado nos corredores de Maegor a caminho dos jardins.

—Eu não sei se meu bom temperamento vai ajudar se vocês me escolherem uma noiva sem me consultar. — Brandon devolveu em um tom cuidadoso. — Mas eu sou apenas o segundo filho, ele devia entender as responsabilidades de herdeiro. — Acrescentou logo em seguida, virando o rosto para encarar a loira. — Não se preocupe, ele vai se convencer. Eu vou bater a cabeça dele na parede até que se convença.

O gracejo arrancou um riso contido da rainha, que respondeu dando um beijo maternal na testa de Brandon, percebendo que precisava erguer um pouco os pés para isso. O filho estava realmente alto. Quando chegaram ao jardim, uma mesa com chá e bolos de frutas secas havia sido posta para eles, e Brandon se adiantou em puxar a cadeira para a mãe antes de se sentar.

—Você está preocupado com isso? Seu casamento, quero dizer. — Cersei pegou uma das xícaras e bebericou o conteúdo, mas sem tirar os olhos do filho.

—Não. Eu espero ter a mesma sorte que você e o pai. Ou talvez eu possa não me casar. — Comentou com um ar despretensioso, mas o olhar felino sobre a mãe. — Quero dizer, a senhora e o rei tem outros herdeiros, e com sorte teremos outro irmãozinho saindo de vosso ventre. Não vejo porque desperdiçar um bom casamento comigo.

O tom novamente de gracejo não enganou Cersei, que baixou a xícara imediatamente, e se pôs a encarar o filho com mais intensidade. Se tinha algo que podia contar além da agradabilidade de Brandon, era seu talento “político”, não importava o assunto. Talvez fosse essa a razão de Tywin gostar tão particularmente daquele neto.

—O que você quer dizer, Bran?

—Bem, eu ouvi o vô conversando com tio Kevan, que o pai estava pensando em me dar uma senhoria quando fosse me casar. — Surpreendentemente aquilo não parecia ter agradado Brandon. — Eu não quero ser Lorde de Castamere, mãe. Eu quero servir o rei, nossa casa. Não preciso me casar, posso ser um dos sete cavaleiros e fazer um voto perpétuo ao pai e Joffrey.

—Oh, querido. — Cersei estendeu uma das mãos e pousou sobre a dele. — É isso que o preocupa? Você não precisa ser vassalo do Oeste, ou mesmo ter uma senhoria se não a deseja. Joffrey ficaria muito feliz se você entrasse para a Guarda Real, e você não precisa se privar de uma família para…

—Eu não quero me casar, mãe. Nunca. — O tom de Brandon parecia definitivo de uma maneira e com uma tristeza que Cersei nunca tinha visto antes.

A rainha tinha a impressão de já ter visto aquela expressão antes, mas não no rosto do seu sempre sorridente filho. Seu coração se partiu um pouco ao ver aquelas feições tão desanimadas. Quem teria partido o coração de Brandon ao ponto de fazê-lo, ainda tão jovem, desistir de algo tão natural como o casamento.

—Você ainda é muito jovem, meu filho. Quem sabe? Quando a hora chegar, você pode acabar se apaixonando pela sua noiva, como aconteceu com seu pai e eu. — Tentou argumentar em um tom mais compreensivo e maternal, afinal não era um “problema” que teriam de resolver agora.

—Eu acho pouco provável…

Parecia haver algo que ela não sabia. Brandon nunca pareceu o tipo sensível de jovem que se vê desolado por uma decepção amorosa. Sempre fora um garoto cheio de energia, seguro de si, e pelo que Tyrion lhe confidenciou, com um número razoável de “admiradoras” no Oeste. Teria tido alguma namoradinha enquanto estava em Casterly Rock? Pouco provável, ou ela teria ouvido falar pelo pai ou pelo irmão, certo? De repente Cersei se viu mais preocupada com o infante, que ainda demoraria alguns anos a se comprometer com o casamento, que com o herdeiro arredio que certamente tentaria impedir o próprio casamento o qual já era esperado para antes do inverno chegar.

—Vamos deixar para pensar nisso depois… Quando você virar cavaleiro, talvez.

Notas finais
eu pensei em um desfecho mto triste pro Brandon, mas to com dó, então se alguém quiser sugerir um romancezinho pra ele, to aceitando