Crônicas de Feras
16 Cersei
Notas iniciais
Quando acordou, a rainha não sabia o que havia acontecido, não se lembrava de nada, e chegou a se assustar com as dores que sentiu pelo corpo. O rei estava sentado em uma cadeira ao seu lado, ligeiramente debruçado sobre a cama e com traços que denunciavam muito tempo sem descanso. O sorriso que ele abriu quando ela despertou começou a tirar seu medo pelo branco em sua memória e as dores no corpo. O medo que ele aliviou voltou em dobro ao ver a tristeza no brilho de seus olhos cinzentos, olhar em volta e ver o meistre, algumas parteiras, todos com uma expressão de luto. Não precisou de muito para juntar as peças. A última vez que vira aquelas expressões fora quando a mãe morrera, e se ela estava viva significava que… O abraço de Ned amparou o soluço que acompanhou a compreensão do que se sucedera. Mais tarde, o meistre viria a lhe explicar que tivera um parto prematuro, que naquele ponto da gravidez era quase um aborto, sem nenhuma chance de sobrevivência para a criança… Mas ela não estava ouvindo aquilo, não estava ouvindo nada. A rainha passou aquele primeiro dia de consciência — segundo depois de perder seu bebê — focando sua vista em pontos perdidos e afundada em prantos sem fim. E o rei permaneceu ao seu lado em cada momento. Por um tempo, o mundo não pareceu fazer sentido, como se a sua existência já não fosse mais necessária agora que a vida em seu ventre já não existia mais…
No trigésimo sétimo dia após o seu mal estar, Cersei “moveu-se” pela primeira vez. Não que a rainha tivesse ficado imóvel todos aqueles dias, mas todas as suas ações e reações eram automáticas, já previamente programadas graças a sua vida rotineira. Naquele dia, algo um pouco mais forte do que rotina se apossou dela, uma vontade fraca, mas ainda assim o bastante. Acordou pouco antes dos primeiros raios do sol e levantou-se em um silêncio sorrateiro, tomando cuidado para não acordar o rei. Cersei cobriu-se com seu majestoso robe carmesim, e caminhou até a varanda dos aposentos reais. Toda Porto Real ainda parecia adormecida em meio às trevas que mal tinham começado a se dissipar. Ela não sabia quanto tempo ficou admirando a vista, alguma coisa na calmaria que antecedia o amanhecer era reconfortante, até a brisa fria do Mar Estreito foi bem vinda, aliviando aquela sensação constante de sufocar que ela vinha sentindo nos últimos dias. Perdida em seus próprios devaneios, não notou que o sol já brilhava até sentir mãos fortes a abraçando pela cintura, e o corpo do marido grudar em suas costas, fazendo-a se inclinar instintivamente na direção dele.
—Você levantou cedo. Não conseguiu dormir? — Cersei fechou os olhos quando o rosto dele encostou-se no seu, e mais do que ouvir sua voz, pode sentir o hálito quente contra a pele.
—Pelo contrário… Acho que finalmente consegui descansar. — Respondeu com uma expressão tranquila, mas ainda sem conseguir sorrir. Cersei virou-se para o rei e se arrumou melhor em seu abraço, soltando um longo suspiro antes de fechar os olhos e se render ao conforto de ser envolvida por ele. -Obrigada por cuidar de mim, meu amor. Mas não pode mais negligenciar o reino para consolar meu luto. Você é o rei. — Estivera "paralisada" pela dor nos primeiros dias, como um mecanismo de defesa até ter força para lidar com aquilo. Mas em nenhum momento alheia ao que acontecia em volta. Podia ver o cansaço do rei, sua preocupação, sua devoção. Se esforçara um pouco para fingir, até que encontrasse de fato forças para começar a reagir. Mas mesmo assim, Ned ainda conseguia ver o luto em seus olhos. Não podia deixá-lo preocupado para sempre, ele era o rei, e ela não era nenhuma garotinha, era uma leoa.
—De que me vale um reino se minha esposa está triste? — Ele perguntou depois de beijar a testa dela. Cersei ergueu o olhar para o marido, cedendo aos dedos que guiaram seu rosto com gentileza. Acabou sendo recompensada por um sorriso nos lábios dele, um daqueles sorrisos que ele guardava só pra ela. -Eu não estava consolando você, meu amor. Eu estava lidando com nosso luto ao seu lado. — Ela quis baixar a cabeça, mas ele manteve a mão segurando seu rosto para sustentar o olhar. -Nós dois perdemos um filho, e eu sei que sempre vai doer um pouco, mas cada dia doerá menos. — As mãos do rei se uniram para segurar o rosto da rainha, e quando lágrimas começaram a escapar daquele par esmeralda, os polegares um pouco rudes limparam as mesmas da pele macia. -Eu sei que tudo vai ficar bem porque eu ainda tenho você.
Os braços do homem voltaram a envolvê-la, e Cersei pode perceber uma firmeza que contratava com o receio que fez o corpo do marido tremer por um segundo. A princípio ficou confusa, mas então lembrou-se da jovem loba morta em uma cama de sangue… Fora como ele encontrara a irmã, Lyanna Stark. Foi a primeira vez, depois de semanas, que a mulher se deu conta das lembranças traumáticas que ele devia ter revivido naquele tempo. O cuidado, os dias em que os braços dele não deixaram de envolvê-la, as noites em que acordava e o encontrava sentado ao lado de seu leito, adormecido por zelar o sono dela enquanto estava convalescente. Fora ele quem encontrara Lyanna à beira da morte, certamente devia ter ficado apavorado quando lhe deram a notícia de que ela perdera o bebê. A dor lhe fora um choque tão grande, tão forte, que ela esqueceu do que ele poderia estar passando. Dessa vez, porém, não perdera a “mãe”, mas a criança… Filho dele, deles. A leoa acabou apertando o abraço instintivamente, e um arrepio lhe percorrer a espinha ao se dar conta da sorte que tivera por não ter morrido. Pelos Sete… Cersei afastou o rosto minimamente para poder olhar para Ned. Havia um brilho entre aquele cinza que apertou o coração da rainha, uma apreensão que ela sabia que emanava da preocupação dele consigo. Pela Donzela… Provavelmente era a última pessoa a poder clamar pela face mais pura dos Sete, mas mesmo assim o fazia. Pela Donzela, ela não merecia um homem como aquele. Talvez aquela fosse sua provação divina… Depois de exigir tanto de Jaime para que ficassem juntos, ela teria que lutar pra merecer Eddard todos os dias e conseguir ser feliz ao seu lado, em vez de sempre se achar não merecedora do amor dele.
—Você sempre me terá, meu amor. — Sua voz saiu baixa, mas ela conseguiu ameaçar um sorriso. Cersei inclinou o rosto na direção do homem e deu um beijo demorado em sua bochecha. -Um dia você disse que ouviria e levaria sério o que eu tenho a dizer… Não pode parar o reino pela nossa tristeza. Eu prometo que me esforçarei para ficar bem, mesmo sem vossa presença contínua. — Embora internamente aquilo lhe fosse um grande sacrifício, as palavras do pai martelavam constantes em sua cabeça… Ser uma boa esposa, uma boa rainha. E Ned com certeza merecia os dois.
—Você faz parecer um sacrifício ficar ao seu lado o dia inteiro. — O rei comentou mantendo o sorriso no rosto, os braços deslizando carinhosos pelo seu corpo, a apertando. -Eu sei que está certa, mas eu não posso prometer não me preocupar, mesmo em outro jogo de aposentos…
—Então ponha em vossas tarefas diárias fazer todas as refeições comigo, assim poderá me ver melhorar a cada dia. — Sugeriu deitando a cabeça no peito dele e se permitindo relaxar. Como conseguiria superar aquilo se não tivesse ele?
—Você negocia como uma Lannister. Eu já faço todas as refeições com você, meu amor… — Lembrou com um sorriso bem humorado.
—Vou aceitar como um elogio. Ao menos você sabe que sempre pagamos nossas dívidas. — E ergueu o rosto para dar um beijo rápido nos lábios dele, voltando a descansar a cabeça em seu peito logo em seguida. -Nós vamos ficar bem. — Concluiu ao mesmo tempo em que o abraço dele se apertava e o homem se endireitava acomodando o próprio rosto na curva do pescoço dela, respirando seu perfume tão forte que a fez se arrepiar por completo, totalmente relaxada.
—Eu sempre consigo ter essa certeza quando a tenho em meus braços…
Ela lutou contra aquela tristeza, cada dia mais arduamente, assim como prometera, e ser amada por aquele homem com a mesma paixão com a qual ele a acostumara certamente não atrapalhou. Mas embora a perda do filho que nem conhecera fosse, de fato, mais fácil de lidar a cada dia, a chegada de Jaime não era. Cersei não sabia bem o que estava deixando-a mais apreensiva, se a remota hipótese de Ned desconfiar do que havia entre os gêmeos Lannister, ou se a sua reação quando estivesse diante de Jaime novamente. O que iria fazer? O que iria dizer? De repente, dezenas de versões do desfecho para aquilo lhe invadiram a mente, e nenhuma delas era boa o bastante, qualquer final magoaria um dos homens que amava. Não era como se tivesse uma escolha… Eddard era seu marido, e não sabia quando veria Jaime novamente. As palavras de Tyrion martelaram em sua cabeça, aquele anão maldito! Mas ele estava certo, Jaime arriscara tudo por ela, jogara tudo pro ar para ficar com ela, e agora estava fadado a viver o resto da vida literalmente no fim do mundo.
Seu primeiro momento de grande receio veio quando a visita de Lorde Robert Baratheon e seu irmão, Stannis, coincidiu com a chegada de Jaime. Não precisou de mais do que uma troca de olhares com o duende para saber que aquilo não tinha nada de aleatório. Lorde Robert nunca recusava uma razão para ir à capital, sua ausência naqueles meses certamente era para não incomodar o casal real com visitantes, ou talvez porque não conseguisse lidar com nada que não envolvesse encher a cara e desonrar senhoras. O melhor amigo do rei sempre tomava bastante tempo do senhor dos Sete Reinos quando o visitava, fossem caçadas de dias ou longas noites de bebida e jogatina. Cersei tinha certeza que Robert arrastaria Eddard para um bordel se pudesse, mas para o alívio da rainha, o rei nunca levava aquela diversão para fora do castelo, ou mesmo para uma sala particular, impedindo qualquer tentativa de diversão menos “sóbria” por parte de Lorde Baratheon. A presença de Robert certamente manteria Ned ocupado o bastante para que Cersei pudesse ficar à vontade com Jaime, e aquilo lhe causou um frio na barriga que ela ainda não decidira se era ansiedade ou medo. Como poderia rejeitar o irmão depois de tudo? Como poderia trair Ned depois de tudo? Aquelas perguntas a atormentaram todos os dias até Jaime chegar a Porto Real.
Naquele dia, Cersei acordou com a deliciosa sensação de ter o corpo perfeitamente aquecido pelo seu rei. Os braços, pernas, e todas as partes dele a buscavam e a envolviam de tal forma, com tamanha proteção e cuidado, que por alguns segundos ela se sentia o mais desejado e protegido dos tesouros. Após ser cavalheiro por mais dias do que conseguia contar, os instintos do seu fiel marido finalmente lhe falharam o controle. Uma simples troca de carícias acabou direcionando uma fome que há muito reprimiam pela tristeza, e isso somado a meses se contentando com toques superficiais quando a gravidez avançou… No fim, depois de relaxar exausta e saciadas naqueles braços largos, ela se sentiu mais forte do que antes, como se pudesse acreditar em normalidade novamente. Mas quando os raios de sol lhe tiraram do sonho perfeito que estava tendo, e do qual jamais se lembraria, a rainha sentiu o peso do medo, da dúvida, caírem em sua cabeça como o pesado martelo de Lorde Robert, estraçalhando sua tranquilidade, como o enorme martelo estraçalhara o peito de Rhaegar Targaryen. Jaime estava chegando…
Seu estado de completa tensão ficou claro para qualquer um que a visse naquele dia, fosse nas ordens confusas aos servos, ou nas respostas desconexas que dava a todos. Pela sua sorte, seus demônios acabavam se externando como a ansiedade de uma irmã saudosa. O rei estava repleto de sorrisos para ela, uma felicidade inocente por trazer Jaime até ela, lhe dando o mais próximo do que ela lhe implorara quando se casaram… Como as coisas mudavam rápido. Cersei estava inquieta ao lado de Ned na sala do trono, a qualquer minuto parecia que Jaime apareceria ali e um buraco negro se abriria embaixo dela com o Estranho a chamando a prestar contas com o Pai. A mão apertava a do marido inconscientemente, e sempre que o olhava o homem lhe dava um daqueles olhares amorosos, que naquele momento apenas pesavam ainda mais em todas aquelas coisas que pareciam querer explodir sua cabeça.
—O Regicida está demorando… — A voz de Lorde Robert, alguns degraus abaixo do casal real, tirou Cersei de seus devaneios assustados.
—Robert! Eu não admito ofensas a um irmão juramentado da Patrulha da Noite. Ele é um patrulheiro, e isso é tudo. — A voz firme do rei pareceu fazer seu rude amigo se lembrar das boas maneiras, e o aperto carinhoso em sua mão fez Cersei sorrir pequeno em agradecimento ao marido.
—Espero que isso não nos atrase, Ned. — O homem voltou a se pronunciar, calando-se agora sob o olhar de desaprovação do irmão mais novo ao seu lado.
—Atrasar? — Os olhos verdes da rainha se voltaram curiosos e confusos para o rei lobo.
—Só uma caçada no fim da tarde. Eu tenho algumas coisas a discutir com Lorde Robert e Sor Stannis, e meu bom amigo parece não conseguir pensar sem estar enfiando uma lança em carne fresca. — O rei falou em um tom que misturava censura e divertimento, até arrancando um sorriso de Lorde Robert que a rainha pode ver pelo canto do olho. Ned puxou sua mão e beijou demoradamente, inclinando-se para falar apenas para seus ouvidos. -Achei por bem que você e Sor Jaime pudessem ter um momento a sós antes do banquete. Eu não devo ser sua pessoa favorita. — Falou em um tom tão cuidadoso que partiu o coração dela.
—Obrigada… Você é muito bom comigo, meu amor. — Ela falou com o tom mais normal que conseguiu, respirando fundo antes de desenhar um sorriso no rosto, e torcendo para que a confusão em seus olhos pudesse se confundir com nervosismo.
O rei abriu um largo sorriso para a mulher, como não costumava fazer em público, e chegou a mover os lábios ensaiando dizer algo, mas acabou sendo interrompido por recém chegados. Tyrion tinha ido com Sor Barristan e mais um grupo de cavaleiros para receber Jaime nos portões da cidade, e quando aquela comitiva chegou, o coração da rainha acelerou tanto que teve certeza que cada presente podia ouvir as batidas contra seu peito. Jaime vinha na frente com Tyrion, as vestes, antes brancas e brilhantes, agora negras e um pouco maltrapilhas quando em comparação. Estava visivelmente mais magro, e a rainha pode perceber o quanto aquele tempo na muralha lhe custara. Ele não tinha mais o brilho do seu cavaleiro cintilante, e embora pudesse parecer, nada tinha a ver com os seus sentimentos confusos em relação a ele. A Lannister pode ter certeza, para o seu próprio desespero, que o olhar de Jaime continuava lhe trazendo o mesmo jogo de emoções que um dia trouxera. Embora não tivesse total segurança do que poderia fazer aquela balança dentro dela se mover, olhando o gêmeo ali diante de si, ela sentiu uma felicidade genuína apenas em constatar que ele estava inteiro.
—Não vai me dar um abraço, minha irmã? Perdão… Minha rainha. — A loira já se levantava do assento ao lado do trono de ferro quando ele começou a se ajoelhar.
—Não ouse se curvar. — Ela falou entregando-se àquele sentimento leve que vê-lo novamente lhe trazia, independente do peso daquele encontro.
Os braços de Jamie a envolveram ao mesmo tempo em que ela laçou seu pescoço, e por um segundo ela se sentiu uma menina novamente, quando nada podia atingi-la, pois tinha seu belo cavaleiro para sempre lutar por ela. A maioria dos presentes observou a cena com certa emoção em ver os gêmeos naquele momento terno, mas Cersei sentiu que o abraço demorava tempo demais, afastando-se ao trocar um olhar rápido com o duende que estava apenas a poucos passos dos irmãos.
—Seja bem vindo, Sor Jaime. — A voz do rei soou atrás de Cersei, denunciando sua aproximação. -É sempre um prazer receber um irmão da Patrulha da Noite.
—Obrigado, meu rei. Eu certamente fui tocado por vossa calorosa recepção. — Cersei torceu para que o rei não tivesse percebido o sarcasmo no tom do gêmeo.
—Deve estar cansado… Por que não vai se refrescar para podermos comer? — A mulher tratou de interferir, desenhando seu melhor sorriso.
Se achava que o peso em sua cabeça já era grande, ver Eddard e Jaime juntos diante de si não facilitou, muito pelo contrário. A rainha passou todo o almoço tensa, entre comentários disfarçadamente venenosos do irmão para o rei e provocações claras de Lorde Robert a Jaime, Cersei estava pedindo à Mãe que terminasse aquela angústia logo. Não sabia bem do que estava com medo… Não era como se Ned pudesse descobrir, Jaime jamais diria, nem Tyrion. Quando o rei, Lorde Robert, Sor Stannis e parte da Guarda Real deixaram a fortaleza para a tal caçada, Cersei percebeu que seu medo era do desfecho que aquele momento a sós com o irmão iria ter. Mais do que trair o marido fisicamente, ela começava a sentir um desespero sem fim de acabar descobrindo que amava mais a relação incestuosa que tinha em segredo com o gêmeo, e Ned não merecia aquilo. Mãe misericordiosa! Por que não deram outra ao rei? Ele não merecia uma esposa tão indigna! Mas a mera ideia de Ned com outra mulher já avermelhava seu rosto pálido.
Protelou o quanto pode, mas quando finalmente Tyrion veio “buscá-la”, Cersei respirou fundo antes de abrir a porta pra ele. Quis matar o maldito anão quando viu a solução para despistar a Guarda Real, mas por fim trocou as próprias roupas e colocou um véu no rosto para então ser guiada até Jaime entre as prostitutas que Tyrion supostamente contratara para entreter o irmão. Aquele plano era estúpido, e tinha certeza de que seria pega, mas o duende fez algo certo daquela vez, e Sor Lucion, que estava de guarda, parecia facilmente distraível. Aparentemente, o tempo que demorara no quarto evitando aquele momento, o caçula usara para embebedar um pouco o Manto Branco, batizando seu vinho com algo mais forte, sem dúvida. Quando passaram por ele, o cavaleiro estava quase cochilando, e ao despertar não poderia dizer que uma daquelas quatro donzelas havia saído dos aposentos reais. Uma piscadela de uma das meninas e um sinal de silêncio de Tyrion indicando a porta de seus aposentos foi atuação o bastante para ele não perceber nada, e o grupo seguir seu caminho… Não sabia se ficava feliz por ter dado certo ou preocupada por aquele ser um dos membros da Guarda Real.
Ela não prestou atenção nos corredores que iam tomando, totalmente presa nos próprios pensamentos, e quando percebeu, estavam diante dos aposentos de Tyrion. O anão olhou significativamente para ela, indicando a porta, enquanto seguia com as três putas na direção dos aposentos que mandara preparar para Jaime. Não soube dizer quanto tempo demorou diante da porta, mas não podia estar mais perturbada do que quando finalmente entrou e fechou a porta atrás de si.
—Já estava achando que não viria. — A voz veio tão de repente e tão perto que ela não pode evitar um leve susto.
O abraço caloroso e emocionado do reencontro era uma lembrança doce. As mãos que a tomaram tão logo deu as costas à porta tinham um tipo de fogo diferente. Mal teve tempo de respirar, e o irmão já começava a distribuir beijos saudosos em seu pescoço, arrancando o véu com pressa e a beijando com um desespero que ela pode sentir já no primeiro toque. A princípio, seu corpo respondeu automaticamente, como já estava “programado” a fazer quando Jaime a tomava. Mas à medida que a ausência dele durante todo aquele tempo ficava mais óbvia, diante das sensações que a presença dele ainda lhe causava, as respostas automáticas foram se tornando sinceras, e Cersei logo agarrou-se ao irmão com mais segurança, e até sede. Os passos trôpegos os levaram até o leito, e aquele calor familiar lhe pareceu tão confortável e convidativo que ela não conseguiu pará-lo, deixando-se envolver nos beijos que agora desciam pelo decote exagerado daquelas roupas. Quando Jaime desfez os primeiros nós do vestido, porém, a loira parou de beijá-lo, pousando as duas mãos sobre o peito dele.
—Espere… — Pediu baixo, evitando encará-lo.
—Eu não posso esperar, Cersei. Eu sonhei com esse momento todo esse tempo! — As palavras dele saírem meio ofegantes, e suas mãos continuaram a puxar a roupa dela.
—Jaime, não! — Dessa vez sua voz saiu mais firme, e o homem saiu parcialmente de cima dela. -Eu não posso fazer isso. — E começou a se afastar dele.
—Como assim não pode? — Cersei pode ver uma frustração se transformar no início de uma ira nos olhos do gêmeo, levando um susto ao ter o pulso rudemente seguro por ele.
—Eu sou casada, Jaime. — Ela falou com a voz firme. -Com o rei…
—Com o homem que me mandou pro inferno! — A voz dele saiu mais alta do que esperava, e o aperto em seu pulso foi ainda mais rude, fazendo-a sentir algo que jamais achou que sentiria nos braços dele, medo.
—Solte-me! Está me machucando! — Ela falou tentando se soltar, acabando por conseguir quando ele pareceu desistir de prendê-la. Cersei se encolheu em uma das beiradas da cama, a cabeça baixa e as lágrimas já nascendo em seus olhos. -Me perdoe… Me perdoe por tudo que eu fiz a você. Eu fui tão egoísta… Mas… Mas eu o amo. E ele é um bom homem, não merece isso…
(N.A.: *******AVISO: Inicio de descrição de conteúdo sensível de violência sexual. Se preferir pule para o próximo aviso ao fim da cena descrita.*******)
Ela caiu de lado e sentiu o mundo girar antes da pele arder com o tapa que levou da mão pesada do gêmeo. Demorou tempo demais para processar o que havia acontecido, e só conseguiu reagir quando o homem se colocou novamente sobre ela… Não! O que ele estava fazendo? Cersei pousou as mãos no peito dele e começou a empurrá-lo, as pernas se debatendo enquanto Jaime se colocava entre elas, usando os próprios joelhos para separá-las. Estava ofegante, e o pânico se apossou dela com tamanha força que ela não conseguiu falar ou gritar, em vez disso concentrou suas energias em tapas e arranhões para fazê-lo sair de cima dela. Jaime conseguiu prender seus dois pulsos com apenas uma das mãos, seu coração acelerou novamente, dessa vez com um pavor claro nos olhos verdes pela perspectiva do que estava por vir.
—Eu fiz tudo por você… Eu esperei naquele inferno… Eu esperei por isso todo esse tempo! — Ele começou a dizer com um olhar diferente, um brilho de loucura que ela jamais percebera.
—Jaime, não!! Me solte!! Por favor, me solte!! — Continuou a protestar em súplicas agora que não conseguia mais se mover. -Eu não posso!!! PARE, POR FAVOR!!
A mão livre dele, que antes desamarrava os calções e puxava seu vestido, tapou a boca da rainha com uma rudeza que aumentou a dor onde ele batera. Ela foi levada a um nível completamente novo de medo. Na verdade, Cersei Lannister percebeu que jamais sentira medo de verdade, até aquele momento. Um par de olhos verdes se arregalou em dor e choque, enquanto outro se fechou acompanhado de um gemido de quase alívio. O rosto dela não estava mais pálido, mas a vermelhidão não era exatamente de raiva. As lágrimas desciam copiosas pelo rosto da mulher, e quando ele seguiu em investidas tão violentas e indesejadas, seu corpo inteiro se contorceu em repulsa, dor, culminando em gemidos desesperados, chorosos, abafados pela mão que já machucava seus lábios pela força que usava para lhe calar. Começou a se sentir sufocada, tentando puxar o ar de todas as maneiras e quase conseguindo morder a mão do gêmeo, levando mais um tapa logo em seguida. A dor era indescritível, para além do incomodo insuportável daquela violação, ela sentia nojo, algo que nunca passou pela sua cabeça sentir com o toque de Jaime. Ela puxava o ar como conseguia pelo nariz, o corpo todo tremendo, dolorido, e o complemento daquela sensação horrível de impotência diante de tão hediondo crime contra si. Achou que fosse morrer, a força com a qual ele segurava seus pulsos, a sufocando com a outra, mais a brutalidade daquelas estocadas lhe deu por alguns segundos a certeza de que iria morrer. Mas aquela perspectiva lhe pareceu absolutamente caridosa se comparada ao que ele fazia com ela naquele momento. A violência daquilo, e até a incapacidade de aceitar o seu autor, pouco a pouco foram prendendo a rainha na própria mente, até que ela não se debatia mais, não gemia de dor, nem sequer se mexia. Não parecia que ela estava ali, os olhos abertos miravam o nada, incapaz de aguentar a dor de ser rasgada por dentro em todos os sentidos possíveis.
(N.A.: ******FIM DA CENA******)
—SAIA DAQUI!! — O grito de Jaime a despertou daquele transe defensivo em um susto apavorado.
Não tinha percebido que o irmão parara, nem que saíra de cima dela. A cabeça acabou caindo de lado ao ser solta, e seus olhos se cruzaram rapidamente com o olhar confuso e assustado do anão. Tyrion estava na entrada do quarto, parado em choque e aparentemente ainda indeciso se fecharia a porta consigo dentro ou fora do aposento. As lágrimas continuavam a sair dos olhos de Cersei, mas ela ainda não se movia, e nem seria preciso. Seus olhos verdes jamais disseram tanta coisa para o irmão caçula como naquele momento.
—O… O que está acontecendo?! — O tom do anão também era confuso, um misto de hesitação e temor. -Você…
—Já disse para sair daqui!!! — A voz de Jaime fez Cersei enfim de mover, se retraindo e em seguida se encolhendo com as dores que o movimento lhe causou.
—Como pode fazer isso? — Ouviu a voz de Tyrion ir ficando mais alta, denunciando sua aproximação. -Você me disse que a amava!! COMO PODE FAZER ISSO COM ELA?!!
Ela não podia ver os dois. À medida que se movia devagar para evitar guinadas fortes de dor, Cersei se virava sempre que qualquer parte da figura de Jaime entrava em seu campo de visão, um pavor sem precedentes só de pensar em olhar para ele. Mas seus olhos novamente se focaram nos de Tyrion, e a expressão do irmãozinho em quem sempre viu o castigo do Estranho mostrava um horror que a fez chorar ainda mais. Que imagem terrível deveria ser naquele momento, para o anão a olhar daquela forma, como uma coisa monstruosa… Demorou alguns segundos para compreender que não era para ela que ele olhava.
—E um homem que estuprou a própria esposa vai me dar lição de moral?! — O veneno poderia ter escorrido pelos lábios de Jaime.
—Eu… O que? Ela… Ela era uma prostituta!! Cersei é sua irmã!! É SUA RAINHA!! — A loira podia ouvir os passos de Tyrion se aproximarem mais.
—Ela era uma camponesa ambiciosa demais, em quem o pai tratou de dar um jeito. — Se estivesse de fato prestando atenção na conversa, a loira não estaria compreendendo nada, mas fosse o que fosse, pareceu afugentar a voz do anão. -AGORA SAIA DAQUI!!!
O trovejo de Jaime fez a rainha dar mais um “pulo” de susto, se sentando encolhida na cama e sentindo o corpo inteiro doer em uma fincada forte que a fez gemer. Ele enfim focou os dois presentes, com a mínima lucidez desde que Jaime saiu de dentro dela. Tyrion encarava o irmão com a face tomada pelo choque, um tristeza atrelada a uma decepção que Cersei pode perceber tão logo cruzou o olhar com o dele mais uma vez. O duende chegou a começar a se virar para ir embora, e por um segundo Cersei prendeu a respiração em horror, acreditando que ficaria novamente sozinha ali com… Com aquele monstro. Mas assim como ela pode ver através dos olhos tortos do anão, Tyrion parou ao encará-la.
—Você precisa ir, Jaime. — O tom de voz foi tão absolutamente gelado que lembrava o próprio Lorde Tywin, um tom que Tyrion jamais usara.
—Não seja estúpido! E feche a porta… — O Regicida tornou a mandar o anão embora enquanto já se voltava para avançar em Cersei novamente.
—Não!! NÃO!! NÃO CHEGUE PERTO!! — Os gritos saíram antes que Cersei pudesse pensar, o corpo todo tremendo com violência à mera menção da aproximação dele.
—FIQUE LONGE DELA!! — Tyrion gritou, e quando virou o rosto em sua direção, Cersei pode ver que ele havia sacado uma adaga da bota.
—O que acha que vai fazer?! Acha que pode comigo, irmãozinho?! — A voz de Jaime saiu em um tom de deboche que ele provavelmente sempre tivera, mas que Cersei não foi capaz de reconhecer. Pela primeira vez, nada nele parecia familiar. Não era ele… Não era seu irmão.
A rainha perdeu a voz até para gritar quando sentiu o pulso ser novamente agarrado pelo gêmeo. Tyrion avançou dois passos, a adaga já erguida. Houve um momento breve de troca de olhares entre os três Lannister, até que Cersei virasse o rosto alarmada na direção da espada que repousava na mesinha ao lado da cama. Jaime soltou seu pulso, deixando-a cair no colchão pela força que nem percebeu que fazia para se soltar, e então se jogou para pegar a espada, rápido como o cavaleiro que era… Mas Tyrion já tinha começado a baixar a adaga em um ataque feroz, que a rainha teve certeza não ser só por ela. A lamina atravessou a mão direita do Regicida um pouco acima do pulso, fincando na madeira da mesa e derrubando no chão a espada que Tyrion chutou para baixo da cama.
—AHHHHHHHHH!!!! MALDITO!!!! AHHHHH!!!! — O grito de dor ecoou por todo o quarto, e provavelmente além.
Ainda estava imóvel, uma sensação de estar completamente vazia, não conseguia nem mesmo reagir à cena que acabara de presenciar. Quando sentiu algo ser jogado em seus ombros, se retraiu e guinadas de dor novamente lhe atormentaram por todo o corpo. Cersei desviou os olhos da imagem de Jaime ajoelhado, a mão sangrando enquanto ele tentava se livrar da adaga, para dar de cara com Tyrion. Quando ele se aproximara dela? O anão havia colocado um robe sobre os ombros da irmã, cobrindo as partes do vestido que ela nem percebera que Jaime havia rasgado.
—Cersei… Cersei! — Ele teve que chamar mais de uma vez para que ela conseguisse focar sua atenção. -Alguém com certeza vai ouvir os gritos. Você precisa sair daqui…
Ela não reagiu a princípio, apenas se retraiu ao primeiro toque dele, mas logo foi colocando-se de pé conforme que o anão a guiava a fazê-lo. Aturdida, os passos que acompanhavam os do anão foram parando, quando a cabeça dela começou a conseguir processar mais, saindo um pouco do choque.
—Espere… Eu… Eu não posso… Ned… O que vamos…
—Acalme-se, por favor. — A voz de Tyrion saiu firme novamente, seguindo a guiá-la, tirando-a do quarto e seguindo pelos corredores. -Você precisa confiar em mim. Vá para os seus aposentos, nosso primo deve estar adormecido na guarda. Fique lá e não recebe ninguém até eu chegar…
—Mas…
—Vá, Cersei! Por favor, eu vou resolver isso! Vá! — Ele insistiu enquanto a soltava, já próximos a curva para os aposentos reais.
Por um segundo, a rainha segurou firme a mão do anão, como se temesse soltá-lo, um gesto que acabou surpreendendo e assustando a ambos. Ela o obedeceu, constatando que ele estava certo sobre Sor Lucion quando chegou aos próprios aposentos. Em passos automáticos, Cersei entrou no quarto completamente perdida. A adrenalina foi diminuindo, e assim, as dores foram aumentando. Não soube dizer porque seus pés a levaram até a água do banho que tomara mais cedo e ainda não fora recolhida, mas quando percebeu já havia se afundado na banheira ainda usando as roupas rasgadas. Uma vez dentro, um instinto mais forte do que ela lhe disse para permanecer onde estava até que estivesse minimamente limpa… Sim… Estava suja! Muito suja! Imunda! Imprópria! Indigna! Intragável! Mas por mais que se esfregasse, se afundasse, se encolhesse ou permanecesse na água, a sensação de limpeza não vinha… Poderiam ter passado horas ou segundos, ela não perceberia.
—Cersei…
A voz de Tyrion a fez se sobressaltar, respingando água em volta da banheira. O anão hesitou, mas se adiantou até ela ao percebê-la vestida dentro da banheira. A rainha não respondeu, e o sobressalto do susto fora sua única reação. Mesmo assim, Tyrion ainda ousou se aproximar um pouco mais, deixando seguir um longo momento de silêncio em que ele provavelmente escolhia as palavras para falar.
—Tio Gerion veio ver Jaime, e trouxe o recado de que a comitiva do rei ficou presa na cabana de caça por causa da chuva. — Provavelmente dava para ouvir em cada canto da Fortaleza Vermelha, mas diante do estado em que estava, só quando o anão falou “chuva” foi que a rainha pode ouvir os pingos violentos contra o teto e as paredes externas, o barulho que o vento fazia ao entrar por frestas na janela, as cortinas esvoaçando nas janelas não fechadas em meio ao pequeno temporal, a noite que já havia chegado e… Tudo o mais que pudesse estar a sua volta. -Eu… Eu sinto… Me perdoe. Eu… Eu trouxe um pouco de leite de papoula, pra ajudá-la a descansar. — O anão se adiantou mais um passo, colocando o frasco em uma mesinha não muito longe dela. -Eu… Você precisa sair daí, ou vai acabar doente… — Mas ela não se moveu. O anão finalmente virou-se para ir embora…
—Tyrion… — A voz da rainha o parou, mas não o fez se virar. -Onde ele esta?
—Ele foi embora. — A resposta foi quase imediata, e o tom frio que ela ouvira antes voltou. -Tio Gerion o levou para cuidar da mão antes de voltar para a Muralha. Eu… Eu disse que nós discutimos, ele bebeu muito e começou a falar rudemente do rei. Quando a coisa ficou violenta, eu precisei me defender. — Contou a versão inventada que pouco lhe importava naquele momento.
Cersei enfim se ergueu da banheira, indiferente a toda a água que espalhava, e então se livrou do vestido molhado e em trapos, ignorando a presença do anão. Caminhou em passos vacilantes até um de seus baús, jogando uma camisola por cima do próprio corpo, e então deixando-se cair no colchão com um peso que nunca sentiu antes, um peso que a faria se achar tola por ter pensando que o que sentia antes era ruim…
—A mão dele…
—Acredito que servirá para pouco. — Tyrion respondeu antes que ela concluísse a pergunta. -Você precisa de alguma coisa? — Ele perguntou, mas por mais um longo período de tempo, ela ficou em silêncio, até que o anão se guiasse até a porta.
—Tyrion… — Ela novamente o chamou, e ele novamente parou. -Obrigada…
A palavra certamente soou tão estranha ao ouvido dele, quanto devia ter saído dos lábios dela. Mas para encurtar aquele momento estranho quando os dois visivelmente precisavam ficar sozinhos, o anão apenas assentiu com a cabeça e fechou a porta atrás de si, deixando a rainha com sua própria angústia. O destino era um demônio especializado em sadismo. Ela não achou que pudesse haver algo pior do que a angústia da dúvida entre aqueles dois homens, e tantas noites pediu para ser livrada daquela dúvida… Os deuses deviam ser sádicos também, haviam atendido suas preces... Não havia mais dúvidas nela, assim como todo o amor que sentira por Jaime, a dúvida havia se esvaído. Deveria odiá-lo… Sim.. Odiá-lo com todas as suas forças. Mas ela não tinha mais forças, na verdade, ela não sentiu nada. Nem mesmo quando Tyrion enfiou a adaga na mão dele. Talvez ainda estivesse muito escondida dentro de si mesma, porque não conseguia pensar no gêmeo e sentir algo diferente do que quando olhava um candelabro… Nada. Em outros tempos, aquela perspectiva a assustaria, mas aquela “anestesia” em seus sentimentos seria útil, ao menos para, quem sabe um dia, novamente tentar buscar a normalidade que recém começara a reconquistar. Mas de novo, o destino era um demônio…
...Algumas semanas depois do fiasco da visita de Jaime, Cersei ainda se curava de um resfriado que conseguira naquela noite, e que veio a calhar para disfarçar a sua… Indisposição diante do rei. Após um fraquejar durante o jantar, ela recebeu a notícia que acendeu novamente o brilho que perdera naquela fatídica tarde. Ao menos a princípio... Meses depois, Joffrey Stark nasceu. Um lindo, forte e saudável bebê, que arrancou sorrisos do pai desde o primeiro choro, e mostrou a Cersei que qualquer angústia podia piorar, não importava quão grande fosse a anterior. Admirando o filho tão aparentemente Lannister, a mulher passaria o próximos anos de sua vida buscando as semelhanças entre o primogênito e o rei, mas cada semelhança trazia também a incerteza. Estaria vendo semelhanças de fato, ou apenas o desejo mais forte de seu coração?
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