Crônicas de Feras
17 O jovem príncipe lobo
Notas iniciais
Após nove anos, ele finalmente estava voltando para o Norte. Ainda que para uma visita de poucos dias, não poderia estar mais animado. Agora que Daemon fora feito cavaleiro, o avô lhe permitira ir com a comitiva do rei para o Norte como escudeiro de sor Daemon Lannister, o jovem leão. Ainda se lembrava da primeira e única vez em que estivera naquelas terras geladas, nunca vira nada tão belo quanto a terra e as arvores repletas de neve. Os Greyjoy haviam começado uma rebelião contra o senhor seu pai, e ele já estava em Casterly Rock como escudeiro de Lorde Tywin Lannister quando os homens de ferro queimaram a frota Lannister. O jovem príncipe ainda conseguia se lembrar das chamas e dos marinheiros queimados. Uma semana depois ele e os irmãos foram mandados para Winterfell, protegidos entre os mais fieis vassalos da casa Stark, e longe do litoral onde os homens de ferro eram mais fortes. Apesar do medo que sentiu todas as noites de não ver mais o pai, Brandon conseguiu ter alguns dos melhores momentos de sua infância durante aquela guerra. Com a mãe, Joffrey e o tio Tyrion, as vezes nem parecia que estavam em guerra, apenas de férias. Lembrava de ter pedido ao pai para morarem ali, e chegou a ver uma hesitação dolorosa no olhar do rei. Eles eram Starks, afinal, o Norte sempre estaria em seu sangue.
O jovem príncipe Brandon Stark, mesmo com seus poucos 16 anos, já possuía um porte muito desenvolvido para sua idade. Era alto e elegante, com costas largas e braços fortes, e panturrilhas, diziam, que faria inveja a qualquer cavaleiro dos Sete Reinos. Os anos em Casterly Rock, subindo e pendurando-se em cada buraco possível do rochedo e das montanhas e picos próximos, certamente ajudaram no desenvolvimento precoce de seus músculos. Ele tinha cabelos enrolados nas pontas de um tom de loiro mais escuro que o irmão mais velho, e penetrantes olhos cinzentos. O rosto tinha um formato delicado, gracioso, como o da mãe, mas já dava sinais de uma barba mais escura. Todos os seus atributos de beleza eram salientados pela agradabilidade de sua pessoa. Não havia um servo, soldado ou cavaleiro, fosse em Porto Real ou em Casterly Rock, que tivesse alguma queixa a fazer quanto aos modos do jovem príncipe. Brandon até conseguira a proeza de fazer seu sério, e quase sempre mal humorado avô, sorrir — todos pareceram muito chocados na ocasião.
As torres de Winterfell surgiram a frente pela primeira vez, e Brandon tratou de esporear o cavalo, avançando um pouco mais. Ele usava calções de couro, e uma túnica cinzenta por cima de um gibão de couro, além de uma capa com ombreira de pele de urso para manter-se aquecido, e botas que iam até um palmo abaixo do joelho. Daemon estava um pouco mais a frente junto com o rei, e sor Barristan, mas quando já estava se aproximando dos três, alguém lhe cortou o caminho pulando, de onde ele não sabia. Brandon puxou as rédeas do cavalo com força, fazendo o animal parar com um relincho alto e erguer as patas dianteiras, de tal forma que o príncipe teria caído se não tivesse se segurado bem.
—Arya!! — Ele exclamou com a testa levemente enrugada.
A princesa Arya Stark havia deixado Porto Real com a promessa a mãe de que faria o caminho inteiro dentro da carruagem, mas depois que passaram por Harrenhall, o rei acabou cedendo a insistência da menina em cavalgar. Aquilo não aconteceria se a rainha tivesse podido fazer aquela viagem, mas com uma gravidez recém descoberta, o rei não queria arriscar. Brandon gostava da ideia de ter mais um irmão, mas esperava que saísse mais a Myrcella do que a outra gêmea. Embora fisicamente idênticas, era impossível não diferenciar uma princesa da outra, bastava olhar para elas… Arya estava usando calças de couro, uma camisa de linho de mangas cumpridas por baixo de um corpete de couro em volta da cintura e do busto que começava a desenvolver, usava uma longa capa com ombreiras de pele de lobo, luvas e botas. Tinha uma única joia, um medalhão de prata com o lobo Stark, os longos cabelos escuros em uma trança, e corria impaciente com o cavalo na direção do castelo, até estar longe o bastante para o pai gritar para que voltasse e ficasse junto ao grupo, então voltava em rápidas galopadas, dando sustos no irmão e fazendo todo processo novamente. Myrcella ficara em Porto Real com a rainha, mas se estivesse ali certamente estaria se portando como Cersei ensinou que uma princesa deveria se portar. Naquela altura do campeonato, as repreensões que ela recebia eram apenas pelo costume de quem as dava, não por acharem que faria alguma diferença. Até Lorde Tywin não tentava mais disciplinar a neta em relação ao seu espírito rebelde. “É o sangue de lobo…”, o rei costumava dizer, até um pouco orgulhoso, mesmo que tentasse esconder.
—Não vá chorar pra mamãe, Bran… Vamos! Acha que pode me vencer? — Ela perguntou com um ar divertido, e tons de provocação.
—Todos já sabem que você cavalga como um homem de armas nortenho, mas pode se acalmar? Já estamos chegando… — Falou em um tom paciente, guiando o próprio cavalo para emparelhar com o dela.
—Esta bem… — Ela revirou os olhos com uma conformidade momentânea, os olhos ainda um pouco infantis percorrendo a beira da estrada enquanto iam se aproximando do destino. -Acha que ainda esta tudo igual?
—Eu não sei, sis. Acho que Jon deve ter mudado de quarto, agora que assumiu o Norte. — Pode sentir mais do que ver o sorriso dela nascer ao mencionar o primo.
—Ele deve estar muito diferente. — O comentário da princesa soou muito mais como um pensamento alto, para o seu irmão.
—Bom, já fazem nove anos, todos estamos diferentes. — Brandon apontou o óbvio e recebeu uma língua pra fora de Arya, que logo em seguida esporeou o cavalo para emparelhar com o rei.
Na época em que foram para o Norte, Joffrey já estava sob os cuidados de Lorde Mormont, que fora nomeado pelo rei como Protetor do Norte e guardião de Jon Stark, depois que Lorde Karstark pareceu não conseguir conter os vassalos nortenhos. Até os outros príncipes chegarem, o herdeiro de Westeros e o herdeiro do Norte não se davam muito bem. Mas mesmo o temperamento as vezes difícil do príncipe herdeiro, acabava se apaziguando com a intervenção do irmão mais novo. Arya finalmente encontrara em Jon alguém com tanto “sangue de lobo” quanto ela, e ele encontrara alguém com coragem para “se rebelar” com ele durante as tarefas diárias. Se enfiavam em “aventuras” com o primo que eram muito arriscadas para os cinco anos que tinha na época. O casal de primos Stark costumava deixar a rainha louca de preocupação durante os anos de guerra.
Quando já estavam diante dos portões de Winterfell, Bran sentiu o frio na barriga da ansiedade, posicionando melhor seu cavalo, um pouco atrás de sor Daemon. O rei olhou para o filho por cima do ombro e sorriu, lhe parecendo tão satisfeito em estar ali quanto o garoto. No pátio em Winterfell, diante do imponente estandarte da casa Stark, Lorde Jeor Mormont postava-se a frente com todos os servos do castelo perfeitamente alinhados as suas costas, e ladeado por dois homens grandes e fortes… Houve o momento de formalidades, quando todos foram descendo de seus cavalos, e o alto rapaz loiro, com um porte tão forte quanto o do rei, adiantou-se em iniciar uma reverência que foi imitada pelos demais. Eddard se abaixou quase que na mesma hora, erguendo o filho mais velho e lhe dando um abraço apertado que foi prontamente retribuído. Brandon pode ver o sorriso se desenhar no rosto do pai e do irmão, sorrisos discretos para conter diante de todos a felicidade que estavam sentindo após tanto tempo sem se verem.
Joffrey Stark era, alguns diziam, a perfeita mistura entre o rei e a rainha, e tudo que um príncipe deveria ser. Ele tinha toda a elegância do porte Lannister. Alto, com cabelos tão dourados quanto o ouro do Oeste, e olhos verdes como esmeraldas. Seu rosto tinha traços mais delicados que os do irmão mais novo, um pouco endurecidos durante seus anos ali. O príncipe tinha a força e a ferocidade que se esperava de um lobo. Os anos no Norte lhe deram ombros largos como o rei, e braços tão fortes quanto. Joffrey e Jon Stark passaram anos dividindo lições e treinos, e embora o príncipe conseguisse superar o primo em suas lições com meistre Luwin, Lorde Mormont jamais conseguiu ver um dos dois superar um ao outro em luta. Até sor Brynden Tully, em quem o rei colocara um manto branco, mandando-o ao Norte junto ao príncipe, já fora desarmado pelos Stark uma vez ou duas. O que poucos sabiam e muitos ignoravam, era que o príncipe também tinha um temperamento um pouco difícil. Desde criança ele fora alguém difícil de se negar alguma coisa, até dando ataques de histeria que só o rei tinha paciência para resolver. Alguns meses antes de ser mandado ao Norte, Joffrey deu um de seus ataques mais violentos, quebrando quase tudo que poderia ser quebrado em seu quarto, quando descobriu que o irmão caçula seria mandado para outro lugar. O ataque acabou machucando Brandon, quando um candelabro atirado na direção da porta acertou o menino ao abri-la. A preocupação e apego do herdeiro para com o caçula, viraram peças chaves para conter seus acessos, desde aquele dia.
—Vossa graça. Bem vindo de volta ao lar. — Lorde Mormont cumprimentou, fazendo uma reverência e apertando a mão do suserano logo em seguida.
—Obrigado Lorde Mormont. É bom estar em casa. — Eddard respondeu com o rosto visivelmente iluminado. -E este rapaz forte deve ser no novo Protetor do Norte. Benjen me escreveu contando você e Joffrey lideraram os homens contra os selvagens. Nos deixou muito orgulhosos, Jon…
—Obrigado, vossa graça. É uma honra servi-lo e ajudar os irmãs negros — Lorde Jon Stark agradeceu um pouco sem jeito com o elogio público, e fez uma reverência breve.
O jovem senhor do Norte usava um elegante gibão azul, forrado por dentro para lhe proteger do frio, e uma longa capa com ombreiras de lobo, e um medalhão de prata um pouco chamativo com o lobo Stark. Jon, sem dúvidas, se parecia mais com o rei do que seus próprios filhos. Aos 20 anos, ele era uma versão mais nova e um pouco mais alta que o rei. Um peito largo, assim como os braços, mãos grandes e cachos negros, além do par de olhos muito azuis. Já ouvira vários vassalos do pai comentando como o primo era idêntico ao próprio pai, o falecido Brandon Stark, em aparência e ferocidade na batalha. Nos últimos anos os ataques de selvagens a muralha haviam se tornado mais violentos, frequentes e efetivos. Quando se deu a notícia de que um grande exército se encaminhava para atacar Castelo Negro, o rei mandara seu herdeiro e o sobrinho prestarem auxílio a Patrulha da Noite, enquanto sor Brynden subia o gargalo com quase dois mil homens do Tridente para reforçar as defesas no Norte. Fora no campo de batalha, depois de cortar a cabeça do Magna de Thenn, que Joffrey foi feito cavaleiro por sor Brynden, e por isso parte da família real fora ao Norte para celebrar e voltar com o príncipe herdeiro para a capital.
Quando o pai se ocupou em seus cumprimentos ao primo, Brandon pode ver a cabeleira dourada do irmão mais velho entre os muitos cavaleiros e homens de arma presentes, driblando-os até chegar até ele. Brandon abriu um sorriso amistoso para o mais velho, que foi respondido com a costumeira expressão de provocação de Joffrey. O herdeiro do trono de ferro olhou o jovem príncipe dos pés a cabeça e então soltou um risinho.
—Continua pequeno, irmãozinho. — Comentou com falsa desdém.
—Você me conhece… Não gosto de ter que me abaixar pra beijar garotas. — Bran respondeu prontamente.
Bran pode ver Daemon pelo canto do olho, aparentemente se aproximando para cumprimentar o sobrinho, mas Joffrey passou direto pelo Lannister e abraçou o irmão caçula, um abraço rápido que terminou com o costumeiro bagunçar em seus cabelos mais escuros. Daemon e Joffrey nunca se deram bem, mas ao contrário da situação com Jon, Bran não fora de muita ajuda para apaziguar aquela inimizade. O jovem leão e o Príncipe de Pedra do Dragão competiam desde que seguraram uma espada pela primeira vez. Quando Daemon foi a Porto Real para servir de escudeiro do rei, a disputa girava em torno da atenção de Eddard, mas a medida que os anos foram passando, os prêmios dessas disputas foram mudando, e a cada novo encontro os dois rapazes trocavam suas farpas, quando não podiam trocar golpes de espada. Bran ficava quase sempre no meio, tentando manter aquelas tensões o mais brandas possíveis. A única vez que provavelmente sentiu tanta vontade de acertar Daemon quanto Joffrey, foi no 14º dia do nome das gêmeas, quando o tio fez comentários vulgares sobre sua irmã caçula, Myrcella, sendo repreendido pelo seu outro tio, Tyrion. Bran tinha certeza que não demoraria para eles acharem mais um motivo para se desafiarem enquanto estavam no Norte.
—Não se preocupe, esta alto o bastante pra ser meu escudeiro. — E ai estava…
—Pretende roubar meu escudeiro, sobrinho? — Daemon estava bem atrás deles.
—Tio! Não o tinha visto ai… — Joffrey era um pouco mais alto do que Daemon, fazendo dele uma figura mais intimidadora do que o jovem leão. -Claro que não, só pegando meu irmão de volta. Além disso, eu tenho certeza de que Casterly Rock tem ouro o bastante para lhe comprar um novo escudeiro. Talvez não o bastante para um príncipe...
Era uma felicidade que Daemon fosse tão ponderado quanto o pai, já que as alfinetadas de Joffrey costumavam ser mais constantes. Sor Daemon apenas sorriu, fazendo uma reverência educada, e até um pouco exagerada, que fez tanto Joffrey quanto Brandon erguer as sobrancelhas. Mas quando se deram conta, olharam por cima do ombro e perceberam que a reverência não era para o príncipe herdeiro.
—Arya… — Joffrey riu e revirou os olhos ao pousar os olhos na princesa.
—Como sabia que era eu? — A mocinha perguntou se livrando das luvas.
—Porque Myrcella se veste como menina. — Joffrey respondeu com uma expressão de deboche, arrancando risinhos disfarçados de Daemon e uma expressão irritada de Arya. -É bom revê-la, sis!! — Gritou quando ela saiu pisando forte para se juntar ao pai e Jon.
Quando as formalidades terminaram, o rei pediu aos súditos um momento de privacidade no Bosque Sagrado, levando todos os outros Starks com ele. Claro que Joffrey não perdeu a oportunidade de tecer um comentário venenoso para sor Daemon, algo como “só lobos estavam convidados…”. Brandon seguiu na frente com o pai e o irmão, enquanto Jon e Arya os seguiram alguns passos atrás, muito envolvidos em uma conversa animada em que Lorde Stark dava detalhes de sua luta contra os selvagens, e Arya se empolgava fazendo pergunta sobre gigantes. Após ver o irmão mais velho, e visitar ao bosque, o príncipe mais jovem gastaria seu tempo de descanso antes do banquete, fazendo a terceira coisa com a qual estava mais ansioso desde o inicio da viagem. Ele subiu em todos os muros, torres e ruínas que conseguiu, até achar o lugar perfeito para ver o sol se escondendo sob as terras já nevadas. O inverno estava chegando…
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