Crônicas da Morte
2 Aeroporto
Notas iniciais
Uma manhã chuvosa! Fazia tempos que não chovia aqui. Acho até que a chuva me dá forças para suportar minha vida nesse trabalho. Eu queria fazer isso ser de bom agrado para minha família. Sempre ao amanhecer, via pássaros pretos voando pelo céu em volta do sol, causando um belo reflexo em suas asas. Eu adoraria ter asas, ser livre e fazer o que realmente quero. Meu chefe, o senhor Coller, estava cada vez mais irritante. Mandava-me junto a meus colegas de trabalho, limpar aquele aeroporto todos os dias. Achava até que ele iria um dia mandar limpá-mos os aviões.
Nossas vidas andavam não muito bem. Éramos obrigados a sermos escravos daquele maldito aeroporto. Vivíamos nele, trabalhávamos nele, dormíamos nele. Estávamos cansados de sermos escravos sem lucros para nossas rendas. Nosso chefe nos obrigava a fazer coisas horríveis por simples prazer. Tudo que queríamos era ter um gosto de vingança sobre aqueles que nos fazem sofrer.
A noite se aproximava e não podíamos voltar para casa. Meu filho me esperava lá, talvez já estivesse dormindo. Sentia saudades dele. Tinha fotografias dele em minha carteira. Talvez nunca mais iria vê-lo novamente, pois o que iria eu fazer, seria um erro grave em minha vida.
Naquele mês ainda não havia recebido meu salário, pois o chefe estava com sérios problemas em seu relacionamento. Ainda estava com o salário do mês passado, mas não sabia como gastar. As vezes, antes de dormir, pensava como seria se o chefe me desse mais atenção. Em minha cabeça, ele era o único a me fazer feliz. Eu não sabia se devia gostar dele ou odiá-lo, pois ele é insensível. Sabia que pensar nisso seria muito difícil, pois ele era casado, mas sempre percebi que o casamento dele nunca foi intenso. Mas aquilo era besteira, eu devia mesmo me preocupar em como fugir daquele lugar horrível e sabia que meus colegas não iriam poder ir comigo. Pretendia comprar uma passagem de volta para casa, mas não tinha o dinheiro o suficiente, então decidi esperar uma promoção que já estava para chegar.
Dias após dias até a empresa dona do aeroporto criar um evento que mudaria completamente a vida dos servos que trabalhavam naquele lugar. Seria um alívio para todos, inclusive para mim, pois voltaria para casa, abraçaria meu filho e procuraria outro emprego.
Não costumávamos ter folgas no trabalho, mas como a relação do nosso chefe e sua esposa estava indo muito bem, ele abriu uma exceção e começou a aprender como ser um humano.
Aproveitamos a folga para saber mais sobre tal evento que se ouve anunciar ao local. A promoção era perfeita. Um jogo, um simples jogo de xadrez e, quem ganhasse, tinha direito de ir para onde quisesse em qualquer avião que quisesse e em primeira classe.
Seria uma honra para uma serviçal de aeroporto. Aquela era a minha chance e me recordo levemente que meus parentes antepassados me ensinavam sobre este jogo. Não é tão difícil.
Então registrei meu nome no evento para um dia após esse. Comecei a me preparar logo hoje para não sofrer em meio ao jogo. Comprei o jogo de xadrez com parte do meu salário e pratiquei o resto da noite que passei ali.
Ao amanhecer, arrumei a bagagem e contatei a meus colegas de trabalho que aquela seria minha despedida. Talvez não estivesse pronta para deixa-los, mas pelo contrário, não teria mais outra chance como esta.
Quando cheguei ao evento, não era o que eu esperava. Haviam advogados por volta e um juiz ao centro. Todos falavam sobre direitos autorais, política. Não entendia o que havia acontecido, até ouvir o nome de Coller, meu chefe. Tentei saber o que estavam falando, então descobri que ele estava morto. Um homicídio posto a contas judiciais. Minhas chances de voltar para casa estavam frustradas.
Enquanto jornalistas bisbilhoteiros intrigavam a mais questões, eu estava fugindo das câmeras. Me sentei em um degrau da escada e pensei um pouco no que sentia por Coller, então pude notar que tudo que eu sempre senti por ele foi amor, e nunca pude perceber isso. Caia prantos de meus olhos até vir James, um colega de trabalho e informar que havia matado o chefe para que eu tivesse mais oportunidades de fugir para ver meu filho e viver em casa novamente.
Aquilo foi como um choque para mim, eu estava confusa e enraivecida, então avistei um pedaço de madeira pontuda e sem pensar, estaquei no peito de James e bati com aquilo em sua cabeça. Não entendia o porquê daquilo, talvez fosse meu ódio reagindo contra minha vontade.
Logo me avistaram fazendo isso e então pude ver um flash de uma câmera de uma jornalista e perceber que eu não estava disposta a ser presa, mas sim a morrer. Não sentia meu coração pulsar, nem minha cabeça girar. Estava fria, com meus olhos sangrentos virados para o lado e meu corpo perdeu sua cor bronzeada. Eu não tinha mais sangue. E, aos braços de um policial, adormeci.
Fale com o autor