Crônicas da Morte

3 Sombras do Passado


Notas iniciais
A fumaça da cidade subia para o céu. A escuridão fica mais intensa e minha mente, mais aberta. Já havia esquecido de tudo que aconteceu, só não me esqueci de você.

Era como vê-lo aqui novamente. Sentia que tudo que vivemos juntos foi-se acabando poucos a poucos e agora não existe mais nada. Meu irmão estava perdido. Talvez ele quisesse ter ido embora ou talvez ele estivesse fugindo da realidade.

Nunca fomos tão amigos um do outro, mas sabia que estávamos sempre nos ajudando, brincando, sendo crianças. Até meus pais discutirem e se separarem. Nunca me esquecerei daquela tarde que vi meu pai partir. Lágrimas caiam fáceis de seus olhos e eu estava mais apreensivo com sua falta.

Charlie estava sofrendo tanto quanto eu ou até mais a perda do pai. Não sei se ele ainda está vivo até hoje, após tanto tempo. Minha mãe estava mais triste, mais solitária, mais deprimida. Não iríamos aguentar ficarmos sozinhos. Já havíamos perdido nosso pai, mas não deixaríamos mamãe morrer de depressão.

Ela precisava de companhia, então começamos a sermos mais gentis com ela, pois ela precisava de um ombro para chorar. Mas percebíamos que isso não estava adiantando, pois ela continuava deprimida e nos deixava tristes com sua tristeza.

Nunca quis que tudo se acabasse assim. Nossa família era tão unida. Quando meu pai chegou tarde da noite em casa, tentando não demostrar que estava bêbado, mas fazendo tudo errado, quebrou vidros de enfeite que minha mãe tinha na estante. Derrubou o quadro da família e se deitou na mesa de vidro, quebrando-a.

Com o barulho, minha mãe acordou pensando ser um bandido e pegou sua vassoura e o espancou, até parar e perceber que aquele era seu marido. Papai não era de beber muito, mas ele geralmente bebia quando queria comemorar algo. E pude notar que ele estava comemorando o A na média de meu boletim.

Esse não era um motivo tão importante para comemorar, mas era talvez um pretexto para ele beber sem precisar achar que estaria seguindo contra as ordens de sua mulher. Não tínhamos nada contra ele beber, mas não esperávamos que isso fosse acontecer.

Mamãe então o expulsou de casa e para demostrar sua raiva, Charlie pôs fogo na casa e, como eu estava em meu quarto, não havia percebido, até sentir o cheiro e descer rapidamente. Isso tinha sido uma armadilha de Charlie, pois ao descer, mamãe havia chegado e me visto na cozinha, mexendo no fogão.

Ela pôs-me de castigo intenso que me proibiu de sair de casa. Desfez minha matrícula na escola e tirou de mim a televisão e o rádio. Deixou me em um quarto separado de todos, sem janela, sem cama, sem guarda-roupa. Apenas com um cobertor no chão e uma porta trancada pela minha mãe.

Ela havia me deixado sem comer. A unica coisa que eu poderia fazer ali era dormir até sair dali e pensar em como a vida era injusta por castigar a mim por um erro de meu irmão. Estava a ponto de morrer, só não havia morrido antes, pois ela teve pena e colocou um balde de água.

Minha mãe só abriu a porta quando meu irmão estava muito doente e precisava ir para o hospital. Ela então pediu para que eu tomasse de conta da casa. Ao sair por aquela porta, ela me deu uma chance de fugir e isso que eu fiz.

Abri a janela, saí de casa e corri rápido para que ninguém me visse e para que ela não voltasse ao me ver. Não sabia para onde ir, mas corri até saber. Onde morávamos era no interior, longe da cidade, mas ao chegar lá, não tinha abrigo para mim. Então tive de viver na ruas de me sustentar de esmolas. Era melhor do que estar naquele quarto, preso e sem poder comer.

Quando teve uma invasão de bandidos na cidade e a polícia rondava por ai, me viram e logo pensaram que eu estava abandonado. Me mandaram para um instituto que abriga crianças desabrigadas e abandonas. Eu vivi lá por muito tempo até um homem ir visitar a instituição e me conhecer. Ele quis me adotar e passei a morar na casa dele.

Ele era como um pai para mim. Cuidou de mim em todos os momentos mais precisos de minha vida. Eu estava realmente grato com o que ele havia feito por mim, até ele ter ataque cardíaco e morrer. Sorte minha eu já ter meu trabalho, já ser maior de idade e já ter minha vida preparada.

Eu estava cansado de relembrar do passado. Me deitei e olhei para o teto. Vi além de cimento e tintura, vi o céu e as estrelas. Estava começando a sonhar acordado. Estava começando a esquecer tudo que já vivi, até alguém bater na porta. Eu não queria abrir, afinal, ninguém saberia meu endereço. A não ser meu pai, mas eu tinha certeza se ele realmente estava vivo. Eu queria poder acreditar ser ele e o abraçá-lo,mas ao abrir, era meu irmão. Não sabia o que ele estava fazendo ali na minha porta e nem sabia como havia descobrido onde eu moro. Eu estava feliz por ter esquecido o que ele tinha feito, mas quando ele disse: "Como foi o castigo?" minha raiva por ele voltou mais forte por tudo que ele fez comigo. Perguntei o que ele queria e ele simplesmente disse: Papai morreu!

Notas finais
É difícil aguentar uma culpa de outra pessoa e sofrer com ela por toda sua vida e, ao pensar que seu pai ainda estaria vivo, a pessoa que mais lhe fez sofrer lhe afirma sua morte.
Continuem lendo minhas histórias e se emocionando mais com fatos. Se quiserem comentar, fiquem a vontade