Crônica 1: A Lua Carmesim.
1 Intro: Um sonho. Uma pergunta. Uma vida.
Seu corpo e sua respiração estavam pesados. A visão se obscurecendo se focava em uma única luz alguns metros a sua frente. Não sabia o motivo, mas sentia que precisava dela como se fosse a única coisa que o segurava a sanidade, que o protegia de todo desespero que vinha com aquela escuridão gélida. Eram seus suspiros finais, sabia disto, mas porque estava morrendo?
Tentava mover o corpo em direção àquela luz, o que era completamente em vão. Sua voz estava fraca, embora mesmo que pudesse, jamais clamaria por ajuda, seu orgulho não permitiria. Era o fim, a luz o abandonara.
Seu coração havia parado enquanto sua mente se perdia na escuridão sem fim. Vez ou outra imagens estranhas de um homem de pele pálida surgiam gargalhando. Mesmo sem poder ouvir, as gargalhadas do homem lhe davam arrepios, como se pudessem lhe tirar tudo. Não. Não era isso. Aquele homem com certeza lhe havia tirado tudo, e por isso ria, essa foi a certeza que brotou em sua mente como uma lembrança de um passado distante.
Agora o ódio começava a brotar de seu peito. Tarde demais para isso, pensou ele. O que um morto poderia fazer? O quê aquele homem havia lhe tirado de tão precioso? Como um morto se esforçava em ter lembranças de quando estava vivo? Nada daquilo fazia sentido. Estava morto, isto era uma certeza, mas por que não se sentia assim?
Mais uma vez a escuridão formava uma imagem. Era um salão colossal com um trono emoldurado com rubis por toda parte, nele estava novamente aquele homem de aparência pálida, e atrás dele três lanças com seus troféus: Três cabeças, uma cravada na ponta de cada lança. Uma densa nevoa se mantinha entorno dos rostos, impedindo sua visualização de forma que ele se viu obrigado a chegar mais perto.
Primeiro viu o que acreditava ser uma garota pelos longos cabelos negros, sua face irreconhecível sem nenhuma pele ou olhos, havia sido dilacerada por completo. A repulsa o tornou de imediato, decidindo assim seguir até a próxima lança. Outra cabeça de garota. Esta ruiva de cabelos curtos. Sua face demonstrava paz e era tão bonita que ele imaginou que se fosse capaz de sorrir mesmo sendo uma cabeça, ainda seria algo maravilhoso de se ver. Tsc... Ele praguejou em silêncio por ter tido aquele pensamento, então se dirigiu para a terceira lança. Quando chegou, não se assustou, desde o inicio esperava ver aquilo. Lá estava sua cabeça. Uma cicatriz cobria o lado direito de seu rosto, mas assim como a garota anterior, também estava em paz.
- Você se sente em paz? – Tudo se tornou escuro novamente quando essa voz surgiu. Era de uma mulher. Um tom forte mesmo que ainda gentil.
- Não! – Respondeu ele sem pensar.
- Era tudo que eu precisava ouvir de você, obrigada.
Ele acordou. Tanto sua cama como seu corpo estavam repletos de suor. Seu quarto estava desarrumado, como sempre foi. O sonho ainda se repetia em sua mente, mas não estava estarrecido. Havia se acostumado a ele. Era sempre o mesmo sonho todas as noites desde dois meses atrás. Sempre as mesmas imagens, sempre a mesma voz, e sempre a mesma pergunta, como se lhe desse tempo de ter duvidas sobre sua resposta.
Como poderia ele ter duvidas daquela resposta? Somente um completo imbecil se sentiria em paz se vendo morto, ou sabendo que morreria. Por mais imundo que considerasse a humanidade, ele ainda respeitava a vida, se apegava demais a ela.
Levantou-se e olhou pela janela. Seu quarto no ultimo andar de um dos maiores prédios da cidade lhe proporcionava uma visão panorâmica que lhe passava completamente despercebida, como se nada daquilo lhe importasse. Respirou fundo, o que lhe fez tossir algumas vezes devido ao alto índice de poluição. Aquilo sempre lhe acontecia pela manhã, mas sentia que deveria fazer, era a melhor forma de começar o dia.
Mal imaginava ele que essa podia ser a ultima vez que respirava aquele ar poluído pela janela de seu quarto. Nenhum ser vivo daquela cidade poderia imaginar o horror que estava por vir, ou o destino trágico que aguardava aquele garoto...
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