Crônica 1: A Lua Carmesim.
2 Capítulo 1: O herói sem nome.
Por mais estranho que suas noites fossem, seus dias eram calmos e sua vida tranquila para um adolescente de dezenove anos. Órfão de nascença saiu da instituição que lhe acolhera quando bebê ao completar dezesseis anos. Desde então trabalhará meio período e estudava outro meio, podendo assim viver dignamente. Mesmo assim sempre lhe sobrava tempo para outras atividades, e preferindo não se socializar, optou por treinar Kendo. Por alguma razão, suas habilidades evoluíam em um nível muito rápido, o que o obrigou a deixar de lado o Kendo por falta de professores capacitados, assim tendo inicio a aulas de Esgrima. Não importava o que fosse, ele dominava com extrema facilidade. No decorrer dos anos que estivera vivendo sozinho foi capaz de conseguir dinheiro em alguns pequenos campeonatos regionais, renda extra que sempre fora bem empregada.
O trabalho por si era o que ele podia conseguir até então. Braçal e consequentemente cansativo, mas podia fazer sozinho, sem interferência de outras pessoas ao seu redor. Algo o qual lhe era reconfortante, pois não gostava de outras pessoas. Ao longo de sua vida, definira os “humanos” como seres falsos, violentos e acima de tudo, que prezavam a si mesmos sem se importar com os outros ao redor. Ele queria ser diferente, o que acabou o tornando indiferente, arrogante e anti-social. Às vezes entrava em contradição dentro de sua própria cabeça, se indagando se estaria ou não certo ser daquela maneira.
Na escola, mesmo isolado dos outros, era considerado um bom aluno. Não o melhor, nem o pior. Apenas alguém mediano que se destacava às vezes. Com isso era capaz de seguir em frente almejando vaga em uma boa faculdade, mesmo que ainda cursasse o ultimo ano letivo aos dezenove anos, o que era bem incomum, sendo que a idade normal para isto era dezessete.
- Mais uma manhã agradável. – Ironizou ele ao sair do prédio e ver as ruas repletas de carros em movimento; Pessoas passando apressadas de um lado para o outro nas calçadas.
Pouco mais de nove da manhã, o céu estava azul sem nenhuma nuvem, e o sol brilhava solitário. Era outono, e a temperatura era aconchegante, o que agradava ao adolescente que corriam em disparada pela calçada. Ainda lhe faltavam mais de trinta minutos para chegar ao dojo onde faria uma apresentação junto a alguns mestres e formandos daquele ano. Poderia andar que chegaria a tempo, mas via isso como uma forma de aquecimento, tanto que decidiu por pegar o caminho mais longo, aproveitando assim o exercício matinal.
Era domingo, não precisaria estudar ou trabalhar, e tinha planos de terminar a apresentação antes de meio dia, o que lhe daria tempo de sobra para ir às montanhas que ficavam na saída da cidade. Era apenas nisso que ele pensava enquanto corria. As montanhas, uma mata protegida pelo governo, talvez a única naquele país, e o mais importante, uma calmaria sem igual.
- SOCORRO. LADRÃO! – Este gritou quebrou seus pensamentos.
Uma mulher estava caída no chão, o braço aparentemente machucado de onde o bandido havia bruscamente arrancado a bolsa. O homem que estava ao seu lado brevemente olhou para seu braço e foi em direção ao carro que estava parado na calçada, enquanto o bandido se distanciava correndo em meio a multidão que não fazia nada para detê-lo.
- Ah, merda! – Mesmo não gostando de pessoas, por alguma razão sempre tinha inclinações a fazer o que era certo. Detestava isso, mas era sua forma de ser. – Por que essas coisas sempre acontecem a minha volta? Merda, merda,merda,merda! – Exclamava ele enquanto se punha a correr em direção ao assaltante.
Ainda em movimento retirava do suporte preso a sua mochila duas Shinais (Espadas de bambu japonesas). Não era algo muito ameaçador, mas era o que tinha no momento.
A distância entre o dois se tornava cada vez menor, o que levou o bandido já preocupado com isto a virar uma rua por engano e se deparar com um beco sem saída. Antes que pudesse voltar, já estava encurralado pelo inesperado “herói”.
- Olha cara. Só me devolve a bolsa e te deixo ir. – Disse ele andando devagar e com cautela em direção ao assaltante. Suas shinais, uma em cada mão se mantinham com a ponta para baixo, na esperança de não representar perigo, o que era sua intenção, não queria machucar e muito menos ser machucado.
O ladrão sacou uma pistola da cintura. A segurava com as duas mãos tremulas, estava na cara que nunca havia matado alguém, ou sequer ameaçado.
- Fique longe ou juro que irei ... – Era tarde demais. Com um impulso pra frente e um golpe de baixo pra cima o adolescente atingiu a pistola que voou até cair a alguns metros a suas costas, ou foi o que imaginou pelo som que veio após o golpe, pois como bom espadachim, jamais desviava o olhar de seu oponente.
Levou uma mão esquerda a nuca a massageando para se livrar da tensão, ainda sem soltar o cunho de sua Shinai. Estava prestes a dizer novamente que queria apenas a bolsa quando passos surgiram a suas costas. Ele girou a Shinai da mão direita com força, porém se deteve quase tão rápido quanto o grito do assaltante de “não”.
Era uma garotinha de sete anos. Passou por ele e foi até o assaltante ficando de frente a ele com os braços abertos em forma de cruz, como se dissesse: Vou protegê-lo de você, homem das espadas de pal do mal.
Não precisava ser um gênio para entender a situação em menos de um segundo. As roupas desgastadas tanto da garota quanto do assaltante, a forma como ele gritará “não”, seus olhos agora cheios de lagrimas, e até mesmo aquela garotinha presunçosa com olhar forte e destemido, completamente diferente do pai que estava a suas costas, o que só era possível perceber por alguns traços faciais pequenos, e o cabelo incomum dos poucos indígenas remanescentes naquele país. Eram descentes indígenas, discriminados pela sociedade. E o pai havia acabado de roubar para tentar alimentar sua filha, foi a conclusão a que chegou o adolescente.
O assaltante havia escolhido uma ação estúpida, mas de alguma forma aquilo era o que o adolescente sempre sonhara em ver. Uma pessoa que pudesse proteger a outra sem nenhuma hesitação ou interesse, talvez o único resquício de humanidade a ser louvado.
- Ladrão imundo. – Uma voz masculina vinha das costas do adolescente.
Antes mesmo de se virar ele ouviu o som da catraca da pistola girando, então o disparo foi desferido contra o assaltante, sangue jorrou no momento em que a bala atingia um alvo inesperado: O coração do jovem herói.
Foi tudo tão rápido que talvez nem o assaltante tenha notado quando o homem loiro, marido da mulher que havia sido roubada pegou a pistola e disparou contra ele. O jovem herói seguindo seus instintos havia se jogado na frente da bala, o que fez o loiro correr com medo de alguma reação do assaltante, ou talvez que alguém o denunciasse.
Sua consciência estava se esvaindo. Dessa vez era diferente do sonho, havia uma grande vontade de viver. Ele havia morrido por nada. Se houvesse apenas deixado o ladrão fugir, nada daquilo teria acontecido, mas era tarde demais, não deveria lamentar no momento de sua morte.
Algo quente tocava seu rosto. Era diferente do calor do sangue que deixava seu peito, então se esforçou e abriu os olhos. A garotinha estava ajoelhada ao lado de sua cabeça chorando, a dor de perder seu salvador, o único que alguma vez a protegeu além de seu pai que também estava de pé, com uma expressão de gratidão e tristeza.
Ele tentou levantar a mão para secar as lagrimas da garota, mas nem sequer seus dedos se moveram, era o fim.
- Viva e seja forte. Foi sua vontade de proteger seu pai que me fez ver um ultimo brilho no mundo. – Sangue jorrou de sua boca em meio às palavras enquanto um sorriso surgia em seu rosto. E assim, com os olhos vidrados e um sorriso eterno ele se despediu do mundo. Sua vida chegou ao fim.
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