Crônica 1: A Lua Carmesim.

3 Capítulo 2: Primeiros encontros.


Notas iniciais
Acho importante ressaltar uma parte da personalidade de nosso herói. É o fato de agir com naturalidade a maior parte do tempo, o quê faz com que ele aja como sempre, mesmo diante a sua própria morte, ou diante de uma deusa, como será mostrado.
Mesmo com algumas instabilidades, esse é o ponto principal em que se foca sua personalidade.

Estava morto como os sonhos lhe alertavam. Já esperava se encontrar em meio à escuridão gélida por toda eternidade, mas ao invés disto o jovem herói se assombrou ainda mais ao abrir os olhos.

O buraco em seu peito ainda existia, podia sentir a bala alojada em seu coração, mesmo que não jorrasse sangue. Seu coração não mais pulsava, não havia como o sangue se mover, isso se por algum acaso já não estivesse coagulado. Mas o real motivo do assombro em si não se tratava de ver o peito aberto por um buraco, e sim pela paisagem a sua volta, se é que podia se considerar aquilo uma paisagem.

Estava em uma espécie de planetário. Ao invés do chão, havia apenas o espaço negro no qual flutuava instintivamente. Tudo a sua volta era como um imenso domo negro representando o sistema solar da terra com perfeição, exceto pelo fato de que havia apenas três estrelas neste imenso espaço, as quais se postavam entorno da lua. Os planetas possuíam o tamanho de bolas de basquete, idênticos se não fosse pela cor e alguns detalhes que pareciam ser criados por realidade virtual, como por exemplo, pequenas nuvens de chuva acida que pareciam cobrir parte do que o jovem considerou ser Vênus. O Sol era do tamanho de uma pessoa normal, e graças aos céus não estava a irradiar calor.

- Esperei você por muito tempo. – A voz forte e gentil de seus sonhos surgia novamente.

- Fico feliz em saber que alguém esperava tanto por minha morte. – Ironizou. – Agora o quê? Vai me dizer que renascerei como um guaxinim?

- Sua ignorância não ira me irritar. Posso ver além dessa mascara que usa para afastar as pessoas de si, em breve também poderá ver. – Ele fez menção de interrompê-la, mas com um gesto com a mão pedindo por silêncio ela retirou toda sua voz, então prosseguiu a falar enquanto a boca dele apenas se movia sem emanar som. – Eu sou a Deusa sem nome, protetora dos esquecidos. Estou aqui para lhe dar uma nova chance, uma nova vida. Sou impotente, minha própria vida esta chegando ao fim, mas não quero me salvar. Meu desejo vai muito além. Quero salvar a humanidade.

Ela olhou para ele a espera de uma resposta. O jovem parecia se indagar ponderando sobre o que ela havia dito por alguns minutos depois fez um gesto com o polegar apontando para a garganta.

- Oh, me desculpe. – A Deusa moveu a mão como se tocasse o ar, então lhe devolveu o dom da fala.

- Hum... Dom conveniente este. – Não estava irritado, e o desdém que mantinha na voz anteriormente havia desaparecido. Agora estava pensativo. Uma de suas qualidades sempre fora assimilar informação depressa, mesmo que não a compreendesse de imediato. – Deixe-me ver. Você quer salvar a humanidade e para isto precisa de mim, um humano que morreu de forma vergonhosa? Explique de uma forma que possa entender.

- A terra foi abandonada pelos Deuses e o fim da humanidade foi estabelecido. – Dizia ela com pesar. – Os sentimentos humanos deram origem a horrores inimagináveis no passado, e hoje eles acordaram, então quatro dias depois, após o surgimento da lua carmesim em seu estado final, seu poder estará no auge e a vida na terra chegara ao fim.

- Não me importo com a vida na terra, e mesmo que me importasse o que eu poderia fazer? – Indagou.

- Já disse, posso ver além de sua mascara. Sei como morreu, e sei que preza a vida mais do que tudo, mas não apenas a sua, e sim toda forma de vida, desde um inseto até um humano. Acredite, você pode fazer bem mais do que imagina.

- Tsc... Este negocio de mascara é apenas sua imaginação falando alto. Aquilo aconteceu por meus instintos de combate me induzirem a um erro, o qual jamais ocorrerá novamente.

- Não quero mais falar sobre o que você acredita ou não, caso contrário ficaremos aqui toda eternidade, e não temos todo este tempo. – Ela parecia apressada. – Vê estas três estrelas entorno da lua? – Disse ela apontando com o indicador, o que foi seguido pelo olhar do jovem. – São os espíritos guardiões da vida. Você foi escolhido por um deles, e talvez seu corpo entre milhares de milhões, seja o único capaz de se mesclar a ele. Isto lhe dará uma nova vida, e também o poder para combater.

- Isto dependendo de minha escolha de salvar ou não a humanidade, correto? – Ele parecia interessado.

- Sim. – Assentiu.

- Muito bem. Eu não aceito ter morrido de uma forma medíocre como aquela, e se é preciso que salve a humanidade para voltar a vida, então assim farei. – Estava decidido, sua voz firme. – Eu juro por meu orgulho, não morrerei de uma forma tão tola novamente, e salvarei todos estes humanos imundos. Depois disso, minha vida será apenas minha novamente.

- Faça como quiser. – Enquanto dizia, fez uma pausa, como se lembrasse de algo importante. – Você será esquecido da historia, ninguém mais lembrará seu nome ou do que fizera até agora. Este é um tributo necessário para voltar a vida, mas para manter sua existência concreta um único fio de realidade lhe ligara a uma pessoa, seu único porto seguro, que jamais lhe esquecera. Quem você deseja que se lembre de seu antigo eu?

- Ninguém. – A resposta imediata não surpreendeu a Deusa. Mas pela expressão dela, o jovem percebeu que precisava escolher alguém, como parte do tributo. – Ok. Escolha você por mim. Tanto faz quem seja, olhe no tarô, jogue dados ou faça um sorteio.

- Já sei a pessoa perfeita. – Ela sorriu. Seus dentes cintilavam, como se todo brilho daquele falso sol próximo a eles fosse apenas uma pequena fração da beleza daquela mulher que finalmente se mostrará. Não apenas a mão branca, mas sim todo corpo. Sua própria pele reluzia como o sol, coberta por um vestido branco de seda, praticamente transparente. Os olhos dourados e os lábios vermelhos entravam em contraste com sua pele. – Aqui eu digo adeus a minha vida, e deixo com você meus sonhos. Por favor, mantenha sua promessa, Kuro.

- Kuro? – Seu verdadeiro nome começava a sumir de sua mente. Era estranho, mas o nome pelo qual ela o chamara por algum motivo era agradável. Um sorriso tomou seu rosto. – Gostei.

- O verdadeiro mal só pode ser destruído pelos três espíritos da luz reunidos, lembre-se disto, você não esta sozinho. – Ela se dissipou em nevoa, em seguida todo planetário começou a desaparecer e a visão do jovem herói se escureceu novamente.

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Ele já estava se cansando de se encontrar em lugares estranhos quase tanto quanto sonhar com sua morte por tanto tempo. Desta vez estava em um pequeno e esquecido templo nas montanhas. Era uma das poucas pessoas que o conhecia. Estava imundo como sempre, coberto por teias de aranha, poeira e até mesmo fezes de animais. “Ótimo lugar pra um cochilo Deusa, obrigado”, pensou ironicamente.

Ergueu-se. Seu corpo estava como sempre fora, até mesmo o buraco em sua blusa havia desaparecido. Sua blusa? O que era aquilo? Estava a usar uma roupa completamente diferente. Seu tênis era All star preto, sua blusa vermelha com o entalhe de uma caveira de pirata na altura do ombro direito, e sua calça era jeans batida com rasgados nos joelhos.

Analisou as vestes por algum tempo, e concluiu que era melhor acordar daquela forma do que pelado em um necrotério. Suas shinais estavam jogadas no chão próximas a seus pés, o que era animador. Nada como salvar o mundo com duas espadas de bambu vestido como um delinquente.

Iria se abaixar para pega-las quando ouviu um som. Um riso abafado. Olhou para cima do templo, e sentada sobre seu telhado avistou uma garota a observá-lo.

- Já são quase seis da tarde. Você não deveria estar cochilando tão despreocupadamente. – Ela sorriu então desapareceu de sua visão.

Seu corpo se moveu para a direita a tempo de ver a lâmina da faca que a garota empunhava passar rente ao seu pescoço. Ela era rápida, capaz até mesmo de sumir de sua visão por alguns milésimos de segundos, com certeza era perigosa.

Com um sorriso no rosto ela parou a três metros de distância dele. Em cada mão uma katana tão curta que podia ser confundida a uma faca, suas lâminas possuíam cerca de trinta centímetros.

- Prazer, sou Kari. – Desde o inicio a voz da garota era saudosa e feminina, como se usasse charme em cada palavra para encantar sua presa. – E você?

- Kuro! – Pausou por um instante. – Faça isto novamente, e não será apenas sua blusa a ser rasgada. – Finalizava ele, enquanto abria o punho direito com um pedaço da blusa da garota que havia rasgado próximo ao abdômen.

A garota ainda sorria, porém agora tinha algo a mais em seu sorriso, talvez admiração ou medo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.