Cry Baby

9 Rodinhas de treino


É incrível como o tempo parece passar devagar quando estamos magoados ou com o coração partido. Mas, de alguma forma, quando tudo passa, nós olhamos para trás e percebemos que nenhum sofrimento é pra sempre. Doeu, mas passou.

E eu me lembro, mais ou menos uma semana depois do término, quando meu coraçãozinho de algodão doce estava completamente partido por causa do trouxa do Jason, fiquei sentada atrás da escola, chorando e esperando mais humilhação por parte das minhas amiguinhas invejosas que de uma forma ou de outra já esperavam que isso fosse acontecer. Acho que eu era a única que não estava prevendo isso.

Tanto faz.

Eu estava chorando rios, quando Sean sentou ao meu lado, no chão.

Fiquei tão envergonhada por ele me ver chorar assim. Claro que não era a primeira vez que ele me via chorar, porém, das outras vezes, o motivo não era assim tão humilhante.

Ele não estava olhando para mim. Parecia refletir. E então riu.

Lancei a ele um olhar de indignação. Ele ia mesmo rir na minha cara?

— Eu não acredito. – falou ainda sem olhar para mim.

Passei a mão bruscamente pelo rosto tentando enxugar minhas lágrimas. O pouco de maquiagem que eu usava estava toda borrada, era um desastre! Ainda assim, perguntei indignada:

— O que foi?

Ele riu novamente.

— Você não pode ser tão burra!

Não. Eu não iria chorar mais.

— Todo mundo comete erros, Sean. – disse na defensiva.

Ele finalmente olhou para mim. Seus olhos castanhos olhando fixamente para os meus.

— Mas Melanie, isso foi um absurdo! Como é que você sai se entregando pra um cara que você nem...

— Nós estávamos juntos a meses! – interrompi.

Ele revirou os olhos.

— Mas mesmo assim! Dava pra ver que o cara não prestava! – Sean falou indignado.

Ri ironicamente evitando olhar diretamente para ele. Como ele podia... Onde ele queria chegar com aquela conversa, afinal?

— Quem é você para falar isso? Quem é você para dar palpites na minha vida?!

Ele ficou mais sério que antes, se é que isso era possível.

— Não haja como se fossemos apenas colegas de escola. Passamos boa parte da nossa infância juntos e eu me importo com você.

Pela primeira vez, depois de tantos anos, ele falou como aquele garotinho de oito anos que eu gostava tanto. Contudo, não deixei que isso me abalasse. Eu evitava falar disso a tanto tempo...

— Não se esqueça que quem começou a agir como se fossemos estranhos foi você mesmo. – respondi.

E era verdade. Éramos melhores amigos na infância, quando a avó dele era babá na minha casa. Além disso, estudávamos na mesma escolinha, éramos praticamente grudados um com o outro. Mas quando fomos para quinta série, mais ou menos com onze anos de idade, por conta de sua beleza padronizada e do talento no futebol, Sean começou a ganhar atenção e foi me deixando de lado aos poucos, até que perdemos totalmente o contato. Exceto quando os amiguinhos idiotas dele vinham fazer alguma piadinha sobre mim.

— Você é que sempre está por aí chorando como uma bobona! – ele se defendeu.

Então quer dizer que a culpa era minha? É claro que era! Ele tinha vergonha de andar com a Bebê Chorona, era óbvio!

— Quer saber? Acho melhor você ir embora. – disse.

Olhei para o outro lado, evitando que ele visse meus olhos se encherem de lágrimas novamente.

E então ele pegou minha mão, me fazendo olhar surpresa para ele. Novamente ele estava fixamente olhando para os meus olhos. O que havia de errado com ele hoje?

Então ele se aproximou. Nossos rostos estavam bem perto agora e, bem, senti meu coração acelerar. Que aproximação perigosa, pensei.

— Você é burra pra caralho! – falou mantendo uma expressão séria – Mas não chore mais por causa daquele idiota. Você é melhor do que isso.

Ele enxugou uma lágrima minha que estava prestes a cair e deu um beijo leve na minha testa. Logo depois, se levantou e saiu.

Enquanto eu fiquei ali, imóvel, surpresa demais para pensar em fazer qualquer coisa. Havia anos que Sean não demonstrava nenhum tipo de afeto por mim, e admito que nem eu por ele! Éramos como estranhos, colegas de sala que não se gostavam. Lógico que ele não curtia muito o modo como todos zoavam comigo, mas eu sabia que isso era apenas um modo de se redimir, considerando que a avó dele tinha um carinho muito especial por mim. Mas fora isso, não havia nenhum tipo de vínculo emocional entre nós, pelo menos era o que eu pensava.

Então lembrei do dia em que conheci Jason, quando saímos do carrossel encontramos Sean e sua... Enfim, o modo como ele encarou o Jason foi um pouco exagerado para um simples “não fui com sua cara”. Poderia Sean estar... Não!

Não se iluda novamente, Melanie!

Mas, poderia ele estar com ciúmes?

Lembrei do que ele falou a poucos instantes, do modo como segurou minha mão e da nossa perigosa aproximação com direito a beijinho na testa.

E então o inesperado aconteceu: eu sorri

Eu já estava na calçada com a minha bicicleta prestes a sair, quando minha mãe apareceu no portão me chamando.

Fui até ela.

— Já que você vai ficar perambulando por aí, poderia passar na farmácia para mim? – ela perguntou me passando um papel.

LIPOJÁ era o que estava escrito.

— O que é isso? – perguntei.

Ela revirou os olhos.

— É só um remédio. – respondeu rudemente. – Você vai ou não?

Assenti com a cabeça. Coloquei o papel no bolso do meu vestido e saí.

Um remédio de emagrecimento. Era óbvio. Apenas uma nova pílula que prometia aumentar a saciedade e garantir “milagrosamente” a perda de 10 kg em apenas um mês.

Claro que esses “remédios” deviam acabar com a saúde de uma pessoa, mas minha mãe sempre me dizia que a beleza doía mesmo e que não havia nada que pudéssemos fazer a respeito.

Resolvi não pensar por enquanto no assunto quando avistei Sean. Pedalei até ele.

Leia ouvindo: Training Wheels – Melanie Martinez

Marcamos de nos encontrar no parque depois daquele dia na escola. Sean se desculpou comigo por ter sido um idiota esse tempo todo, disse que sentia falta de mim, das nossas conversas e brincadeiras e que queria que passássemos mais tempo juntos. Não acreditei muito no começo, não quis me iludir. Mas foi então que ele desabafou comigo, contando dos seus problemas pessoais e familiares, que por sinal não chegava nem aos pés dos problemas que tenho com a minha admirável família, mas que ainda assim, eram dignos de respeito e compreensão. Vendo que eu realmente era importante pra ele, aceitei sua tentativa de reaproximação e cá estamos!

— Até que enfim, em? – brincou.

Sorri.

— Desculpa pela demora, de verdade. – disse apenas. — Vamos?

Ele se aproximou de mim. Uma de suas mãos seguravam o guidão da bicicleta mantendo-a em pé, enquanto a outra segurou meu queixo, tão suavemente que eu quase nem pude sentir, e me beijou.

Simplesmente me beijou.

Se eu estava confusa? Óbvio que estava! Mas talvez só por agora eu queria parar de tentar procurar explicações e soluções para os meus sentimentos. Eu apenas desliguei minha mente e deixei que aqueles lábios me guiassem pelo passeio todo. E com toda essa confiança, estávamos prontos para tirar as rodinhas.

Notas finais
Hey! Capítulo novo pra vocês, espero que não tenham se cansado da história. Não se esqueçam de me seguir no Twitter: " @thatshelen " pra gente conversar, para vocês tirarem dúvidas sobre a história e pra vocês sempre pegarem no meu pé quando eu demorar para postar o próximo capítulo. Hehehe!