Cry Baby
10 Festa de dar pena - parte 1
Pela primeira vez desde muito tempo, senti que as coisas finalmente estavam começando a dar certo para mim. Ou talvez fosse só mais uma ilusão da minha cabeça. Tanto faz! A verdade é que meu aniversário estava chegando e eu estava bem animada. Meus pais, pela primeira vez, iam me deixar organizar minha própria festa! Tenho que admitir que eles nunca deixavam que eu e Max tivéssemos festa, eles diziam que não adiantava nada, éramos muito pequenos e que nem lembraríamos, mas que quando tivéssemos idade suficiente, poderíamos ter nossa festa dos sonhos. Ou algo parecido.
Para falar a verdade, meus pais ainda não concordavam com a ideia de eu ter uma festa. Quando eu os perguntei, durante um jantar, me responderam:
— Ainda não é o momento, Mel. Por que não espera até o ano que vem, quando fizer dezoito?
Bufei.
— Não acha que já esperei demais, mamãe? Por favor! – insisti.
Ela revirou os olhos.
Amanda, que colocava uma travessa de frango assado na mesa, falou:
— Desculpe a intromissão, senhora, mas não acha que a Melanie deveria ganhar essa festa? Ela se esforçou o ano inteiro na escola e foi uma garota tão boa.
Minha mãe a ignorou completamente e continuou a comer.
Meu pai, que estava esse tempo todo concentrado em seu prato levantou o olhar e disse pra minha mãe:
— Acho que não é uma ideia tão ruim, querida. A Melanie já está crescida. Já é uma menina de responsabilidade. Vamos deixa-la ter a festa.
Tudo bem, por isso eu não esperava.
Minha mãe levantou a cabeça impaciente.
— Você se esqueceu do nosso passeio? Aquele que faremos na véspera do aniversário dela? Não poderemos ficar e organizar para ela. – ela disse para o meu pai. Eu havia esquecido, eles fariam um passeio, uma pequena viagem, na cidade vizinha, só os dois. Ela se voltou pra Amanda – Você pode?
Ela olhou para o meu pai rapidamente e depois abaixou a cabeça sem coragem de encarar a minha mãe. Que tenso.
— Esse será o meu dia de folga. Terei que cuidar da minha mãe. – respondeu.
— Sem problemas! Eu posso organizar tudo sozinha! – falei intrometendo-me.
Minha mãe riu.
— Você? Organizando alguma coisa sozinha? – ela disse rindo.
— Para de pegar tanto no pé da garota! – meu pai falou para minha mãe que automaticamente parou de rir e então ele se voltou para mim – Você acha que consegue fazer tudo sozinha? Deixarei uma boa quantia em dinheiro com você para te ajudar no que precisar. E a discussão se encerra aqui.
— Obrigada. – respondi tão baixo que parecia que estava falando para mim mesma, mesmo que eu estivesse explodindo de felicidade. Minha mãe me olhava como se pudesse voar no meu pescoço a qualquer momento.
De qualquer forma, tudo acabou dando certo e eu comecei os preparativos para a minha festa.
A primeira coisa que quis fazer for mudar a cor do meu cabelo. Queria uma cor que contrastasse com meu vestido e com o tom pastel de toda a decoração. Então fui a um salão de cabeleireiro, não era o que minha mãe costumava a ir, mas era o meu favorito. Foi lá que pintei meu cabelo estilo Cruella De Vil pela primeira vez. Martin, o cabeleireiro, me tratava muito bem e dizia que adorava o meu estilo. Aquele era um dos poucos lugares que eu realmente me sentia confortável. Enfim, a metade que antes estava rosa, no meu cabelo, agora estava lilás, enquanto a parte preta permaneceu a mesma.
Perfeito.
Naquela mesma tarde comecei a escrever os convites. Eles eram simples, levemente perfumados e eu estava caprichando na minha letra cursiva. Ah, eu estava tão animada! O primeiro convite, claro que seria do Sean! Não podia nem esperar para tê-lo aqui, já até imaginava a cena. Eu estaria apagando as velas, todos me aplaudiam felizes. No canto, com cara de má vontade estariam a Sasha e a Lucy. Janel e seu namorado estariam sorrindo para mim, por mais que ela seja uma invejosa descarada, ela estaria contente porque a minha festa teria esse efeito de felicidade nas pessoas. Ah, e claro! Sean estaria na frente de todos, sorrindo para mim, e então ele viria até mim, agarraria minha cintura e me daria um daqueles beijos de cinema, enquanto seus colegas do futebol o parabenizariam e ...
Concentre-se Melanie! Você não quer que a sua letra fique feia, quer?
Quando terminei de escrever todos os convites, os coloquei na caixa de correio. Eu havia convidado Sean e seus amigos, umas garotas da escola, incluindo a Sasha e a Lucy, minha prima Janel e seu namorado, umas garotas e garotos da vizinhança e acho que só. Queria convidar uns amigos do Max, mas ele me disse que nem poderia ir na festa pois eles teriam uma partida de hóquei muito importante.
Tanto faz!
Já estava me preparando para entrar quando uma musiquinha me chamou atenção.
Leia ouvindo: Ice Cream Truck Sound Effect (dê replay se necessário)
Olhei para trás e vi que era apenas um caminhão de sorvetes passando. Fiquei parada um tempo observando. Lembro-me quando Max e eu corríamos atrás desses caminhões mas mamãe raramente nos deixava comprar. Ela dizia que devíamos gastar nosso dinheiro com alimentos mais importantes. Sendo que ela agora gasta dinheiro com pílulas idiotas para o emagrecimento.
Sem perceber, fiquei minutos encarando o caminhão, que passava bem lentamente. Tão lento que um garotinho de bicicleta conseguiu o alcançar sem nenhum esforço. O motorista então parou, praticamente em frente à minha casa, só que do outro lado da rua.
Continuei observando o menino pedir o sorvete, eu nem fazia ideia de a quantos minutos eu estava assim. Talvez eu estivesse um tanto hipnotizada por aquela musiquinha irritante que se repetia constantemente. Observei melhor o motorista. Algo nele me lembrava um lobo. Não sei explicar. Mas lembrava. Bastante.
Nem percebi que o garotinho já havia partido com seu sorvete e sua bicicleta. Só consegui sair do meu devaneio quando o motorista-lobo acenou para mim. Acenei de volta e entrei para minha casa.
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