Crush Culture

7 "A Cultura Crush (não) me faz querer vomitar"


"Se gosto de você

Embora às vezes eu negue

Que você é meu mundo inteiro

Nem eu mesma acredito nisso

E quero que comecemos do zero"

Luka havia começado a beber depois de seu término com Marinette; bebia escondido qualquer garrafa de álcool na geladeira de seus pais. E agora, aos seus dezoito anos completos, ele já poderia pagar por aquilo que consumiria, e assim o fez. Andou por diversos bares e conveniências de Paris, ao invés de ir para o ensaio, e comprava qualquer bebida forte o suficiente para entorpecer sua mente por algum tempo.

O rapaz caminhava com o corpo quente e a visão turva pelas ruas com uma garrafa de licor em mãos. Ele podia sentir o vento gelado bater em sua face, o que lhe fazia expressar uma careta. Julgava-se idiota por ter criado expectativas a respeito de Kagami. Pessoas machucadas machucam pessoas, ou pelo menos era isso que ela o fez pensar.

Um beijo. Foi tudo o que viu, foi tudo o que aconteceu.

Adrien era um anjo. E Luka sabia que anjos não fariam pessoas pecarem, um anjo não causaria tentação em alguém; exceto se fosse um anjo caído. Talvez Adrien fosse semelhante a um anjo caído, que poderia adotar uma aparência atraente para arrastar pessoas para o inferno; porém o azulado sabia que o modelo seria incapaz de fazer tal ato pecaminoso na intenção de destruir uma pessoa sequer. O seu problema não era o Agreste.

Seu problema era Kagami. Ela que era seu demônio.

Sua beleza. Seus olhos hipnotizantes. Sua fortaleza que desmoronava tão facilmente ao ser tocada por outra alma de forma tão suave e calorosa, fazendo-a perder todas suas convicções. Cada aspecto físico e cada traço de sua personalidade instigava Luka. Mas ela foi o motivo de sua queda ao roubar um beijo de alguém que sempre foi seu "rival", partindo-lhe em mil pedaços — que agora eram levados pelos ventos frios da França. O rapaz se via perdido depois daquele "eu gosto de você" seguido de um olhar de choro, já não sabia mais identificar o que era ou não verdadeiro em Tsurugi.

O Couffaine caminhava cada vez mais lentamente, até que encostou-se em uma parede e foi escorregando aos poucos até sentar-se no chão frio e pegajoso. Sua visão estava fraca e seu corpo cada vez mais pesado. Cada vez ficava mais escuro, não havia muitas pessoas na rua por conta do frio, do horário e do local; não tinha ninguém por perto para ajudá-lo.

Talvez aquele fosse o fim, finalmente o descanso para seu pobre coração dolorido. Talvez...

[...]

13 de fevereiro de 2021.

Kagami estava na casa de Adrien enquanto esperavam Marinette chegar. A mansão Agreste não mudou muito desde a última vez — quando ela ainda namorava Adrien — que ela havia visitado. Ainda eram os mesmo móveis, rústicos e neutros; sendo espaçosa e silenciosa.

Quando a porta finalmente abriu e a feição delicada de Marinette apareceu, Kagami viu Adrien sorrir ao ver a namorada. Ela admirou a reação dele ao vê-la, ele nunca sorriu assim quando ela costumava ser dele, mas não se permitiu deixar-se levar por tal sentimento.

— Kagami! — Marinette correu até a garota com um sorriso de orelha a orelha. — É tão bom vê-la tão... linda e... tão próxima. — Deu um sorriso levemente cabisbaixo, fazendo a Tsurugi sorrir triste e sem graça.

— Bom, meninas, vamos subir para conversar melhor? — perguntou o loiro, quebrando o clima estranho que havia ficado. Ambas concordaram sem usar palavras.

Os três foram subindo as grandes escadarias em silêncio até chegarem no quarto do Agreste. Kagami e Marinette se sentaram no sofá, não tão próximas, e Adrien ficou de pé, enquanto observava as duas.

— Bom, vamos direto ao ponto já que nenhuma das duas vai tentar trocar uma palavra com a outra... — O rapaz revirou os olhos e apontou para a japonesa. — Mari, nosso objetivo é fazer a Kagami deixar de ser uma babaca!

— Ei! Isso é ofensivo — protestou a garota ao ouvir o termo usado por Adrien para descrevê-la.

— Gami, me desculpe, mas eu tenho que concordar com o Adrien. Estou ciente de tudo — comentou Marinette, gargalhando, e dando um sorriso compreensivo para a amiga.

— Tudo? — questionou, enquanto desviava o olhar, recordando-se do que havia feito no dia anterior e de como aquilo era humilhante.

— Sim, até do beijo — respondeu suspirando. Mesmo assim, a Dupain-Cheng se aproximou da Tsurugi e segurou uma de suas mãos, apertando-a com delicadeza, em sinal de solidariedade. — Mas tá tudo bem, eu te conheço o suficiente para saber que não foi por mal. E, mesmo se tiver sido, eu te perdoo.

— Me incomoda o jeito que vocês são tão melhores que eu — murmurou Kagami, fechando os olhos, sentindo uma dor no peito por pensar em tal coisa.

— Nós não somos tão melhores assim... — Adrien intrometeu-se no assunto, ao se sentar do outro lado da garota e colocar a mão sobre seu ombro. — A gente só tá se permitindo crescer e superar as coisas juntos. A Marinette ainda é meio ciumenta e eu ainda sou muito inseguro...

— Eu não sou ciumenta... — Marinette fez um biquinho em protesto, mas depois pensou melhor ao receber um olhar questionador de Adrien e soltou um riso fraco. — Bom, talvez um pouquinho...

Kagami olhou para os dois e sorriu fraco. Eles eram muitos fofos juntos e haviam amadurecido bastante comparado há três anos. Marinette parecia muito mais mulher do que ela — não só pelo corpo — mas especialmente por sua postura, seu falar e seu pensar. E Adrien já não era um "bebê chorão", seu olhar — por mais doce que fosse — parecia extremamente viril e decidido.

— Vocês foram mesmo feitos um para o outro — comentou ela, enquanto observava os dois corarem com aquelas palavras.

— A-ah! Que fofo de sua parte, G-Gami! — exclamou Marinette, sem jeito por tais palavras; fazendo Adrien e Kagami rirem, o que a deixou mais vermelha ainda.

— Não precisa gaguejar, querida... — O loiro segurou a mão da namorada, que ainda estava sobre a mão de Kagami. Quando percebeu isso, ele retirou-a imediatamente, envergonhado por tal ação. — Desculpe...

— Está tudo bem! — As duas disseram em uníssono ao ver Adrien ficar vermelho, e depois riram de ambas as cenas.

Quando eles iriam começar a conversar sobre como ajudar Kagami, o celular dela começou a tocar. A japonesa franziu o cenho, estranhando por Mylène estar lhe ligando, afinal não eram grandes amigas. Ela pediu desculpas a Adrien e a Marinette e caminhou até um canto mais isolado do quarto para atender a ligação.

— Alô? — disse, e não precisou esperar muito por uma resposta do remetente.

"Kagami? O Luka está com você?" A voz não era de Mylène, e sim de Juleka. Seu tom de voz soava preocupado, mesmo que fosse naturalmente baixo e rouco.

— Quem fala? — perguntou, pois ainda não havia escutado a voz da garota, então não reconheceria ela.

"É a Juleka, irmã do Luka" respondeu. "Por favor, me diga se meu irmão está com você ou não..."

— Não, não está. Por quê? — Uma dor começou a surgir no coração de Kagami. Aquilo parecia cheirar muito mal. Luka não havia voltado para o ensaio? Aonde ele estaria?

"O Luka não apareceu em casa desde que voltou para pegar as cordas na escola, nem na de minha mãe e muito menos na de meu pai." A voz de Juleka estava falha e parecia começar a soar chorosa. "Ele não atende o celular e a gente não faz a mínima ideia de onde ele esteja. Kagami, eu estou desesperada!" exclamou, começando a soluçar.

As mãos da garota ficaram trêmulas e seu corpo começava a se encurvar. Ela seria a culpada de Luka estar desaparecido?

— Juleka, se acalme — disse com a voz fraca. — Vou chamar Adrien e Marinette para procurá-lo. Me dê notícias se encontrá-lo...

"Ok... Obrigada pela ajuda, Kagami. Obrigada." Em seguida, a ligação foi cortada.

Kagami virou-se para trás e viu os dois jovens em pé, a observando.

— O Luka está desaparecido — disse. Apertava o celular com força, enquanto tentava segurar as lágrimas. — Isso tudo é minha culpa... — Falhou, deixando que as lágrimas caíssem contra sua vontade. A amiga foi até ela e envolveu-a nos braços, enquanto acariciava o topo de sua cabeça, tentando acalmá-la. — É minha culpa, Mari. É tudo minha culpa.

— Calma, Gami... Calma. Nós vamos sair para procurá-lo. Isso não é sua culpa — argumentou Marinette, e depois depositou um beijo na testa de garota que era alguns centímetros menor que ela. — Chorar não vai ajudar em nada, se acalme e vamos buscá-lo. Você vem comigo e Adrien vai por outro caminho, ok?

A moça assentiu, sorrindo fraco, e sentiu a mão de Marinette em seu rosto para limpar suas lágrimas com os polegares. A franco-chinesa sorriu lindamente para a amiga. Entrelaçou seus braços e sinalizou para Adrien para eles irem. Combinaram como iriam procurar e mandaram uma mensagem para Juleka, e assim começaram a busca.

Saíram em carros separados, buscando pelas ruas de Paris. Entravam em algumas ruas que não dariam em lugar nenhum, observavam, buscavam qualquer traço de que Luka estaria por lá e nada. Kagami sentia o peso da culpa em seus braços; se ela não fosse tão idiota, Luka estaria bem, estaria com ela, ou simplesmente estaria com aqueles que realmente o amassem, e talvez não fosse ela.

— Eu nunca vi você tão preocupada assim — comentou Marinette.

— Nem eu — retrucou cabisbaixa.

— Luka roubou seu coração de uma maneira que nem você entende, não? — A garota dizia enquanto olhava pela janela do carro em busca do rapaz.

— Acho que sim. — Sorriu fraco.

— Você deixou a melhor pessoa do mundo fugir de suas mãos. — Marinette continuou, e fez Kagami olhar para ela arqueando uma sobrancelha, começando a sentir-se incomodada com o rumo daquela conversa.

— Onde você está querendo chegar?

— Você precisa ser mais aberta. Seu medo te impede de dizer o que sente — falou; voltando o olhar para a garota, que ainda parecia confusa e sem captar a mensagem. — Você é impulsiva, mas não sabe admitir o que sente. Você parece muito direta, mas fecha seu coração quando percebe que tem alguém tentando entrar nele. Kagami, você precisa parar de se prender ao passado, isso te machuca e machuca os outros...

A Tsurugi não soube o que falar depois disso. Marinette parecia sensata e madura, diferente dela. Ela parecia uma criança mimada e birrenta, pronta para espernear e virar a cara ao ouvir uma coisa dessas; mas não o fez, pois sabia que ela estava repleta de razão. Quando ela iria tentar dizer algo o celular de Marinette tocou, e quando viu que era Adrien, ela colocou-o no viva-voz.

— Adrien?

— Mari, encontraram o Luka — disse, fazendo Kagami sorrir com tal notícia. — Ele está no hospital, está tomando soro e já está consciente; fora isso, parece tudo bem.

— Tomando soro? O que aconteceu com ele?! — exclamou a japonesa, sentindo o coração querer sair pela boca.

— Ele teve um coma alcoólico, felizmente alguém encontrou ele na rua e ligou para a emergência. Os médicos demoraram para entrar em contato, pois roubaram a carteira dele e o celular estava sem bateria — explicou.

— Graças a Deus. — Suspirou Kagami, sentindo-se melhor.

— E nós podemos ir pra lá? — indagou Marinette.

— Podem sim, também estou indo. Espero por vocês — afirmou.

— Ok. Beijos, querido.

— Beijos, m'lady — respondeu, fazendo franco-chinesa sorrir com o apelidinho.

Kagami não disse nada, apenas começou a chorar de alegria, o que fez Marinette sorrir com a cena e abraçou-a. Mesmo que ela soubesse que só sentiria paz ao ver o rosto de Luka com aqueles olhos oceânicos naturalmente brilhantes, ela podia dizer que já não se sentia morta por dentro.

[...]

Era proibido correr pelos corredores do hospital, mas o coração de Kagami estava tão ansioso que a fazia andar em passo acelerado, prestes a iniciar uma pequena corrida se não fosse detida por Marinette. Tudo o que ela precisava era olhar os olhos de Luka, vê-lo ali na sua frente.

Quando ela chegou em frente ao quarto informado, seu coração parou por um milésimo de segundo, hesitante em prosseguir com aquilo.

— Eu não posso entrar, Mari — disse com um nó na garganta para a amiga ao seu lado. — Ele não deve querer ver a pessoa que fez ele passar por isso.

Marinette a olhou triste e segurou em um de seus ombros para demonstrar-lhe solidariedade.

— Pare de teorizar demais, ou você vai morrer sem nunca ter arriscado. — Depositou um beijo na bochecha dela, a deixando vermelha, e abriu a porta do quarto. Ela observou como os olhos de Kagami começaram a brilhar ao ver Luka.

Mesmo que estivesse insegura de tal ação, seu corpo pegou um impulso e correu até Luka "jogando-se" sobre ele.

— Cuidado, cuidado... A agulha do soro — alertou o rapaz como se estivesse o machucando, que riu da reação da menina que logo se afastou bruscamente e ficou confusa quando viu que ele parecia bem. — Brincadeira, você nem encostou.

— Você é um idiota — resmungou, revirando os olhos. Mas sorriu fraco ao ver o rapaz rindo ao ser xingado.

Kagami sentiu o coração se apaziguar por ver o rapaz bem. Ainda sentada na cama do hospital, ela levou as mãos ao rosto do rapaz o que o deixou confuso a princípio.

— Luka, me perdoa por ser essa babaca que eu sou. Eu não sou expert no amor que nem você; não sei nem lidar comigo mesma, muito menos com alguém que gosta disso que sou eu. Se eu pudesse, eu voltaria atrás e não teria errado tanto com você, com o Adrien ou com a Marinette; se eu pudesse, teria sido alguém melhor... Mas eu não posso mudar o passado, e também não quero mais me prender a ele. Tudo o que eu posso fazer é olhar nos seus olhos e pedir uma segunda chance. — Os olhos dela estavam cheios de lágrimas e com uma feição levemente avermelhada por seu estado de ansiedade e alegria. — Eu quero lutar por você, independentemente da Cultura Crush... Você é o único que eu quero. Eu não sou e nunca fui "à prova de amor"... Você me conquistou no primeiro momento. Então eu te imploro: Luka Couffaine Stone, você me dá uma segunda chance?

Kagami sentiu-se ansiosa com a resposta que receberia enquanto observava os doces olhos azuis de Luka processarem aquele oceano de informações. Mas tudo o que ela recebeu foi um sorriso de lado e o rapaz puxando a garota pela nuca e pela cintura para mais perto de si, fazendo com que eles se beijassem. Ela ficou surpresa com aquilo, mas não recuou; apenas deixou-se levar naquele beijo com ausência de malícia, apenas recheado de um carinho e perdão.

— Você sabe meu nome completo... — disse Luka ao se separar do beijo, com uma expressão divertida.

— Esse foi o detalhe mais relevante para você? De tudo o que eu falei? — indagou repleta de indignação.

— Talvez... afinal, agora você sabe qual vai ser seu futuro sobrenome — respondeu em um sorriso galanteador, fazendo Kagami corar com o flerter. Luka riu junto a Adrien e Marinette, que ainda estavam no quarto, com a reação da garota que não conseguiu dizer nada além de:

— Vocês todos são um bando de idiotas! — E escondeu o rosto com as mãos, mas Kagami ficou mais corada ainda quando Luka puxou-a para perto de si, mesmo cansado e fraco por causa do incidente, e envolveu-a contra seu peito, começando a acariciar seus cabelos com cuidado.

— Eu gosto de você, Kagami Tsurugi...

— Eu também gosto de você, Luka Couffaine...