Cruel
28 Nadja
Notas iniciais

As ondas do mar haviam trazido o corpo de uma mulher nua de cabelos pretos que estavam encharcados e colados no corpo. Ela tinha um corpo curvilíneo e esquelético com alguns ossinhos da coluna vertebral aparente. Ela estava inconsciente na praia.
Cerisa e Naria caminharam pela praia e conforme seus pés tocavam a areia molhada, elas foram se aproximando do mar.
Então elas pararam no meio do caminho e avistaram o corpo ali na praia todo coberto de areia.
— Olha, Naria — Cerisa apontou com os olhos para o corpo na praia.
— Quem será ela? — Naria ficou curiosa.
Cerisa deu pequenos cutucões com o pé no corpo da garota tentando despertá-la. Mas ela não acordava, então Cerisa se abaixou e virou o corpo da garota de lado. Ela deu pequenos tapas no rosto da garota e de repente ela abriu os olhos.
A garota começou a tossir e Cerisa se afastou dela.
Ela se levantou e olhou ao seu redor.
— Essa praia — a garota balbuciou — Onde eu estou?
Ela estava confusa.
— Como...eu vim parar aqui? — a garota quis saber.
Então, a garota olhou mais ao redor e seus olhos encontraram os de Cerisa.
— Olá! Eu estou...perdida. Será que vocês podem me ajudar? — ela quis saber.
Naria voltou o olhar para Cerisa e a mesma voltou o olhar para ela.
— Eu acho que temos que ajudá-la — Naria retrucou.
Cerisa voltou o olhar para a garota nova.
— Então você está perdida? — Cerisa ficou curiosa.
— Sim. Pode me ajudar? — a garota falou com um olhar triste.
— Você tem um nome? — Cerisa devolveu.
— Sim. Nadja — ela respondeu.
— Nadja? Interessante...seu nome parece me lembrar o da minha irmã aqui — Cerisa comentou — O nome dela é Naria. De onde você veio, Nadja?
— Eu vim do oceano glacial ártico — Nadja revelou.
— Oceano Glacial Ártico?! Então...você veio de tão longe para acabar aqui conosco? — Cerisa se assustou.
—Pois é. No momento eu preciso de um lugar para passar descansar — Nadja notificou.
— Bem, eu acho que você pode se abrigar na nossa casa — Cerisa ofereceu.
— Será? Eu não sei...— Nadja ficou incerta sobre aquilo...
—O que você acha, Naria? — Cerisa devolveu a pergunta para a irmã.
— Eu acho que tudo bem. Além disso, será bom ter compania — Naria sorriu — E também eu estou um pouco surpresa de encontrar alguém com um nome parecido com o meu. Ela parece ser legal.
— Bem, você ouviu minha irmã...— Cerisa falou com poucas palavras.
— Obrigada, então — Nadja agradeceu.
— É um prazer encontrar uma parceira marítima — Cerisa exclamou.
— Bem, eu não sei o que dizer disso, já que eu vim do Atlântico — Naria retrucou.
— Então, Cerisa do pacífico e Naria do Atlântico? — Nadja resolveu confirmar.
— Isso — Cerisa e Naria disseram juntas e depois sorriram juntas também.
— Eu acho que eu entendi — Nadja retrucou.
Então, Nadja desenhou a Runa das artes ˂ (Kau — Nan) no ar. O símbolo desenhado em azul cravou no meio do peito dela e a partir dai um vestido branco e comprido, lembrando uma camisola, se materializou e vestiu o corpo de Nadja.
Cerisa e Naria que haviam testemunhado aquilo, ficaram impressionadas com o que Nadja havia feito.
— Nossa! O que é isso? — Cerisa ficou curiosa.
— Mágica — Nadja explanou.
Em seguida, Nadja fez com o dedo no ar o que parecia um "N" com as pontas inferiores estendidas e depois fechou o símbolo cruzando as duas pontas. Aquela era a Runa (Man-naz), a runa dos desejos, do egoísmo, das fantasias, etc.
Esse novo símbolo desenhado no ar se transformou em um espelho de borda branca com um cabo para segurar. Aquele era um espelho especial que Nadja sempre carregava consigo para dar mais segurança. Ela empunhou o espelho com a mão direita e ficou admirando sua beleza. Naria e Cerisa se olharam, e ficaram sem entender o que estava acontecendo.
Nadja começou a pentear o cabelo molhado dela retirando o excesso de água que se acumulava nas pontas do cabelo com os dedos da mão esquerda enquanto cantarolava uma canção qualquer que lembrara.
—Ela é meio estranha...— Cerisa comentou com Naria.
— Por que? Por que ela nasceu em um Oceano diferente dos nossos? Na real, o Oceano é enorme. E todos os mares convergem para o mesmo ponto, o enorme nada do oceano. Nós não sabemos onde o Oceano termina...— Naria comentou — e por isso somos estranhos?
— Eu sei, Naria — Cerisa atestou — É só que...ela parece que veio de outro mundo. Esses desenhos que ela faz no ar...
— Eu gosto dela. Ela é bem única — Naria observou.
— Se você diz...
Alguns minutos depois, Nadja fizera o espelho desaparecer da mão dela e ela se juntou a Cerisa e Naria.
— Ok, eu já terminei de me pentear — Nadja disse com um sorriso meigo nos lábios.
— Eu estou curiosa. Por que você fica se penteando? — Cerisa quis saber.
— Bem, eu preciso me manter com o cabelo molhado, se não eu morro. Eu não tenho muito tempo de vida, e...me sinto segura quando estou com esse meu espelho especial. Ele é feito de água — Nadja sussurrou.
—Nossa! Que interessante! — Naria ficou entusiasmada.
—Pois é. E...eu tento permanecer bonita sempre — Nadja sorriu.
—Entendo...você se lembra alguma coisa do seu passado, Nadja? — Cerisa ficou curiosa.
— Não muito. Mas...eu primeiro preciso me descansar...— Nadja lembrou.
— Tudo bem. Vamos para casa — Cerisa retrucou.
[...]
Mais tarde, na casa de Cerisa e Naria, as três estavam reunidas na mesa de jantar. Elas conversavam.
— Então, Nadja...— Cerisa iniciou a conversa — Conte-nos a sua história...
— Bom...— Nadja prosseguiu— eu fui adotada por um pescador e sua mulher que já não estava muito bem. Então, a minha mãe adotiva morreu, e o meu pai achou que era melhor nós mantermos uma relação além da de pai e filha, pois ele começara a se sentir muito sozinho sem a minha mãe. Nós consentimos que isso talvez fosse a única maneira de sobrevivermos diante das adversidades...
— Interessante, continue...— Cerisa pediu.
— Então eu fiz sexo com ele, e...acabei engravidando. Temendo que os homens do vilarejo descobrissem sobre nossa relação, ele construiu um castelo de gelo a partir de uma geleira para nós morarmos juntos. Porém, ele não tinha condições de sustentar a mim e ao meu bebê. Ele disse que iria se arrepender amargamente do que viria a fazer, mas que ele só queria me proteger dos outros homens do vilarejo, caso descobrissem o que eu era de fato.
— E depois? — Naria falou entusiasmada.
— Depois eu ouvi ele gritar para provocar uma avalanche e algumas pedras de gelo caíram fechando a entrada do castelo de gelo. Eu passei uma eternidade sem saber o que fazer, pois eu esperava um filho do meu pai...acabei morrendo de desespero junto com o meu filho no interior do castelo, pois a geleira estava se derretendo e me tornei o que sou atualmente, uma Rusalki* — Nadja concluiu.
— O que é isso? — Cerisa ficou confusa.
— Nós somos uma espécie diferente de sereias. Nós precisamos manter nossos cabelos molhados...—Nadja interrompeu.
— Já sei! Porque se não vocês morrem — Cerisa lembrou.
— Isso. Na verdade não existem tantas Rusakis por ai. Eu creio que eu sou uma das poucas que sobraram. Os humanos tem nos perseguido muito — Nadja comentou.
— Entendi — Naria compreendeu.
— E...tem esse período, a "Semana Rusalka" — Nadja fez áspas com os dedos — Onde nós ficamos bastante agressivas, pois despertamos a nossa verdadeira natureza, e saímos para caçar humanos.
—Bem, creio que você não vai achar muitos humanos por aqui...esse lugar é muito deserto. Os únicos humanos que temos aqui são esse casal de produtores que nos oferece o que nós precisarmos de alimento. E pode não parecer verdade, mas a relação que eu e Naria temos com eles é recíproca. Eles nos dão os alimentos e nós não os maltratamos e assim podemos viver em paz nessa casa, que na verdade nós encontramos ela abandonada — Cerisa comentou.
—Sim. Não sabemos o que houve com seus donos originais, mas não ligamos. Nós só queremos viver a nossa vida juntas — Naria explanou.
— Entendo. E...vocês são irmãs? — Nadja ficou curiosa.
— Sim. Mas nós aceitamos compartilhar tudo, até o sexo — Naria atestou — Nós não somos humanas, afinal, nós somos sereias, mas...um tipo diferente também. Nós podemos assumir formas, mas precisamos nos manter na aparência humana, pois na de sereia nós morremos, e a única forma de continuarmos a viver é passando o nosso amor adiante. Já na água nós somos livres para ficarmos na forma que quisermos. Nós temos alguns poderes também, como por exemplo assumir órgãos masculinos.
— Nossa! Que interessante. Vocês podem me dar uma demonstração disso?
— Claro — Cerisa se levantou da mesa.
Ela então roçou a Vagina e dela surgiu o seu enorme falo, bem rígido. Nadja olhou para aquele órgão espadaúdo e ficou impressionada.
— Nossa! Que maravilhoso! — Nadja exclamou — Mas, eu tenho uma pergunta.
— Diga — Cerisa retaliou.
— Como vocês desenvolvem esses órgãos masculinos? — Nadja falou curiosa.
— Bem, existem duas formas. A primeira é depois de matar um macho humano. A segunda é quando você passa o seu amor adiante você herda a experiência que a outra sereia te passou. Ou seja, se a primeira sereia matou um macho humano, a herdeira herda, além dos poderes da primeira, o órgão masculino desenvolvido a partir do macho que ela matou, ou ao compartilhar o amor que ela sentiu pela sua parceira, a próxima sereia herda essa "experiência" da primeira — Cerisa falou como alguém bastante experiente.
— Entendi. E vocês tem pais? — Nadja questionou.
— Não. Nossos pais são os oceanos — Cerisa atestou.
— Bem, eu sou diferente, tive dois pais, o Oceano Glacial Ártico e os pescadores que me adotaram — Nadja comentou.
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