Crossfire
12 Holy Terror
Notas iniciais
Castiel estava preso em uma sala semi iluminada de onde ele podia ouvir gritos desesperados vindos de outras salas como aquela.
Suas mãos estavam acorrentadas e presas em duas pilastras atrás dele. Sua camisa estava aberta e o sangue escorria dos ferimentos causados pela tortura a qual estava sendo submetido por dois homens que estavam de frente para ele. Seu rosto também estava ferido e sua expressão era de dor e cansaço.
Ao lado de Castiel, sentada no chão, também presa e com sinais de tortura, havia uma mulher loira de aparentemente trinta anos.
De repente, um dos homens, que tinha os cabelos lisos e escuros e uma barba que lhe dava um ar assustador e cruel, olhou para a loira no chão e disse:
– Isso é um bônus, Castiel. Nós estávamos rastreando a Muriel, covarde como de costume, e surpreendentemente ela nos leva até você.
Depois ele voltou-se para Castiel e ficou esperando que o ex-anjo finalmente colaborasse com alguma informação útil que ele e o outro homem estavam tentando arrancar.
Castiel respirou fundo e disse:
– Eu já expliquei, Malachi. Eu não sei como reverter o feitiço do Metatron. Ele me enganou... Eu era um cúmplice involuntário.
– Oh... Um trouxa. — debochou Malachi friamente. — O grande Castiel, valorizado e confiável Castiel, a estrela da árvore de Natal, nada mais do que um trouxa. Trouxa ou mentor, você fez parte daquilo. Você sabe qual é a fraqueza do Metatron.
– Não. Eu não sei. — garantiu Castiel.
Malachi olhou para alguns instrumentos de tortura em cima de uma mesa, depois olhou para o outro homem e o chamou:
– Theo.
Theo assentiu com um meneio de cabeça e pegou uma faca entre os objetos. Em seguida, aproximou-se de Castiel que pediu em vão:
– Não...
Sem hesitar Theo passou a faca no peito de Castiel descendo pelo seu abdômen e fazendo um corte profundo durante o percurso.
Castiel gritou de dor e desespero fechando os olhos com força. Essa era uma parte da humanidade que ele não invejava: a sensibilidade à dor. E aquilo estava doendo demais. Era uma dor imensurável, excruciante e quase insuportável.
Mesmo assim, Castiel aguentou firme até que Theo se afastou um pouco e Malachi prosseguiu:
– Metatron, cuja popularidade despencou, vale a sua vida? — e olhando para Muriel, perguntou — Ou a vida dela?
Castiel ainda respirava com certa dificuldade por conta da dor que sentia, mas temendo que Malachi mandasse Theo torturar Muriel também, ele conseguiu encontrar forças para dizer:
– Não! Ela é inocente. Deixe-a em paz.
– Eu não tenho intenções de machucá-la. — respondeu Malachi insinuando que se Castiel contasse o que ele queria saber, Muriel sairia ilesa.
No entanto, diante do silêncio de Castiel, que realmente não sabia como reverter o feitiço feito por Metatron e que causou a queda de todos os anjos, Malachi olhou para Theo e este entendeu o que devia fazer.
– Por favor, não! Não! — implorou Castiel enquanto Theo se aproximava de Muriel.
Rapidamente Theo enfiou uma espada angelical no coração dela e Muriel gritou enquanto uma luz extremamente branca saía de seus olhos e de sua boca.
Assim que Theo retirou a espada, o corpo de Muriel tombou para o lado. Ela estava morta.
Castiel olhou para aquilo com profunda tristeza. E depois de se recuperar um pouco daquela sensação desoladora, questionou:
– Anjos matando anjos. Então é isso o que nós nos tornamos?
– Nós só estamos seguindo o seu exemplo, Castiel. — argumentou o anjo Malachi. — Quantos você matou no Paraíso? Quantos na queda? — e ao perceber certa confusão no rosto de Castiel, ele continuou — Você não sabia? Um exército de anjos morreu quando caiu. As asas retalhadas, uma agonia indescritível causada por você. — e depois de uma pausa, retomou o assunto inicial — Então... Eu acho que você quer fornecer qualquer informação que tem, não?
O que Malachi não sabia ou relutava em acreditar era que Castiel realmente não tinha nenhuma informação útil. Ele tinha sido enganado por Metatron e não sabia como reverter o feitiço que fez os anjos caírem. Mesmo assim, todos os anjos o viam como um cúmplice de Metatron e o odiavam por isso. Eles queriam encontrar uma forma de voltarem para o Céu e acreditavam que Castiel sabia como fazer isso. Mas ele não sabia de nada. Estava tão perdido quanto eles.
Ao perceber que não conseguiria nenhuma informação, Malachi disse:
– Tudo bem. Eu vou te deixar nas mãos de um artista. — e olhando para o anjo Theo, encerrou com frieza — Eu não ligo para o que sobrar.
Theo encarou Castiel e avisou:
– Não peça por misericórdia.
Então Malachi saiu da sala e fechou a porta deixando Castiel nas mãos de Theo que pegou outra faca sobre a mesa e se aproximou do prisioneiro lentamente.
– Eu vou te dar uma última chance de falar. — avisou Theo parado de frente para Castiel.
Cansado de tentar provar a sua inocência, Castiel respirou fundo, fechou os olhos e pediu:
– Me dê uma morte rápida.
De repente, tudo ficou escuro. Confuso e nebuloso. Em seguida, tudo se iluminou de uma forma desconcertante. Uma luz branca e forte. E somente a voz de Castiel ecoava na cabeça de Mia: "Me dê uma morte rápida."
Então ela abriu os olhos apavorada, sentou na cama respirando de forma ofegante e gritou:
– Cas!
Seu coração estava acelerado. Seu corpo suado. A cabeça tomada por uma forte enxaqueca. O quarto parecia girar em volta dela. Uma forte sensação de enjoo revirava o seu estômago. Seu corpo inteiro tremia.
Mia estava em choque. Demorou para perceber que aquilo tinha sido só um pesadelo. Um pesadelo real demais para ser apenas um pesadelo, mas ainda assim um pesadelo. E aquele final a deixou completamente confusa e assustada.
O fato é que no sonho Castiel estava em perigo. Preso em algum lugar, sendo torturado por anjos caídos, pronto para morrer, vencido, sem esperança.
Mia fechou os olhos e respirou fundo tentando se acalmar. A ideia de que alguma coisa acontecesse com Castiel a apavorava.
Quando se acalmou um pouco, ela olhou para o relógio em cima do criado-mudo. Eram duas horas da madrugada. Então Mia se aproximou do móvel e acendeu a luz de um pequeno abajur que havia em cima dele iluminando um pouco o quarto do hotel onde estava.
Em seguida, abriu uma das gavetas e pegou uma cartela com alguns analgésicos. Tomou três de uma vez com um copo de água que havia deixado sobre o móvel. Depois disso, levantou e foi até o banheiro ainda um pouco zonza e trêmula. Acendeu a luz e se aproximou da pia. Abriu a torneira e jogou um pouco de água fria no rosto. Se olhou no espelho e fechou a torneira. Respirou fundo e voltou para o quarto. Pegou uma bolsa em cima de uma poltrona que havia ali e sentou na cama despejando todo o conteúdo da bolsa em cima dos lençóis. Havia documentos falsos, uma arma, dinheiro, um aparelho celular e vários chips.
Mia pegou um dos chips e colocou no celular. Depois discou um número e o celular de Sam começou a tocar em cima da mesa da sala principal do bunker onde ele dormia no meio de alguns livros espalhados.
Logo ele acordou um pouco assustado e pegou o aparelho. Franziu a testa diante do número desconhecido, mas resolveu atender. No entanto, antes que ele pudesse dizer "alô", Mia perguntou aflita:
– Onde o Cas está? Ele está bem? Por favor, me diga que ele está bem!
Surpreso, Sam apoiou as costas na cadeira e indagou:
– Mia? É você?
– Sim, sou eu, gênio. — confirmou a garota ainda mais nervosa.
– Onde você está? O que aconteceu? Você está bem? — quis saber ele.
– Sam, eu não tenho muito tempo. Eles estão ouvindo. — disse Mia deixando transparecer certa tensão na voz.
– "Eles" quem? — não entendeu o caçador.
– Eu não posso explicar agora. — respondeu Mia e então refez a pergunta inicial — Onde o Cas está?
– Ele está aqui. Com a gente, no bunker. Ele está bem, Mia. Não se preocupe. — tranquilizou Sam. — Mas o que aconteceu?
Mia respirou aliviada e mudou o celular de lado antes de continuar:
– Por favor, não deixe o Cas sair do bunker. Sob hipótese alguma deixe o Cas sair do bunker, entendeu?
– Sim, entendi. Mas por quê? — questionou Sam e ao deduzir do que se tratava, perguntou — Você teve uma premonição?
– Sim. E ele estava em perigo. — confirmou Mia e depois de uma pausa, prosseguiu — Olha, Sam, eu queria explicar tudo o que aconteceu nos últimos meses e por que eu fui embora, mas eu não posso. Não agora, não é seguro. Por favor, apenas mantenha o Cas no bunker até...
– Até? — quis saber Sam.
– Até vocês terem notícias minhas de novo. — respondeu ela evasivamente com receio de que alguém pudesse estar ouvindo aquela ligação e descobrisse o seu plano. — Eu preciso desligar, Sam. — encerrou ela.
– Mia? Alô? — chamou Sam em vão.
Então ele colocou o celular sobre a mesa e ficou pensando nas coisas que a garota disse.
Instantes depois, Sam ouviu alguns passos e olhou para a porta. Claire surgiu diante dela e entrou na sala. A garota estava com os cabelos soltos e vestia um pijama composto por um short cinza e uma regata bege.
– Desculpe, eu te acordei? — indagou Sam.
Enquanto se aproximava e prendia os longos cabelos em um coque, Claire explicou:
– Não. Na verdade, eu já estava acordada, perdi o sono e não consegui mais dormir. Então eu fui até o seu quarto e como você não estava lá, eu achei que estaria aqui. — e depois de sentar no colo de Sam, ela olhou os livros sobre a mesa e perguntou — Então, descobriu alguma coisa?
Sam ainda estava intrigado com a ligação que tinha recebido e demorou um pouco para voltar a si e responder:
– Não. Infelizmente, eu não encontrei nenhuma forma de mandar o exército da Abaddon de volta para o Inferno. Aparentemente, o exorcismo comum não funciona com eles. E também não encontrei nenhuma forma de matar a Abaddon. Eu quero dizer... Teoricamente os anjos podiam, mas na prática... O Ezekiel perdeu para ela, lembra? Talvez ele acreditasse que podia matar Cavaleiros do Inferno, talvez até Abaddon acreditasse nisso e por isso ela recuou quando o Ezekiel apareceu no hospital em St. Louis, mas... Fazendo esta pesquisa, eu não encontrei nenhuma prova disso, Claire. Ou seja, voltamos à estaca zero e não temos ideia de como derrotar a Abaddon.
– Nós não, mas o Crowley sim. Não foi isso o que ele disse para o Dean ontem? Que existe uma arma capaz de matar aquela desgraçada? — lembrou a garota.
– Foi. Mas ele disse também que só vai colaborar e contar que arma é essa se nós o libertarmos. E isto está fora de cogitação. — explicou Sam.
Claire pensou um pouco e ponderou:
– Não que a ideia de libertar o Crowley me agrade, mas eu acho que nós devíamos pensar melhor na proposta dele e negociar alguns termos. No momento, Abaddon é um problema bem maior do que ele.
– É... Talvez você tenha razão... — respondeu Sam e em seguida voltou a pensar na ligação da Mia.
– Está tudo bem? — estranhou Claire. — Quando eu estava descendo as escadas eu ouvi você falando com alguém no telefone. Aconteceu alguma coisa?
Sem saber como contar aquilo de uma forma mais sútil, Sam revelou de uma vez:
– A Mia ligou. Disse que teve uma visão com o Cas e que é melhor ele não sair do bunker por enquanto. Ela não explicou muita coisa. Disse que não podia, que não era seguro.
– Uma premonição? — repetiu Claire. — Você precisa contar isso para o Cas.
– Eu vou. — garantiu Sam.
– E a Mia? Como ela está? — indagou a garota depois de um momento em silêncio.
– Ela estava nervosa, mas bem na medida do possível. — respondeu Sam.
Claire pensou um pouco e opinou:
– O Cas vai ficar feliz em saber que ela deu notícias.
– Eu não tenho tanta certeza disso. — discordou Sam. — Ele está magoado e não fala sobre a Mia há semanas.
Claire passou os braços em volta do pescoço de Sam, sorriu e disse:
– De qualquer forma, eu só espero que um dia a Mia volte e que ela e o Cas se entendam. Como a gente se entendeu.
– É, eu também. — concordou Sam sorrindo levemente.
Então o Winchester segurou o rosto de Claire com uma das mãos e envolveu os lábios dela com um beijo suave.
Quando se afastaram um pouco, os dois olharam para as suas mãos entrelaçadas e observaram as alianças que usavam. Eles tinham comprado em Topeka com um cartão de crédito falso de Sam.
Em seguida, Claire beijou o pescoço do noivo e sussurrou em seu ouvido:
– Chega de pesquisa por hoje, Sam Winchester. Vamos para o meu quarto.
Ele sorriu e a olhou com carinho antes de responder:
– Só mais alguns minutos e eu já subo. Eu preciso arrumar esta bagunça e falar com o Cas primeiro. Ele tem o direito de saber que a Mia ligou.
– Ok. Eu vou te esperar acordada. Não demora. Eu te amo. — disse ela lhe dando mais um beijo antes de levantar.
– Eu também te amo, Claire. — retribuiu Sam e em seguida a observou deixando a sala.
Então ele suspirou, encostou as costas na cadeira e ficou pensativo por alguns instantes. Pensando em como era incrível ele se sentir tão feliz mesmo com o mundo desmoronando à sua volta. Mesmo com os anjos caídos brigando entre si. Mesmo com o exército de Abaddon à solta e ameaçando exterminar todos os anjos e transformar a Terra em um inferno, mesmo assim Sam estava muito feliz. E ele devia isso à Claire. Porque ela era a única coisa boa no meio daquele fogo cruzado entre anjos e demônios. Ela lhe dava força para prosseguir e para acreditar que no fim tudo acabaria bem.
Sam pensou mais um pouco nessas coisas até que lembrou da ligação da Mia novamente. Então ele levantou, arrumou os livros sobre a mesa e foi até uma das bibliotecas do bunker onde Castiel estava.
– Cas? — chamou o Winchester olhando tudo em volta.
– Eu estou aqui, Sam. — respondeu Castiel saindo detrás de uma prateleira carregando alguns livros.
O anjo usava o seu traje clássico: o sobretudo, uma calça escura, uma camisa branca e uma gravata azul.
Então ele colocou os livros sobre uma mesa onde também havia algumas fotos espalhadas. Eram as fotos da Tábua dos Anjos que a Mia tinha enviado para o Kevin quando foi embora com o artefato original.
Sam observou tudo aquilo por alguns instantes antes de perguntar:
– O que você está fazendo?
– Tentando traduzir isto e ferrar o Metatron já que o nosso profeta parece estar muito ocupado com uma garota em Princeton. — respondeu Castiel.
Sam percebeu que ele estava um pouco mau humorado e hesitou enquanto pensava numa forma de explicar a ausência do Kevin, embora soubesse muito bem que não era isso que estava incomodando Castiel. A verdade era que desde que a Mia foi embora, ele já não era mais o mesmo.
Então Sam respirou fundo e explicou com certo cuidado:
– Cas... O Dean vai ligar para o Kevin mais uma vez e pedir para ele voltar para o bunker, mas... Mesmo não estando aqui, o Kevin olhou as fotos no e-mail que a Mia mandou para ele antes de desaparecer e tentou traduzir. Mas, segundo o que ele mesmo me disse, a Tábua dos Anjos é quase indecifrável. É como se o Metatron quisesse esconder certas coisas até dos profetas.
Enquanto folheava os livros sobre línguas antigas faladas por anjos, Castiel contrapôs:
– O Metatron misturou várias línguas quando escreveu a Tábua dos Anjos. É por isso que ela está dando mais trabalho do que a Tábua dos Leviatãs ou a dos Demônios. De qualquer forma, se eu descobrir quais línguas ele usou exatamente, talvez eu consiga ajudar o Kevin a traduzí-la e assim reverter o feitiço da queda dos anjos. E é isso o que eu estou tentando descobrir neste exato momento... — de repente Castiel parou de falar e olhou para o caçador que parecia um tanto ansioso. — Por acaso, você quer me dizer alguma coisa, Sam?
– Sim, o problema é que eu não sei como contar, muito menos se você vai gostar de ouvir. — explicou ele.
Castiel deixou os livros de lado e pediu:
– Apenas diga, Sam. O que aconteceu?
Após um breve momento de silêncio, o Winchester revelou:
– A Mia ligou.
Por um momento, Sam viu certa confusão no rosto de Castiel. Era como se ele tivesse ficado feliz por ouvir aquilo e então no instante seguinte havia apenas mágoa no seu olhar. E por fim, ele pareceu indiferente, voltou a folhear os livros e indagou secamente:
– E?
– E que ela teve algum tipo de premonição com você. Parece que você estava em perigo. Ela não explicou direito, mas me pediu para não te deixar sair do bunker por enquanto. Até ela ligar de novo ou descobrir o que isso significa exatamente, eu não sei. Não deu para entender muita coisa porque ela estava meio nervosa e disse que não podia explicar. — relatou Sam.
– Então a Mia vai embora com a Tábua dos Anjos, traindo a confiança de todos nós, some por mais de três meses e agora acha que pode me dizer o que eu devo ou não fazer? Eu tinha esquecido de como ela é hilária. — indignou-se Castiel.
– Bem, eu sei que a Mia agiu de uma forma no mínimo estranha e que ela tem muito a nos explicar, mas o fato é que ela estava preocupada com você, Cas. Muito preocupada, eu diria. — argumentou Sam.
– Claro que ela estava. É só isso que ela sabe fazer. Se preocupar comigo. E sabe por quê? Porque a Mia pensa que eu não consigo cuidar de mim mesmo, que eu sou incapaz disso, de sobreviver e de lutar sem a minha graça. Bem... Acontece que ela está errada. Especialmente agora. — contrapôs Castiel.
Sam pensou um pouco e, embora no fundo já soubesse a resposta, perguntou:
– Então você não vai fazer o que a Mia pediu, não é? — e como Castiel não respondeu, Sam fez outra pergunta — O que eu digo se ela ligar de novo?
Castiel parou de mexer nos livros e depois de um momento de silêncio, voltou-se para o Winchester e respondeu:
– Diga que ela não precisa mais se preocupar comigo. Que contrariando todas as expectativas, eu tenho sobrevivido dia após dia e me virado muito bem sem ela. Que ela ficaria surpresa se soubesse de algumas coisas que aconteceram enquanto ela estava por aí fazendo sabe-se lá o quê. Que embora, às vezes, eu pareça meio bobo e ingênuo, eu sempre fui um soldado. E vou continuar sendo. E que, portanto, ficar escondido no bunker não é da minha natureza e não é a minha intenção. Então se surgir algum caso envolvendo anjos ou demônios, eu vou checar. Ela gostando ou não.
– Você quer mesmo que eu diga essas coisas para a Mia? — quis confirmar Sam.
– Sim, com certeza. — afirmou Castiel tranquilamente. — É a verdade, não é? E a Mia sempre me cobrava isso. Que eu fosse honesto com ela. Então é isso que você vai dizer se ela ligar de novo, Sam. A verdade. Acredite, vai fazer bem para a Mia. Quem sabe ela se lembre como é isso? Dizer a verdade e ser honesta também.
Sam observou o amigo por algum tempo até que ele voltou a folhear os livros sobre a mesa. Então o Winchester encerrou:
– Ok, você que sabe, Cas. Só que mesmo assim, eu me vejo na obrigação de te pedir para tomar cuidado. Porque apesar de tudo que você disse e das coisas que aconteceram nos últimos dias, as premonições da Mia geralmente se concretizam. Então, se cuida, tudo bem?
Então o Winchester começou a sair da sala.
– Sam. — chamou Castiel o fazendo voltar. E após relutar em perguntar aquilo, ele respirou fundo e disse de uma vez — Ela está bem? Eu entendi que ela não explicou muita coisa, mas como a Mia parecia estar?
Sam sorriu levemente e respondeu:
– Elétrica, como sempre. — e depois de uma breve pausa, completou — Ela parecia bem, Cas. Não se preocupe. Boa noite.
Então Sam saiu da sala, deixando Castiel sozinho com os seus pensamentos. E então ele se deu conta de que apesar da mágoa que sentia em relação à Mia, uma parte dele tinha ficado feliz por ela ter dado algum sinal de vida.
Enquanto pensava nisso, um rádio antigo em cima da mesa sintonizava um canal de comunicação da polícia. E o relato de um policial chamou a atenção de Castiel e ele parou de pensar em Mia.
O policial relatava para a central que uma chacina tinha acontecido em Pittsburg. O que mais chamou a atenção de Castiel foi a descrição das mortes das dez vítimas: todas tinham os olhos queimados nas órbitas.
– Anjos... — murmurou Castiel.
Não era a primeira vez que ele ouvia algo assim. Aliás, nos últimos meses, esse tipo de incidente estava acontecendo com frequência. Às vezes, eram anjos matando outros anjos, e em outras vezes, Castiel se deparou com sinais de enxofre nas cenas dos crimes. O que mostrava que o exército de Abaddon tinha começado a agir.
Diante da importância daquele caso, Castiel olhou para os livros sobre a mesa e decidiu trabalhar na tradução da Tábua dos Anjos depois. Talvez esperar o Kevin voltar para o bunker.
Castiel também pensou em falar com os Winchesters antes de sair, já que aquele caso deveria ser importante para eles também. Mas os irmãos estavam tão felizes porque Claire e Natalie estavam com eles de novo, que Castiel decidiu dar um tempo para eles. Além disso, ficando no bunker, eles poderiam continuar a pesquisa sobre a tal arma capaz de matar Abaddon. Talvez conseguir arrancar alguma informação do Crowley.
Então, Castiel decidiu que checaria o caso primeiro e se descobrisse algo relevante avisaria os Winchesters. Do contrário, ele voltaria dentro de poucos dias e aquele teria sido apenas mais um caso sem qualquer pista.
Momentos depois, Castiel deixou um bilhete sobre a mesa explicando o que havia acontecido e saiu do bunker ao mesmo tempo em que Mia deixava o hotel no Colorado e entrava no Mustang no estacionamento.
Ela se olhou pelo retrovisor por alguns instantes e algo em seu pescoço chamou a sua atenção. Então Mia segurou o colar entre os dedos e leu o que estava gravado no pingente: Miastiel Forever.
Sorriu levemente apesar de estar muito preocupada por causa da premonição que teve. Em seguida, escondeu o pingente dentro da blusa, abriu uma garrafa térmica que mantinha dentro de uma mochila no banco ao lado e tomou alguns goles de café.
E só então ela começou a dirigir.
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