Crossfire

45 Embaixo das asas de um anjo


Notas iniciais
Ai Pri que título mais emblemático... Pois é, pois é, pois é. Gente, tô meio chateada... Recebi uma advertência do Nyah porque a fic estava com a classificação errada. Na verdade, eu ia mudar para +18 quando fosse postar os próximos dois capítulos, que vão mostrar a lua de mel do povo e que ficou bem hot, mas antes disso o Nyah foi lá e pimba! Sei que eu que errei e eles estão certos em me advertir, mas sabe quando você fica se sentindo o cocô do cavalo do bandido? Tô assim. Tipo quando o professor da escola chamava a minha atenção por ficar cantarolando na sala de aula (sim eu cantarolava). Você é a errada da história, mas você fica extremamente sem graça por ter sido tão estúpida. Enfim. Lá vai o capítulo de hoje... PS: Banner feito pela Miss Queen. A Mia é a Erica Durance, que é a minha diva master.

A viagem de volta ao bunker seguia silenciosa. Mia permaneceu com os olhos fechados na maior parte do tempo. Quando ela os abria, era apenas para olhar a paisagem pela janela ou então para observar Castiel discretamente pelo retrovisor.

O anjo, por sua vez, manteve os seus olhos fixos na estrada o tempo todo, com uma expressão vazia que escondia a confusão de sentimentos que o atormentavam por dentro. Castiel não sabia se estava com raiva de Mia, decepcionado com ela ou as duas coisas. Só o que ele sabia era que não queria falar com a caçadora naquele momento.

Assim que eles estacionaram em frente ao bunker, Mia parou de fingir que estava cochilando e abriu os olhos. Os dois ficaram em silêncio por um bom tempo até que o ruído da porta, ao lado de Castiel, se abrindo fez Mia engolir o nó que se formava em sua garganta.

Ele bateu a porta ao sair do veículo e caminhou até o bunker sem olhar para trás, deixando bem claro que a gentileza e a educação, que demonstrou quando se ofereceu para dirigir, tinham acabado ali.

Devagar, Mia tirou o cinto de segurança e desceu em seguida. Fechou a porta do Mustang com cuidado e se apoiou no veículo quando se sentiu um pouco tonta. Para piorar, aquela maldita enxaqueca se tornava insuportável a cada segundo. Nem os cinco analgésicos que ela tomou durante a festa, sem que ninguém visse, estavam adiantando. Na verdade, parecia que eles tinham agravado a situação. Talvez porque além dos remédios, Mia bebeu um pouco demais e misturar álcool com analgésicos nunca é um bom negócio.

O barulho de um carro se aproximando fez a caçadora parar de pensar naquela dor por alguns instantes e olhar na direção de onde o som do motor parecia vir. A luz dos faróis do carro de Garth fez Mia fechar os olhos e proteger o rosto com as mãos instintivamente. Claridade e enxaqueca são inimigas mortais. Mia teve a prova disso naquele momento.

Aos poucos, aquela sensação horrível foi passando e ela abriu os olhos devagar. Mas evitou olhar diretamente para os faróis do veículo. Mesmo assim, conseguiu reconhecer Kevin e Chloe saindo dele e Garth dando partida logo depois.

Como Mia estava mais afastada e num canto mais escuro com o carro já desligado, ninguém percebeu que ela estava ali. Então Garth foi embora e o casal entrou no bunker.

Mia ficou mais alguns instantes naquele lugar, esperando a tontura passar um pouco, e só então caminhou até a entrada. Devagar. Sem qualquer ânimo e ainda se sentindo meio estranha.

Quando entrou na sala principal, ela olhou tudo em volta, mas não encontrou Castiel. Começou a subir a escada e era como se cada degrau exigisse um esforço que o seu corpo não estava conseguindo reunir. Quando estava quase no topo, ela parou e olhou para baixo. Não entendia por que, mas a sala estava girando. Sentiu sua mão escorregar do corrimão, mas alguém segurou em seu pulso, a fazendo voltar a se equilibrar nas próprias pernas.

– Ei, Mia! Você está bem? — indagou Kevin fazendo a caçadora voltar a olhar para frente, na sua direção.

Ele a olhou preocupado, mas ao perceber que a caçadora estava mais segura, a soltou devagar. Em seguida, Mia segurou no corrimão novamente e fingindo naturalidade respondeu:

– Sim, eu estou ótima. Por quê?

Kevin olhou bem para ela e respondeu desconfiado:

– Porque eu tive a impressão de que você ia cair da escada. Além disso, você está meio pálida. Tem certeza que está tudo bem?

– Sim, tudo perfeito. — mentiu Mia. — Eu só estou um pouco cansada. Eu vou tomar um banho e dormir. Com certeza, vou acordar melhor. É só... Efeito do álcool.

Kevin a observou ainda preocupado, mas por fim achou melhor não discutir aquilo e disse:

– Tudo bem. E eu vou para a cozinha preparar alguma coisa para mim e para a Chloe. Nós quase não vamos dormir esta noite.

– Humm... Não me diga... — murmurou Mia um tanto surpresa e até conseguindo sorrir de uma forma maliciosa, apesar da tristeza e do mal estar que sentia.

– Eu quis dizer que nós vamos dormir pouco porque vamos fazer as malas, e a Chloe quer aproveitar e me inscrever em Princeton pelo site da universidade. Então eu vou preparar um lanche para a gente. Só isso. — esclareceu o profeta.

– Então vocês vão mesmo? Voltar para Princeton? — quis confirmar Mia.

– Você já sabia? — surpreendeu-se Kevin que por um instante pensou que o que estava contando era uma novidade para a caçadora.

Logo ela explicou:

– A Chloe comentou algo comigo esses dias. E ao ver vocês dois tão entrosados na festa, eu deduzi que ela já tinha tocado no assunto e que você tinha tomado a sua decisão.

Kevin ficou em silêncio por algum tempo, pensando em uma coisa que ainda o incomodava e então resolveu dizer:

– Mia, eu só quero que vocês todos saibam que eu não estou abandonando vocês, nem as minhas obrigações como profeta. Eu vou, mas a qualquer momento, eu posso voltar. Eu vou voltar.

– Nós sabemos disso, Kev. Não se preocupe. — tranquilizou ela e em seguida acrescentou — E eu quero que você saiba que eu estou muito feliz por vocês dois. De verdade.

– Obrigado. — agradeceu ele e depois de um momento em silêncio, observando Mia e lembrando de algo que aconteceu na festa e que todo mundo percebeu, ele decidiu tocar no assunto com certo cuidado — Mia... Vocês vão se entender. Eu tenho certeza.

Ao deduzir do que o profeta estava falando, a garota desmanchou o leve sorriso que mantinha até então e desconversou:

– Sem ofensa, mas esse é aquele momento em que eu saio pela tangente e vou tomar o meu banho de uma hora. Então, com licença.

Mia terminou de subir os degraus que faltavam e desta vez não teve muita dificuldade. A vontade de sair dali, e evitar uma conversa sobre um assunto que ela não queria discutir naquele momento, lhe deu força e equilíbrio para chegar ao topo da escada. Mas a caçadora parou de novo quando ouviu Kevin dizer:

– Eu vou sentir a sua falta. — e quando ela olhou para ele, o profeta completou — Apesar de você ser muito indiscreta, maluca e elétrica, eu vou sentir a sua falta, Mia.

Ela voltou a sorrir ao ouvir aquilo e retribuiu:

– Eu também vou sentir a sua falta, Kevin. Apesar de você ser meio chato e paranóico.

– Obrigado. — agradeceu ele com ironia.

– Não por isso. — respondeu Mia tranquilamente antes de seguir pelo corredor enquanto Kevin descia a escada.

Quando entrou no quarto, Mia percebeu que se sentia um pouco melhor. E teve certeza de que depois de um bom banho, se sentiria ainda mais. Então colocou a bolsa sobre a cômoda e tirou os sapatos em pé mesmo enquanto observava a poltrona vazia no quarto.

E então foi automático. Mia voltou a sentir aquela dor. Não só a física, mas também aquela dor que dilacerava o seu peito quando ela lembrava que tinha ferido os sentimentos de Castiel.

Depois de ficar algum tempo olhando para a poltrona, ela abriu uma gaveta da cômoda e pegou uma toalha. Depois saiu do quarto e foi até o banheiro. Despiu-se lentamente, enquanto sentia os seus olhos arderem e ficarem mais úmidos à medida que aquele nó voltava a crescer em sua garganta.

Entrou no box, ligou o chuveiro e deixou a água quente escorrer pelo seu corpo. Fechou os olhos e sentiu a primeira lágrima escorrer pelo seu rosto, se misturando com a água do banho. Sentiu-se aliviada por finalmente poder chorar. Sem que ninguém a visse, sem que ninguém a questionasse, sem que ninguém a lembrasse de como ela era estúpida.

Depois do banho, Mia se enrolou na toalha, foi até o quarto e vestiu um pijama composto por um short azul escuro e uma blusinha cinza que ficava bem solta no corpo. Se enfiou embaixo do cobertor, depois de tomar mais um analgésico, e se encolheu um pouco tentando achar uma posição confortável. Olhou para o relógio em cima do criado-mudo. Era meia noite.

Mia fechou os olhos e se obrigou a dormir um pouco. Surpreendentemente, ela conseguiu. Apagou.

XXX

– Mia? — chamou uma voz muito familiar para a caçadora. — Mia? — repetiu Castiel.

O anjo a chamou mais algumas vezes até que finalmente ela pareceu acordar daquele transe e olhou em volta com a visão um pouco embaçada. Mesmo assim, Mia reconheceu aquela sala do bunker. As estantes dispostas pelo cômodo. Os incontáveis livros organizados em suas prateleiras. Castiel atrás de uma das mesas, olhando para ela.

Aos poucos a visão de Mia se normalizou e ela olhou para um relógio na parede. Ele indicava que era uma e meia da madrugada.

– O que você está fazendo aí? — perguntou Castiel visivelmente confuso enquanto observava Mia parada perto da porta.

– O quê...? — balbuciou ela também sem entender.

– Eu ouvi passos e quando vi você estava aí, imóvel, olhando para lugar nenhum. — contou o anjo.

– Como em Atividade Paranormal? — indagou Mia depois de pensar um pouco e ainda mais confusa

– O quê? — não entendeu Castiel.

– Esquece. — desconversou ela enquanto tentava se lembrar de como tinha chegado naquela sala. A última coisa que a caçadora lembrava era de estar na cama, quase dormindo. — É melhor eu vou voltar para o quarto. — anunciou ela se preparando para se virar.

– Espera. — pediu Castiel e ela parou. Em seguida, o anjo deu a volta na mesa e se aproximou da garota. — Mia, como você veio parar aqui?

– Eu não tenho ideia. — admitiu ela assustada com tudo aquilo.

– Você é sonâmbula? — questionou o anjo.

– Não que eu saiba. — respondeu a garota.

– Mia... Por favor, me diga o que está acontecendo? — insistiu Castiel transparecendo certa preocupação.

– Eu não sei. — rebateu a garota, um tanto irritada com tantas perguntas e com o fato de não ter nenhuma resposta.

– Mas você está bem, não está? — perguntou o anjo de uma forma inocente e soando mais preocupado do que ele gostaria.

Mia pensou um pouco como se olhasse para dentro de si mesma. E dando-se conta de algo surpreendente, ela respondeu convicta:

– A minha cabeça não está mais doendo. É... Eu me sinto bem. Muito bem.

– Tem certeza? — quis certificar-se o anjo. — Porque o Kevin disse que você passou mal. E eu notei que você estava um pouco febril.

– Espera. Como assim você notou que eu estava febril? — questionou Mia, à princípio sem entender mesmo por que Castiel disse aquilo, mas aos poucos deduzindo como ele sabia. — Você foi me ver? No quarto? — indagou Mia sem conseguir disfarçar que tinha ficado feliz em saber disso, enquanto Castiel se arrependia por ter deixado aquele detalhe escapar.

Por fim, ele resolveu admitir:

– Fui.

– E por que você não me acordou? — perguntou a caçadora, as palavras simplesmente saindo da sua boca.

– Por que eu te acordaria? — rebateu Castiel calmamente sem entender aonde Mia queria chegar com aquela pergunta.

– Eu não sei... Por que você não me acordaria? — insistiu Mia deixando-se levar por uma pontinha de esperança de se entender com Castiel e esquecer o que aconteceu na festa.

Ele suspirou sem acreditar que ela estava mesmo fazendo aquilo e resolveu lembrá-la de um pequeno detalhe:

– Talvez porque você não queira se casar comigo.

– Eu não disse que eu não quero. Eu disse que eu não posso. — esclareceu ela. Mas ao perceber que o anjo estava insatisfeito com aquela resposta, Mia achou que como ela já estava ali mesmo, e já que o assunto tinha surgido, aquele podia ser um bom momento para continuar a difícil conversa da sacristia. Então tomou coragem e prosseguiu — Cas, pra quê casar? Está bom assim. Em time que está ganhando não se mexe.

– Tão romântica. — refletiu ele com ironia, deixando claro que se Mia ia usar aquele tipo de argumento, ele não achava uma boa ideia continuar a difícil conversa da sacristia. — Que bom que você está bem. Que melhorou. — acrescentou mostrando que a conversa estava encerrada.

Então Castiel se virou e começou a caminhar na direção da mesa, disposto a continuar o que estava fazendo antes de Mia aparecer ali: pesquisar e encontrar alguma forma de rastrear Metatron.

Sentindo-se mais estúpida do que nunca, Mia se virou para deixar a sala. Mas então, algo aconteceu e Castiel parou no meio do caminho. Voltou a olhar para a caçadora.

Tomada por uma nova e forte dor de cabeça e por uma vertigem desconcertante, Mia tinha esbarrado em uma cadeira perto da porta e se apoiou nela com uma das mãos para não cair. Levou a outra mão ao rosto enquanto seus olhos pareciam querer lhe mostrar algo.

– Mia! — exclamou Castiel se aproximando rapidamente e segurando nas costas dela ao perceber que a garota estava com certa dificuldade para se equilibrar. — Mia, fala comigo! O que está acontecendo? O que você está sentindo? — preocupou-se ele.

– Eu estou vendo uma coisa... — respondeu ela com um gemido de dor enquanto tentava conter aquele mal estar e se concentrar no que estava vendo, bem diante dos seus olhos, como um filme.

Castiel lembrou que no passado, além dos pesadelos, Mia começou a ter visões quando estava acordada. Toda aquela sensibilidade sobrenatural tinha ficado adormecida quando ela virou vampira, mas agora, meses depois dela ter se curado do vampirismo, os seus dons estavam voltando.

Ainda mais preocupado, Castiel passou um braço em volta dos ombros de Mia, a trazendo para perto dele, e questionou:

– O quê? O que você está vendo?! Mia, fala comigo...

A caçadora não respondeu. Precisava entender primeiro o que tinha acabado de ver. Tinha sido tão real que era como se ela ainda estivesse lá. Aos poucos, Mia foi se acalmando. Seus batimentos cardíacos, que tinham disparado enquanto ela tinha aquela visão, se normalizaram, e a sua respiração também tornou-se mais calma e ritmada.

Castiel diminuiu a pressão no braço da garota, que tinha segurado com força sem perceber. Seus olhos, no entanto, ainda percorriam o rosto dela, preocupado, tenso, aguardando respostas.

Finalmente, ela olhou para o anjo e conseguiu dizer:

– Eu vi demônios. Centenas deles... Em forma de fumaça. Uma fumaça vermelha. Cas... Eu acho que era o Exército de Abaddon.

– O que mais? O que mais você viu? — interessou-se ele.

Mia pensou um pouco, tentando lembrar de cada detalhe da rápida visão que teve e depois contou:

– Eles estavam cortando o céu... Em alta velocidade. Vindo de toda a parte. Se aproximando de um lugar que parecia... Parecia um tipo de mosteiro, um convento abandonado... Eu não sei. — Mia levou a mão à cabeça sentindo suas têmporas pulsarem doloridas e anunciou — Eu não sei o que isso significa, Cas, mas eu preciso voltar para o meu quarto. Eu estou exausta.

– Eu te levo até lá. — disse o anjo, soando como uma afirmação e não como uma oferta.

Mia ainda sentia-se um pouco tonta e resolveu aceitar a ajuda. Segurou em um dos braços dele, se apoiando para não cair, pensando que seria assim que Castiel a levaria até o andar de cima. Mas então, para sua surpresa, o anjo passou um dos braços dela em volta do pescoço dele e, com um impulso rápido e preciso, a segurou no colo.

Instintivamente, Mia entrelaçou o outro braço no pescoço de Castiel, enquanto um dos braços dele dava apoio para as suas costas e a mão se fixava em seu ombro desnudo. O outro braço de Castiel se mantinha firme na parte detrás dos joelhos flexionados da garota, fazendo aquela mão ficar em contato direto com a pele do joelho esquerdo de Mia.

Por um instante, a enxaqueca e a tontura, que Mia ainda sentia, passaram e ela sentiu o seu coração acelerar. Mas desta vez não foi por causa daquela visão intensa que teve com o Exército de Abaddon. O seu coração acelerou porque Castiel estava ali. Bem próximo do rosto dela. Seus olhares se cruzando de uma forma um tanto embaraçosa e íntima.

Mia não gostava de ficar muito tempo em silêncio. A viagem até o bunker tinha sido uma verdadeira tortura neste ponto. No entanto, naquele caso, ela sentia que poderia ficar assim para sempre. Em silêncio. Apenas contemplando aquele rosto e aquele olhar profundo. Um olhar de quem tinha visto todas as suas defesas virem abaixo. Um olhar que mostrava que Castiel estava realmente preocupado com ela, mas que também denunciava que ele tinha sentido algo bem mais forte do que preocupação com aquela súbita aproximação entre eles.

Por fim, Mia disfarçou um sorriso, fechou os olhos e apoiou a cabeça no ombro de Castiel esperando que ele a levasse para o quarto. Seu coração acelerou de novo quando ele deu o primeiro passo.

Logo eles saíram daquele ambiente e passaram pela sala principal. Aproximaram-se da escada. Antes de pisar no primeiro degrau, Castiel olhou discretamente para o rosto de Mia. Ela mantinha os olhos fechados e se aninhava ainda mais nos braços dele, como se estivesse com medo de cair, embora o anjo a segurasse firmemente.

Ela se encolheu mais um pouco e seu rosto ficou colado ao pescoço de Castiel, onde ela podia não só sentir o cheiro bom que ele exalava, como também sentia o calor do corpo dele envolvendo-a pouco a pouco. Era como estar embaixo das asas de um anjo, com a diferença de que aquele exemplar tinha perdido as suas há alguns meses.

Castiel voltou-se para frente e por fim começou a subir a escada. Mia queria que aquele momento durasse para sempre, mas infelizmente quando ela menos esperava, os dois já estavam diante da porta do quarto. Ela não tinha visto o percurso, mas conhecia bem o caminho. Eles entraram no cômodo iluminado apenas pela luz fraca do abajur. Com cuidado, Castiel colocou Mia sobre a cama, mas não se afastou completamente dela. Só então a garota abriu os olhos.

Com o rosto bem próximo ao dele, Mia agradeceu:

– Obrigada.

Castiel não respondeu, apenas a encarou por alguns instantes antes de se afastar um pouco. Arrumou o cobertor sobre ela, deixando apenas uma parte dos braços da garota e seu rosto descobertos.

Quando Castiel começou a se afastar, Mia entendeu que o segundo momento de gentileza daquela noite tinha acabado ali. A sensação agradável de estar nos braços do anjo deu lugar a um enorme vazio, que crescia ainda mais à medida que ele dava mais passos na direção da porta.

Porém, quando ele parou de caminhar, Mia sentiu o seu coração acelerar mais uma vez. Hesitante, ele se virou e perguntou sem jeito:

– Você... Você se incomoda se eu ficar aqui mais um pouco?

Mia precisou de alguns segundos para digerir aquela pergunta. Castiel estava mesmo perguntando aquilo? Ele tinha alguma dúvida de que era exatamente isso que ela queria? Que ele ficasse ali?

– Será um prazer. — respondeu Mia por fim.

Castiel sentiu um tom muito sensual naquela resposta e não conteve um meio sorriso. Mas em seguida, esclareceu:

– Eu vou ficar na poltrona. E só até você dormir.

– Claro. — assentiu Mia. Mas quando ele se aproximou e sentou no estofado, a garota não resistiu e decidiu arriscar — Mas se você quiser ficar mais perto...

Castiel soltou um suspiro e balançou a cabeça negativamente antes de dizer:

– Você é inacreditável, Mia.

– Sem segundas intenções. Eu juro. — esclareceu a caçadora prontamente.

E Mia estava sendo sincera, afinal mesmo que Castiel tivesse lhe dado abertura para fazer as pazes, ela não sabia se estava em condições de gastar energia naquele momento, quando ainda sentia-se meio fraca e um tanto vulnerável. Só o que Mia queria era ficar nos braços dele. A sensação reconfortante que aquela proximidade lhe causava era mais do que suficiente para deixá-la feliz. Pelo menos, por hora.

E apesar de magoado, a ideia de ficar mais próximo de Mia de novo, também agradava Castiel. Se ela gostava de se sentir protegida, ele gostava de ser protetor. Gostava de sentir que tinha este poder, de proteger Mia, de fazê-la se sentir melhor, mais segura em seus braços, gostava de acreditar que enquanto estivesse ao lado dela, nada de ruim aconteceria à garota.

Pensando nisso, e para surpresa de Mia, Castiel levantou da poltrona e se aproximou da cama. Num gesto rápido e ainda demonstrando certa surpresa, ela se afastou um pouco dando lugar para ele deitar ao seu lado. E foi o que Castiel fez.

Mia ficou olhando para ele sem se mexer nem piscar, como se ainda não acreditasse que o anjo tinha mesmo concordado com aquilo. O único músculo do corpo de Mia que se mexia era o seu coração. Num ritmo tão frenético que ela se perguntava se Castiel não estaria ouvindo os seus batimentos descompassados naquele exato momento.

Como os dois ainda estavam distantes na cama, e já que tinha tido sucesso até ali, Mia resolveu arriscar de novo:

– Será que eu posso... Me aproximar um pouco?

Desta vez, Castiel hesitou. Mas por fim, acabou se convencendo de que também era exatamente o que ele queria. Ter Mia mais perto dele.

Então o anjo ergueu o braço que estava mais próximo da garota e, sem pensar duas vezes, ela se aproximou e se aconchegou em seu peito, sentindo que Castiel abaixava aquele braço pouco a pouco em volta dela. Por fim, a mão dele repousou no ombro de Mia, como havia acontecido quando ele a pegou no colo momentos antes. Aquele simples toque já deixou Mia mais disposta, mais viva.

Ela suspirou profundamente e agradeceu:

– Obrigada.

– De nada. — respondeu Castiel instintivamente.

Foi inevitável. Os dois riram ao ouvirem uma certa palavra e esqueceram, pelo menos por alguns instantes, o que aconteceu durante a festa. Mia ainda ria quando protestou:

– Ei! Eu estou tentando me comportar. Colabora...

– Desculpe. — pediu o anjo e aos poucos os dois voltaram a ficar sérios, porém mais relaxados.

Aproveitando que a mágoa entre eles parecia ter se dissipado um pouco, Mia escondeu o seu rosto no pescoço de Castiel e, achando que ele não perceberia, deixou seus lábios tocarem suavemente a pele daquela região. Abriu um pouco mais a boca e o beijou ali.

Apesar de ter gostado do arrepio que sentiu, Castiel retomou o controle e pediu:

– Mia, para com isso.

Como resposta, a garota deixou seu rosto deslizar mais para cima e seus lábios roçaram a orelha de Castiel. Novo arrepio. Ele fechou os olhos enquanto sentia uma das mãos de Mia sobre o seu peito, o acariciando suavemente por cima das camadas de roupa.

Mia não sabia ao certo o que estava fazendo. Não queria se aproveitar da situação e estragar tudo, e sabia muito bem que tinha magoado Castiel. Mas ao mesmo tempo, o que sentia por ele parecia tão mais importante, tão maior do que qualquer desentendimento entre eles.

Além disso, ficar perto dele era tão bom. Sentia-se tão bem por Castiel estar ao seu lado que só queria retribuir de alguma forma. Fazendo ele se sentir tão bem quanto ela. Beijou o pescoço dele novamente, sentindo o corpo do anjo estremecer diante do seu toque.

– Pelo visto você já está melhor, não é? — deduziu Castiel seriamente, fazendo Mia parar com aquelas carícias e se afastar um pouco.

Ela pensou por alguns instantes, flexionou o braço e apoiou a cabeça com a mão antes de abrir o seu coração:

– Só porque você está aqui. Aliás, vai ver que foi por isso que o meu súbito ataque de sonambulismo me levou até aquela sala. Exatamente onde você estava. Porque você me faz bem, Cas. Porque eu me sinto melhor quando estou perto de você.

Castiel pensou um pouco e questionou:

– Mas isso não parece ser o suficiente para fazer você se casar comigo, não é mesmo?

– Cas... — começou a dizer a garota sentindo-se desconfortável ao lembrar daquele assunto.

– Mia. — interrompeu ele seriamente só para que ela prestasse atenção no que ele diria a seguir, de uma forma mais gentil — Está tudo bem. Eu não vou te pressionar. Um passo de cada vez, lembra? Mas eu quero que você saiba que o meu pedido ainda está de pé. Quando você quiser, quando você estiver pronta... Eu estarei aqui.

Se aquilo não fosse tão ridículo e inviável, Mia colocaria Castiel em seu colo naquele exato momento. Ela se sentiu mais aliviada ao ouvir ele dizer aquilo e percebeu que precisava ceder um pouco também. Então Mia pensou um pouco e resolveu retribuir:

– E eu prometo que vou pensar e tentar me acostumar com a ideia de me casar. Eu prometo que vou pensar com carinho, Cas. Eu juro.

Mia percebeu que o rosto do anjo se iluminou ao ouvir aquilo. E talvez por isso, ele se sentiu mais a vontade para confessar:

– Eu não consigo ficar com raiva de você. Pelo menos, não por muito tempo.

– Que sorte a minha. — refletiu Mia sem conseguir conter um sorriso bobo que se formou no seu rosto.

Castiel sorriu de volta e instintivamente segurou a mão de Mia que ainda estava sobre o peito dele. Ela olhou para aquele gesto e deixou que seus dedos fossem entrelaçados aos poucos pelos dedos daquela mão firme e quente. Os dois foram ficando mais sérios e voltaram a se olhar nos olhos.

Sem dizer nada, nada mesmo, Mia se aproximou um pouco e deitou a cabeça no ombro de Castiel. Ele se mexeu a acomodando melhor em seus braços de uma forma que pudesse olhar continuamente para o rosto dela.

– Sabe... — recomeçou Mia depois de mais algum tempo em silêncio e olhando fixamente para aqueles olhos azuis e expressivos que tanto amava. — Eu sei que eu disse "sem segundas intenções", mas... Será que... Nós podemos... Pelo menos...

Mia parou de falar quando Castiel tocou o seu rosto carinhosamente com uma das mãos, lhe causando um tremor involuntário. Um tremor incrivelmente bom e um arrepio que percorreu o seu corpo, deixando uma sensação agradável.

Ela permaneceu imóvel sentindo os dedos dele colocarem uma mecha de cabelo atrás da sua orelha e depois voltarem para o seu rosto. Sentiu o polegar de Castiel deslizar até os seus lábios e percorrê-los suavemente. Fechou os olhos quando percebeu que ele ia se aproximar e assim, de olhos fechados, procurou por sua nuca que segurou com muito carinho.

Castiel segurou o rosto da caçadora e seus lábios se uniram calmamente. Se abriram devagar. Se envolveram aos poucos. Suas línguas se encontraram e o beijo tornou-se mais profundo e intenso, fazendo os dois se aproximarem mais um pouco um do outro.

Mia sentiu-se profundamente bem e feliz. Aquilo podia não ser a reconciliação ideal, mas era um passo e tanto. Era muito bom saber que apesar de ter sido muito estúpida com ele, Castiel ainda a amava, não conseguia ficar com raiva dela e estava disposto a esperar o tempo que fosse até que ela deixasse de ser tão estúpida.

Pensando nisso, Mia o beijou de uma forma mais ardente e impetuosa enquanto os seus dedos se emaranhavam no cabelo de Castiel e o seu corpo se aproximava ainda mais do dele. Mia estava praticamente em cima de Castiel, que correspondia ao seu beijo, acompanhando os movimentos lascivos de sua língua, enquanto abraçava a garota contra o seu corpo.

Em dado momento, ela diminuiu o ritmo e se afastou um pouco. Suspirou profundamente e agradeceu sem fôlego:

– Obrigada.

– Disponha. — respondeu Castiel soando um tanto provocativo e ainda atordoado pelo efeito daquele beijo.

– Ah... Eu vou dispor. Mas amanhã. Por hoje eu só quero ficar assim, quieta, nos seus braços. Sem fazer nada. Nada mesmo. — expôs Mia com uma expressão serena.

– Então vem cá. — pediu Castiel trazendo Mia para perto dele mais uma vez e fazendo ela repousar a cabeça em seu peito de novo.

O anjo a abraçou mais forte e Mia fechou os olhos sentindo uma paz indescritível por ter se acertado com ele. Não do jeito que Castiel queria, mas diante de tudo o que aconteceu, aquilo era um ótimo começo para selar a paz de uma vez entre eles.

Castiel também se sentia melhor por ter decidido respeitar o tempo de Mia e não pressioná-la. Ele não ia desistir da ideia de se casar com ela, mas percebeu que precisava ser mais paciente e compreensível.

Mas apesar de mais tranquilo e feliz, no fundo, o anjo ainda estava preocupado. Preocupado com o que o sangue do Crowley estava fazendo com Mia e também com a visão que ela teve momentos antes. Com o que aquela visão poderia significar...

Mia tentava não pensar nessas coisas e apenas se aconchegou mais um pouco no corpo de Castiel. E então, aos poucos, ela adormeceu.

Notas finais
Gostaram? Com este capítulo, eu quis me redimir um pouquinho pelo anterior, pela Mia não ter aceitado o pedido de casamento e entrado em crise com o seu muchacho angelical. Como vimos, os coelhos não conseguem ficar brigados por muito tempo, então aguardem e confiem porque aos pouquinhos as coisas vão se ajeitar. Ah! Nem adianta me perguntarem o que está acontecendo com a Mia porque as respostas virão no momento certo. Mas, para adiantar, a moçoila está sofrendo e sofrerá algumas mudanças por causa do sangue do Crowley. E sobre a visão que ela teve com o exército de Abaddon, aguardem os acontecimentos finais da fic... Onde veremos este exército ao vivo e a cores. Oi? Mas não se preocupem com isso agora. Mesmo porque os próximos dois capítulos (que eu estou pensando em postar no finde, desde que vocês sejam bem boazinhas e me deixem reviews bem meigas) serão bem românticos e salientes. Lua de mel Deanalie, lua de mel Clammy... Sacomé né? Por hoje fico por aqui... Ainda me sentindo o cocô do cavalo do bandido, mas tudo bem. Uma hora passa.