Crossfire
26 Aquela coisa
Notas iniciais
Quando soube que Sam e Dean tinham libertado Crowley, Mia ficou profundamente decepcionada. Não com os Winchester, porque ela entendia que eles não tiveram muita escolha, já que o mais importante no momento era matar Abaddon, e Crowley era o único que sabia como.
Mia estava chateada mesmo era com a situação em si. Com o fato de Crowley ter encontrado um jeito de dar a volta por cima e sair pela tangente como ele costumava fazer.
A verdade é que como o demônio estava preso há meses no bunker, Mia tinha acreditado que desta vez seria diferente. Que desta vez Crowley estava acabado. Infelizmente, ela se enganou. Todos se enganaram.
Apesar de ter tido um papel importante na cura do seu vampirismo, Mia continuava vendo Crowley como o demônio responsável pela morte dos seus pais e por 90% das coisas ruins que lhe aconteceram. Os outros 10% ela atribuía à sua falta de sorte mesmo.
Sem alternativa e com o passar dos dias, Mia acabou se conformando com o fato de que Crowley era um demônio livre, resolveu se concentrar na organização dos casamentos e manter a cabeça bem ocupada.
No fundo, Mia ainda tinha esperança de que um dia ela poderia acertar as contas com o demônio de uma vez por todas. Poderia demorar meses ou anos, mas ela sabia que este dia chegaria.
XXX
Bobby estava sentado em um banco de madeira branco, olhando para o infinito horizonte à sua frente, preso, assim como os outros fantasmas, naquela dimensão desconhecida que separava o Céu e a Terra. Era para lá que todos os espíritos estavam indo desde que Metatron fez o feitiço que causou a queda dos anjos e fechou o Céu completamente.
Desde então, não existia mais nenhum pedaço de paraíso para as almas. Apenas aquela imensidão infinita semelhante a um jardim. Um lugar isolado, uma espécie de véu sobrenatural por onde era possível ouvir e, em alguns momentos e com a concentração certa, até ver o que se passava na Terra.
E era isso que Bobby tentava fazer naquele exato momento. Ver o que se passava do outro lado. E às vezes, para ver, tudo o que nós precisamos fazer é fechar os olhos. E foi o que Bobby fez.
Em seguida, ele pensou em Dean. Logo conseguiu ver, não com muita nitidez, que o Winchester estava na cozinha do bunker, aparentemente dividindo uma torta com uma caçadora com quem Bobby trabalhou uma vez: Natalie Jones.
Ela estava sentada no colo de Dean e entre um pedaço de torta e outro, os dois trocavam alguns selinhos demorados.
Depois de meses observando o que acontecia na Terra, mais especificamente com os Winchester, Bobby já sabia que Dean e Natalie estavam juntos, assim como Sam e a sua filha Claire, que ele lamentava profundamente não ter conhecido quando era vivo.
Ao lembrar deles, o pensamento de Bobby se direcionou para uma das salas do bunker. Então ele pôde ver que Sam e Claire estavam em uma enorme mesa, com vários livros espalhados sobre ela, pesquisando algo importante.
Bobby se concentrou mais um pouco enquanto via e ouvia o casal conversando...
– O Dean está certo. Definitivamente existe uma mitologia envolvendo almas gêmeas. — disse Sam enquanto lia algo em um dos livros que o irmão havia mostrado antes de ir para a cozinha com Natalie, alegando que eles estavam cheios de fome. — Não é só aquela velha história romântica de que cada alma foi dividida em duas, que essas duas partes estão destinadas a se unirem um dia e serem felizes para sempre. Pelo menos não no que se refere às almas gêmeas dos receptáculos de Lúcifer e Miguel. Então, se isso for mesmo verdade, aparentemente, você e a Natalie são especiais de alguma forma, úteis para propósitos sobrenaturais diferentes. No seu caso, para libertar um exército de demônios e no caso da Natalie para chegar até a Primeira Espada, que vai matar a comandante do exército, Abaddon, e consequentemente mandar aqueles demônios de volta para o Inferno.
– Velha história romântica? Se isso for mesmo verdade? Aparentemente especiais? Úteis? — repetiu Claire rindo levemente e depois ironizou — Quando foi que você ficou tão romântico, Sam Winchester?
– Você sabe que eu estou falando do ponto de vista sobrenatural, não sabe? Aliás, eu só estou reproduzindo o que os Homens das Letras escreveram. E a verdade é que eles faziam estudos sobre almas gêmeas como nós pesquisamos sobre deuses pagãos. Para eles era só mais um tópico de estudos e mais estudos. Romantismo não era o forte deles. — explicou Sam e a olhando com carinho, acrescentou — Mas não me entenda mal, Claire. Eu te amo e eu tenho certeza de que você é a mulher da minha vida. Porque você me completa e me faz feliz de uma forma que eu nem imaginava que era possível ser. Então se tudo isso significa que você é a minha alma gêmea... Parabéns. Você tirou a sorte grande.
Sam riu ao terminar de dizer isso e Claire bateu levemente no ombro dele antes de reclamar:
– Você estava indo bem, mas se gabou no final... Não vale! Além disso, quem tirou a sorte grande foi você.
– Ah é? — indagou ele.
– Lógico. Afinal, eu te aceitei do jeito que você é. Mais do que isso, eu te amo exatamente do jeito que você é. E eu sei que isso significa muito para você. E pode ser difícil de acreditar, mas a verdade é que eu não te mudaria em nada porque eu amo até os seus defeitos. — declarou ela com carinho, mas depois riu e fez uma ressalva para provocá-lo — E acredite, você tem muitos defeitos. Eu já disse que você ronca?
– Você estava indo tão bem... — reclamou Sam passando um braço em volta dos ombros de Claire. — Mas eu te perdoo. Afinal, você também tem muitos defeitos.
– É mesmo? Que tipo de defeitos? — questionou ela enquanto Sam se aproximava mais um pouco.
– Continuar falando quando eu quero te beijar, por exemplo. — disse o caçador afastando algumas mechas de cabelo que caíam pelo rosto da garota e aproximando os lábios dos dela.
– Isso não é verdade. — protestou Claire.
Sam riu e colou seus lábios nos de Claire. Ela segurou no rosto do caçador e tornou o beijo mais profundo e envolvente enquanto as mãos dele desciam e seguravam na sua cintura. A apertou entre os dedos e depois suas mãos entraram dentro da camiseta da garota. Subiram pelas costas de Claire...
Enquanto via aquela cena, Bobby resmungou:
– Droga, Sam! Ela é minha filha, idjit. Minha princesinha... Mais respeito! Tira essa mão daí. OK, eu não sou obrigado a ver isso.
Bobby abriu os olhos e só percebeu que não estava sozinho no banco quando uma voz suave disse:
– Sabe, é normal um pai ter ciúme da filha. Mas Sam Winchester é um bom homem. Claire está em boas mãos. Literalmente.
Bobby olhou para o lado pronto para mandar aquele espírito intrometido calar a boca e ir para o inferno quando desistiu ao perceber que o fantasma era apenas uma criança. Um fantasma de uma criança, mas ainda assim uma criança.
Um menino negro, franzino, trajando roupas simples e gastas. Parecia que tinha morrido com no máximo sete anos. Tinha uma expressão sofrida, mas serena ao mesmo tempo. E ao sorrir para Bobby derrubou qualquer defesa do caçador.
Bobby queria perguntar o que tinha acontecido para ele ter chegado naquela dimensão tão cedo, tão jovem, mas achou melhor não fazer perguntas delicadas naquele momento e apenas se mostrou solidário:
– Eu sinto muito, filho.
Como se tivesse lido os pensamentos de Bobby, o menino cruzou os braços e se acomodou melhor no banco antes de dizer tranquilamente:
– Ah! Não se preocupe, eu não estou morto.
Embora naquele momento não houvesse mais nenhum outro fantasma por perto para comprovar o que ele diria, Bobby decidiu esclarecer com certo cuidado:
– Desculpe por te dizer isso, mas todo mundo aqui está morto.
– Eu não. — afirmou a criança imediatamente.
O caçador pensou um pouco e por fim disse:
– Tudo bem, você está na fase de negação. Eu entendo e não vou discutir. — e após um longo momento de silêncio, aconselhou — Mas tem outras crianças por aqui. Por que você não vai interagir com alguma delas? Eu tenho certeza de que elas serão melhores companhias do que eu. Elas podem te ajudar mais do que eu. Você sabe... A aceitar e a superar.
– Eu não preciso de ajuda, Bobby. Além disso, é com você mesmo que eu quero falar. — esclareceu o menino deixando o caçador um pouco intrigado.
– Como você sabe o meu nome? — questionou ele.
– Eu também sou um observador. E tenho te observado há muito tempo, Bobby Singer. Há mais tempo do que você pode imaginar. — respondeu o menino emblematicamente.
Bobby chegou a conclusão de que havia se enganado em relação à morte daquela criança. Porque se o menino estava o observando há muito tempo, então ele não tinha acabado de chegar ali. Isso fez Bobby sentir uma compaixão ainda maior por ele e então resolveu continuar a conversa:
– Você disse que queria falar comigo. O que um garotinho como você quer conversar com alguém como eu?
O menino ficou em silêncio por um bom tempo antes de responder:
– Eles precisam de você.
– Eles quem? — não entendeu o caçador.
– Sam, Dean, Natalie, a sua filha Claire, Castiel, Mia, Kevin e até mesmo Chloe Lee. Todos eles precisam de você, Bobby. — respondeu a criança.
Ao ouvir aquilo, o caçador lembrou que no começo da conversa aquele espírito tinha mencionado os nomes de Sam e Claire, como se ele, assim como Bobby, também estivesse vendo e ouvindo o casal no bunker momentos antes. E agora o menino havia dito mais nomes, a maioria deles, familiares para o caçador. Isso deixou Bobby ainda mais intrigado e ele perguntou:
– Você tem observado todas essas pessoas?
– Sim. Há muito tempo. — confirmou a criança.
– Por quê? — quis saber Bobby.
– Porque é o que eu faço. Observar. Tudo e todos. — respondeu o menino.
– Ah... Entendi. Você não é só um fantasma, você é um fantasma enxerido. — deduziu Bobby notando que o menino tinha ficado um pouco ofendido ao ouvir aquilo. Então ele resolveu recomeçar medindo melhor as palavras — Olha, eu entendo que neste lugar não exista muitas coisas a se fazer, mas você é só um menino. Devia fechar os olhos para algumas coisas. Talvez procurar aquelas crianças que eu te falei antes. Além disso, você está errado. Sam, Dean e os outros não precisam de mim. Eles tem se virado muito bem desde que eu... Morri.
– Mas eles vão precisar, Bobby. — insistiu o garoto como se tivesse certeza do que estava falando.
– Como você sabe? — estranhou ele.
– Porque você foi um grande caçador. E na guerra que está acontecendo e com as consequências que ela trará, a sua experiência e força poderão ser decisivas. — respondeu o menino de uma forma que deixou Bobby desconfiado.
– Para um menino morto, você fala de um jeito muito adulto e tem observado coisas e pessoas demais. — disse o caçador.
– Deve ser porque eu não sou um menino morto. — esclareceu ele fazendo um silêncio aterrador se instalar em seguida.
Bobby levantou do banco, se afastou, abandonou a forma sútil com a qual estava falando até aquele momento e perguntou ainda mais desconfiado:
– Então o que você é?
– Se eu contasse, você não acreditaria. — respondeu o menino prontamente. — Além do mais, isso não é importante. O importante é que você precisa voltar. Voltar para a sua família, para os seus amigos. Lutar com eles. E impedir que... Anjos e demônios acabem com o mundo.
– Quem diabos é você? — questionou Bobby perdendo a paciência e convencido de que tinha alguma coisa muito errada com aquele fantasma que dizia não ser um fantasma.
Após observar Bobby por algum tempo e pensar sobre aquela pergunta, o menino levantou do banco e deu alguns passos a frente enquanto Bobby dava alguns passos para trás. O menino parou e o caçador fez o mesmo.
– Não tenha medo de mim. Eu lhe asseguro que eu não sou o diabo. — esclareceu a criança.
Começando a ficar irritado com aquela presença e com a forma emblemática que respondia as suas perguntas, Bobby intimou:
– Chega de mistérios, filho. Você deve ter pelo menos um nome. Qual é?
– Na verdade... Eu tenho vários. — respondeu o menino.
E então Bobby finalmente começou a entender quem era aquela criança. No entanto, uma parte dele não conseguia acreditar que aquilo era possível. Não podia ser verdade. Era loucura.
Atônito, Bobby lembrou de que quando Lúcifer foi libertado e o mundo estava sob a ameaça do Apocalipse, ele, Sam, Dean e Castiel procuraram por aquela coisa que agora estava bem ali diante dele.
Na época, eles descobriram que aquela coisa tinha deixado o Céu. Desaparecido. Ido embora. Abandonado tudo e todos sem se importar que o mundo estivesse indo para o buraco. Sem se importar com as doenças, tragédias, com a fome, com os crimes que aconteciam e acontecem o tempo todo. Aquela coisa não se mexia para impedir que tudo isso acontecesse.
– Eu sei o que você está pensando, Bobby. Mas eu dei o livre arbítrio ao homem. Eu não posso tirar isso deles. Por mais que eu sofra com o sofrimento que eles causam uns aos outros. — esclareceu o menino depois de ler os pensamentos do caçador. — Mas eu agradeceria se você parasse de se referir a mim como "aquela coisa". Como eu disse, eu tenho vários nomes. Você pode me chamar por qualquer um deles.
– Eu acho que vou te chamar de idjit. — sugeriu Bobby com raiva e se afastando mais um pouco.
– Isso seria um sacrilégio. Mas eu te perdoo. Porque você não sabe o que diz, Bobby. — tranquilizou o menino. — E esta conversa poderia se estender infinitamente e mesmo assim você não me entenderia. Você me questionaria por todas as tragédias que aconteceram na sua vida, me culparia por elas, e se esqueceria de que foi por causa destas tragédias que você ganhou dois filhos de coração. Foram as tragédias e sofrimentos que fizeram de você, Bobby Singer, um homem honrado e um grande caçador que a Claire aprendeu a admirar mesmo sem ter te conhecido. Um homem que ela ainda pode conhecer. Um homem que ajudou a impedir o Apocalipse. E que será importante mais uma vez. Nesta guerra. E em muitas lutas.
Bobby estava sem palavras. Estava com raiva daquela coisa, quando a maioria das pessoas se sentiria honrada e em paz numa situação como aquela. Não sabia o que pensar, o que fazer, o que mais perguntar.
Se ele queria viver de novo? É claro que Bobby queria. Mas a ideia de que aquela coisa estivesse envolvida nisso, não lhe agradava. No fundo, lhe assustava. Bobby tinha medo. Medo da fé que aquela coisa parecia ter nele. Medo da responsabilidade. Medo da forma serena como aquela coisa falava mesmo com ele sendo rude. Medo.
O menino deu um passo na direção do caçador que ordenou rispidamente:
– Fica longe de mim.
Ignorando o aviso, a criança puxou a mão direita de Bobby e a segurou com força fazendo o caçador se ajoelhar facilmente diante dele. Bobby não conseguia se mexer diante daquela força descomunal que fez ele se sentir tão pequeno e frágil.
– Então... Essa é a sua verdadeira face? — indagou o caçador.
– Eu tenho várias faces. Mas para me aproximar de você, eu imaginei que esta seria a ideal. — esclareceu o menino.
Então ele colocou a mão no ombro do caçador e uma luz branca os iluminou. E Bobby se sentiu aquecido. Por mais que ele relutasse em admitir, aquela sensação era muito agradável e reconfortante.
Mesmo assim, Bobby estava assustado com tudo aquilo. Ele nunca imaginou que um dia estaria naquela situação, diante daquela coisa, prestes a voltar da morte mais uma vez e porque aquela coisa queria assim.
– Bobby, eu vou reconstruir o seu corpo. — anunciou o menino. — Mas as lembranças do tempo que você passou aqui serão apagadas. Para o seu próprio bem, acredite. Toda a solidão que você sentiu aqui ficará para trás. Eu quero que você recomece de onde parou. Eu só quero o seu bem, meu filho.
Bobby pensou em xingá-lo por apagar a sua memória, mas estava chocado demais para conseguir dizer qualquer coisa.
Então a luz se tornou ainda mais forte e Bobby ficou meio atordoado. Fechou os olhos. Por fim, ouviu as últimas palavras daquela coisa antes da luz o envolver completamente:
– Bobby Singer, eu estou te dando uma nova chance. Use-a com sabedoria e coragem. Use o livre arbítrio para o bem. Continue bom e seja humilde. Eu te amo, filho.
XXX
O tempo passava de uma forma diferente naquela dimensão. Enquanto lá havia se passado no máximo dez minutos desde que Bobby ouviu a conversa entre Sam e Claire, na Terra aquele momento tinha acontecido há horas e já havia anoitecido há muito tempo.
Por isso, todos no bunker estavam dormindo. Com exceção de Claire, que havia acordado há pouco tempo e ido para a sala principal. Ela estava sentada em volta da mesa, folheando o diário que pertenceu ao seu pai.
Algum tempo depois, Sam também acordou e percebeu que estava sozinho na cama. Imaginando que Claire tinha voltado para o quarto dela, ele foi até lá. E ao ver que a cama estava vazia, decidiu procurá-la no andar de baixo. Logo desceu a escada.
– Ei! — chamou ele enquanto se aproximava da mesa onde Claire estava. — O que você está fazendo aí? Está tarde.
Ela tirou os olhos do diário e voltou-se para Sam ao responder:
– Eu acordei e não consegui mais dormir. Então eu vim para cá e fiquei lendo este diário pela milésima vez. Pensando no meu pai.
Sam sentou ao lado da garota e pegou uma foto do Bobby em uma das páginas do diário. Em seguida observou Claire e perguntou:
– Está tudo bem?
– Sim. — respondeu Claire sem muita segurança.
– Você parece triste. — observou Sam. E depois de colocar a foto sobre o diário, perguntou — Você quer conversar?
– Eu só estava pensando no casamento. E em como eu queria que o meu pai me levasse até o altar. — confidenciou ela.
– Claire... — começou Sam.
– Eu sei. — interrompeu ela. — Eu sei que ele não pode. E eu sei que eu estou sendo fútil ficando triste por causa disso.
– Você não está sendo fútil. — discordou Sam.
– Tudo bem, mas eu não tenho o direito de ficar triste. É egoísta da minha parte pensar assim. — prosseguiu Claire.
– Você também não é egoísta. — protestou o Winchester.
– Você perdeu os seus pais, Sam. A Natalie também vai caminhar sozinha até o altar e ninguém está reclamando disso. Só eu que não consigo parar de lamentar e de querer que o meu pai esteja lá comigo. — disse Claire e tomada por uma forte emoção, completou — Mas não é só a questão do casamento. A verdade é que eu lamento todos os dias por não ter conhecido o meu pai, por ele ter morrido sem saber que eu existo. E eu desejo todos os dias que ele esteja aqui, que ele volte de alguma forma. É loucura, eu sei, mas eu passei tanto tempo da minha vida procurando por ele que eu ainda não consigo aceitar que ele se foi para sempre.
Sam percebeu que Claire ia chorar. Então se aproximou e a abraçou forte. Ela fechou os olhos enquanto ele alisava os seus cabelos e acrescentou ainda mais emocionada:
– Eu só queria que o meu pai estivesse aqui...
De repente um relâmpago iluminou o bunker, seguido por um trovão muito estridente que fez o casal se afastar assustado. Os dois olharam para o centro da sala no exato momento em que um raio perfurou parte do teto e atingiu o assoalho.
Uma luz forte e extremamente branca fez Sam e Claire fecharem os olhos por alguns instantes. Todos os alarmes do bunker soaram, como na noite em que os anjos caíram. Alguns sistemas de segurança das portas foram automaticamente acionados e o bunker se auto trancou, assim como naquela noite.
Quando aquela luz forte cessou, Sam e Claire levantaram das cadeiras e se aproximaram atônitos do centro da sala onde uma figura masculina se levantava em meio aos escombros.
Aparentemente, o sistema de segurança do bunker não conseguiu prever que um raio cairia ali. Muito menos que traria alguém com ele. Mas quem iria imaginar que algo assim fosse acontecer? Pelo visto, nem os Homens das Letras.
Sam protegeu Claire atrás de si e os dois observaram o homem se levantando e resmungando:
– Balls!
Logo o homem estava em pé diante do casal. Confuso, assim como eles.
Sam reconheceu a roupa que ele usava. Eram as mesmas peças usadas na noite em que Dick Roman o matou.
Claire também reconheceu o homem por causa das inúmeras fotos que já tinha visto dele. Uma delas, apenas há alguns minutos. Mas foi Sam que conseguiu dizer:
– Bobby?
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