Crossfire
44 A festa - Parte Final
Notas iniciais
– Ela está acordando. — anunciou uma voz feminina e familiar enquanto Mia começava a abrir os olhos, se acostumando com a claridade do ambiente. — Ei... Você está bem? — indagou a dona da voz.
Mia abriu um pouco mais os olhos e reconheceu Claire sentada na beira de um sofá, onde ela estava deitada. Ainda um tanto zonza, Mia olhou em volta e reconheceu o lugar. Era a sacristia da capela. Também reconheceu Sam, Dean e Natalie em pés, próximos ao sofá. Suas expressões oscilavam entre preocupação e alívio. Preocupação porque Mia havia desmaiado momentos antes e alívio porque ela finalmente estava acordando e parecia bem, apesar daquele susto que deu em todos eles. Especialmente em Castiel, que naquele momento se levantou de uma poltrona e começou a se aproximar, sem que Mia percebesse.
Ela passou as mãos pelo rosto, tentando encontrar algum alívio para a forte enxaqueca que sentia, e se acomodou melhor no sofá antes de responder:
– Eu estou bem. Mas eu tive um pesadelo muito estranho... O Cas me pedia em casamento e...
De repente, Mia parou de falar e olhou para Castiel, que tinha acabado de parar de frente para o sofá. Ao ouvir aquilo, o anjo ficou visivelmente desapontado e Sam, Dean, Natalie e Claire se entreolharam sem saber o que dizer ou fazer.
Assim como eles, Castiel esperava que Mia dissesse qualquer outra coisa quando acordasse. Menos aquilo. No fundo, ele esperava que ela pulasse em seus braços, que explicasse que desmaiou de emoção e que a resposta para o seu pedido de casamento era "sim". Mas pelo visto, Mia tinha desmaiado de susto, não de felicidade.
Arrependida por ter cometido aquela gafe estúpida, Mia o olhou sem graça e indagou:
– Então foi real?
– Você pensou que fosse um pesadelo? — rebateu Castiel sem conseguir disfarçar que aquilo o magoou profundamente.
– Eu não sei o que eu pensei, Cas... Me desculpe, eu não devia ter dito isso, mas simplesmente saiu... Eu sinto muito. Eu ainda estou meio zonza... — explicou-se Mia.
– Beba um pouco de água. Você vai se sentir melhor. — orientou Claire pegando um copo com o liquido em cima de uma mesinha, perto do sofá, e entregando para a garota.
Ela obedeceu, tomou alguns goles da água e sentiu-se mesmo melhor depois disso. Olhou para Castiel enquanto afastava o copo do rosto e o entregava para Claire.
E então houve um longo momento de silêncio durante o qual Sam, Dean, Natalie e Claire se entreolharam novamente, enquanto Mia e Castiel desviaram o olhar um do outro.
O anjo estava magoado por Mia ter se referido ao seu pedido de casamento como algo surreal, e ela estava sem graça por ter pensado mesmo que aquilo tinha sido um pesadelo, um delírio. Mia não queria magoar Castiel, mas ao mesmo tempo, não conseguia ver aquele pedido como algo natural.
– Eu acho que vocês precisam conversar. — opinou Dean quebrando o silêncio.
– Eu também acho. Nós vamos deixar vocês sozinhos. — completou Sam enquanto Claire levantava do sofá e segurava a mão dele.
– Tem certeza que você está bem? — preocupou-se Natalie.
– Sim, só um pouco tonta ainda, mas eu estou bem. — tranquilizou Mia.
Os dois casais assentiram e em seguida saíram da sacristia. Finalmente sozinhos, Mia e Castiel acabaram encontrando o olhar um do outro, mas permaneceram em silêncio.
Só depois de mais alguns instantes assim, Mia se encolheu em uma das extremidades do sofá, dando a entender que queria que Castiel sentasse do outro lado. E foi o que ele fez, depois de hesitar um pouco.
O anjo ficou olhando para o chão enquanto apertava as mãos uma contra a outra, e entrelaçava os seus dedos uns nos outros, sem saber por onde começar aquela conversa, sem nem ao menos saber se queria começar por algum lugar. Sem que ele planejasse, as palavras acabaram saindo da sua boca:
– Então a ideia de se casar comigo é um pesadelo para você?
– Eu não quis dizer aquilo. — lamentou Mia envergonhada e arrependida.
– Mas foi exatamente o que você disse. Saiu tão natural que agora eu me sinto um completo idiota. — prosseguiu Castiel ainda olhando para o chão.
– A única pessoa idiota nesta sacristia sou eu, Cas. — disse a caçadora fazendo o anjo olhar para ela pela primeira vez, desde que sentou ao seu lado.
Depois de mais alguns instantes em silêncio, ele recomeçou:
– Então, por quê, Mia? Por que você não quer casar comigo?
– E por que você quer? — rebateu ela. — Sério, Cas... Por quê? É porque o Sam e o Dean se casaram com a Claire e a Natalie? Só porque eles casaram, você acha que nós devemos casar também? Nós não somos um casal como os outros, Cas. Você sabe disso.
– Por que eu sou um anjo? — questionou ele visivelmente ofendido.
– Não, porque eu sou humana. — corrigiu Mia e em seguida prosseguiu — Olha, você tinha me perguntado se quando eu era criança, eu sonhava em casar e a resposta é sim, eu sonhava. Como toda garotinha, geralmente, sonha. Mas depois que eu cresci e, principalmente, depois de tudo o que aconteceu comigo, eu parei de sonhar com isso e com qualquer outra coisa. Eu parei de fazer planos para o futuro porque, honestamente, eu não sei se eu vou ter um futuro.
– Então você não quer se casar comigo porque você acha que vai morrer a qualquer momento? — indagou Castiel um tanto confuso e sentindo certa compaixão diante do que Mia havia dito.
– Posso ser sincera? — sugeriu a caçadora.
– Deve. — assentiu Castiel.
Mia respirou fundo, pensou um pouco escolhendo as melhores palavras e só então explicou:
– Cas, eu já passei por tantas coisas e morri tantas vezes que eu sempre me pego pensando em como vai ser quando acontecer de novo. Eu fico imaginando quando tudo vai acabar de vez, sabe? Quando eu vou morrer de verdade, quando será mesmo o fim da linha para mim. E convenhamos, com o meu histórico, quais as minhas reais chances de chegar aos trinta anos? Quais as minhas chances de voltar da morte de novo?
– Nós não temos como fazer suposições sobre isso, Mia. Pessoas morrem todos os dias. Anjos também podem morrer, demônios, todo mundo. Mas eu não quero que você se preocupe com isso, que fique pensando nessas coisas e em você com tanto pessimismo. — expôs o anjo um tanto incomodado com as coisas que a garota disse. — Mesmo porque o que eu puder fazer para te proteger e para evitar que algo assim te aconteça de novo, eu farei. Se você morrer mil vezes, eu vou encontrar mil formas de te trazer de volta, Mia. Eu juro.
– E se você não conseguir? E se não estiver ao seu alcance? E se estiver além da sua vontade e dos seus poderes? — questionou Mia sentindo uma tristeza profunda ao tocar naquele assunto que a atormentava, e que ela evitava ao máximo compartilhar com alguém, especialmente com Castiel.
– Mia... — começou a dizer o anjo.
– Tudo bem. — interrompeu ela. — Digamos que eu não morra antes dos trinta ou que se eu morrer, você me traga de volta. Ok. Ótimo. Mas então nós temos uma outra questão bem mais complicada. — depois de um momento em silêncio, ela continuou — Eu vou envelhecer, Cas. E você vai continuar lindo, jovem e hot. Eu vou envelhecer e vou morrer do mesmo jeito. Mais cedo ou mais tarde, o tempo ou a morte, ou as duas coisas, vão nos separar. É por isso que eu não posso me casar com você, Cas. Porque Mia e Castiel não tem um futuro para sonhar e planejar. A única coisa que nós temos é o presente.
Castiel ficou em silêncio olhando para Mia enquanto pensava sobre tudo o que ela havia dito, especialmente a última parte. Por fim, ele contrapôs:
– A única coisa que todo mundo tem é o presente, Mia. O futuro de todas as pessoas é incerto. E, no entanto, elas continuam sonhando, fazendo planos e se arriscando. Elas continuam vivendo. Você tem tanto medo de morrer, mas a verdade é que... — Castiel olhou para o chão novamente e hesitou antes de voltar a olhar para a caçadora e completar — A verdade é que você age como se já estivesse morta.
Desta vez foi a caçadora que olhou para o chão. Ela não queria que Castiel percebesse que os seus olhos tinham ficado um tanto vermelhos e úmidos ao ouvir aquilo. Sentiu um nó crescer em sua garganta e, por um momento, achou que a sua resposta sairia inaudível, mas falou mesmo assim:
– Talvez você esteja certo. Talvez eu já esteja morta há muito tempo e só agora percebi... Seja como for, isso só reforça o que eu disse antes. Eu não posso me casar com você, Cas... Eu sinto muito, mas eu não posso. E não seria um pesadelo, seria um sonho. Mas é um sonho que eu não posso realizar.
Os dois ficaram em silêncio por instantes que pareceram eternos. Por fim, Castiel levantou do sofá e caminhou até a porta. Antes de sair da sacristia, ele olhou uma última vez para Mia e viu que ela enxugava os olhos, passando as mãos por cima das pálpebras úmidas.
Algum tempo depois
Mia caminhou até uma mesa bem afastada no jardim, puxou uma cadeira e sentou. Ficou observando os convidados a distância, enquanto pensava no pedido de casamento de Castiel e na conversa difícil que aquilo gerou.
Permaneceu assim, imóvel, sozinha, apenas observando tudo e todos por um bom tempo. Viu os noivos cortando o bolo, Bobby dançando com a filha em dado momento e depois voltando a conversar e a beber com a Xerife Mills, Damon bebendo e dançando na pista com várias pessoas que nem imaginavam que estavam diante de um vampiro, Natalie e Dean pegando uma imensa torta na mesa principal, como se ninguém estivesse vendo, e a levando sabe-se lá para onde, Kevin e Chloe trocando olhares apaixonados enquanto selecionavam as músicas da festa, Stefan conversando com Sam e Claire (e aparentemente a conversa parecia bem agradável), Irv, Charlie e Garth... Todos se divertindo.
Mia só não viu Castiel por ali. Provavelmente, assim como ela, ele devia estar em algum canto daquele imenso lugar, se escondendo, morrendo de vergonha. Ou talvez não. Afinal, Castiel não tinha motivos para se sentir envergonhado. Ela sim. Mia sim se sentia péssima com tudo aquilo.
De vez em quando, ela percebia que os Winchester e suas esposas estavam procurando por ela, e se encolhia ainda mais na cadeira, desejando muito ter o poder da invisibilidade naquele momento.
Mia não queria falar com eles, não queria que eles se preocupassem, não queria que os seus problemas existenciais estragassem a festa e aquele momento tão especial para os dois casais. Mia só queria ficar sozinha.
Em dado momento, ela parou de olhar para os convidados, apoiou os cotovelos na mesa, colocou as mãos em cada lado do rosto e fechou os olhos, sentindo uma tristeza profunda a consumir a cada instante.
Ao ouvir passos, Mia abriu os olhos, ergueu a cabeça e observou Stefan se aproximando. Ele sorriu levemente para ela e mostrou uma garrafa de uísque e dois copos que trazia. Pela primeira vez, desde que sentou ali, Mia conseguiu sorrir.
– Certas coisas não mudam, não é mesmo? — começou o vampiro se referindo às inúmeras vezes em que ele e Mia beberam para esquecer e afogaram as mágoas no Mystic Grill.
Em seguida, ele puxou uma cadeira e sentou ao lado dela. Serviu uma dose para a caçadora e outra para ele. Depois ergueu o copo e Mia brindou. Tomaram um gole do uísque e ficaram observando a festa.
Embora imaginasse qual era a resposta, Stefan resolveu sondar:
– Eu devo comprar outro smoking para um certo casamento?
Mia suspirou e respondeu:
– Não.
– Mas vocês estão bem? Eu quero dizer... Vocês não vão casar, mas continuam juntos, certo? — prosseguiu ele.
Mia tomou mais um pouco do uísque e respondeu com um olhar distante:
– Honestamente, eu não sei. — e depois de um momento em silêncio, perguntou — Por acaso, você viu ele por aí?
– Sim. Do outro lado do jardim. — relatou o vampiro.
– E... Ele perguntou de mim? — quis saber Mia.
Stefan a olhou solidário e respondeu:
– Não. Ele só veio pedir desculpas por não ter me cumprimentado antes e depois sumiu no meio dos outros convidados.
– Ah... — murmurou Mia sem conseguir pensar em nada melhor para dizer.
Incomodado por ver a sua grande amiga tão triste, Stefan questionou:
– Por que você não aceitou se casar com o Castiel, Mia? Se eu me lembro bem, você era louca por ele.
– Eu ainda sou. Eu sempre vou ser. — assegurou ela dando um leve sorriso ao sentir o seu coração bater mais forte ao dizer aquelas palavras.
– Então por quê não? — quis entender o vampiro.
A caçadora suspirou e pensou um pouco antes de responder:
– É complicado. Eu e o Cas não somos um casal como os outros.
– Nenhum casal é igual ao outro. — ponderou Stefan.
– Você sabe o que eu quero dizer. — rebateu Mia. — Eu sou humana. Uma humana com sangue de demônio, uma bomba relógio prestes a explodir. Ou, na melhor das hipóteses, alguém que vai envelhecer e morrer. E o Cas... Bem, ele é um anjo. Nós somos muito diferentes. Nosso futuro é incerto. As regras que se aplicam aos outros casais, não se aplicam à nós.
– Então mande as regras para o inferno e viva o presente, Mia. Deixe para pensar no futuro, quando ele chegar. E até lá, seja feliz. — aconselhou o vampiro arrancando um leve sorriso da caçadora. — Além disso, quem sabe no futuro vocês encontrem uma solução para a questão do envelhecimento e da mortalidade? Quem sabe vocês encontrem uma forma de burlar tudo isso?
– Como eu virar vampira ou ele se tornar humano de novo? Não, obrigada. — dispensou ela lembrando daquelas fases conturbadas.
Stefan pensou um pouco e, depois de servir mais uísque para os dois, continuou:
– Mia, você me disse que para se curar do vampirismo foi feito um feitiço que envolvia o sangue do Cas, certo?
– Sim. — confirmou ela. — Entre outras coisas.
– E por quê? Por que tinha que ser o sangue dele? Justo dele? — indagou o vampiro, embora soubesse a resposta porque Mia havia lhe contado aquela história por telefone há alguns meses.
– Porque, teoricamente, o Cas é a minha alma gêmea. — respondeu a caçadora, mas depois de pensar um pouco, corrigiu — Teoricamente, não. Ele é a minha alma gêmea.
– Este é o ponto, Mia. — insinuou Stefan, porém como a garota pareceu não entender aonde ele queria chegar, o vampiro explicou — Se você e o Cas são os pares perfeitos um do outro, como eu tenho certeza que são, você acha mesmo que alguma coisa vai conseguir separar vocês dois? Porque que eu saiba, o universo, o destino, chame do que quiser, sempre conspira para que as almas gêmeas se encontrem e permaneçam juntas.
Mia franziu a testa ainda sem entender completamente o que Stefan estava dizendo e perguntou:
– E isso significa que...?
– Isso significa que você e o Cas vão encontrar um jeito de permanecerem juntos, Mia. E que não vão estar sozinhos nisso. Com certeza, vocês terão a ajuda do universo. Ele sempre vai conspirar a favor de vocês. — respondeu o vampiro deixando Mia pensativa. — Por favor, apenas me prometa que você vai pensar em tudo o que disse. — pediu ele percebendo que Mia ainda estava hesitante.
Ela lhe deu um meio sorriso e afirmou:
– Eu prometo. — em seguida, Mia se levantou e antes de se afastar, anunciou — Sabe de uma coisa? Eu estou com fome. Eu vou pegar um pedaço daquele bolo de casamento antes que não sobre mais nada. Nada mesmo.
Stefan assentiu com um meneio de cabeça e enquanto caminhava em meio aos convidados, a caçadora acabou esbarrando em Damon.
– Ah! Aí está você! — exclamou o vampiro passando um dos braços em volta dos ombros de Mia. — Justamente quem eu queria ver.
– Posso saber por quê? — estranhou ela.
– Bem, na verdade, eu esperava que você me explicasse por que motivo idiota você não aceitou um certo pedido de casamento. — explicou Damon enquanto os dois caminhavam.
Um tanto constrangida, Mia murmurou:
– Ah... É isso? Então todo mundo já está sabendo, não é? Você, o Stefan, todo mundo...
– Todo mundo viu o Cas ajoelhado diante de você, segurando um anel e perguntando alguma coisa. E depois disso, vocês não foram mais vistos juntos. Então, sim. Todo mundo já sabe que você recusou um pedido de casamento fofo. A questão é: por quê? — prosseguiu o vampiro intrigado.
– É complicado. — esquivou-se Mia sem nenhuma vontade de voltar a falar daquele assunto.
– Não, na verdade é bem simples. — discordou Damon. — Olha, você e o anjinho sem asas já são praticamente casados. Pelo o que eu entendi, ele só quer formalizar as coisas. Então qual é o problema, Mia? É por causa do anel? Você tem medo do compromisso que ele representa? As coisas não vão mudar tanto assim. Do que você tem tanto medo?
Mia riu levemente e parou no meio do jardim, fazendo o vampiro parar também e olhar para ela.
– Ei! Desde quando você virou conselheiro amoroso? — debochou Mia, no fundo tentando fugir daquelas perguntas.
– E quando foi que você se tornou tão insegura e burra? — rebateu ele.
A caçadora abriu a boca para responder que insegura e burra era a mãe dele (embora, a mãe dos Salvatore estivesse morta há séculos), mas por algum motivo desistiu. Talvez porque Mia percebeu que Damon estava certo. Talvez Stefan também estivesse. Talvez todos estivessem. Talvez ela fosse mesmo uma burra insegura e insensível.
Antes de se afastar, Damon colocou a mão no ombro de Mia e aconselhou:
– Pensa bem. Ainda está em tempo de consertar as coisas.
Mia ainda ficou algum tempo parada no meio do jardim, pensando nas coisas que Damon falou, e não percebeu que Natalie e Claire se reuniram perto dali para jogarem os buquês.
Claire jogou o dela primeiro e Chloe o pegou. Todos aplaudiram e vibraram. Kevin observou aquela cena surpreso e intrigado até que a namorada se aproximou dele, passou os braços em volta do seu pescoço, sussurrou algo em seu ouvido e o beijou.
Mia continuou caminhando até a mesa principal quando algo bateu no seu pé. Assustada, ela parou imediatamente para não pisar em cima da tal coisa e quase se desequilibrou. Seu coração acelerou quando ela viu do que se tratava.
Olhou na direção de onde aquela coisa tinha vindo, e viu Natalie se virando para descobrir quem tinha sido a felizarda que havia pegado o seu buquê. Logo todos se viraram e passaram a procurar o mesmo que Natalie. E logo todos viram Mia se abaixando para pegar o buquê aos seus pés.
Ela ficou ali, abaixada com o buquê nas mãos enquanto os seus pensamentos fervilhavam em sua cabeça. Foi inevitável não lembrar do pedido de casamento de Castiel e inevitável não achar estranho que aquele buquê caísse justamente nos seus pés. Era como se... Como se o universo estivesse mesmo conspirando, tentando mostrar algo para Mia.
Ao reconhecer os sapatos de Castiel, que se aproximava dali, Mia levantou e deu de cara com o anjo. E aquilo sim foi estranho. Os dois finalmente se encontraram depois da conversa na sacristia e foi como se tudo o que eles disseram um para o outro tivesse vindo à tona naquele momento. Aquilo era embaraçoso e doloroso. Era horrível.
Para piorar, Mia notou que a expressão de Castiel era muito severa, e teve a confirmação de que o anjo estava mesmo magoado, quando ele sugeriu friamente:
– Você devia entregar o buquê para alguém que realmente queira se casar.
Apesar de ter recebido aquelas palavras com muita tristeza, Mia não abaixou a cabeça e respondeu com raiva:
– É exatamente o que eu vou fazer.
Então, sem pensar duas vezes, a caçadora passou no meio dos convidados, aproximou-se da Xerife Mills e lhe empurrou o buquê sem lhe dar outra escolha que não fosse segurá-lo.
– É todo seu. — avisou Mia antes de se afastar e sumir no meio dos convidados de novo.
Bobby, que estava perto da Xerife, olhou para aquela cena e engoliu em seco. Sorriu sem graça quando ela olhou discretamente para ele, ainda surpresa por Mia ter lhe entregado aquilo sem mais nem menos.
Sam e Dean, que haviam visto tudo o que tinha acontecido, tentaram seguir Mia para conversar com ela. A alcançaram, mas a caçadora não estava a fim de conversar. Mia não queria falar com ninguém e rapidamente esquivou-se deles. Passou o resto da festa se escondendo pelos cantos, bebendo enquanto sua cabeça começava a doer, e fugindo do assunto quando alguém a achava e insistia em falar sobre o pedido de casamento de Castiel.
Mia só parou de se esconder quando Damon e Stefan anunciaram que estavam de saída. Antes disso porém, eles já haviam se despedido de Castiel sem que Mia visse e pediram para o anjo tentar ser mais paciente com a garota. Damon se ofereceu para ser o padrinho quando eles se acertassem e brincou dizendo que Stefan podia ser a madrinha. O Salvatore mais novo não gostou da brincadeira e mandou o irmão calar a boca.
Sam e Dean não conseguiram disfarçar a alegria que sentiram ao ouvirem que os vampiros estavam de saída e, junto com as esposas e Mia, levaram os dois até a saída do sítio para terem certeza de que eles iriam embora mesmo.
– Sabe qual é a única boa em encontrar vocês? — desafiou Dean com um largo sorriso. — Este momento.
– Eu também vou sentir a sua falta, Van Helsing. — ironizou Damon.
– Vocês sabem que podem nos visitar em Mystic Falls quando quiserem, não sabem? — indagou Stefan sendo gentil como de costume.
– Sim, nós sabemos, mas... Nós preferimos ficar por aqui mesmo. — respondeu Sam.
– Ótimo porque o Stefan não estava falando sério, não é, little brother? — provocou o Salvatore mais velho.
Stefan riu e depois de hesitarem um pouco, Sam e Dean acabaram estendendo as mãos para ele e o irmão. Os vampiros apertaram as mãos dos caçadores e depois bateram levemente em seus ombros. Também se despediram de Claire e Natalie e desta vez Sam e Dean não se incomodaram com a proximidade entre eles. Pelo menos, não fizeram nenhuma objeção.
Por último, Mia se despediu dos dois vampiros com um abraço em cada um deles, e depois ficou observando eles entrarem no carro do mais novo e sumirem no horizonte para deleite dos Winchester.
– Até que eles são legais. — opinou Natalie que estava ao lado de Dean.
– É verdade. Para vampiros, eles são bem legais mesmo. — refletiu Claire ao lado de Sam.
Os irmãos olharam para as duas assustados e disseram ao mesmo tempo:
– Eu quero o divórcio.
Natalie bateu no ombro de Dean ao ouvir aquela brincadeira de mau gosto, e Claire puxou uma mecha do cabelo de Sam irritada com o que ele disse. Os irmãos reclamaram das agressões e riram enquanto tentavam abraçar suas respectivas esposas, as fazendo entender que eles estavam apenas brincando.
Os casais acabaram se beijando e Mia olhou para o lado voltando a sentir uma tristeza profunda ao lembrar de Castiel. Então ela voltou para a festa que já se aproximava do fim.
Algum tempo depois
Havia anoitecido e os recém casados começaram a se despedir de todos os convidados e amigos. Foi neste momento que Mia viu Castiel novamente, afinal ele também estava por perto e queria se despedir deles.
Parecia que o anjo estava evitando Mia tanto quanto ela estava o evitando. A garota não queria brigar com Castiel, mas ao mesmo tempo não sabia como agir depois de tudo que aconteceu e, por isso, achou melhor evitar o contato visual e manter certa distância.
Bobby se despediu da filha e do genro, depois de Dean e Natalie, Garth distribuiu abraços calorosos nos dois casais, Kevin e Chloe também se despediram dos recém casados, assim como a Xerife Mills, Charlie e Castiel.
Por fim, Mia abraçou os Winchester e as garotas. Ouviu de todos eles conselhos do tipo: "Você devia aceitar", "Aceita logo" , "Parem de brigar, vocês se amam" e " Parem de brigar, coelhos".
Por sorte, Sam, Claire, Dean e Natalie foram discretos ao dizerem aquelas coisas para que Castiel, que estava por perto, não ouvisse. Eles sabiam que um clima estranho tinha se estabelecido entre o casal e não queriam constranger Mia. Mas também não se conformavam em ver os dois daquele jeito.
Mia assentiu com um meneio de cabeça e um meio sorriso, tentando disfarçar a tristeza que estava sentindo. Não queria estragar aquele dia tão especial para os dois casais.
Em seguida, Sam e Claire entraram na Pajero e saíram buzinando enquanto todos aplaudiam, assobiavam e vibravam. Dean e Natalie demoraram um pouco mais. Estavam em um impasse porque a loira queria que Dean fosse no Camaro com ela, e ele queria que Natalie se rendesse ao charme do Impala. No fim, eles trocaram um beijo apaixonado e entraram cada um em seus respectivos veículos mesmo. Novos aplausos e assobios foram ouvidos na saída do sítio.
As latinhas penduradas nas latarias dos três veículos faziam barulho em contato com o asfalto. Letras recortadas em um papel laminado e colorido diziam "Recém Casados".
Aos poucos, os convidados se dispersaram e foram indo embora. Bobby e Jody decidiram ir até um bar da região para beberem mais um pouco e jogar conversa fora. Garth deu uma carona para Kevin e Chloe que fariam as malas naquela noite e partiriam para New Jersey pela manhã. E Charlie ganhou uma carona de uma caçadora muito bonita com quem ela conversou praticamente a festa toda.
Em dado momento, Mia caminhou devagar até o Mustang e abriu a porta.
– Deixa que eu dirijo. — propôs Castiel surgindo atrás dela. Quando Mia se virou para olhá-lo um tanto surpresa, ele explicou — Você bebeu demais. Anjos não ficam bêbados, lembra?
Sem querer entrar em uma discussão e, no fundo feliz por Castiel ter se mostrado educado e até gentil, Mia lhe entregou a chave.
Antes de dar a volta no veículo e entrar, ela respondeu:
– Ok.
Em seguida, a caçadora colocou o cinto de segurança e encostou a cabeça na janela. Fechou os olhos enquanto ouvia o som do motor quando Castiel deu partida. De olhos fechados era mais fácil controlar a vontade de chorar, e a enxaqueca que sentia, parecia melhorar um pouco.
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