Crossfire
25 A arma
Notas iniciais
Mia se mexeu na cama e suspirou antes de abrir os olhos devagar se acostumando com a claridade que entrava através das cortinas. Instantes depois, olhou para o lado, mas percebeu que estava sozinha na cama. Olhou para a poltrona, mas infelizmente ela estava vazia. Então olhou para a porta e viu algo pendurado na maçaneta. Sorriu ao reconhecer o que era, levantou enrolada em um lençol, caminhou até lá e pegou o colar com o pingente Miastiel Forever. Sorriu de novo.
Em seguida, foi até o guarda-roupa e separou algumas roupas e uma toalha para tomar um banho.
Enquanto isso, Natalie e Claire estavam no porão tentando conseguir alguma informação com o Crowley sobre a arma que era capaz de matar Abaddon. E Sam e Dean estavam na sala principal tentando descobrir o que Bartholomew poderia querer com Natalie.
Depois de folhear alguns livros sem muita paciência, Sam reclamou:
– É um saco não ter ideia do que nós estamos procurando.
– Eu concordo, mas infelizmente não tem outro jeito. Então continue procurando por qualquer coisa, por qualquer pista que possa ajudar ou levar a outra pista. — respondeu Dean sem tirar os olhos de um dos livros.
Sam respirou fundo e olhou para trás na direção de um corredor que levava ao andar de baixo e consequentemente ao porão. Depois voltou-se para o irmão e questionou:
– Dean, você não fica preocupado que as garotas estejam sozinhas com o Crowley?
– Não. No que diz respeito à Naty, eu confio no meu taco. — respondeu o mais velho tranquilamente. — Por quê? Você não confia no seu?
Sam revirou os olhos e esclareceu:
– Eu estou perguntando se você não acha perigoso deixar a Naty e a Claire sozinhas com um demônio. Não qualquer demônio, mas o Crowley. Ele pode enganá-las de alguma forma, tentar machucá-las, sei lá.
– O Crowley está bem preso, Sammy. Eu mesmo o algemei e o prendi na cadeira antes das meninas entrarem lá. Não se preocupe. Além disso, a Naty e a Claire não são idiotas. Elas são inteligentes, espertas, se ofereceram para ajudar, sabem muito bem com quem estão lidando e vão ficar bem. — tranquilizou Dean.
– Eu não sei... Eu acho que nós é que devíamos ter ido falar com o Crowley e não elas. — opinou Sam.
– Nós tentamos e ele não disse nada. Agora é a vez delas tentarem. E você concordou. — lembrou Dean.
– Pois é, mas eu não entendo como a Claire me convenceu a concordar com isso... — questionou-se Sam.
Ao ouvir aquilo Dean desviou a atenção do livro e voltou-se para o irmão. Observou o cabelo recém cortado dele e ergueu as sobrancelhas. Sam deduziu o que Dean tinha imaginado e confessou:
– Ok, talvez eu tenha uma ideia de como a Claire me convenceu, mas mesmo assim eu não devia ter concordado. Isso é loucura. E perigoso.
– Sammy, a Claire não foi para uma guerra. Ela só está ali, logo ali, no porão. — lembrou Dean. — Ela só está conversando, a uma distância segura, com um demônio em fim de carreira que está bem preso dentro de uma Chave de Salomão. Você sabe o que é uma Chave de Salomão, não sabe? Aquela armadilha de onde nenhum demônio consegue sair, lembra? Pois é, relaxa.
Sam pensou um pouco e por fim concordou:
– Ok, você está certo. Eu estou me preocupando à toa. — no entanto, após uma breve pausa, ele perguntou — Mas você não acha melhor eu ir lá e dar uma olhada? Só para ter certeza de que está tudo bem. Eu não sei... Está tudo tão silencioso.
Dean não respondeu mais nada, apenas revirou os olhos e voltou a se concentrar na pesquisa. Algum tempo depois, ele e o irmão ouviram passos e olharam na direção da escada. Mia desceu os degraus, se aproximou, sorriu para eles e cumprimentou animada:
– Bom dia, meninos!
– Boa tarde. — corrigiu Dean.
– Por quê? Que horas são? — estranhou a garota.
Sam olhou a hora no seu celular sobre a mesa e respondeu:
– Duas horas, Mia.
– Sério? E como foi que eu dormi tanto assim? — estranhou ela, mas em seguida lembrou o motivo e desconversou — Ah! Deixa pra lá. Eu só estava... Cansada.
Então ela suspirou, ficou parada perto da mesa, de frente para Sam e Dean e com um olhar distante até que o mais novo perguntou:
– Mia, você está bem?
Ela demorou alguns instantes para voltar a si e respondeu meio atrapalhada:
– O quê? Hein? Ah! Sim, com certeza... Eu quero dizer, não. Vocês sabem que eu só fico bem depois que eu tomo o meu café. E você sabe o que isso significa, não é, Dean? Eu preciso de um bom café para começar o meu dia mesmo que seja duas horas da tarde. Ah! Vocês viram o meu anjo por aí?
E então Mia saiu da sala tão rápido quanto apareceu sem nem ao menos esperar que um dos dois respondesse.
– Meu anjo? — repetiu Sam.
– Eu acho que os coelhos voltaram. — deduziu Dean e enquanto levantava para ir até cozinha e fazer o café para a garota, brincou — E isso significa que a temporada de acasalamento está aberta.
Logo Mia entrou em uma das salas e viu Castiel. Ele estava procurando alguns livros para ajudar Kevin com a tradução da Tábua dos Anjos.
– Bom dia! — começou Mia.
– Boa tarde. — corrigiu o anjo erguendo o olhar na direção dela e sorrindo levemente.
Mia sorriu de volta enquanto se aproximava dele, então passou os braços em volta do pescoço de Castiel e o beijou demoradamente. Quando afastou os lábios, percebeu que ele tinha ficado um tanto desnorteado com aquilo.
– Bom dia... — disse o anjo sem perceber.
Então a garota tirou do bolso o colar que tinha encontrado pendurado na maçaneta momentos antes e perguntou:
– Será que você pode me ajudar com isso? Eu achei na minha porta.
– Claro. — assentiu ele pegando o colar.
Então Mia se virou e Castiel colocou o acessório no pescoço da garota enquanto ela sorria sem que ele visse. Depois eles ficaram frente a frente de novo e ele explicou:
– Desculpe por ter te deixado sozinha. Eu esperei você acordar, mas desisti depois que deu meio dia e você continuou dormindo pesado. Você parecia muito cansada.
– Bem... Eu não estou cansada agora. — insinuou ela passando os braços em volta do pescoço dele mais uma vez.
– Mia... — murmurou Castiel entendendo aonde a garota queria chegar. — Infelizmente, agora eu não posso. Eu estou ajudando o Kevin. Ele conseguiu traduzir algumas palavras.
– Tudo bem. — concordou ela e então o beijou de novo e ainda mais intensamente.
Quando Mia se afastou um pouco, Castiel colocou as mãos na cintura dela e disse:
– Quer saber? Talvez eu possa fazer um intervalo.
– Não, tudo bem. Eu não quero te atrapalhar e, além disso, eu estou faminta e preciso do meu café. — dispensou ela se afastando.
Mas então Castiel a puxou pela mão e a beijou de novo. Kevin entrou na sala e os interrompeu dizendo:
– Bom dia, coelhos. Eu não sei se eu fico feliz porque vocês voltaram ou se eu me jogo pela janela. Dean e Natalie, Sam e Claire e agora vocês dois. São muitos casais se agarrando na minha frente enquanto...
De repente o profeta parou de falar, mas tanto Mia quanto Castiel deduziram que ele ia falar sobre Chloe e sentiram certa compaixão. Desde que voltou de Princeton e deixou a namorada para trás, Kevin estava meio deprimido. E com razão, é claro.
– Kevin... Eu sinto muito. — lamentou Mia.
– Está tudo bem. E me desculpem. Não me entendam mal, eu estou feliz por vocês. — desculpou-se ele.
Então Mia olhou para Castiel e encerrou:
– Eu vou tomar o meu café. Te vejo mais tarde, anjo.
Em seguida ela deixou a sala e foi até a cozinha. Chegando lá, encontrou Dean apoiado na pia, com os braços cruzados e com uma expressão de poucos amigos. A garrafa térmica estava em cima da mesa. Ao pegá-la, Mia notou que estava vazia. Desconfiada, a garota questionou:
– O que aconteceu? Alguém morreu?
– Ainda não. — respondeu o Winchester de um jeito ameaçador.
– Por que você não está fazendo o meu café? — estranhou ela, mas se arrependeu em seguida porque a expressão de Dean ficou ainda mais ameaçadora.
– Sabe, eu estava prestes a fazer. Pela milésima vez desde que nós fizemos aquela maldita aposta e eu perdi. Mas então o Kevin entrou aqui e me perguntou por que, nos últimos dias, eu quase não saio desta cozinha. Então eu contei a história para ele e como você foi persuasiva quando o convenceu a voltar para o bunker. Mas aí ele deixou escapar uma coisa bem curiosa, sabe? Que na noite em que você ligou, ele tinha acabado de terminar com a Chloe e, portanto, ia voltar de qualquer jeito. — relatou Dean.
– Humm... Que estranho. Ele não me disse isso quando eu liguei. — desconversou Mia, mas como Dean continuou a encarando seriamente, ela assumiu — Tudo bem, eu te enganei, foi mal. Mas você tem que entender, Dean, que quando alguém diz a palavra "café" perto de mim, eu me transformo. Eu não consigo raciocinar direito quando o assunto envolve café, entendeu?
– Com ou sem café, você não raciocina direito, Mia. — corrigiu Dean.
Ela respirou fundo e perguntou:
– Ok, o que eu posso fazer para me desculpar por ter te feito de idiota?
Dean sorriu com sarcasmo e respondeu:
– Você pode começar preparando o seu próprio café, depois você pode cuidar da louça, tem algumas roupas para lavar e o bunker está precisando de uma boa faxina também.
– Você vai me escravizar? — indagou a garota.
– Ah! E tem mais! Nas próximas semanas, eu vou precisar da sua ajuda para organizar os casamentos. — acrescentou Dean.
– Organizar os casamentos? — repetiu Mia surpresa. — Eu nem sei como organizar o meu guarda-roupa.
– Bem, agora eu vou te deixar sozinha. Você tem muito trabalho pela frente e eu não quero te atrapalhar. — encerrou Dean e então deixou a cozinha.
Mia respirou fundo e, sem escolha, resolveu preparar o café. Aproveitou e fez algumas panquecas também porque estava faminta. Depois de comer, e um pouco relutante, ela começou a lavar a louça que estava acumulada desde o dia anterior.
Enquanto isso, Natalie e Claire saíram do porão e foram até a sala principal onde Sam e Dean continuavam com a pesquisa. Aproximaram-se da mesa e Dean perguntou:
– E então? Ele disse alguma coisa?
– Não. O Crowley está irredutível. — respondeu Natalie. — Ele disse que só vai nos contar qual é arma para matar aquela vadia se ele voltar a ser um demônio livre.
– Foi o que ele propôs da última vez. — lembrou Dean.
– E por que nós não aceitamos esse acordo? — indagou Claire.
– Porque nós estamos falando de libertar um demônio. O Crowley. Uma ameaça. Não é tão simples assim, Claire. — respondeu Sam.
– A Abaddon é uma ameaça muito maior do que ele. E o Crowley é o único que sabe qual arma pode matá-la. Eu sei que ele está pedindo demais, mas talvez não haja outra escolha. Infelizmente, nós precisamos dele e do que ele sabe. — argumentou Claire.
– Por que nós não torturamos ele? Bem devagar... — sugeriu Natalie um pouco empolgada com a ideia.
– Eu já tentei isso há alguns dias, Baby. Mas desta vez o Crowley está irredutível mesmo. Ele cansou de ficar preso aqui e vai aguentar qualquer tortura até conseguir o que quer: a sua liberdade. — respondeu Dean.
Os quatro se entreolharam até que Sam cogitou:
– Então talvez a Claire esteja certa. Talvez não exista mesmo outra forma de fazer isso.
Após pensarem e discutirem aquele assunto por mais algum tempo, os quatro foram para o porão. Crowley, que até então estava assobiando Smoke on the water, parou ao vê-los e perguntou com cinismo:
– Deixa eu adivinhar? Nós temos um acordo?
Insatisfeito com aquela situação, mas convencido de que não tinha outro jeito, Dean começou:
– Você primeiro. Você nos conta qual é a arma e como encontrá-la, e então nós... Nós te soltamos.
– E que garantia eu tenho de que você vai cumprir a sua parte, Squirrel? — desconfiou o demônio.
– Você tem a minha palavra. — respondeu Dean com firmeza. — Eu sei que é difícil confiar em mim, mas no fundo você sabe que eu estou falando a verdade. Assim como você, eu cumpro o que eu prometo. Então se você nos ajudar a acabar com aquela vadia, você será um demônio livre, Crowley. Não que isso me agrade.
– Mas se você cruzar o nosso caminho novamente, o acordo estará quebrado. — avisou Sam. — Nós vamos te dar alguma vantagem, Crowley, mas não pense que isso significa que você venceu ou que estará livre para sempre. Se você aprontar qualquer coisa, e nós sabemos que você vai aprontar, então nós vamos atrás de você de novo. Nós vamos estar de olho em você, Crowley.
– Depois da Abaddon, você é o próximo da nossa lista. Então não cruze o nosso caminho. — completou Dean.
Crowley suspirou e disse com sarcasmo:
– Ai... Eu nunca me senti tão amado.
– Para de enrolar e fala logo. — intimou Natalie.
– Como nós matamos a Abaddon? — indagou Claire.
Após um longo momento de silêncio, o demônio revelou:
– A Primeira Espada, a arma que Caim usou para matar Abel, ela pode matar Cavaleiros do Inferno. É a única coisa que pode.
Depois de assimilar o fato de que Caim e Abel realmente existiram, Sam perguntou:
– E onde nós encontramos esta espada?
– Não é exatamente uma espada, mas sim a mandíbula de um animal pré histórico. — corrigiu Crowley. — Mas de qualquer forma, ela foi escondida no Inferno. Mais precisamente, embaixo da jaula do Lúcifer.
Todos se entreolharam um pouco tensos até que Dean perguntou:
– E como nós vamos até o Inferno e pegamos essa arma sem perturbar o sono do diabo?
– Com a chave certa. Mas infelizmente, eu não sei o que isso significa. Se eu soubesse, eu já teria acabado com a Abaddon há muito tempo. — respondeu Crowley e depois de uma pausa, acrescentou — Bem, eu cumpri a minha parte. Agora cumpra a sua e me deixe ir, Squirrel.
– Chave? — repetiu Natalie chegando a uma conclusão sobre aquilo.
Dean olhou para a loira e entendeu o que ela havia imaginado. Sam e Claire também chegaram a mesma conclusão instantes depois.
De certa forma, aquilo fazia sentido. Talvez fosse isso o que Bartholomew queria desde o começo. Talvez Natalie fosse essa tal chave assim como a Claire foi uma peça fundamental para que Abaddon e Belial libertassem aqueles demônios há alguns meses.
Bartholomew queria destruir Abaddon e o seu exército. E ele devia saber que a única forma de fazer isso era encontrando a Primeira Espada e matando a ruiva. E para isso, ele precisava do espelho de Miguel na Terra. Ele precisava de Natalie. Ela era a chave. Ela podia colocar um fim em pelo menos uma parte daquela guerra.
– Vocês sabem que chave é essa? — desconfiou Crowley.
– Eu tenho alguma ideia... — respondeu Natalie um tanto assustada com a possibilidade de que aquilo tivesse mesmo algo a ver com ela.
Após alguns instantes, Dean olhou para Crowley e questionou:
– E como nós vamos saber que você não está mentindo? Que essa história é verdade e que esta arma pode realmente matar a Abaddon?
– Vocês vão ter que confiar em mim. Eu sei que é difícil, mas eu dou a minha palavra. Além disso, eu quero Abaddon morta tanto quanto vocês. Portanto, acreditem, a arma funciona. — respondeu o demônio com segurança e mostrando as algemas que o prendiam, ele ordenou — Agora me soltem.
Todos se entreolharam, mas ninguém soltou o demônio. Pelo menos não naquele momento. Sam, Dean e as garotas resolveram deixá-lo preso até o fim do dia enquanto pesquisavam mais sobre a Primeira Espada no acervo dos Homens das Letras. Claro que o demônio protestou um pouco.
Sabendo exatamente o que estavam procurando, eles finalmente encontraram algumas informações concretas sobre a arma. Ela realmente existia. Um dos Homens das Letras havia confirmado isso durante um exorcismo.
Além de Abaddon e Belial haviam existido outros Cavaleiros do Inferno e Caim (sim, o Caim do Velho Testamento) havia matado a maioria deles usando aquela arma. Ninguém descobriu ao certo porque a arma tinha ido parar no Inferno e que fim levou Caim, mas de fato a Primeira Espada existia e Crowley tinha dito a verdade.
Embora aquilo não lhe agradassem nem um pouco, eles resolveram cumprir a parte do acordo com o demônio. Então Sam colocou um saco preto na cabeça de Crowley, Dean o jogou no porta-malas do Impala e dirigiram até de madrugada. Pararam em uma encruzilhada bem longe de Lebanon. Sam tirou Crowley do carro, Dean tirou o saco da cabeça do demônio e abriu as algemas que o prendiam.
Os três se olharam por alguns instantes até que Dean reforçou:
– Você já sabe. Não cruze o nosso caminho.
– Foi um prazer negociar com vocês, Boys. E obrigado pela hospitalidade. — encerrou o demônio.
Então Crowley estalou os dedos e Sam e Dean se viram sozinhos na encruzilhada.
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