Crooked

10 Thank you for reminding me of why I'm sick inside.


"Thank you for the venom
Did you think it would paralyze
These scars, I scratch, I tear,
are there under my skin,
where you’ve always been”
— Sin With A Grin — Shinedown


Durante o apocalipse, Nico não sabia mais o que era dormir. Ele acordava suando no escuro do quarto, praticamente caindo da cama que ainda tinha. Tateava pelo chão em busca de apoio, enquanto a respiração tinha problemas em se concertar. Foi só quando ele caiu completamente e rolou pelo chão de madeira, parando de barriga para cima, que Nico se acalmou. A dor estava sendo seu tranquilizante desde que Bianca morrera, o que o fazia lutar arduamente para não pensar o quão aquilo era ruim.

Ele se levantou com certa dificuldade, o corpo mole e meio dolorido. Teve a certeza de cobrir os braços e a cicatriz no pescoço antes de abrir a porta do quarto e encarar o corredor escuro da própria casa. Tentou não chamar muita atenção com sua lanterna, afastando-a do caminho ao olhar pela pequena janela que havia no corredor — a maior estava completamente bloqueada.

Poucos zumbis pela rua, mas ainda estavam ali. Ainda haveriam mais espalhados pelo quarteirão. Nico suspirou. A imagem não o causava pânico, porém mexia no medo que ele guardava desde o começo. Desejava incessantemente que não acontecesse mais nada com ele, Hazel e Hades. Ele não precisava de mais isso. Queria que os monstros fossem embora, porém a decepção que o pensamento trazia era desgastante de mais para ele segurar nas costas.

Ele desceu as escadas descalço, chegando no que havia restado da sala. Como havia previsto, seu pai tinha as costas apoiadas no sofá, os machucados ainda frescos no rosto. Ele não olhou para Nico, porém o garoto sabia que Hades estava consciente da sua presença. Sentou-se do seu lado como era de costume, sem nenhuma palavra mágica em mente.

Antigamente, tudo que ele precisava era uma palavra bonita para fazer as pazes com a família. Comparar essa situação com antes era muita idiotice, até para um garoto de quinze anos.

— Por que você não vai dormir? — Hades murmurou. Nico deu de ombros.

— Você não me responde quando eu pergunto isso.

— Estou… De vigia. — Hades balançou a mão no ar, numa tentativa miserável de parecer mais forte do que era. Nico arqueou as sobrancelhas.

— Claaro. Você vai matar vários deles desse jeito. — Nico deu um sorriso triste. — Pode descansar, pai.

Hades balançou a cabeça negativamente.

— Não é questão de querer, Nico. Não consigo.

— Nem eu. — Nico o encarou surpreso. Era a primeira vez que ele era sincero em semanas. — Eu continuo tendo esses sonhos em que eu… Não sou eu. Sou outra coisa.

Hades o observava de um jeito que o encorajava a falar, pois ele queria saber. Essa foi a primeira vez na vida de Nico que o pai dava-lhe espaço para sentir algo que não estivesse planejado. Nico ficou nervoso e irritado. Tudo por causa de um apocalipse.

— Já parou para pensar que os comedores de cérebro ai fora tinham uma história? — Nico não conseguia dizer o que via nos seus sonhos diretamente. Então ele fugiu. — Filhos, irmãos, pais… Eles perderam tudo isso. E as vezes até causaram. Como seria se eles lembrassem?

— Eles não são humanos, Nico. — Hades grunhiu. — O melhor que podem ter é a morte novamente.

— Talvez eles não deveriam ter morrido. — Nico abaixou a voz, um rebuliço formando-se dentro de si. Por que esses pensamentos mexiam tanto consigo? Ele não devia ter a menor consideração pelos monstros que levaram Bianca. — Talvez voltaram por esse motivo. Se eles pudessem voltar ao que eram antes, então…

— Escuta, entendo que Maria está sendo difícil de aceitar, assim como… — Hades ainda não tinha a força suficiente para falar o nome dela. Seus machucados abriam-se novamente e ardiam quando a palavra saía da sua boca. — Mas não pode se perder nisso. Eu não posso continuar daqui sozinho. Preciso que continue são e me ajude a levar Hazel daqui, por que ela é só uma garotinha e não merece passar por tudo isso. Entendeu?

— Pai…

— Não, sem protestos. Estamos todos cansados para pensar numa cura, Nico. O dia em que o Governo vai se preocupar com a nossa situação, será outro apocalipse. A ação deles só refletem as prioridades que têm, por isso não espere uma salvação.

— Mas e se nós fizermos isso?! — Nico se viu elevando a voz, pois ele não tinha o menor argumento contra Hades. Ele tinha a convicção de um coração ferido que já havia passado por ali milhares de vezes. O que uma criança podia debater com ele? — Não existem mais regras, certo? Podemos fazer o que quisermos. Você nunca os viu de verdade, não sabe…

O olhar de Hades fez Nico morder a língua. Hades nunca batera nele, mas naquele momento ele estava próximo, perigosamente próximo.

— Se você gritar de novo e Hazel acordar… — Hades murmurou, mortalmente sério. — Eu juro Nico… Você vai entender como eles vivem.

Nico começou a chorar.

— Eu já entendo… Hades, eu já…

— Nico, Nico! — Percy o chacoalhava. Nico tremia violentamente, lutando para abrir os olhos e sair daquele sonho, sem mais limite entre a fantasia macabra e a realidade bizarra. Ambas doíam de mais para que ele suportasse. Suas unhas encostaram a carne morta do pescoço, a cicatriz. Ele quis arranhá-la até que saísse, então ele poderia morrer. — Nico, acorda, caramba! — Percy o segurou de todas as formas que podia e o fez virar, sem a menor delicadeza, fazendo Nico bater a cabeça.

Ele acordou com o seu próprio grito. Um barulho de trovão rimbombava pelo cérebro, vibrando nas orelhas enquanto elas queimavam de forma incomum. Demorou longos instantes até que Nico voltasse e conseguisse ter alguma reação. Ainda assim, não foi a das melhores:

— Q-que…?

— Porra. — Percy soltou a respiração que segurava, saindo de cima do garoto. Nico sentou-se com o corpo fraco. — Se toda vez que for dormir comigo tiver um pesadelo, vai ser muito difícil.

Nico não estava vermelho, mas sentiu-se assim internamente pelo comentário dele. Implicava muitas coisas, trazendo o “tipo-quase-beijo” de volta à sua mente e aos lábios. Nico os mordeu, tentando se recuperar.

— Eu queria ter um organismo comportado. — Nico resmungou, engolindo a seco. Percy o encarou, tentando não mostrar o seu alívio. Havia pequenas gotinhas de suor espalhadas pela a sua testa que não escorregavam pelo rosto. Seu lábio estava seco e rachado, os olhos grandes de preocupação, mais marejados que o normal.

A imagem de Percy o trouxe de volta como água gelada. Era ali que ele vivia. Como SFP. Um estúpido SFP extremamente envolvido pelo parente de quem quer matá-lo, e era tão ridículo que Nico não via mais a graça. Um dia, Percy iria morrer. E Nico? Nico iria continuar no corpo de um garoto de quinze anos desnutrido para sempre.

Agora mesmo ele tinha dezessete anos e Hazel era mais alta que ele. Sem comentários sobre a diferença de altura entre Percy e Nico. O garoto se encolheu, encostando as costas na pedra da caverna como o pai havia feito no sonho. Mesmos hábitos. Mesma cor dos olhos. Mesmos sentimentos. Mesmas perdas, diferentes motivos.

No sonho, quem havia virado fora a sua mãe e não ele. Isso o fez questionar se ela não tinha Renascido por ter apodrecido de mais. Nico abraçou os joelhos, afundando o rosto no espaço entre as pernas. Quis chorar. Ele queria vegetar num cantinho até sumir, como algo fora da validade.

O problema é que ele tinha passado e não tinha a chance de desaparecer.

Ele não iria se matar. Não sem um motivo. Seu pai precisava dele, Percy confiava nele. Ethan não podia mais ficar sozinho. Hazel… Hazel conseguira amá-lo mesmo depois vendo o que acontecera com Bianca, sem nunca ter medo de ser a próxima. Ele devia tanto à ela que doía. Como todo o resto.

Também pensou sobre o que dissera no sonho. Acreditava mesmo nisso? Que os zumbis mereciam uma segunda chance? Que, talvez, eles não agissem apenas por fome irracional? O que aquelas pessoas tinham de especial para não poderem morrer em paz e passarem por decepções como aquelas?

Ou, simplesmente, seu consciente não estava tentando cobrir a culpa e ir para um tempo “feliz”. Do jeito que estava, ser o sobrevivente e não o monstro parecia milhões de vezes melhor. Nico poderia ter matado quantos humanos fosse no apocalipse, como sobrevivente ninguém iria odiá-lo por isso. Como monstro, ele nunca iria conseguir limpar seu rastro de sangue.

Olhou para Percy e perguntou-se quantas pessoas ele havia matado.

— Nico? — a voz dele tremeu. Ele se aproximou. — Você está bem?

Nico balançou a cabeça negativamente.

— Talvez eu não fique por muito tempo. — murmurou, desviando os olhos para baixo. — Percy, têm coisas que eu…

— Eu sei sobre Bianca. — Percy o cortou. — Essa foi uma das coisas que eu descobri… No tempo que estive aqui. Mas, sobre o Jason… — ele tossiu. Aquilo era bem desconfortável. — O conheci do mesmo jeito que conheceu Annabeth.

— Você era o noivo da Annabeth? — Nico abaixou o rosto, abatido pelo soco que a revelação lhe deu. — Isso é tão…

— Eu sei, é horrível que tenhamos estado tão perto e longe ao mesmo tempo. Então, — ele foi rápido em mudar de assunto — você lembrou de tudo. Imagino que a conversa com o seu pai…

— Não quero falar disso. — Nico balançou a cabeça. Ele podia ouvir a cicatriz no pescoço abrindo ao pensar de mais naquilo. Não podia se dar ao luxo de se lamentar, quando ainda tinha muito a se fazer. Ele não iria mais causar problemas. — A gente dormiu aqui a noite toda? Precisamos voltar.

Percy arqueou as sobrancelhas.

— Você quer mesmo ir para a cidade que está querendo o seu pescoço?

— Não vou para cidade. Estamos no bosque, certo? A casa de Ethan não deve estar tão longe.

— Ethan? — Percy exclamou. — Ele ainda está aqui?

— Ele me ajudou. — Nico olhou feio para ele. Não gostara do tom de voz de Percy ao dizer o nome do asiático, quase como se não acreditasse que ele pudesse ajudá-los. — Seja o que estiver pensando dele, está errado.

Percy levantou as mãos defensivamente.

— Ei, qual é. Eu não disse nada.

— É, mas pensou. — Nico revirou os olhos. Levou a mão à nuca, descendo até o buraco em seguida. — De qualquer jeito, é melhor irmos logo em algum lugar com medicina. Não estou afim de me transformar de novo.

Percy se levantou e ajudou Nico a fazer o mesmo. Os dois caminharam até a saída da caverna, onde ele checou primeiro se estava seguro sair. Após confirmar, Nico e Percy entraram num ritmo bom de caminhada, pois realmente não podiam demorar. Nico lembrava-se vagamente do caminho entre o bosque, sabia que brincara muito por ali.

Não devia ser muito difícil se achar. Quando passasse pelos lugares, ele iria reconhecer. A sorte era que a vegetação não se repetia, árvores mudavam de formatos a partir de lugares mais espaçosos ou mais cobertos por arbustos. Nico estava tão concentrado no que fazia, que não percebeu o desconforto de Percy no silêncio.

— Nico, por que você virou ontem?

— Não é que eu quis virar... — Nico suspirou. — Para falar a verdade, eu sabia que não tinha tomado a droga. Podia ter feito isso, mas saí correndo do mesmo jeito. Acho que dá para dizer que entrei em pânico? Meu corpo ainda está meio mole disso tudo.

— Para onde você foi?

— Cova da Bianca. — Nico respondeu simplesmente, sem coragem de olhá-lo. Os dois caíram num silêncio tenso após isso, ainda andando. Nico só podia imaginar como era para Percy andar naquele calor após acordar, sem ter tempo de saciar nenhuma necessidade de vivo. Ele deveria estar lento, então Nico iria tentar não se incomodar com ele.

— Ah... Bom, eu fui na cova da minha mãe. Sabia que se você morre durante o Renascimento, eles mudam o seu corpo para aquele novo cemitério? Não importa se você já tinha um túmulo no cemitério comum.

Nico franziu o cenho. Aquela conversa não era nada boa.

— A sua mãe... — Nico não precisou terminar. Percy assentiu. — Você... Acha que consegue falar disso?

— Claro, do mesmo jeito que eu consigo não me matar. — Percy deu de ombros. — Meu pai e eu éramos muito diferentes. Eu só o suportava por conta da minha mãe, Sally, e da minha irmãzinha, Lilo. Só que teve uma época que eu cansei de tudo e fugi de casa. Minha mãe morreu uma semana depois, num assalto.

Percy mordeu o lábio. Sempre seria um assunto complicado. Nico quis lembrar-se a morte da própria mãe. Ela só não estava mais lá, como se a existência tivesse sido apagada. Adoecera, porém Nico e Hazel não foram permitidos visitá-la durante a época da doença. Hoje ele entende que o pai fez isso para que só lembrassem dela nos melhores dias, o problema é que essas memórias só faziam o buraco que Maria deixou latejar e crescer cada vez mais.

Nico lembrava-se desses pensamentos enquanto ia em direção ao suicídio. Agora, ele estava calejado com as dores. Doía? Claro que doía, como todo o resto. Como Hazel, Hades, Bianca, Percy, Ethan. Tudo era uma soma negativa em suas costas. Não tinha o que se fazer além de carregar o peso até ganhar a oportunidade de paz.

— Só que ela voltou. — Percy continuou, chamando a atenção de Nico. — Ela foi curada, como você, e eu voltei para cuidar dela como SFP. Não deu muito certo, pois o meu pai era o líder da FVH na época e 'me forçou a fazer parte. Dessa vez, Sally que disse para eu ir embora, e eu fui.

— Como da última vez, ela morreu?

— Se matou por conta da depressão. — Percy encarou diretamente os olhos do Nico. — É um ciclo que se repete, Nico. Ela se matou, eu tentei me matar, você...

— Sabe como eu morri?

Percy assentiu. Nico mordeu o lábio. Ele tinha razão. Era o círculo da guerra. Quantas vítimas continuavam vivas após passarem pela guerra? Quantas delas queriam viver? O Mundo havia perdido sua estabilidade e os cidadãos sofreriam com isso até o momento que entenderem que eles não são os únicos. Para equilibrar de verdade, todos teriam que ajudar. Até lá, as vítimas iriam continuar perdidas e quebradas, sem um lugar para voltar.

Não era um maldito trabalho voluntário com os SFP que iria fazer isso.

— Mesmo assim, — Nico balançou a cabeça. — o que nós podemos fazer nessa bagunça?

Quando Percy abriu a boca, um tiro cortou o ar pertissimo dele. Num impulso, Nico o jogou para trás, sentindo a bala cravar em suas costas. Ele segurou um grito, por que mais que não pudesse morrer, aquilo não era agradável. Afastou-se de Percy o mais rápido que pode com as costas ainda travadas, choque espalhando-se pelo corpo morto, deixando sangue apodrecido escorrer da boca.

— Nico! Nico, o que foi que... — Percy perdeu a voz quando viu o casaco de aviador dele ensaguentado. Olhando na direção onde o tiro havia vindo, ele avistou um Octavian muito perturbado com a arma na mão. — Mas que porra é essa?!

Octavian não tinha resposta. Ele rangia os dentes, com uma sombra sobre os olhos. Parecia extremamente dividido entre atirar ou não atirar. Talvez ainda tivesse um fio de humanidade que o apocalipse não arrancara. Nico esticou a mão e puxou a camisa de Percy, apoiando-se nele para conseguir se erguer, de costas para Octavian.

— O que você acha que foi? Kronos. — Nico murmurou correndo contra as palavras. — Você precisa o convencer a soltar a arma.

Percy abriu a boca para protestar, não entendia muito bem o que Nico dizia, porém Nico o beliscou com uma força que fez Percy pular. Não tinha outro jeito. Eles estavam desarmados e extremamente frágeis, pois Nico não iria conseguir correr e, mesmo que tentasse, isso iria agitar Octavian. O loiro iria atirar como um reflexo, igual aos cachorros raivosos.

— P-Por que... Por que está fazendo isso? — Percy tentou, a voz falhando. — Somos nós, Octavian, morávamos no mesmo bairro e você costumava a nos dar bronca o tempo todo. Vai mesmo matar quem você conheceu a vida toda?

— Poupe-me do seu sentimentalismo barato. — Octavian rosnou. — Ele nem faz sentido. O que isso me impediria? Eu vou ser pago. — ele soltou uma risada desesperada de tão debochada. — Vocês dois são tão óbvios que eu fico enojado. É irritante que não tenham sido mortos até agora.

— Kronos quer me matar? Então por que ele não fez isso antes? — Percy questionou.

Octavian riu. O dedo dele apertou o gatilho, pronto para puxar. Nico iria ter que intervir de novo, mas ele não sabia quantos tiros poderia tomar. Aquele único já queimava e incomodava como inferno, a bala movendo-se tão ligeiramente dentro da pele quando ele se movia. Quantas dessas iria aguentar?

Até que ele ouviu um baque surdo.

— E eu pensando em te promover. — ouviu a voz cansada de Reyna. Olhou para trás, vendo que Octavian havia caído no chão. — Ele machucou vocês?

— Atirou no Nico. — Percy respondeu com a voz apertada, abraçando Nico agora. — Ei... Como você tá?

— Morrendo. — Nico tremeu. A cabeça dele pesava e ele sentia-se mais frio que o normal, como se o sangue estivesse fugindo do corpo. — Mas eu vou sobreviver. — ele quis controlar os dentes que batiam e manter a consciência, porém estava sendo uma tarefa quase impossível.

— Por que Octavian fez isso?

— Eu preferia não falar agora. — de repente Reyna estava próxima, passando a mão pela a cabeça de Nico. — É melhor cuidarmos dele antes que vire uma máquina comedora de gente.

Os olhos de Nico viraram e ele desmaiou de vez.


xx


Ele acordou berrando, a pele mais pálida e o próprio sangue escorrendo pelo pescoço, escondendo o contorno da boca — como uma criança comendo chocolate. A natureza agressiva foi a primeira reagir, fazendo seus braços levantarem a procura da carne mais macia para que os caninos devorassem. Não haviam pensamentos, vozes, cheiros ou toques que o atingissem. Sua alma estava enterrada abaixo de uma grossa camada da carne que precisava.

Até que ela foi empurrada de volta. Era como acordar de um afogamento. O medicamento consumiu todo o seu organismo, fazendo-o queimar até que ele funcionasse da forma que deveria. O cérebro dele reagiu num só instante, devolvendo os sentidos e os pensamentos numa só jogada, deixando o processo mais doloroso.

— Nico, calma. — conseguiu distinguir o rosto de Ethan pairando sobre o seu, depois sentiu o aperto forte sobre seus ombros, prendendo-o no lugar. Nico soltou uma respiração imaginária, deitando a cabeça novamente. As vezes desmaiar não era tão ruim. Se significava acordar num lugar melhor, então Nico poderia conviver com isso.

Ele sentou-se na cama, após alguns instantes acostumando-se com o fato que ele havia voltado — e arrancaram a bala de suas costas. Encarou Ethan, notando como ele parecia zangado, preocupado e concentrado ao mesmo tempo. Aquilo não iria ser bom.

— Wow. — Ethan começou, sem medir o sarcasmo. — Conseguiu ter só uma bala nas costas. Qual é o seu segredo, Nico?

— Ethan, me desculpa...

— Nem começa. — Ethan estendeu uma mão no ar. Olhava feio para Nico. — Eu já ouvi bastante do Senhor Jackson ali e a Ramirez.

— Eles ainda estão aqui? — Nico perguntou. Ethan não pareceu gostar do interesse.

— Infelizmente. Quer que eu chame? Eu posso servir chazinho e biscoito enquanto conversam.

— Ethan! — Nico exclamou. — Eu fiz uma cagada, okay? Eu fiz várias delas. Mas eu preciso de você para resolvê-las.

— Eu sei. Não só você precisa de mim, como eu preciso de você. É que isso é muito irritante, Nico. Sabe o quanto eu fiquei preocupado com você? Eu quase sai correndo atrás de você!

— O que quer dizer? — Nico se aproximou de onde Ethan estava sentado. — Por que não foi?

— Por que ouvimos as notícias. Octavian não atirou em vocês por causa de Kronos, ele não quer te matar. Não agora.

— Isso não faz sentido.

— Não... Até você lembrar. — Ethan olhou diretamente nos olhos dele, muito sério. — Antes de continuar daqui, precisa lembrar-se o que eles fizeram com você quando te sequestraram. Pode ser a resposta de tudo.

— Como?

— Uma resposta leva à outra, então elas se conectam. Eu não sei como, Nico, mas precisa lembrar se quiser parar essa loucura na cidade.

— Nunca disse que queria fazer isso. — Nico murmurou, fazendo Ethan franzir o cenho. — Não olhe assim para mim. Eu não tenho nada haver com isso.

— Então você vai deixar as pessoas se matarem aqui até não restar mais ninguém? Só por que precisa sentir-se seguro? Se não ajudar, Nico, eles nunca vão parar de te perseguir.

— Eu não sei, tá bom! — Nico gritou, cobrindo a cabeça com as mãos. — Eu não sei mais o que é verdade e o que é mentira. O que eu posso fazer para mudar? E por que eu deveria fazer isso? Eu sei o que acontece quando eu tento ajudar. Tudo piora.

Ethan calou-se. Ele o observou por longos instantes até balançar a cabeça negativamente e se levantar.

— Quer saber de uma coisa, Di Angelo? — Ethan apontou o dedo para ele. — Eu deixei você fazer suas merdas uma vez, e olhe onde terminamos. Achei que tinha aprendido, mas não. Então vou agir exatamente da mesma maneira. Não vou forçar o que eu penso em você. Se tem tanto tempo para se lamentar e se odiar por tudo que já foi, então aproveite.

Ele deixou Nico sozinho.

Notas finais
Eu não sabia que frase por no final. Não queria colocar uma muito clichê "mimimimi" to sofrendo, então ficou essa coisa ai mesmo -q. Esse capi foi estranho pra mim, vai entender. Até o próximo