Crooked

11 No matter how many deaths that I die I will never forget


Notas iniciais
AVISO: ESSE CAPI CONTEM CARNIFICINA YAAAAAAAAY! Esse capítulo só está sendo postado hoje por conta do Deny, essa coisa fofosa, que tá fazendo aniversário hoje! Se não fosse por ele, o capi só ia sair bem mais tarde, por que to de mau com o Nyah -q PARABENS PRA VOCÊ PARABENS PARABENS PARABAAAAAAINS https://www.youtube.com/watch?v=gUkaoy1Pr7E

"Tell me would you kill to save a life?
Tell me would you kill to prove you're right?
Crash, crash, burn, let it all burn
This hurricane's chasing us all underground"
— Hurricane — 30 Seconds To Mars


Nico estava cansado de espelhos. Na verdade, nunca gostara deles. E agora vivia se deparando com o reflexo nas horas mais importunas, quando não precisava de nada disso. Para quê ficar se remoendo e remoendo a aparência que tinha, comparando-a com a outra?

Como tudo na vida, ignorar a atual situação vinha com um porém. O fazia pensar em outras coisas, estas sendo o futuro. Ele traçou, com muito cuidado e relutância, suas manchas e cicatrizes pelo corpo. Elas iriam que sumir, pensou, não eram preocupantes como parecem agora.

Dizem que machucados somem com o tempo, e as crianças acreditam. Nico sempre teve certeza que, com uma certa idade, o seu corpo estaria do jeito que queria. Bom, no momento isso era impossível. As células mortas não iriam embora. Já que não haviam mais novas criando-se.

Não havia mais um coração para se obedecer.

Nico sempre certificou-se de não se entristecer por sua condição. Só que ele não tinha mais o controle disso e de várias outras coisas. Talvez fosse o tiro. Talvez fosse Bianca. Talvez fosse Hazel, Hades.

Talvez fosse Percy o motivo dele estar tão preocupado. Fez como suspirasse. Queria e não queria que Percy continuasse na casa, enquanto trocava a faixa no seu ferimento. Queria muito assegurá-lo que estava bem, mas não sabia se devia. Não era melhor para eles cortar o que é que estivesse acontecendo antes que os machucasse?

Por que não iria ter um final feliz.

Por que tentar, se Nico sabia o fim?

Por que não sabe o meio.


Uma voz melodiosa sussurrou no fundo da mente. Nico piscou, encarando os quadradinhos brancos na parede do banheiro. Bianca. Nico, com onze anos de idade, perguntou: "Por que ver um filme que eu já sei o final?"

"Por que você não sabe o meio."

Alguém batia na porta incessantemente, fazendo-o acordar do breve e doce torpor da memória. Quase pulou para fora da pele, ao notar que o barulho repetia-se a um bom tempo. Colocou uma camiseta limpa e não se importou com mais nada, indo até a porta e a abrindo.

Antes que Nico pudesse falar alguma coisa, Percy Jackson o abraçou forte. No seu peito, Nico pode ouvir e sentir um coração louco batendo. Sentiu-se quente mais, mesmo que não pudesse, e muito desconfortável, prestes à ser esmagado. Muita coisa ao mesmo tempo, muito perto.

— Eu ouvi você gritando. — Percy murmurou, quase desesperado. Cheio daquela emoção bonita que encantara Nico à primeira vista. — Céus, Nico, pare de fazer esse tipo de coisa. Fica difícil te seguir assim.

Nico só esperou mais um pouco. Até que ele estragasse tudo, precisava de mais um pouco sentindo a pele escondida pelo tecido negro da camisa dele. Sentindo o cheiro dele, ouvindo a sua voz tão forte. Era como voltar para a caverna, num canto quente e confortável — mas desconfortável — e seguro do mundo.

Era como uma droga e Nico precisava cortá-la.

— Surpresa, Percy. — Nico afastou-o delicadamente. — Eu não morro.

— Isso não importa! — Percy exclamou de repente. Então apertou os lábios, encolhendo-se. — Por que pulou na minha frente?

— Por que estava tudo bem. — Nico balançou a cabeça de leve. — Entre nós dois, o único que poderia levar o tiro era eu.

— Então faria isso por outra pessoa?

Por que a voz dele estava tão baixa e séria? Muito diferente do comportamento que tinha desde sempre. O maldito garoto brincava nas piores horas, como poderia estar nervoso agora?

Ou o nervosismo esteve sempre lá, só Nico que não notara.

— Sim. — Nico foi rápido em responder.

— Nico, que merda de...

— Percy. — Nico o cortou, deixando sua ansiedade transbordar. — A gente realmente tem tempo para essa conversa agora?

— Não. — Percy suspirou, aproximando seu rosto de Nico. Isso o fez arregalar os olhos, o que piorou ao sentir a mão quente de Percy na bochecha. — Não, eu não quero brigar com você. Só não... Não tente ir embora sem mim agora, okay?

— Isso...

— Hey. — Percy o cortou de novo. — Sem sessão de culpa. Lembra o que eu disse de te mostrar no final de tudo isso, que iria sentir o mesmo?

— O mesmo o quê? — Nico perguntou, mesmo que já soubesse a resposta.

Ele só tinha muito medo dela, desde o começo. Percy riu. Só riu e ficou com aquele sorriso. Nico quis bater nele, porém só iria se envergonhar mais. Era óbvio. Percy nunca iria ficar tranquilo vendo Nico levar um tiro na frente dele. Era tão óbvio que doía, por que terminava sendo confuso.

Como alguém poderia importar tanto para a outra numa pequena questão de tempo? Destino? Não, Nico odiava isso. A última coisa que queria pensar é que tudo estava planejando antes mesmo de ponderar em começar. Química? Muitas chances.

Nico sentia o seu peso mais leve perto de Percy, com a mente em branco. Tudo que importava eram os cabelos negros, o sorriso que ele odiava/amava e os olhos verdes. O tempo passava rápido, mas não importava, ele ainda pensava como um adolescente e queria gastá-lo o mais rápido o possível.

Nico tinha memórias o bastante para saber que era primeira vez sentindo algo assim. Ele não deveria sentir, mas ali estava ele, atraído por aquele idiota do Jackson. Colocando-se em perigo, colocando todos em perigo. Ah, mas que se dane, a culpa não era dele, era?

Claro que era.

Não, Percy não era o amor da sua vida. Simplesmente a melhor coisa que ele tinha, e por isso Nico queria tentar. Nico queria que a situação ruim acabasse, ao mesmo tempo que não, apenas para sentir aquilo sem culpa. Para ver se tinham algum futuro.

Nico não queria admitir aquilo nunca. No entanto, ficava difícil com a testa de Percy na sua — tão delicadamente posta que ele nem havia notado — o encarando com olhos brilhantes de uma criança que ganha presente de natal. Simplesmente por ele estar lá. Simplesmente por eles estarem ali.

No final, não importava se Nico não dissesse. Ele demonstrou bastante quando esticou o rosto e beijou os lábios de Percy, roubando um barulho surpreso antes de ser correspondido.

Prepare a nova cova para Nico Di Angelo, pois ele é muito burro!

Nem isso o fez parar. Começou inocente o bastante como um selinho, com os braços de Nico ao redor da cintura de Percy; as mãos de Percy ao redor do seu rosto e pescoço. Eles só queriam estar próximos. Naquele momento notaram o quão sentiam falta daquilo, mesmo sem nunca terem conhecido.

Sem nenhuma resistência, Nico estava entregue.

Os minutos poderiam virar horas e Nico nem notaria. Percy já sentia falta de ar, o que era um pouco engraçado. Nico não tinha a menor noção de tempo, o que era aceitável considerando sua situação — já viu morto com relógio?

Ele se afastou rindo, vendo Percy ofegar de leve e sentindo a respiração em seu rosto.

— Você vai me matar. — Percy brincou. — Isso foi...

— Um comentário por vez. — Nico o abraçou mais forte. — Se não vai estragar o momento. Se eu te matasse, estaríamos quites, não?

— Sinceramente? — Percy arqueou a sobrancelha. — Tanto faz. Morto ou vivo, realmente tanto faz. Só me diga quando eu posso te ver. — e deu outro selinho, mais insistente e um tanto possessivo, em Nico.

Nico se viu gostando mais do que deveria do jeito que os dedos de Percy perdiam-se no seu cabelo e puxavam tão levemente, sem nunca machucá-lo. A intenção dele não era essa e estava claro. Talvez por isso fora tão fácil para Nico se perder ali de novo, e de novo, e de novo...

— Percy, você tem que ir. — Nico murmurou até mesmo contra sua própria vontade. Percy fez bico.

Quando ele vai deixar de ser uma criança? Nico questionou mentalmente.

— Mas Nico...

— Não pense que eu não sei que Reyna está te esperando. Vai ser melhor se for. — Nico mordeu o lábio, afastando-se. — É seguro para você voltar, não é?

Percy grunhiu.

— Não, não é seguro. Mas sei que ninguém vai atirar em mim de novo. Todo mundo (menos eu) concorda que eu sou a melhor distração para Kronos no momento. Tenho permissão pra bater neles?

— Tem permissão pra ir embora. — Nico revirou os olhos. — É o melhor. Pense o quanto Reyna está te arriscando ficando do nosso lado.

Percy bufou. Ele observou Nico por mais alguns instantes, ainda sem coragem para se afastar. Nico tocou o peito dele, dando o máximo de si para não prestar muita atenção no que estava de baixo da camiseta, dando um empurrãozinho de leve, quase como se fosse encorajador.

— Vai. Eu prometo que vou ver você de novo após ir checar o meu pai.

— Promete? — Percy segurou a mão dele. Nico assentiu.

Alguém pigarreou. Olhando para trás, quase assustado, Nico viu Luke de braços cruzados na entrada do quarto.

— Desculpa interromper, mas não dá tempo para representarem todos os filmes do Crepúsculo aqui, sabe.

Nico notou o jeito que Percy cerrava os dentes e fechava o rosto na direção do loiro. Por isso, tratou de apressar Percy para ir embora. Depois de mais dois beijos teimosos, ele finalmente desistiu e aceitou o fato que não passaria o dia ali. Pronto, um problema a menos, pelo menos isso Nico.

Agora havia Luke.

— Uma coisa não mudou: Seu gosto para homens é péssimo.

— Por favor. — Nico revirou os olhos antes de lançar um olhar zangado para Luke. — Eu não preciso ouvir isso, tá legal? A sua merda com ele não me envolve.

— Como pode dizer isso? Percy pode não ter feito os machucados em você, mas ele estava lá o tempo todo quando o pai dele arruinava a vida do seu. — Luke simplesmente explodiu. — E quem comprou essa batalha Nico? Quem? Eu e Ethan. Por que somos uns escravos anais, isso sim.

A boca de Nico abriu. Aquilo fazia muito sentido. Por que as pessoas ficariam tão hostis com ele de uma hora para outra? Ele tinha machucados de mais para não achar que era algo sério, e confuso. Talvez, apenas talvez, Nico devesse ter considerado um pouco mais esses fatos antes de beijar Percy na casa dos dois.

Ele ainda não sentia-se bem ao redor de Luke. Não sabia por que. O loiro não era familiar, e por algum motivo talvez Nico não quisesse lembrar. Mas ele tinha um ponto. Nenhuma dessas razões eram o suficiente para que ele fosse estúpido com Luke, ainda mais naquele momento.

Nico era um grande idiota.

— Onde está o Ethan? — viu-se perguntando, mais desconfortável do que no reencontro com Luke. O loiro revirou os olhos, com uma expressão que dizia que ele já esperava isso.

Por que ele o conhecia?

— Ele precisa fingir que está tudo bem se quiser esconder você. — Luke respondeu insatisfeito. — Trabalha como coveiro no cemitério, e assim ele pode andar por aqui.

Nico sabia que não era só isso. O trabalho era costume na família de Ethan. Desde que eles imigraram para Olímpia, pelo menos um dos integrantes cuidava do cemitério por motivos específicos. Não lembrava se era por uma parte pertencer aos parentes ou por tradição da cultura deles... Os Nakamura não eram como as outras famílias japonesas.

Especialmente a mãe de Ethan.

Automaticamente, ele pensou em Luke. Viu o loiro cuidando de si num depósito cheio de drogas e remédios, sendo o único que poderia fazer isso, já que Nico não queria preocupar mais ninguém em casa com o que passava. Os remédios de Luke, por mais suspeitos que fossem, funcionavam e os efeitos colaterais eram poucos. Pelo menos, em Nico. Ele não os sentia.

— Ainda... É um farmacêutico?

Luke deu de ombros.

— Me chame do que quiser, o Mundo virou o Inferno mesmo. Como já sabe, eu guardo essas coisas para emergências. Então, se quiser tirar o dia fora para ter uma viagem no túnel do tempo, é só abrir a gaveta e pegar um vidrinho azul.

Após terminar, Luke não se demorou ali. Nico andou até ele, impedindo-o de continuar. Não sabia o por quê de estar fazendo isso.

— Você quer que eu me drogue?

— Morrer você não vai, não é? — Luke arqueou as sobrancelhas. — Qual o problema? Acha que temos tempo para um milagre clarear seus pensamentos? — ele deu uma pausa, respirando fundo. — Você já foi drogado. Eles fizeram você esquecer tudo, apenas para que lembrasse de novo. Então faça o trabalho completo para que tenhamos uma dica, sério. Não temos mais tempo.

Sem mais nada para dizer, Luke finalmente o deixou sozinho. Nico deve ter engolido suas palavras, por que ele não achou uma resposta para o loiro. Bagunça. Desde sempre, era tudo uma bagunça. Nico andou para trás até se apoiar na parede, escorregando até o chão em seguida. Percy não estava mais ali.

Diferentemente, a droga que ele teria que tomar agora não era poética ou bonita. E Nico sabia que ele iria fazer. Não importasse o quão egoísta tentasse ser, ele estava sempre pensando nas outras pessoas. Não teria voltado se não pensasse. Se não tivesse visto o pai virar poeira em sua frente.

Passou as unhas de leve pelo pescoço. A ponta dos dedos tremiam, então ele os chacoalhou com força para que a tremedeira passasse. Sabia que tinha feito isso muito nos últimos dias, porém sempre tinha um motivo. Mesmo quebrado de todas as formas, Nico não estava em um estado ruim o suficiente para ter reações corporais.

Bateu a cabeça na parede. Bateu de novo. De novo. De novo. Mais uma vez. Afundou a unha de leve sobre a cicatriz, soltando um grasnido baixo. Então parou. Pela cabeça ecoavam barulhos de trovão, incômodos e ligeiramente doloridos de aguentar. No pescoço, a primeira camada de pele já havia sido cortada.

Por dentro, ele havia chorado o suficiente. Aquela não era uma questão, uma decisão. Nico devia isso à todos. À Percy. Conseguira tomar o risco de acreditar nele, precisava tomar o risco de não confiar em si próprio. Por isso, mesmo com dificuldades, ele se levantou e foi até o único criado mudo do quarto com gaveta. Abriu a primeira e não demorou a achar o potinho azul.

Vidrinho é o caramba, resmungou infantilmente para si mesmo. Tirou a tampa e engoliu três de uma vez. Primeiro, não sentiu nada. Segundo, estava queimando. De repente, Nico havia sido engolido pelo inferno.

xxx


Era o terceiro corpo que passava pelo corredor e a quarta vez que Nico tentava não gritar ou vomitar. O cheiro de fumaça era forte o bastante para incomodá-lo, porém não iria morrer por isso. Tentava mexer-se menos o possível de baixo de uma das camas do seu quarto no Campo de Reabilitação. Ele não queria acabar como as pessoas carregadas, mortas cruelmente como se voltassem ao estado de zumbis: Umas não tinham olhos, outras não tinham braços e algumas estavam decapitadas.

Nem mesmo um suicida como Nico queria terminar assim. Desnorteado era uma palavra fraca para descrevê-lo. Como o Campo havia sido atacado, e por quê? O que as pessoas ali tinham feito, além de renascerem?

O pior de tudo? Nico não podia fazer nada. Estava sufocado apenas pelos fatos. Queria correr, queria ficar. Uma voz maldosa na sua mente ria e dizia que era isso que queria. Que as coisas terminassem. Ele não merecia nada melhor. Não. Outro corpo passou, tendo perdido uma perna recentemente. Nico gritou.

Ele entrou em pânico e os nervos enlouqueceram. A imagem do sangue podre e da carne à mostra não havia ajudado. As figuras vestidas de negro que levavam o corpo pararam, assim que Nico percebeu que ele não era mais arrastado pelo chão. Não quis passar nem dois minutos ali.

Rolou até sair de baixo da cama e foi para o canto mais escuro do quarto, esperando as figuras entrarem. Tremia à ponto de convulsionar. Ele sabia que havia se alimentado de uma forma grotesca uma vez, mas não conhecia outras reações além das humanas. Qualquer um entraria em choque com as imagens, com o cheiro, com tudo.

Como se mexesse sozinho, o corpo de Nico decidiu correr quando as figuras entraram no quarto. Tentou correr o máximo que podia, mas o corredor estava bloqueado por uma pilha de corpos de SFP e pedaços dos mesmos, enquanto labaredas maldosas dançavam pela construção, destruindo-a sem pressa até chegarem no montinho.

Tudo que ele conseguiu formular foi um "Por quê?".

Então ele ouviu passos e vendaram sua visão, até virarem seu pescoço de uma forma que o fez sentir dor pela primeira vez, desmaiando em seguida.

Nico piscou, uma luz forte e quente sobre o seu rosto. Seu pescoço estava num ângulo horrível, porém não parecia quebrado. Era como se ele tivesse dormido do lado errado de novo, deixando-o tenso. Piscou um olho de cada vez, assim que estavam muito pesados.

Não acreditou no que viu. As paredes eram desgastadas a ponto de perderem a cor e assumirem o marrom da sujeira que causa arrepios em sua pele apenas de olhar. Poderia ter todo o tipo de coisas ali. A cadeira que sentava-se parecia menos suja, porém tão desconfortável quanto. Seus braços estavam presos pelos pulsos atrás da cadeira, fazendo-o se debater para tentar se livrar — descobrindo que o amarraram com arame e, sim, aquilo doía.

Ele estava a um movimento de cair junto com a cadeira antes da onda de pânico terminar. Não terminar realmente, mas o garoto retomou sentidos o suficiente para evitar a queda feia e entender que nada que fizesse agora iria ajudar. A paredes o encurralavam por todos os lados, menos pela a frente, onde ele podia ver um extenso corredor que ficava escuro no final.

Nico deixou a cabeça pender no ar, a dorzinha chata no pescoço latejando — pronta para se tornar algo sério. Ele queria chorar. Não sabia decidir se era melhor ser um dos mortos naquela pilha. Por que? Por que alguém faria algo assim com os SFP? Nico entendeu, naquele momento trágico, que nem mesmo eles mereciam um fim como aquele.

Ninguém merecia a violência.

E isso deixava tudo mais doente.

— Olha só para isso... — uma voz irritantemente satisfeita aproximou-se de Nico, fazendo-o levantar o rosto. Provavelmente, nunca se sentiu tão surpreso quanto naquele momento. O homem que encarava agora, um provável culpado do ataque, estava tão morto quanto ele.

Tinha cabelos negros postos para trás num penteado, nariz anguloso e olhos sem íris. As bochechas eram ligeiramente acentuadas, mas se destacavam mais quando ele sorria, por conta das covinhas. O homem sorria de orelha em orelha, usando um casaco negro e jeans, sendo magro e de estatura mediana.

Alguém normal, se não fosse pelo sorriso assustador no cenário aonde estava.

— Quem diria que seria um garoto...

— Deimos, por favor. — uma mulher que entrara com ele revirou os olhos. Usava lentes de contato castanhas, porém nenhuma maquiagem. Tinha cabelos castanhos e óculos, que provavelmente usava por costume. Ela estava tão morta quanto os dois. — Só o batize de uma vez e o deixe ir. Ele fede.

— Calma nessa hora, Lady. — Deimos conseguiu sorrir mais, como se fosse o dono do mundo. Ele se aproximou de Nico, que até agora estava com a voz presa no fundo da garganta. Ao notar que ele tinha a intenção de tocá-lo, Nico reagiu de forma bruta, praticamente gritando:

— O que vocês vão fazer comigo?! — quando a primeira pergunta saiu, as outras vieram naturalmente. — Por que machucaram todos?! Como podem...?

— Shh, você fala muito para alguém que ficou em silêncio todo esse tempo. — Deimos o cortou intrigado. Algo entre incomodado e curioso, como se não entendesse as ações de Nico. A mulher revirou os olhos.

— E você dizendo que ele era melhor que os outros por não fazer escândalo. Afinal, o que o Profeta vai fazer com... — a voz dela tinha veneno, os olhos desprezo. — Isso?

— Modos, Fobby. — o tom de Deimos tornou-se mais repreensivo e sério. — Por favor, ignore minha irmãzinha. Ela é nova na religião. Como deve ter percebido, meu nome é Deimos e sou o Primeiro Discípulo, mas não o primeiro a renascer. — ele riu como se fosse uma piada. — Minha irmã Fobos acabou de entrar e ainda precisa entender a nossa ética aqui.

De repente, ele estava muito próximo. Os olhos de Deimos eram mais expressivos que os dos outros SFP, ele era intimidante. O jeito que sorria, tão cheio de poder e despreocupado, e agia era desconcertante. Ele poderia enganar qualquer um, controlar qualquer um se tentasse de verdade.

Nico não precisava passar para saber.

— Mas não se preocupe, Nico Di Angelo. Você é perfeito como primeiro renascido, sabia? Não poderia ser uma coincidência e o nosso Profeta sabia disso! — ele estava exclamando, discursando com uma animação preocupante para Nico. — Ele sempre sabe. É por isso que os vivos nos temem. Mas você nos entende, Nico. É como nós. Eu mal consigo conter a minha empolgação, ao saber que vou ter você do meu lado mais tarde. Nós procuramos tanto por você. Fizemos tudo isso para você. E agora... Esses males vem para o bem.

Fobos esticou uma bandeja para ele. Nico não soube o que havia por dentro até Deimos trazer a bandeja exatamente abaixo do rosto dele, num ângulo perfeito. Sangue. Nico encolheu-se na cadeira, o pânico, choque, medo, encontrando-se dentro dele e explodindo nos seus músculos desajeitados. Ele tentou se mover. Tentou cair. Porém, em menos de um minuto, Fobos estava atrás dele com um aperto frio e pesado em cima do seu corpo.

Não tinha como fugir, nem para onde.

— "Eles deverão renascer..." — começou a citar, empurrando a cabeça de Nico contra a sua vontade na direção da bandeja. Deimos afundou o rosto de Nico no sangue, ainda recitando... — "(...) E serão como anjos..."

Quando retirou o rosto de Nico, ele gritava e se debatia como um animal raivoso. Não ouvia mais nada, não sentia mais nada além do maldito sangue espalhado pelo rosto, na boca, na alma, em tudo que lhe pertencia. Ele queria sair. Não queria passar por isso, não queria estar relacionado com aqueles psicopatas.

Não queria ter renascido.

xxx


— Que desastre... — Nico tossiu antes de vomitar mais sangue, por que não tinha outra coisa no organismo para despejar. Sua garganta ia sendo dilacerada, nunca fora muito boa, e agora ele tinha certeza que estava em carne viva.

Efeitos colaterais nem começa a cobrir o que eu está acontecendo, quis dizer, porém apagou antes. Seu corpo não aguentava muito.