Crooked
1 My head is holding on to all those things you said
"Dig my shallow grave
It's not me you'll save
Cause i'm a lost cause"
Lost Cause — Imagine Dragons
Nico não estava preso, pelo contrário. Eles diziam: "Pode sair" e ele negava com a cabeça, pois não conseguia falar. Não era um garoto assustado com o Mundo e sim consigo mesmo. Não sabia do que era capaz, não sabia quem ele era.
Sair não era a melhor opção.
Mesmo assim, ela sentou-se à sua frente e encarou seus olhos mortos que não possuíam mais íris como se ele não tivesse mudado. Como se os dois ainda fossem o que eram para ser.
Era o que mais doía em todos os dias que teimava continuar escondendo-se ali dentro. Olhar para ela e ter que continuar parado naquele lugar.
Olhar e continuar sentindo o medo que o imobilizava, não a vergonha de não ter feito nada mesmo com todos os dias de tentativa na recuperação. Aquilo doía mais que a dose do remédio inserida nas suas costas.
Nico sabia onde iria parar se ficasse como caso perdido para sempre. Não teria um "sempre". Seria bem curto.
– Ele disse que você podia falar.
Sem oi dessa vez?
– Esse doutor também disse que tentou te fazer falar. E Ethan. Por que não tenta, Nico?
Não sei mais, Haze.
– Você sabe que pode fazer isso. — Hazel suspirou. Ela parecia tão velha e tão cansada para a idade... Quantos anos deveria ter? Nico esquecia-se constantemente do tempo. — Eu pareço assustada? Se eu não estou, ninguém em casa vai ficar. Ninguém na cidade! Eles estão mudando, há mais...
É questão de tempo até lembrarem o que eu fiz. Mas não vai ser assim para mim. Saindo daqui, tudo que verei vai ser sangue.
Uma fisgada. Nico já estava cansado. Não tinha resistência emocional e não sabia a quem culpar, o remédio ou ele mesmo. Não sabia onde os efeitos começavam e ele terminava, por que dependia da medicação como peixes dependiam de água.
Não respirava como Hazel, não pensava como ela, não sentia como ela. Ela pedia o meio-irmão de volta, mas o meio-irmão dela havia morrido. Agora ele não a queria ver morrer também.
– Nico! — Hazel tentou tocá-lo e Nico desviou como uma cobra, sentindo algo parecido com dor por não estar acostumado com o movimento. — Escuta! O que há de errado? Por favor... — ela se interrompeu. Engoliu as palavras. Mordeu a língua.
Nico só conseguia observar. Perdera as palavras assim como as batidas do seu coração. Em silêncio, ele entendia melhor que ninguém. Não havia a agitação em dizer algo, em deixar as coisas claras. Em vez disso havia tempo para analisar. Assim, ele sempre sabia o que iria acontecer.
Hazel parava toda vez que sentia os olhos enchendo de água. A voz falhava e ela tensionava os músculos, lutando com toda a força que tinha para parecer forte. Para mostrar ao meio-irmão que era sincera quando dizia que ele podia voltar.
Que ele devia voltar.
– Devia fazer os exercícios, Nico. — essa foi a primeira vez que Hazel disse algo diferente. Geralmente quando o choro chegava, ela encerrava aquilo e ia embora. Não por que estava cheia, mas sim por que nada iria adiantar e Nico só ficaria pior. — Eles ajudam. Me ajudaram quando eu me deparei com uma família acabada e um meio irmão portador da Síndrome do Falecimento Parcial. Eu só quero te ajudar. Todos queremos. É por isso que eu continuo voltando aqui, por que eu... — agora havia lágrimas em seu rosto, mas Hazel estava muito envolvida para parar de falar. Como se finalmente dissesse o que tinha em mente. — Por que eu ganhei meu irmão de volta e não posso aproveitar isso.
Então ela levantou e deu as costas à ele, talvez por não aguentar vê-lo mais ou por estar chorando incessantemente. Se pudesse, Nico já teria se afogado nessas lágrimas. Ela avisou para qualquer instrutor perto da mesa dos dois que havia acabado e, já conhecendo aquele caso, ele não comentou nada além de mandar Nico ir embora.
E Nico andou. Andou como o zumbi que era e ninguém queria dizer. Andou sem rumo, sem motivo. Foi levado até o seu quarto de novo, aturdido e preso em algo que não sabia mais denominar, deparando-se com o branco esmagador. Desde quando o lugar eratão branco e sufocante? Desde quando incomodava tanto?
Ah, desde que ele começou a ver luz e não mais escuridão.
Desde que se levantou do túmulo.
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