Crooked

2 I feel like a ghost, and these memories go up in smoke


Notas iniciais
Acho, só acho, que vou apagar aquele capítulo anterior por motivos que ele foi um surto e se alguma coisa leu aquilo e gostou da história por algum motivo vai ficar mt confusa daqui pra frente. E mudei a capa, por que não sei fazer capas sem um editor decente, e tenho trauma de pedir para pessoas. Sei lá o que falar aqui '-'

"Guess I'll never know what I meant to you
This year's been lonely but at least it's through
I'll write a letter to my former self
Dear sad ghost, why'd you put your heart on the shelf"
Sad Ghosts — Issues


Ele não respirava, não de verdade. Mas o corpo se agarrou ao costume e, mesmo em estado decadente agora, Nico facilmente poderia se passar por um vivo se usasse a maquiagem necessária.

Ele olhou dentro da mochila no começo e tinha certeza que não havia nenhum potinho ali. Bom, não era importante. Quando se vagueia por muito tempo, tanto pelas ruas quanto pela sua mente, é fácil gostar de ter SFP. Não precisa comer, não precisa respirar, não pode morrer.

Sem sofrimento, certo?

O único problema era o remédio — que já estava acabando. Nico odiava colocá-lo sozinho no buraco que tinha nas costas. Não sabia o que era pior: Dobrar-se todo para ter certeza de não errar, a sensação forte da droga descendo pelo seu organismo e envolvendo-o ou o fato que aquele ritual era sua única chance de continuar são.

Havia prometido a nunca mais tornaria-se um hidrófobo. A medicina era o único meio de evitar isso; como uma corda que o prendia no mundo, só que pelo pescoço. Ah, essa é uma boa definição. Com essa corda, ele sempre sentia a dor do enforcamento, na beirada de morrer e, ao mesmo tempo, não.

Estava chovendo e as roupas escuras de Nico ficaram encharcadas. Mas ele não tinha um lugar para se esconder da chuva como as outras pessoas correndo por ele. Pelo menos ninguém o notaria naquela multidão. Perdia o equilíbrio algumas vezes, talvez por conta do vendaval, mas não conseguia ter certeza. A água o comprimia por todos os lados e não incomodava nem um pouco, pois ele não sentia isso também.

Nhá, depois de um tempo isso não importa mais.

O que ainda o incomodava? Essa lista é mais longa do que parece. Incomodava não saber mais nada além de seu nome. Incomodava estar correndo o risco do remédio acabar, incomodava não chegar aonde deveria e incomodava não saber onde esse lugar ficava.

Ele sabia e não sabia.

Se você pode considerar um papelzinho meio rasgado, sujo e velho como uma dica para onde conseguiria respostas como ele considerou, então entende o nível de desespero que Nico não sente por andar a tanto tempo.

No papel tem um poema miseravelmente bonito, cujo Nico evita para não se sentir estranho. Ele sente o que deveria ter sido a tristeza nos seus anos de vivo — mas não pode se lembrar como a sentia — e orgulho. É uma mistura estranha o bastante para assustá-lo, mas não sabe dizer exatamente se é um medroso ou só tem um bizarro senso comum.

Depois do poema há um estado e uma cidade chamada "Olímpia". Além dos ocasionais flashes e sonhos, Nico só se lembra verdadeiramente dos sentimentos e é nisso que ele se agarra. O nome traz um gosto na boca e uma sensação de comodidade. Como se fosse um território que ele já pisou, então é para lá que ele decidiu ir.

Só que ser um SFP sem documentos e dinheiro o proibia de pedir ajuda e cortar caminho por transportes públicos. Ele nem sabia o caminho certo, céus! Só podia tentar. É, isso que repetia todo o tempo: "Só adianta tentar".

Nico perdeu a linha dos pensamentos quando chegou à frente de uma ponte que possibilitava caminho por um canal com água tratada. Não cheirava mal como na cidade anterior. Mas ele não estava prestando atenção naquilo. Ainda chovia muito e todas as pessoas vivas ou que se faziam de vivas fugiram da água.

Menos ele e o cara na ponte.

Era um jovem bonito — não passaria dos vinte anos — até onde poderia definir. Na verdade, mesmo ensopado e debruçado de forma suicida na mureta da ponte, ele parecia muito o tipo de Nico. Não o pergunte como ele sabe disso, assim que humanos vivos ou mortos só pensam em um tipo de coisa.

O garoto começou a gritar histericamente com a cabeça baixa, na direção da água, pertissimo de cair. Ele gritava contra o vento, contra a chuva que entrava na sua boca, contra qualquer coisa.

Então Nico percebeu.

Aquela era a maior representação de sentimento que ele iria presenciar. Aquela vantagem que os vivos sempre teriam sobre os mortos. Aquela que ele sentia falta. Nico sentiu a dor impregnada nos gritos — dor que ele já conheceu; a tristeza envenenando os olhos que Nico não sabia as cores, o vazio num corpo que não tinha amor e não podia receber. Que se deixaria apagar na imensidão mais confortável, a que mais combinasse, para ter um pouco de paz.

Paz era depressão. Depressão era aquele garoto procurando por ela. Bonito, quebrado. Nico percebeu que ele deveria ter sido igual, assim como milhares de adolescentes espalhados pelo mundo.

Ele parou de gritar e era isso. Ele iria cair. Era uma questão segundos e não existia muitas chances contra a resolução mais cruel.

Nico fingiu que não ouviu os gritos.

– ME LARGA!

A brusquidão mandou Nico para trás, mas diferente do garoto ele não tinha a menor vontade de cair. Recuperou o equilíbrio antes de qualquer dano feito. O garoto continuou gritando, porém coisas inteligíveis. Nico grunhiu. Ele podia ter deixado acontecer. Ele podia não ter subido aquela ponte.

Porém, a visão do sentimento era uma coisa tão bonita. Não devia acabar de forma idiota. Aquele garoto tinha um tesouro e não o valorizava, então não merecia descanso. Se ele morresse, não pagaria nada. O mundo que o rondava desmoronaria, com ele as pessoas que o habitavam e não havia o menor motivo para isso.

– Merda, merda, merda... — quando Nico olhou para ele de novo, estava sentado no chão, as costas repousadas na muleta. As mãos seguravam a nuca numa atitude desesperada enquanto o rosto encarava o chão. Vergonha, realização, desalento.

Nico sentou-se também. Ninguém iria passar enquanto a chuva continuasse forte e ele estava cansado. Sem contar que o garoto o empurrara com bastante força, então iria fingir que estava com dor para sentir-se melhor. Ele não tinha nada para fazer além de observar, esperar.

Cabelos negros. Pele bronzeada. Mãos longas, um pouco desajeitadas. Nuca bonita, pelos negros. Um corpo de ótima forma que tremia por conta do frio — ou pelo choro, Nico não iria julgar...

Mesmo assim o pensamento que o garoto não tinha nada haver com um suicida passou pela a sua mente, ainda que ele mesmo não pudesse dizer nada. Que opinião um morto poderia ter de um vivo? Oh.

O vivo estava tentando virar um morto. Será, então, que Nico tinha o direito de interferir? Como diabos funcionava a Mãe Natureza naqueles tempos?

Dentre toda a confusão, Nico tinha uma certeza:

– Você vai morrer de hipotermia. — murmurou. — Não precisa pular no canal.

– O quê?! — o garoto grunhiu. Seus olhos tinham a mesma coloração do canal. Eram grandes e assustados, com os de um animal pequeno constantemente importunado pelos seus predadores.

– A não ser que queira viver. — a falta de costume com a fala mostrou-se clara naquele momento. Não sabia como agir. Não sabia como o eu dele vivo agiria. Não sabia se devia imitá-lo.

O garoto parecia muito conflitado para dizer qualquer coisa. Nico não o culpava. Sentia-se falando as maiores asneiras e preferia ser ignorado. Alguns segundos se passaram enquanto os dois se observavam de baixo de uma chuva densa, Nico finalmente percebendo que ele tinha roupa de mais para um morto e o garoto roupa de menos para um vivo.

Ele tirou o casaco, jogando-o no garoto em seguida. Literalmente. Não queria se aproximar muito, pois não sabia como ele iria reagir. Jogou e a blusa negra cobriu perfeitamente o rosto do garoto. Nico admirou por um instante o tecido negro praticamente grudado no rosto dele, delineando seus traços e os destacando. Como uma escultura semi-humana.

– Devia me tirar daqui. — ele murmurou zangado. A voz era quebrada e fraca, colocando o casaco de números maiores que o de Nico, cabendo assim e o protegendo da chuva. Não conseguiu esconder a satisfação que passou pelo seu corpo ao estar sendo aquecido de novo.

Nico revirou os olhos, pensando que ele não queria ser salvo antes. De qualquer jeito, levantou-se e o esperou fazer o mesmo. De novo, o garoto franziu o cenho estranhando-o, como se não entendesse as suas atitudes. Simples: Nico havia tentado de mais ajudar pessoas e aprendeu a sua lição. Ninguém tocava em um morto que acabou de conhecer.

Pois você nunca sabe se ele está medicado ou não. Eles ainda são demônios presos no formato de humanos, apenas mais apáticos do que nos filmes.

Quando os dois estavam de pé, Nico fez um movimento para que o garoto o seguisse e andou na frente. Não sabia mais andar do lado. Olhava várias vezes para trás, confirmando que o garoto continuava ali e não dentro daquele canal. Talvez ele tivesse recuperado seus sentidos agora. Talvez nunca fosse um suicida.

Não, com certeza era só um jovem com coração rudemente quebrado — que tinha concerto, claro que tinha. Corações jovens e pulsantes tinham o dom de renascerem a cada dia. Obviamente, não da mesma forma que o coração de Nico renasceu.

Honestamente, Nico não podia levá-lo para lugar nenhum. Muito menos mostrar o mundo para ele ou coisa parecida. Então ele parou na lona mais próxima e vazia, deixando a mochila escorregar pelos seus ombros e parar no chão.

O garoto demorou bons segundos para falar alguma coisa. Agora ele o observava de forma confusa, desconfiada. Nada violento como antes. Nico sentiu uma pontada de orgulho, que não era como o do papelzinho. Era orgulho de fazer algo sem instruções e conseguir no final.

– Por que paramos? — ele perguntou com um tom que gritava: "Cara, você é muito ruim nisso, desiste."

Dessa vez Nico se afetou.

– É um lugar seco. — Nico respondeu sem confiança.

– Só pela metade, o vento ainda pode me matar.

As sobrancelhas de Nico arquearam ao ouvir o tom de voz do garoto — repentinamente mais vívido. Ele se virou e viu um tipo de sorriso no rosto dele. Não era feliz, mas sim irônico e divertido ao mesmo tempo. O sorriso que alguém normal daria depois de um dia horrível, tentando rir da própria situação.

O garoto estava lutando contra aquilo sozinho e Nico não tinha como ajudar.

– Diferentemente do que espalham por ai, não tenho um covil do mal aonde eu possa te levar.

– Nem eu. — o garoto suspirou, apoiando-se na parede. Ele se encolhia no casaco de Nico, como se fosse o cobertor protetor contra os monstros da infância. — Perdi qualquer coisa que podia chamar de meu.

– Não precisa me dizer nada. — Nico balançou a cabeça. — Você não me conhece, não devia confiar em mim.

– Então você não quer saber por que o maluco estava gritando na ponte? — ele riu de forma machucada. — Cara, eu realmente não entendo como sua cabeça funciona.

– Eu já morri. Não me importo em receber.

A risada do garoto morreu na hora.

– Por que ainda está aqui então?

Nico não soube responder. Encarou a expressão séria do garoto e ficou completamente perdido. Deveria ser sincero? O que era sinceridade entre um morto e um vivo? Nico não aprendera nada sobre isso. Aprendera que não podia se chamar mais de "zumbi" por que era antiético, e que era um dos muitos que sofriam de Síndrome do Falecimento Parcial.

Aprendera como se medicar sozinho, aprendera a sobreviver e cobrir a aparência assustadora que tinha. Mesmo que maior parte dos defeitos haviam sido corrigidos, ele ainda era pálido como giz e não tinha íris. Tinha olhos completamente brancos com pontos negros dilatados, pupilas. Entretanto, sozinho Nico conseguia parecer mais assustador que os outros, com profundas bolsas de baixo dos olhos e cabelo escuro todo rebelde ao redor dele.

O olhar que ele tinha não poderia ser comparado com o olhar do garoto. Ele era assustador, o garoto era... Vivo. De todas as maneiras. Era triste, feliz, idiota, quebrado, perfeito.

– Eu não sei. — murmurou miserável.

O garoto suspirou.

– Que merda, cara. Que merda.

– Por que você...?

– Advinha? — ele sorriu.

– Não sabe. — Nico apertou os lábios. O garoto assentiu. — Quando parar de chover...

– Vai ser tarde.

– Escuro é o menor dos meus problemas. — Nico revirou os olhos. — É um problema seu?

– E se não parar de chover? — o garoto insistiu como se nem o ouvisse. — E se for uma tempestade que vai durar por uma semana toda?

– Então você vai entrar em algum lugar e pedir ajuda. — Nico inclinou a cabeça, confuso.

– Qual o seu nome?

Nico bufou. Aquele garoto era muito esquisito. Incomodava, até. Ele estava tentando resolver as coisas ali e ele continuava fugindo.

– Nico, até onde eu me lembro. — respondeu malcriado. — Pode parar de fugir do assunto agora?

– Percy. — sorriu de novo. — Sabe, você já está morto. Pra quê ser tão mórbido?

– Que?

– Eu sei que isso soa estranho vindo do cara que quase se matou e está atolado na merda, até mais que você, mas você não tem para onde voltar. Está tão sozinho quanto eu, e isso é irritante, se quer saber.

– Oh, quando as minhas atitudes interferiram na sua vida? — Nico retrucou.

– Quando evitou que eu morresse. — ele abriu os braços. — Evitou pela metade, mas não vou te desmerecer... Muito. — Nico não conseguia dizer nada, então Percy tomou a liberdade de continuar falando. — Sabe definir quando está tudo na merda? Quando o zumbi te salva da morte. E detalhe: Ele é o único de todas as pessoas que vai fazer isso.

– Chamar alguém de "zumbi" só vai te causar problemas. — Nico mordeu o lábio, dando um passo para trás. — Olha, Percy... Qualquer um teria te parado.

– Fácil pra você dizer isso, não convive em grupos grandes.

– Okay, agora você passou o limite. Sabia que pessoas como eu estão em todos os lugares? — Nico bufou e cruzou os braços. Percy olhou para ele e depois para a rua na frente deles. Estava parando de chover. Mas não haveria Pôr-do-Sol naquela tarde.

– Eu não estava falando do seu estado, cara.

– Você deveria ir. — Nico murmurou. Percy o olhou incrédulo, um pouco de medo brilhando no fundo dos olhos. Claro, ele não queria ficar sozinho. Não queria pensar. Não queria lidar.

– Eu... Eu não posso. — ele recuou, abatido. Nico sentiu uma pontada no peito vendo-o naquele estado. De repente a situação ficou mais melancólica, nada de irritante ou esquisita. Ele quis dizer que iria ajudá-lo, mas não podia e conhecia melhor. — Eu realmente não posso.

– Não pode ficar de baixo de uma lona para sempre. Eu posso, por que não preciso ir no banheiro ou coisa parecida. Não você, Percy.

– É a mesma coisa. — Percy caiu no chão. — Com ou sem lona, eu vou... Eu... Urgh! — ele grunhiu e tentou socar o chão, porém Nico o impediu e sentou à sua frente. Percy tentou se debater, mas o toque de Nico era mortalmente frio e forte. — Por que não me deixou morrer?

– Acredite em mim, não é uma experiência boa. Por que não deveria?

– P-por que eu já... — lágrimas desciam pelo rosto dele. Percy estava se debatendo, mas agora era como um reflexo, e não tinha tanta força. Era só um jeito do corpo dele reagir. Mostrar que ainda estava ali.

– Eu também. — Nico cedeu. No momento que ele disse isso, sabia o que iria vir. Sabia que havia quebrado algo que guardara há tanto tempo. Ele deixou Percy chorar, se debater, extravasar. Mesmo quando ele estava gritando e se perdendo, Nico deixou. Nico deixou por que era melhor tudo aquilo do que a morte, um buraco tão fundo que não havia como escalar de volta.

– Você pode não dizer para eu ir embora, então?! — ele exclamou. Nico assentiu.

– Tudo bem, venha comigo.

Notas finais
Esse capítulo ficou estranho bagarai e não sei o que fazer com ele, nhggggg Talvez eu vá deletar isso, ou revisar tudo de novo, não sei ;-;