Cronicas dos Sete Céus - O Espirito da Terra
2 Capítulo 1 - Primeiro Céu
Notas iniciais
Era tarde com Sol já se pondo deixando seu rastro vermelho alaranjado como que pincelado pelo próprio Criador, céu. O Palácio de Areia, na grande floresta de Nymeria que termina de fronte ao litoral de onde se inicia a Província da Água, Oceania, segue sua típica rotina de estudos e preparos para os ishins acerca das artes e histórias que regem o Universo, como centro cultural das províncias, com anjos voando, outros caminhando ou até mesmo parados apreciando o momento de paz. Pássaros a preencher o céu com suas inúmeras espécies, sons e aromas dos mais diversos a preencher o ambiente, tornando-o agradável e relaxante. Muito raramente se via um anjo estressado ou esbravejante no Palácio, tal como seu elemento, a Terra firme e estável, da mesma forma era o estado de espírito e animo de seus residentes. Ishins elementares da Terra, são famosos por sua constancia, paciência e calma.
Entretanto, algo ia mudar naquela tarde. A típica calma e tranquilidade do Palácio de Areia foram quebradas por um chamado urgente de um Serafim que corria e voava ao mesmo tempo em velocidade inumana com seus passos a ressoar pelo piso impecavelmente limpo de mármore, tentando ganhar mais velocidade ainda para chegar ao seu objetivo o quanto antes.
– Príncipe Kamael! Preciso falar com o Príncipe Kamael imediatamente! – Disse o serafim ofegante pela sua corrida, aos ishins de guarda na entrada do hall principal do palácio, com um pergaminho em mãos.
– Ei! Vai com calma aí burocrata*! Primeiro identifique-se! – Disse a primeira sentinela de guarda.
– Ora! Não temos tempo para essas formalidades, deixe-me ter com Kamael! – Disse o serafim, irritado.
– Sem identificação, não entra burocrata! São ordens do próprio Príncipe Kamael. – Disse o segundo guarda. – Afinal que mensagem tão importante é essa que não pode nem seguir os procedimentos? – retrucou o primeiro guarda.
– Argh! Nymerians* prepotentes! Ok, se só assim conseguirei falar com Kamael que seja. Sou Jaziel, a Mente Divina. Estou aqui a mando do Arcanjo Miguel com uma ordem urgente por parte dos Arcanjos. – disse Jaziel já impaciente. – E se não liberarem a passagem agora, ele saberá da vossa insubordinação.
Com isso, Jaziel consegue adentrar ao Palácio de Areia, deixando dois ishins mal-humorados para trás. Com a mesma pressa inicial, Jaziel corre ao longo do grande hall, com suas pilastras gigantes feitas de areia solidificada que dava uma cintilancia especial ao ambiente, quase mística com pequenas partículas douradas e prateadas, isso além do aroma suave que perfumava o ambiente. Ofegante, Jaziel se esforçava para entregar todas as mensagens dentro do prazo estipulado por Miguel, com sua túnica branca a esvoaçar pela corrida, seus cabelos negros como a noite presos em uma trança a balançar junto com o ritmo de seus passos. Chegando ao centro do Palácio, encontra uma entrada no teto de onde reluzia uma iluminação, vinda do mezanino, onde ficava o compartimento em o Príncipe Elemental da Terra se encontrava, alçando voo a todo vapor.
Após uma longa subida, Jaziel enfim alcança o mezanino, e se surpreende com o que vê. Não parece com um compartimento do palácio e sim como uma floresta particular, semelhante aos antigos Jardins Babilônicos, porém, não se compara em suntuosidade, beleza e riqueza. Jaziel não teve como parar brevemente e olhar a sua volta deslumbrado com a beleza convidativa do local, aproveitando para enxugar de sua alva tez gotículas de suor que escorriam perto de seus olhos castanhos e amendoados. Viu-se encantado com o local, já tinha ouvido a respeito das belezas da Província da Terra, mas nenhum comentário a respeito se comparava com o que ele estava presenciando.
– A mensagem, Jaziel! Concentre-se! – disse para si mesmo, agora respirando fundo e inalando o aroma natural do local relaxante.
Avista uma trilha cercada por arvores formando um arco, que levaria certamente ao Príncipe Kamael. Com o pergaminho em mãos, segue caminhando pela trilha e nela ele nota que é constantemente vigiado por diversos olhos ocultados pelas inúmeras folhas e arvores pelo caminho. Durante sua caminhada pela trilha, ele observa mais vislumbrado ainda a riqueza e a variedade de minerais, metais preciosos raríssimos inclusive aqueles utilizados para a forja das armas e armaduras dos querubins tal como também seres elementais da terra, criaturas inúteis, incapazes de fazer alguma coisa a favor ou contra.
Curiosas, elas se aproximam do Serafim, tocando em suas vestes, em seus cabelos. Incomodo, o Serafim espanta elas como se fossem insetos, mas seu esforço era inútil. Pois quanto mais às espantava, mais delas apareciam. Aborrecido prossegue com elas, quando por fim depois de uma longa caminhada, o Serafim depara-se com o fim da trilha onde nada havia, com exceção de duas estátuas de pedra, pareciam anjos, mas não tinham asas. Tinham longas capas com capuzes ocultando o corpo e face e em suas mãos lanças cruzadas em si, bloqueando algo que o Serafim tentava entender, visto que não havia nada ao fundo ao não serem plantas.
Confuso com a situação, Jaziel avança em direção ao fundo da trilha bloqueado buscando encontrar alguma entrada ou saída, quando bruscamente as estatuas ganham vida, ambas esticando seus braços indicando que o serafim parasse onde estava.
– Identifique-se celeste. – disse uma voz dupla a ecoar, semelhante a um homem e mulher falando juntos, porém com muito mais severidade em seu tom.
– S-Sou Jaziel, a Mente Divina, estou aqui por ordem... – disse um tanto desconfiado.
– O Príncipe te aguarda, Mente Divina. – Disse a estranha voz interrompendo-o, que ao ver do serafim vinha das estátuas.
Com isso as duas lanças cruzadas em bloqueio retrocedem, revelando uma entrada, para a surpresa do Serafim. Adentrando pela passagem, Jaziel está em uma sala com pouca iluminação, adornada por vitrais coloridos retratando a origem do universo, dos cosmos, dos Sete céus e por fim da Haled. O cheiro de incenso naquele lugar era constante e pleno, a ponto de causar náuseas se ficar com muito contato. Adaptando a vista ao local, Jaziel enfim localiza Kamael, O príncipe da Areia e da Província da Terra, Nymeria.
Kamael estava sentado com as pernas cruzadas e seus olhos fechados, tinha a pele morena, com um bronze natural aos indianos. Era parcialmente careca, com exceção a um pequeno monte de cabelos negros e lisos em rabo de cavalo. Trajava um chanti* longo de linho fino e claro com cinto adornado e cravejado de joias preciosas, tal como seus punhos que tinha braceletes prateados lisos e bem polidos. Sob o peito nu havia um grande pingente de esmeralda lapidado em forma circular, obviamente representando a Haled, que parecia pulsar como se tivesse vida própria. Em sua face havia piercings, mas especificamente, em seu queixo havia três pinos em linha vertical, em suas narinas uma argola que estava interligada a duas correntes, terminando em seus inúmeros brincos em cada orelha. Seu corpo era bem definido e seus músculos volumosos.
Notando a presença do Serafim, Kamael entreabre os olhos, mostrando o olhar de um azul frio, estéril e marcante que faria até o mais corajoso querubim recuar. Um olhar que demonstra poder e autoridade.
– Seja bem vindo, Jaziel. Vejo que trouxe algo dos gigantes. – Sua voz era rouca, baixa e suave.
– S-Sim, meu caro p-príncipe. – Jaziel estava intimidado e temeroso ao apresentar o pergaminho, suas mãos estavam suando.
– Não tema, Mente Divina! Aproxime-se mais e não se preocupe, está entre amigos. – Percebendo a insegurança do serafim, Kamael o tranquiliza.
Jaziel aproxima-se por fim diante de Kamael, e curva-se em reverencia ao Príncipe estendendo o pergaminho em suas mãos diante dele. O pergaminho começa a levitar em direção a Kamael e lentamente se abre diante dele, que começa a ler. Apesar de sua face permanecer inalterável, o príncipe Ishim questiona.
– Miguel sabe o risco que os humanos correm diante deste tipo de mudança? Este tipo de intervenção causaria uma grande alteração no habitat natural da Haled, isso poderia causar inúmeras mortes...
– Bom, não sei dizer exatamente senhor, mas Miguel garantiu que essa mudança beneficiaria a humanidade. – respondeu Jaziel um pouco confuso.
– Beneficiar? A Humanidade? No mínimo curioso... – disse Kamael com uma risada baixa e contida.
Jaziel ficou intrigado diante da afirmação do príncipe ishim.
– Tudo bem! Irei atender as ordens de Miguel em dividir a terra, mas não enviarei uma horda como ele quer. Seria... desnecessário. – disse Kamael com certo orgulho explicito em sua voz. – Um anjo, apenas, é suficiente.
– Se me permite perguntar, senhor, como seria possível? Sabemos que o Grande Continente da Haled é enorme e espesso. Um anjo apenas seria insensato, o mesmo não teria poder suficiente, a não ser que fosse o próprio Príncipe que executasse.
– Jaziel, Jaziel! Nem parece um anjo, um precursor do Criador! Não se esqueça dos poderes de minha casta. Somos os representantes de um dos quatros atributos do Criador, o Poder! Somos a energia e a sinergia que rege o Universo, conhecemos a composição desde a menor partícula de átomo até as maiores constelações e galáxias. Não subestime nosso poder. – enquanto dizia, Kamael erguia-se e caminhava silenciosamente até Jaziel.
Sentindo o olhar amedrontador de Kamael, Jaziel levanta-se de sua reverencia e dá dois passos para trás com a aproximação do Príncipe.
– Estamos entendidos?
– S-sim, Príncipe! Miguel será informado de suas condições.
– Ótimo, fora isso, tudo seguirá segundo seus conformes. Ela estará no local e data exatos para a execução... Melhor... Para cumprir com as ordens. Está dispensado!
“Ela?” Pensou Jaziel, mas não se demorou em seus pensamentos, pois não queria nem imaginar o Príncipe em sua fúria, caso não saísse imediatamente. – Como deseja senhor! Com licença!
Com isso, após um reverencia respeitosa, retira-se da presença de Kamael.
Quando finalmente ficou sozinho em sua sala, Kamael disse:
– Creio que tenha ouvido toda a conversa, então já sabe o que fazer. Mas tente ser cautelosa, com respeito aos humanos. Faça de tudo para não feri-los. Não quero Miguel se gabando por usar a Palavra falsamente, contra a criação de Yahweh. Ele pode iludir a outros, menos a mim.
Das sombras da sala, surge uma mulher, não um anjo com corpo bem definido em uma túnica que apesar de simples destacava bem seu corpo, tinha pele alva, cabelos castanhos acajus e marcantes olhos dourados, semelhantes a ouro. Uma ishim Elemental da Terra, seu nome era Ellora. A ishim de mais confiança de Kamael, era sua favorita, sempre estava ao seu lado, mesmo quando sua presença não era notada.
– Não irei falhar meu caro Príncipe! Nenhum humano perecerá por minhas mãos. Isso eu lhe garanto. Enquanto eu estiver aqui, Miguel não triunfará! – Disse Ellora com determinação e confiança explicita em seu olhar firme.
– Eu sei que não, minha amada ishim. – Disse Kamael com carinho e confiança bem expressos em sua voz rouca, tocando o ombro da Ishim. – Vá e cumpra com o plano do Criador, defenda sua maior criação!
Com uma reverencia, Ellora toma a mão de seu superior e a beija, em seguida curva-se em sinal de respeito e se retira da sala para o cumprimento de sua missão.
- Que a paz de Yahweh, esteja com você minha amada! – Kamael diz enquanto observa Ellora sair.
Notas finais
*Nymerians: Apelido usado por outros anjos em referencia aos Ishins da Província da Terra, que fica na Floresta de Nymeria onde está o Palácio de Areia, que finda no litoral.
*Chanti: Vestimenta Egípcia, usada geralmente pelo homens, semelhante a uma saia longa, vezes por outra usada com um cinturão.
Fale com o autor