A subida para o centro da cidade era um desafio para os pulmões; o ar era tão frio que parecia queimar as narinas. Raed abandonou o cheiro de peixe e a arquitetura apertada do Porto e do Distrito Cinzento, subindo as escadarias de pedra maciça que levavam à Estalagem Salão da Lareira. Um nome apropriado. Pensou Raed. A luz que emanava das janelas da estalagem era amarelada e convidativa, mas ele sabia que o calor ali dentro nem sempre era estendido aos de sua cor.

Assim que esticou a mão para empurrar a porta pesada de carvalho, um braço robusto, revestido por uma armadura de escamas rústica, barrou seu caminho. Ele o tinha visto próximo da entrada, mas não achou que iria impedir a sua entrada.

— Onde pensa que vai, Redguard? — A voz do guarda era carregada de um desdém preguiçoso. — A escória do porto tem seus próprios buracos para beber. O centro é para o povo de Skyrim.

Raed não recuou. Ele sentiu o frio da adaga de Veezara contra sua coxa, e por um segundo, um pensamento sombrio atravessou sua mente sobre quão fácil seria encontrar uma brecha naquela armadura. Mais tarde ele ficaria chocado como veio fácil esse pensamento e como ele ficaria constante nos próximos dias. Mas antes que sua mão fizesse qualquer movimento, uma voz familiar e estrondosa ecoou atras dele.

— Pelos ossos de Shor, deixe o rapaz passar! — Liv apareceu vindo do que Raed deduziu ser o caminho que levava ao mercado, sua silhueta larga preenchendo uma boa parte do degrau da escada. Ele tinha uma caneca de hidromel na mão e um sorriso que não chegava aos olhos, mas que era autoritário o suficiente. — Ele é um caçador de primeira, e está comigo. A menos que você queira explicar ao Jarl porque está barrando os convidados de um dos seus fornecedores de confiança...e claro um dos seus guarda costas.

O guarda bufou, mas recolheu o braço, resmungando algo sobre "forasteiros e seus privilégios". Liv deu um tapa forte nas costas de Raed, guiando-o para o interior esfumaçado e barulhento da estalagem. O fogo perpétuo que dava nome ao lugar ardia no centro, lançando sombras dançantes nas paredes de pedra.

Eles se sentaram em uma mesa afastada, onde o barulho do bardo abafava a conversa.

— Você tem um talento para atrair problemas, Raed — comentou Liv, servindo um pouco de bebida para o amigo. — O que houve? Você parece ter visto um fantasma lá embaixo. Como entrou na cidade e onde passou a noite?

Raed olhou para o líquido na caneca, mas não bebeu. Sua mente ainda estava no quarto escuro de Aventus, no cheiro de carne podre e na esperança desesperada de uma criança.

— Eu preciso ir para Riften, Liv. Amanhã cedo.

Liv arqueou uma sobrancelha, o humor sumindo de seu rosto. — Riften? A cidade é um esgoto a céu aberto, controlada por ladrões e gente pior. O que um Redguard que mal se acostumou com a neve vai fazer naquele ninho de ratos? – Ele então se lembrou e pareceu envergonhado. – Seu irmão. Havia esquecido que ele estava lá e com os...

— Sim preciso ver o meu irmão e há uma pista sobre o meu pai — mentiu Raed, ou pelo menos, omitiu a verdade maior. — Veezara me deu um motivo para acreditar que as respostas que procuro podem estar por lá. Meu irmão também gostaria de saber. É um assunto pessoal...

Liv estudou o rosto de Raed por um longo tempo. Ele conhecia o olhar de um homem caçando algo, mas o que via agora era o olhar de quem já tinha aceitado ser o predador. Ele suspirou, pegando uma pequena bolsa de couro de seu cinto e jogando-a sobre a mesa. O som metálico de moedas ecoou entre eles.

— O que é isso? — perguntou Raed, confuso.

— O pagamento pelo último serviço e o perdão do que você me devia pela armadura e pelos suprimentos — disse Liv, seriamente. — Considere seu débito comigo encerrado. Skyrim está ficando perigosa demais para se viajar com dívidas nas costas. Se você vai para Riften atrás daquele homem e do seu irmão, vai precisar de cada septim para subornar as pessoas certas ou para comprar uma montaria rápida se precisar fugir.

Raed tentou protestar, mas Liv o interrompeu com um gesto de mão.

— Não agradeça. Só garanta que vai chegar lá inteiro. E Raed... — Liv inclinou-se para a frente, a voz baixando. — Você foi um bom amigo nesse pouco tempo Skyrim. E por deus você salvou minha vida lá na estrada. Sei que você tem um caminho que quer trilhar. Não sou eu que vou impedi-lo. Mas espero lhe encontrar mais vezes.

Raed assentiu silenciosamente, guardando o ouro. O calor da estalagem agora parecia sufocante. Ele sentia que cada minuto gasto ali era um minuto a menos na sua jornada.

Ao amanhecer, Windhelm não passava de uma silhueta cinzenta contra o céu cor de chumbo. Raed atravessou a grande ponte de pedra, sentindo o vento uivar entre as estátuas dos antigos reis nórdicos. Ele não olhou para trás. Em sua bolsa, o ouro de Liv pesava, mas a adaga dada Veezara parecia pesar ainda mais, ele ainda relutava em associar ao seu pai.

A estrada para o sul logo o afastou das tundras congeladas. A neve começou a rarear, dando lugar a uma terra estranha e fumegante. Ele havia entrado nas bacias de enxofre de Eastmarch. O ar, antes puro e cortante, agora era espesso, carregado com o cheiro de ovos podres e o vapor quente que brotava das piscinas naturais. Era um cenário infernal e belo ao mesmo tempo; poças de água turquesa borbulhavam entre rochas amareladas, e a névoa dificultava a visão a mais de dez passos.

Raed cavalgava lentamente com a mão no punho da espada, os sentidos aguçados pelo hábito da caça. Foi então que ele ouviu: um grito abafado, seguido pelo som de metal chocando-se contra metal e o rosnado baixo de algo que não era humano.

Ele saiu da estrada principal, descendo do cavalo e movendo-se silenciosamente entre as rochas aquecidas. Agachado atrás de uma formação de basalto, ele viu a cena.

Um pequeno acampamento improvisado estava sob ataque. Um mercador Khajiit, cujas vestes coloridas estavam sujas de lama e fuligem, tentava se defender com uma adaga curta contra dois catadores — nórdicos maltrapilhos que cheiravam a Skooma e desespero. No chão, um segundo Khajiit estava caído, pressionando um ferimento no ombro.

— Entregue as mercadorias, gato! — rosnou um dos bandidos, brandindo um machado de ferro enferrujado. — Ou faremos um tapete com a sua pele!

Raed observou. Por um momento, a voz pragmática em sua mente disse para continuar andando. Ele tinha um contrato em Riften. Não era sua luta. Mas então, ele lembrou-se das palavras de Jenassa e da frieza de Windhelm. Os "estranhos" em Skyrim precisavam se ajudar, ou seriam todos devorados pela neve.

Ele sacou o seu arco e se preparou. O movimento foi fluido, um reflexo de anos de experiencia no deserto e aprimorados na floresta de Skyrim.

Zunido.

A flecha encontrou a coxa do bandido com o machado, fazendo-o cair de joelhos com um urro de dor. O segundo catador girou, confuso, procurando o atirador na névoa, mas Raed já havia largado o arco e avançado com a adaga de Veezara em punho. Achou que eles não mereciam sua espada.

Ele não lutou como um cavaleiro; lutou como um predador. Um chute rápido no joelho do adversário seguido por um corte preciso no braço armado. Em segundos, os dois bandidos estavam desarmados e gemendo no chão.

— Saiam daqui — disse Raed, a voz fria e desprovida de emoção. — Antes que eu decida que suas cabeças valem mais do que o seu silêncio.

Os homens não esperaram uma segunda ordem. Arrastaram-se para longe, sumindo entre os vapores sulfurosos.

O Khajiit de pé guardou a adaga com mãos trêmulas e fez uma reverência profunda. — Este agradece imensamente. Ra'Zahr pensou que suas areias tinham acabado. O deserto está longe de Skyrim, e a bondade é ainda mais rara por aqui.

Raed ajudou o Khajiit ferido a se sentar. — Eu não chamaria isso de bondade. Só estava passando por aqui.

— Mesmo assim — o Khajiit sorriu, revelando as presas. — Você viaja para o sul?

— Sim.

— Então aceite um aviso de quem conhece as estradas — Ra'Zahr remexeu em seus fardos salvos e entregou a Raed um pequeno frasco de líquido esmeralda. — Um veneno paralisante suave. Riften não é vencida pela força, Redguard. É vencida pela astúcia. E cuidado com a névoa quando chegar ao Vale do Outono... há coisas nas árvores que não são apenas pássaros.

Raed guardou o frasco, sentindo uma estranha camaradagem com o mercador. Eles conversaram por algum tempo enquanto os Khajiit arrumavam suas coisas para seguir para uma vila próxima. Ra'Zahr falou sobre o medo que o povo sentia dos dragões e como a guerra estava deixando os portões das cidades mais apertados para quem não era nórdico, além de orientá-lo sobre o caminho a frente.

Ao se despedirem, o sol começou a baixar, pintando o vapor das piscinas naturais de laranja e púrpura. Raed retomou a marcha. A interação o deixara pensativo. Ele acabara de salvar vidas, mas em poucos dias, estaria tirando uma. Talvez. Não. Ele já tinha se decidido.

A estrada começou a subir, e a vegetação mudou com o passar dos dias. O cinza de Eastmarch deu lugar a árvores de folhas douradas e caídas. O ar tornou-se mais doce, com cheiro de terra úmida e maçãs silvestres. Ele estava entrando em The Rift. A beleza do outono eterno de Riften era um disfarce cruel para a podridão que ele sabia que encontraria atrás das muralhas de madeira da cidade.

Ele parou no topo de uma colina e viu, ao longe, o reflexo do Lago Honrich. Riften estava lá, cercada pela névoa.