Cronicas de Skyrim- Raed o Redguard.
13 Entre Ladrões

As folhas douradas de Riften formavam um tapete sob as botas de Raed, mas a beleza do outono não conseguia disfarçar o cheiro de madeira podre e água estagnada que vinha do Lago em volta da cidade. Quando os portões de madeira maciça da cidade surgiram à frente, ladeados por guardas que pareciam mais mercenários do que soldados, Raed sentiu o peso da espada no cinto.
— Pare aí, viajante — disse um guarda de rosto avermelhado, bloqueando a passagem. — Há um imposto de visita para entrar em Riften. Pela segurança da cidade, entende?
Raed encarou o homem. Ele vira esse tipo de extorsão antes, mas em Windhelm os guardas tinham um pingo de dignidade. Aqui, a corrupção estava escancarada.
— Eu não pago por ar e nem por lama — respondeu Raed, a voz baixa e perigosa. — Me falaram que Riften era acolhedora com quem tem negócios. Mas vejo que a pratica é impedir o livre comercio.
Com o sorriso sarcástico no rosto e a mão de Raed pousada casualmente no cabo da espada, o guarda recuou um passo. Ele resmungou algo sobre "viajantes atrevidos" e abriu o portão. Raed suspeitava que eles nunca tinham visto uma briga antes e não tinham apoio da guarda da cidade para se meterem em uma.
Ao entrar, Riften se revelou como um labirinto de passarelas de madeira suspensas sobre canais fétidos. Raed ignorou os vendedores do mercado e dirigiu-se à estalagem Abelha e Ferrão. Ele precisava de informações sobre o irmão antes de se deixar consumir ou não, pela missão de Aventus.
A estalagem era barulhenta e mal iluminada. Ele se aproximou do balcão, onde uma Argoniana de olhar severo, limpava canecas.
— Procuro por um Redguard — começou Raed, sem rodeios. — Jovem, olhos inquietos. Ele veio para cá há algum tempo e deve estar... envolvido com algumas figuras evitadas pelos comerciantes.
A argoniana parou de limpar a caneca e o avaliou com seus olhos reptilianos. — Muita gente vem para Riften querendo "envolver-se", estrangeiro. Mas poucos saem inteiros. Se o seu irmão está com a Guilda, ele provavelmente está no Ratway. É lá que os ratos se escondem quando a luz do sol os incomoda.
— E como eu chego lá?
— Pelos túneis sob o mercado — respondeu ela, voltando ao trabalho. — Mas um conselho: se ele entrou para a Guilda dos Ladrões, ele não é mais o irmão que você conhecia. Lá embaixo, a lealdade é medida em moedas, não em sangue.
Raed agradeceu com um aceno e algumas moedas sobre o balcão e saiu para o ar úmido de Riften. Ele sabia que o Ratway era um lugar onde a lei não entrava, um esgoto transformado em quartel-general para os piores tipos da cidade, ou assim tinha a fama.
Enquanto caminhava em direção às escadarias que levavam aos canais inferiores, a adaga na sua cintura pareceu pulsar. Ele olhou ao redor e notou uma placa com um letreiro já desgastado. Ele estava a poucos metros de onde seu irmão se escondia, mas também a poucas ruas do Orfanato Honorhall, onde Grelod, a Gentil, reinava com punho de ferro.A missão de ver o irmão e o contrato de morte estavam colidindo.
Raed desceu o primeiro lance de escadas, a mão segurando o frasco de veneno que o Khajiit lhe dera, girando entre os dedos. Ele encontraria o irmão, mas temia que o que encontrasse no escuro do Ratway fosse apenas o reflexo do que ele próprio estava se tornando.
A entrada para o Ratway era uma bueira que exalava um vapor úmido e fétido, escondida sob as passarelas do mercado. Raed desceu a escada de madeira apodrecida, sentindo a umidade penetrar em sua armadura de couro. Ali embaixo, a luz do dia era um conceito esquecido, substituída por tochas esparsas que tremulavam nas paredes cobertas de limo.
Ele não deu dois passos após uma curva que levava mais a fundo no esgoto, antes que seu instinto de caçador, treinado nas areias do deserto de Hammerfell e nas florestas de Riverwood, gritasse um alerta.
O chão de pedra parecia irregular. Raed parou, o pé pairando a milímetros de uma laje ligeiramente elevada. Uma placa de pressão. Ele inclinou o corpo e viu, na penumbra, o mecanismo de uma armadilha de estacas escondido no teto. Com cuidado, ele contornou a laje, mas a poucos metros à frente, um fio quase invisível cruzava o túnel à altura do tornozelo.
— Ladrões... — sussurrou ele, xingando baixinho enquanto saltava sobre o fio.
Ele percorreu o labirinto do esgoto, guiado pelos irregulares desvios de agua e lama que indicavam caminhos percorridos. Estava quase destindo quando viu luzes ao fundo, ao sair do corredor do esgoto deu de cara com uma área ampla onde uma espécie de bar se localizava ao fundo.
O som de lâminas sendo sacadas ecoou nas paredes estreitas. Duas sombras emergiram da escuridão, com rostos cobertos por capuzes de couro surrado.
— Você não deveria estar aqui, Redguard — rosnou um deles, uma figura alta com um machado de guerra. — Este é o território da Guilda. E o pedágio é a sua vida.
Raed levou a mão à espada, mas apenas posou ela de forma quase descontraída no cabo. A tensão estalava no ar. Os guardas da Guilda estavam alertas, prontos para eliminar qualquer intruso, quando uma voz jovem e confiante ressoou do fundo do túnel.
— Parem! Abaixem as armas!
Uma figura saiu da luz de uma tocha próxima. Era um jovem Redguard, com feições que espelhavam as de Raed, mas com um brilho de astúcia nos olhos que não existia quando partiram de Hammerfell. Ele vestia a armadura de couro marrom característica da Guilda, que parecia moldada ao seu corpo.
— Dorian? — Raed soltou o ar que nem sabia que estava prendendo.
— Raed! — O jovem sorriu, fazendo um sinal para os guardas. — Ele está comigo. É meu irmão. Se tocarem nele, terão que se explicar com o Mestre da Guilda e, acreditem, eu sou o novato favorito dele por uma razão.
Os guardas resmungaram, mas guardaram as armas e desapareceram nas sombras laterais. Dorian correu e abraçou Raed com uma força que mostrava o quanto ele sentira falta da família.
— O que você está fazendo aqui? —perguntou, guiando-o para uma área mais seca e iluminada, perto da entrada da Jarra Esburacada. — Pensei que estivesse que tinha acontecido algo. Esperei um tempo que me encontra-se ao partir para cara com Erik. Mas depois acordei com uma mensagem em minha cama dizendo que estava vivo e caçando cervos perto de Whiterun.
Eles se sentaram em caixotes de madeira. Dorian começou a contar como tudo mudou. Enquanto Raed o olhava com um misto de alívio e curiosidade — Erik seguiu para o sul, para o forte dos Dawnguard. Ele estava determinado a se tornar um guerreiro, mas eu... eu vi algo diferente em Riften. No início, eu estava perdido, mas a Guilda viu potencial em mim. Eu sou rápido, Raed. Consigo abrir fechaduras que os veteranos levam o dobro do tempo. Eles me tratam bem aqui. Tenho tido sorte.
Raed ouvia em silêncio, sentindo agora um misto de alívio e preocupação. Seu irmão parecia feliz, mas estava mergulhado na criminalidade. Na verdade eles sempre estiveram metidos em situações perigosas.
— E o nosso pai, Dorian? — Raed perguntou, a voz subitamente séria. — Você ouviu algo? Talvez alguém da Guilda tenha falado dele devido as suas....habilidades?
O brilho no rosto de Dorian diminuiu. Ele balançou a cabeça negativamente. — Nada, Raed. Eu procurei nos registros da Guilda, perguntei aos informantes nos canais... é como se ele nunca tivesse pisado em Riften. Se ele está em Skyrim, ele não esteve aqui.
Raed sentiu o peso da adaga em sua cintura. O pai dele não era um ladrão, apesar de ter habilidades furtivas das quais já testemunharam; era algo muito mais letal.
— E você? — perguntou Dorian, estreitando os olhos. — Por que veio a Riften se não sabia que eu estava aqui? O que te trouxe a esta cidade podre?
Raed sentiu o segredo queimar em seu peito. A imagem do pequeno Aventus esfaqueando a boneca de carne passou por sua mente. Ele olhou para o irmão — o garoto que ele protegera desde a infância — e percebeu que não podia envolvê-lo na escuridão da Irmandade Sombria. Pelo menos não ainda.
— Eu vim atrás de você, meu irmão — falando a verdade, forçando um sorriso cansado. — Soube que um Redguard talentoso estava ganhando nome em Riften e imaginei que só poderia ser você.
Dorian riu, batendo no ombro do irmão. — Bem, agora que está aqui, você vai ficar, certo? Posso arranjar um lugar para você.
— Tenho algumas coisas para resolver — disse Raed, levantando-se. — Virei mercenário de um mercador, logo terei que voltar. -Não gostava de mentir para seu irmão, mas sentiu ser necessário. Ele estava bem.
O irmão tentou convencê-lo a dormir ali, mas ele achou melhor voltar e alugar um quarto na cidade. Beberam conversaram muito e quando sentiu já esta tarde retornou a superfície com seu irmão guiando sobre as armadilhas. Se abraçaram uma ultima vez antes de se despedir.
Enquanto do esgoto, deixando o calor da companhia do irmão para trás, Raed sentiu o frio de Riften retornar. Ele encontrara seu irmão, e ele estava bem. Mas agora, o contrato de Grelod o chamava. Ele precisava atravessar a cidade, encontrar o orfanato e talvez cometer seu primeiro assassinato para uma irmandade que talvez seu pai fizesse parte.
Se fizesse isso, talvez entrasse em um caminho sem volta. Porém que primeiro ele deveria descansar. Uma mente descansada pensava melhor.
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