Cronicas de Skyrim- Raed o Redguard.
14 O caminho sem volta.

Os dias em Riften passaram sob uma névoa de umidade e sussurros. Raed dividia seu tempo entre o calor abafado da Jarra Esburacada, onde ouvia as façanhas de Dorian, e as ruas frias da superfície, aprendendo sobre a cidade e suas ruelas.
Ele passou tardes observando o Orfanato. Pela janela entreaberta, ouvia a voz estridente de Grelod. Ela não era apenas severa; era um veneno destilado em forma de mulher. Raed via as crianças com seus rostos pálidos, ombros encolhidos e sentia a adaga pesar em seu cinto. Não era apenas um contrato; parecia uma limpeza necessária. Mas o caçador nele sabia que, uma vez que o sangue de uma velha fosse derramado, o homem que ele fora em Riverwood morreria junto com ela.
Para afogar esses pensamentos, ele frequentava a Abelha e Ferrão. Foi lá, sentado em um banco de canto, que ele conheceu o homem que se autointitulava "O maior mago de magia de destruição de toda Skyrim".
— Você olha para aquela caneca como se ela tivesse matado seu cavalo, Redguard — disse uma voz arrogante vinda da mesa ao lado.
Raed desviou o olhar para um homem vestindo túnicas de aprendiz, com uma postura que exalava uma confiança irritante.
— Apenas pensando — respondeu Raed de forma curta. Depois tentou manter uma postura relaxada – Mas pensando melhor, ele sempre foi fraco para bebida.
— Pensar é perigoso sem a proteção adequada — o mago se levantou e estendeu uma mão adornada com um anel de prata. — Marcurio. Se precisar de alguém que transforme seus problemas em cinzas por algumas moedas de ouro, eu sou o seu homem. O Ratway é um lugar perigoso para quem caminha sozinho com olhos tão... cheios de segredos.
Raed avaliou o mago. Marcurio não parecia um herói, mas parecia alguém que não fazia perguntas difíceis. Era uma boa companhia para quem procurava pouco diálogo.
-Eu ouvi a sua propaganda de magia de destruição. Não imaginei que fosse vidente também. Já que parece julgar todos que entram aqui.
Com a recusa de Raed em aperta sua mão ele a recolheu, mas manteve um sorriso descontraído no rosto enquanto se sentava na cadeira a sua frente sem ser convidado.
-No final do dia sou um mercenário. Como talvez você seja também. Avaliar possíveis clientes é o que garante meu prato de comida.
-Então está fazendo um péssimo trabalho. -Raed desdenhou em quando secava sua caneca e pedia mais uma. -Tentar ser contratado por outro mercenário que também busca dinheiro é a maior burrice que já vi.
O margo gargalhou.
-Verdade, verdade! Mas até um amigo mercenário precisa de um guia.
-Eu já tenho um guia. Mas se for te deixar quieto um pouco eu pago uma bebida. – E dizendo isso sinalizou para a argoniana.
Mesmo sem pedir, Marcurio contou sobre a cidade, inclusive sobre o orfanato. Raed tentou manter o disfarce do desinteresse enquanto ouvia, sem tentar chamar a atenção perguntando demais. Depois de uns dois copos, o mago agradeceu a bebida e se afastou. A verdade é que Raed tinha gostado dele.
Naquela noite, Dorian apareceu na estalagem. Ele não usava o sorriso habitual. A armadura de couro da Guilda estava por baixo de um manto de viagem, e ele carregava uma mochila extra.
— Brynjolf me deu uma tarefa, Raed. Uma das grandes. Vou precisar sumir por um tempo, ir para o oeste, resolver uns assuntos em uma fazenda — Dorian falou baixo, sentando-se à frente do irmão. — Você não pode vir comigo. A Guilda não gosta de "turistas" em missões oficiais.
Raed assentiu, sentindo o aperto no peito. Ele viera a Riften para encontrar o irmão, e agora estavam se separando novamente.
— Imaginei que isso viesse a acontecer. – Falou com sincera tristeza na voz. -Eu também tenho negócios, Dorian. Coisas que comecei em Windhelm e preciso terminar. — Raed olhou para Marcurio, que bebia despreocupadamente no balcão — acho que vou seguir para o norte. Explorar um pouco essa nova terra que estamos. Quem sabe aceitar um trabalho ou outro.
Dorian sorriu, um brilho de orgulho e tristeza nos olhos. — Cuide-se, irmão. Você sempre foi o melhor rastreador. Só não deixe que o rastro que você está seguindo agora te leve para um lugar de onde não consiga voltar. Quando quiser falar comigo mante uma mensagem para esse nome e indique onde posso devolver. Procure os corvos, essas aves são ótimos mensageiros.
Eles se abraçaram no meio da estalagem, dois Redguards perdidos no gelo de Skyrim, cada um seguindo seu próprio destino definido pelos deuses. Dorian partiu pelas sombras do mercado, e Raed observou tristemente, vendo o orfanato ao fundo, após ele sumir pelas ruelas da cidade.
Era hora dele tomar uma decisão e partir daquela cidade.
O sol a muito já tinha atrás das montanhas, depois de tingir as águas do canal de um laranja doentio, agora tingia de um azul fantasmagórico devido a lua fria no céu. Quando Raed parou diante da porta de madeira pesada do Orfanato Honorhall. Marcurio estava encostado na parede oposta, brincando com uma pequena centelha de eletricidade entre os dedos.
— Um orfanato, Redguard? — Marcurio arqueou uma sobrancelha. — Se eu soubesse que seus "negócios" envolviam caridade, teria feito uma proposta de companhia com desconto. A benevolência é terrivelmente tediosa.
Raed sorriu e então em um movimento rápido a lâmina brilhou e a adaga de aço estava na garganta do Mago. Ele se assustou brevemente com a velocidade, mas logo colocou um dos seus sorrisos nos lábios, parando com a magia nos dedos e fazendo sinal de rendição.
— Não há benevolência aqui, mago — respondeu Raed, ajustando o capuz depois de afastar a faca. — Acha que não percebi que me seguia. Posso não ser um mago sensitivo como você, mas tenho meus instintos.
-Notei. Só estava curioso.
-Não a nada para ver aqui. Na verdade, recomendaria esquecer que me viu aqui ou que ouvira depois. – Os olhos de Raed brilharam ameaçadoramente no escuro. Ele já tinha feito sua escolha. Uma vez o feita sempre iria até o fim.
— Com prazer. Mas tente não demorar. O cheiro de peixe podre desta cidade está começando a impregnar minha túnica. Te esperarei na saída da cidade.
-Não lembro de ter contratado seus serviços.
O mago sorrio.
- Minha companhia será pela divertida curiosidade do que o destino lhe aguarda.
Raed olhou ao redor. No topo do orfanato havia uma abertura para circulação de ar. Escalando uma arvore conseguiu saltar ao telhado de palha e entrar. O interior do orfanato cheirava a mofo, suor infantil e medo. O som de uma voz rascante ecoou pelo corredor principal, vinda da sala de jantar.
— ...vocês são pequenos ratos inúteis! — gritava Grelod. — Ninguém quer vocês! Ninguém virá buscá-los! Se eu ouvir mais um soluço, ficarão sem jantar por uma semana!
Raed moveu-se pelas sombras das ripas do telhado, com a leveza que aprendera caçando cervos nas florestas de Riverwood. Ele parou no meio da madeira principal que cortava o telhado do orfanato. Grelod, a Bondosa — o nome era a maior mentira de Skyrim. Ela era uma carcaça de mulher, envolta em roupas cinzentas, brandindo uma vara de madeira contra um garoto que não devia ter mais de oito anos.
Ele a esperou entrar em um dos quartos. O telhado não seguia até o teto, permitindo-o se locomover por ele até ficar acima dela. Ela abriu uma janela antes de se sentar. Dando a fuga que Raed precisava. Ele sorriu macabramente com isso. Ele cogitou como faria isso. Pensou em jogar uma adaga, mas isso deixaria provas. Pelo que ele viu dela, ela merecia algo mais drástico, mesmo que tivesse que ser rápido.
Raed era um caçador, e aquela era uma presa que precisava ser abatida para que a floresta — ou a cidade — pudesse respirar.
Ele saltou, caindo com um baque quase abafado, surgindo das sombras atrás dela como um fantasma. Com uma mão, abafou o grito que começava a surgir na garganta de Grelod. Com a outra, deslizou a adaga pelo pescoço da velha. Foi um movimento único, limpo e terrivelmente eficiente.
O corpo de Grelod desabou sobre a mesa derrubando tudo que havia nela antes de ir ao chão com um baque surdo. O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelos passos apressados de quem vinha observar o que aconteceu. Ele saltou pela janela. Conseguiu ainda ouvir um grito de pavor de uma mulher. O grito surpreso das crianças e depois comemoração da parte delas.
Já lá fora ao luar, Raed olhou para as mãos. Não havia o tremor que ele esperava. Havia apenas uma frieza profissional que o assustava.
Marcurio o esperava em uma encruzilhada, já estava com seu cavalo, o cocheiro avisou. Ele por um momento pensou que poderia ter sido roubado, mas achava que não era o caso. Estava certo.
O mago assim que ele subiu no cavalo o avaliou com um olhar perspicaz. O mago notou a mancha escura na manga de Raed.
— Pelo seu rosto, não foi um reencontro amigável — comentou Marcurio, mas seus olhos não expressavam nenhum julgamento.
— Agora, saímos desta cidade — disse Raed, Começando a cavalgar para norte. — Tenho que voltar a Windhelm.
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