O sonho não tinha chão, nem céu. Apenas uma névoa rodopiante que cheirava a cobre e sangue? onde a realidade parecia dobrar e desdobrar como papel molhado. Raed estava lá, mas não tinha corpo; era apenas uma consciência flutuando à deriva, incapaz de se mover ou gritar. A melhor descrição seria o vazio. O eterno vazio, sem luz, cores ou qualquer referência logica comum. Talvez aquela fosse definição da loucura. Talvez ele tivesse enlouquecido após assassinar a velha que maltratava as crianças.

Vozes ecoavam ao seu redor, grandes demais para serem humanas, fazendo sua própria essência vibrar. Ele se sentia um inseto perto daquelas vozes. Não sabia se tinha permissão de estar ouvindo e isso era um pouco aterrorizante até para ele.

— Ele tem o cheiro da caçada nele — rosnou uma voz profunda, que trazia imagens de florestas antigas e bestas com dentes de sabre. — Um predador disfarçado de ovelha civilizada. O sangue em suas mãos não é de acidentes, é de instinto. Ele serviria bem na minha Matilha.

Uma segunda voz, anasalada e irritantemente divertida, cortou o rosnado.

— Ora, Ora, você só vê dentes e garras. —riu, sua risada tinha o som de moedas caindo em uma tumba. — Eu vejo o desejo. A ambição contida sob aquela armadura pesada. Ele quer ordem, quer controle. Tão fácil de oferecer... um pequeno pacto, um desejo sussurrado para endireitar o mundo. Ele é uma marionete esperando pelas cordas certas.

— Ele é interessante — concordou a voz bestial. — A alma dele é... densa.

Raed sentiu como se estivesse sendo esticado, puxado por ganchos invisíveis em direções opostas. A Caçada o chamava para a selvageria; o Pacto o tentava com poder.

Mas então, o som cessou.

Não foi um silêncio comum. Foi a ausência absoluta de som, de luz, de vida. A névoa colorida dos Príncipes Daédricos foi sugada por uma frieza que queimava mais que o gelo de Winterhold. As presenças recuaram, como cães chutados para longe.

O Vazio não falou com palavras. Ele falou com a verdade. Uma certeza gélida e final que pressionou contra a mente de Raed como uma lápide de obsidiana.

NÃO O TOQUEM. ELE PERTENCE A MIM.

Houve um estalo.

O choque daquela reivindicação fria ou o barulho do estalo, talvez, arrancou Raed do sono.

Ele não acordou gradualmente. Ele emergiu em um solavanco, os músculos já tensos, a mão direita instintivamente fechada no cabo da espada embainhada ao seu lado. Seu coração martelava contra as costelas, o eco daquele frio absoluto ainda gelando sua espinha, apesar do calor fraco das brasas restantes da fogueira.

O ar da noite estava parado, o céu começando a clarear para um cinza-azulado, indicando a madrugada iminente.

— Interessante — disse uma voz calma ao lado dele.

Raed virou a cabeça sabendo quem estava lá. Marcurio estava sentado, apoiado com as costas em uma arvore, observando-o com aqueles olhos inteligentes e ligeiramente entediados. O mago imperial não parecia ter dormido muito; seu capuz estava ligeiramente torto, mas sua expressão era de total lucidez.

— Estava me observando dormir? — A voz de Raed saiu rouca, arranhada pelo pesadelo. Ele estranhou isso.

Marcurio gesticulou vagamente com uma mão enluvada na direção do corpo de Raed.

— Você dorme de forma... peculiar, Redguard. A maioria das pessoas apenas baba ou ronca. Você? Você emana uma aura mágica defensiva enquanto sonha. Tênue, quase imperceptível para olhos destreinados, mas estava lá. Como uma segunda pele de sombra fria repelindo insetos.

Raed franziu a testa, ainda tentando dissipar a sensação de ser observado por deuses e demônios.

— Eu não uso magia — ele disse, ríspido. Mas era mentira, teve um leve e curto treinamento magico como quase todo guerreiro. Principalmente em uma precária magia de cura.

— Conscientemente, não — Marcurio corrigiu, um sorriso de canto aparecendo. — Mas algo em você usa. Eu estava me perguntando se devia te acordar para perguntar se você estava fazendo um pacto com algum espírito menor ou se era apenas...

Marcurio parou no meio da frase. O sorriso desapareceu instantaneamente, substituído pela frieza profissional do mercenário. Seus olhos se desviaram de Raed para a linha das árvores escuras que cercavam o pequeno acampamento improvisado.

Raed também sentiu. O silêncio na floresta havia mudado. Não era mais o silêncio do descanso, mas o silêncio da respiração contida.

Um galho estalou, não muito longe, à esquerda deles. Um som seco, deliberado. Eles não estavam sozinhos.

-Eu estava me perguntando quanto tempo levaria para se aproximarem. Saiam venham para o fogo. Mas tragam suas bebidas. As nossas estão muito escassas para serem divididas.

Raed se levantou devagar a espada ainda embaixada em sua mão. O despertar do seu sono foi alerta. A conversa breve com Marcurio e o sono estranho tinham distraído ele rapidamente, mas atenção e foco tinham voltado aos eixos.

Passos começaram ser ouvidos.

-Eu os senti atravessarem meu círculo a um tempo. – Falou Marcurio quase como em um sussurro. – Mas como ficaram apenas observado, despertou minha curiosidade.

Das sombras duas figuras surgiram. Uma era uma mulher forte bretã de feições duras e cabelo loiro de cor meio discreta. Vestia uma armadura de couro como uma guerreira. Seus olhos denunciavam sua total capacidade e experiencia. Uma espada de formato peculiar estava em sua cintura.

-Olá Raed. Fiquei surpresa em encontrá-lo de novo.

Marcurio ergueu uma sobrancelha curioso.

A dona da voz era Delphine, a ajudante e socia de Orgnar na estalagem de Riverwood. Aquilo deixou surpreso. Uma mulher que parecia querer apenas ser invisível. Agora, sob a luz das brasas, ela parecia uma general. Marcurio, assim como raed reconheceu o aço daquela espada curva na cintura da mulher — uma arma dos Lâminas, as sombras que serviam ao Imperador.

Uma segunda figura surgiu atras dela. Um guerreiro robusto vestindo uma armadura de couro com placas de aço. As suas costas estava um enorme machado e vestia um elmo de chifres.

-Olá Novamente, Redguard.

O dono da voz e o parceiro de viagem de Delphine, era alguém que esteve com ele a pouco tempo atras. O guerreiro que após o ataque em Whiterun passaram a chamar de Dragonborn.