Cronicas de Skyrim- Raed o Redguard.
17 O Eco do Passado e o Rugido do Presente

O ar em volta de Riften era húmido e pesado, mas à medida que Raed e o seu grupo subiam os trilhos íngremes em direção às montanhas que cercavam a fenda ao sul de Windhelm, a humidade transformava-se num frio cortante que parecia trespassar até a pele curtida da armadura e da capa de proteção que o Redguard vestia. Raed ajustou a sua espada de aço na cintura, puxou levemente a lâmina e a guardou na bainha, evitando que o frio a congelasse e impedisse de puxar a arma quando precisasse; fez o mesmo com sua adaga. Olhou a paisagem em volta enquanto subia. Um contraste exótico contra a neve que começava a cair, fina e silenciosa.
— Estão a sentir isso? — murmurou Raed, parando por um momento para observar o vale lá embaixo.
O ambiente era opressor. À esquerda, as paredes de rocha cinzenta erguiam-se como gigantes adormecidos, cobertas por veios de gelo que brilhavam sob a luz pálida do sol. À direita, um precipício vertiginoso onde o vento uivava, carregando o cheiro metálico de enxofre e carne queimada. A vegetação escassa de Skyrim, composta por pinheiros retorcidos e arbustos secos, parecia curvar-se perante a presença que residia no topo. Estavam perto da Cova do Dragão.
O grupo parou olhando o ambiente. Delphine foi a única que olhou com seriedade o cenário, batendo por fim no ombro do Redguard para continuar a caminhada. Fenris seguiu em silêncio com aquele rosto enigmático, e Marcurio, como sempre, olhava para ele com curiosidade. Encontrou um pergaminho selado em sua bolsa e entregou a Raed.
— O que é isso? — perguntou ele, passando o dedo sobre o lacre.
— Wow... não aqui, não! Isso é perigoso — falou ele, afastando o dedo de Raed do lacre. — É uma magia anexada. Você vai saber a hora de usá-la. E quando isso acontecer, rompa o lacre e vire o conteúdo ao seu adversário.
Raed fitou o pergaminho um tempo antes de guardar em sua bolsa.
— Obrigado! Mas por que está me dando isso, Marcurio?
— Porque você cada vez mais prova que minha intuição estava certa sobre você.
Com essa fala enigmática, o mago, assim como Delphine, bateu em seu ombro e seguiu a trilha que levava ao seu destino.
Delphine fez sinal para que parassem e reuniu os seus companheiros atrás de um afloramento rochoso, a poucos metros da entrada da cratera natural. Todos pararam a observando, com olhares neutros de atenção.
— Escutem bem — começou ela com a voz baixa, mas firme, desenhando um esboço rápido na neve com a ponta de uma adaga. — Não somos deuses, nós somos guerreiros de carne e osso. Se tentarmos um ataque frontal, seremos cinzas antes de desembainharmos as espadas. Vamos repassar o plano.
E repassou todo plano que já tinha discutido enquanto caminhavam. Raed observou ela desenhar no chão e repetir a estratégia que já tinha descrito antes. Raed manteve o respeito principalmente por descobrir que ela era uma antiga Blade. Segredo que ela revelara a ele e Fenris com extrema confiança, mas que pediu segredo quanto a Marcurio. Mas Raed suspeitava que ele desconfiava, devido a seu imenso conhecimento sobre dragões.
Ela apontou para as saliências rochosas que circundavam a cova:
— Tu — disse ela, olhando para Raed que tinha um arco — vai subir por aquela encosta lateral. Mantenha-se acima da linha de visão dele. Não ataque para matar ainda; usa as tuas flechas para atingir as membranas das asas quando ele tentar levantar voo. Se ele não puder voar, o campo de batalha é nosso.
Ela fez mais linhas no chão.
— O solo aqui é irregular, cheio de rochas de basalto. Vamos usar esses pilares naturais como cobertura contra o sopro. Não sabemos ainda qual elemento ele pode cuspir. Nunca fiquem em campo aberto. Quando ele expirar fogo ou gelo, mergulhem para trás da pedra e esperem o fôlego dele acabar. — Ela olhou para Marcurio. — Quando identificar o elemento dele, espero que tenha magias opostas para nos ajudar.
Marcurio limitou-se a sorrir com aquela zombaria divertida de costume.
— Eu e Fenris vamos nos dividir. Vamos flanquear. Vamos usar a nossa agilidade para atacar as patas traseiras e a cauda. O objetivo é fazê-lo girar, mantendo a cabeça dele longe, evitando pegar alguém. — Ela olhou Raed. — Quando já tiver gastado as flechas e feito um belo estrago em suas asas, junte-se a nós. Apenas quando ele estiver fadigado e preso ao chão é que atacaremos o pescoço. Até lá, paciência é a nossa melhor arma.
— Matamos ele, e então? — Perguntou Marcurio.
— Então, ele — Respondeu ela apontando para Fenris. — Se ele for mesmo o Dragonborn que relataram, absorverá a alma do dragão e ele nunca mais poderá voltar à vida.
Neste momento um rugido gutural, capaz de fazer vibrar os ossos dentro do peito, ecoou vindo de cima. O ar subitamente mudou, ficou pesado e parecia haver magia no ar.
— Vamos. Não podemos perder o terreno que imaginamos. Vá, Raed. Se posicione, Marcurio. E Fenris, venha comigo.
O ar pareceu estalar com uma eletricidade estática que arrepiava os pelos dos braços de Raed. Ele se separou do grupo, escalando as pedras de basalto com a agilidade de quem cresceu fugindo de patrulhas sob o sol de Hammerfell, mas agora, cada respiração era uma nuvem de fumaça branca e o metal do seu arco parecia querer colar em suas luvas.
Lá do alto, ele teve a visão do que estavam buscando, e mesmo com a coragem que sempre se obrigou a ter, pôde sentir o arrepio do medo.
Sobre o monte circular de terra e pedra, um dragão negro como o vazio entre as estrelas pairava. Não era como o dragão que Raed vira em Whiterun; este era maior, mais antigo, com espinhos que pareciam coroas de ferro.
Raed preparou uma flecha, mas parou. O dragão negro não estava atacando. Ele rugiu, mas não era um rugido de fúria cega. Era rítmico. Melódico de uma forma aterrorizante. Parecia quase como se estivesse cantando para as pedras, mesmo que isso não fosse possível. Ou seria possível?
— Slen Tiid Vo! — A voz (rugido) do dragão negro ecoou, reverberando no peito de Raed como se seu coração fosse um sino batido com força.
Lá embaixo, Fenris caiu de joelhos, levando as mãos à cabeça. Raed viu a expressão do companheiro mudar de dor para um choque absoluto. Fenris não estava apenas ouvindo gritos; ele estava ouvindo palavras. Onde Raed ouvia trovões, Fenris ouvia uma ordem ancestral.
— Ele está... chamando-o de volta — murmurou Fenris, sua voz audível apenas para Delphine e Marcurio, que se mantinham agachados sob a saliência rochosa.
O enorme dragão continuava gritando para a terra, ao que parecia com a forma que fazia, uma espécie de comando. Então aconteceu.
A terra da cova explodiu. Ossos gigantescos, limpos pelo tempo, começaram a subir, envoltos em uma névoa azulada e etérea. Os ossos engatinhando (se é que isso era possível) para fora da cova. Raed observou, paralisado por um segundo, enquanto a carne, as escamas e as membranas das asas se materializavam sobre o esqueleto como se o tempo estivesse correndo para trás. Sahloknir estava de volta.
Alduin lançou um último olhar de desprezo para os "vermes" escondidos nas rochas, rugiu o que para Raed pareceu um comando e levantou voo, deixando seu servo recém-nascido para lidar com a interrupção.
— AGORA, RAED! — o grito de Delphine quebrou o transe.
Raed não hesitou. Ele puxou a corda do arco até a bochecha, mirou na junção da asa esquerda de Sahloknir, que ainda terminava de se solidificar, e soltou. A flecha de aço zuniu pelo ar frio, perfurando a membrana fina. O dragão soltou um grito agudo, sem entender o que estava acontecendo. Outras flechas seguiram a primeira, abrindo furos em sua asa, fazendo com que ele se desequilibrasse enquanto tentava ganhar altitude.
— Marcurio, o elemento! — gritou Raed acabando com sua aljava, mirando nas asas.
Sahloknir abriu as mandíbulas e o ar em volta da cova congelou instantaneamente. Um sopro de geada absoluta foi disparado contra a posição de Raed, que pulou para uma cobertura.
— Gelo! — Marcurio rugiu, saindo de trás da cobertura com as mãos brilhando em um laranja incandescente. — Sentirão o calor de Oblivion!
O mago lançou uma torrente de chamas que colidiu com o gelo do dragão, criando uma cortina de vapor denso que cobriu o campo de batalha. Era a oportunidade perfeita.
Seguindo a estratégia de Delphine, Fenris e a Blade moveram-se como sombras por entre o vapor. Delphine surgiu à direita de Sahloknir, cravando sua espada na articulação da pata traseira, enquanto Fenris, impulsionado por uma coragem que parecia vir de outra vida, flanqueou pela esquerda, desferindo golpes pesados contra a cauda da criatura para impedir que ela girasse.
Sahloknir estava confuso. As flechas de Raed continuavam a cair lá do alto, cada uma focada em impedir que as asas batessem com força total. O dragão tentou morder Fenris, mas Delphine o forçou a virar a cabeça com um corte preciso no flanco. He então começou a bater as asas furadas pelas flechas, levantando voo e espalhando poeira e seus atacantes.
— Ele está tentando fugir! — gritou Delphine, desviando por pouco de uma patada que esmagou a rocha onde ela estava há um segundo. — Raed, nos ajude!
Raed largou o arco, que agora era inútil com o dragão tão próximo dos seus aliados. Correu pela distância que o separava da borda do local de elevação que estava e saltou. Teve consciência de puxar a adaga que fora de seu pai e agora era sua, da cintura, e então sentiu quando a lâmina afiada rasgou a membrana da asa da criatura de cima a baixo, rasgando a asa esquerda no meio. O dragão já estava a uns bons metros do chão e Raed apenas aceitou a consequência da queda e a imprudência do pulo.
Marcurio, que estava recuperado da poeira jogada contra si, viu quando Raed cortou a asa da criatura, fazendo ela rugir em protesto. Se preparou, murmurando encantamentos e esperando o time perfeito, então jogou energia contra Raed. O raio o atingiu, o jogando para frente e fazendo rolar no chão, evitando a queda que poderia ser fatal, ou quase. Se preocupou em não colocar força suficiente para que não o eletrocutasse. Quando Raed se levantou confuso, ele apenas fez um gesto de "de nada" e voltou a atenção à batalha.
O dragão tentou se manter no ar, batendo a única asa inutilmente. Fenris subiu em uma pedra e pareceu puxar o ar em uma longa respiração e então ele fez algo que ninguém esqueceria. Ele gritou.
— Fus Ro Dah! — Gritou.
Claro que ninguém poderia entender aquelas palavras. Para os demais pareceu um rugido de dragão, que estrondou pelo terreno e jogou a criatura contra as árvores.
O dragão tombou sobre as árvores, quebrando sua outra asa. Rugiu de dor, se revirando contra o chão. Fenris pulou quando o rabo quase o acertou e ele se levantou cambaleante e irritado. Agora estava ainda mais perigoso.
— Raed, cuidado! — Alertou Marcurio.
Raed tinha caído perto de onde o dragão estava agora. E o choque com o que aconteceu fez ele ficar parado contemplando o ocorrido, tempo suficiente para fixar a visão nele e tentar o abocanhar. Então ele se lembrou do que Marcurio lhe dera, tateou a bolsa e puxou o pergaminho selado.
— Marcurio, espero que isso não me exploda! — Raed gritou, rompendo o lacre de cera com o polegar.
Ao abrir o pergaminho e apontá-lo para Sahloknir, uma luz violeta cegante emanou do papel. Não era fogo, nem gelo. Eram correntes de relâmpagos rúnicos que saltaram do pergaminho, prendendo-se às escamas do dragão como ganchos de energia. A besta rugiu em agonia, seus músculos sofrendo espasmos frenéticos, forçando sua cabeça a baixar até o nível do chão.
— O pescoço! Fenris, agora! — Raed o incentivou.
Fenris avançou, seus olhos brilhando com uma intensidade dourada. Assim como a lâmina do seu machado de duas mãos. Enquanto Sahloknir lutava contra as correntes elétricas do pergaminho, o Dragonborn ergueu sua arma para o golpe final e, assim como com o dragão de Whiterun, o destino de Sahloknir estava selado. Raed pôde ouvir quando o machado enterrou na pele do dragão, fazendo-o cair morto no chão, com sua língua pendendo inutilmente para o lado. E assim como Delphine havia previsto, ele começou a brilhar e Fenris, diante de todos, absorveu a sua alma.
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