Cronicas de Skyrim- Raed o Redguard.
18 A Encruzilhada de Hjaalmarch
O caminho para Windhelm era uma tortura de gelo e pedra a medida que chegavam mais perto do seu destino. O som dos cascos dos cavalos batendo no solo congelado ecoava como batidas de um coração lento, enquanto o vento cortante de leste trazia o cheiro de neve velha e do mar gélido que banhava os portões da capital da região. As fontes termais já abandonadas, fora o único pequeno alívio do frio cortante que agora os atingia.
Raed apertou as rédeas, sentindo os dedos dormentes apesar das luvas. Ele ajustou o seu manto pesado contra o corpo, tentando desesperadamente manter o calor que parecia esvair-se a cada rajada. O guerreiro do deserto, ainda estava sofrendo para se adaptar aquela região.
Quando Windhelm finalmente surgiu no campo de visão, as suas paredes de pedra cinzenta e maciça erguiam-se como um túmulo para gigantes. A multidão acumulada diante da ponte de pedra era uma visão de miséria: refugiados da guerra, mercadores impacientes e soldados de olhar desconfiado. Raed sentiu um peso no estômago, mas não transpareceu. Aquela cidade não era acolhedora; era uma fortaleza de preconceitos e tradições rígidas.
— Realmente, a guerra cobra o seu preço — comentou Marcurio, quebrando o silêncio. Ele cavalgava com uma elegância irritante para alguém naquele clima, quase como se o frio não ousasse tocar as suas vestes de mago. — Olha para estas pessoas. Metade delas não tem onde cair morta, e a outra metade só quer pilhar o que resta.
— E ainda exigem uma espécie de passe para entrar — observou Raed, notando a guarda reforçada e o escrutínio nos olhos dos nórdicos que vigiavam a entrada. — Acho que pode ser comprado, mas não será barato. Eu tive que entrar de outra forma.
— Darei um jeito. Sempre dou — Marcurio deu um sorriso de canto, aquele brilho de arrogância nos olhos que sugeria que ele já tinha uma bolsa de ouro pronta ou um feitiço de ilusão na ponta da língua.
Raed o olhou de soslaio, desconfiado. — O que pretendes exatamente nesta cidade, Marcurio?
— Vim buscar uma coisa — o mago respondeu, desviando o olhar para as torres de vigia. — Me perdoa, meu amigo de viagem, mas é o máximo que irás saber sobre isso por agora.
Raed não insistiu. No fundo, a sua mente estava em outro lugar. Ele pensava no Argoniano que o esperava lá dentro, mas, mais do que isso, pensava na promessa que fizera ao pequeno Aventus Aretino. Havia uma escuridão crescendo dentro de Raed, uma aceitação de que, às vezes, a justiça exigia lâminas nas sombras e que a morte podia ser indiferente para ele.
— Por que me deu aquele pergaminho? — perguntou Raed subitamente, a voz saindo mais rouca do que pretendia. — E como sabia que eu iria usá-lo na hora certa?
Marcurio soltou uma risada curta e seca, o seu jeito debochado de costume fundindo-se com o som do vento. Ele deu de ombros de forma despreocupada.
— Intuição. Quando você aprende magia, aprende a acreditar na sua intuição. Nada diferente dos seus instintos desenvolvidos por anos de treinamento e enfrentamentos. Só imaginei que você tivesse alguma espécie de "proteção" divina, ou talvez maldita, e não estava errado.
O mago então inclinou-se um pouco mais perto, o tom de voz mudando de jocoso para algo perigosamente observador.
— Mas não foi só intuição técnica, Raed. Eu vejo como olhas para as sombras. Há um cheiro em ti que não é apenas o de Hammerfell ou da neve de Skyrim. É o cheiro de algo forte. Algo está a te puxar para o seu destino, meu caro Redguard. Eu apenas dei o pergaminho porque sabia que, naquele momento, tu estavas disposto a fazer o que fosse preciso para cumprir seu objetivo.
Raed sentiu um calafrio que nada tinha a ver com a temperatura. Ele olhou para as suas próprias mãos. Eram mãos de guerreiro, sim, mas agora começavam a sentir-se como as mãos de um carrasco.
— Tenho um conhecido a minha espera — disse Raed, ignorando a sobrancelha erguida do seu companheiro de viagem. — Vamos entrar e talvez nos separar depois disso.
Marcurio apenas sorriu, o olhar fixo no portão principal, onde as pessoas estavam aglomeradas.
Foram para os estábulos onde crianças vieram recepcionar seus cavalos sobre o olhar atento de algum supervisor. Os estábulos de Windhelm fervilhavam com o som de cascos e o cheiro de feno húmido. Havia muitos cavalos. Raed e Marcurio pagaram e saíram para o céu nublado da região. O céu permanecia um manto de cinza opressivo , ao longe Raed observou encostado em uma arvore perto da agua, mas longe o suficiente da cidade, o argoniano Veezara esperava.
-Acho que é aqui que nos separamos Marcurio.
Marcurio olhou sobre o ombro de Raed e viu o argoniano.
— Entendo. Foi muito boa a nossa parceria de viagem — disse Marcurio, olhando por cima do ombro de Raed para a figura imóvel de Veezara, encostada a uma árvore perto da água. — Aprendi muito, mesmo que não tenhas tentado ensinar nada. Deuses, tu mal falava! — Ele soltou um sorriso, o habitual deboche mascarando um timbre genuíno de respeito. — E ainda pude ver um dragão de perto.
Raed apertou a mão estendida do mago, um gesto firme seguido por um toque no ombro. Eram dois viajantes cujos caminhos se cruzaram por necessidade, mas que agora se separavam por destino. Enquanto Marcurio se afastava em direção às portas da cidade, Raed caminhou até o Argoniano.
Veezara não se moveu até que Raed estivesse perto o suficiente para que o som da água abafasse as palavras, olhando ao redor percebeu que estavam realmente sozinhos, em uma posição que até o vento era quebrado evitando que suas vozes pudessem ser levadas por ele, garantindo o sigilo. Exceto é claro para que visse um redguard e um argoniano conversando.
-Você tem uma bela tendencia a fazer amizades. – Falou Veezara com aquela voz reptiliana.
-Estávamos apenas seguindo mesmo caminho. – E após um breve silencio, acrescentou. – Está feito.
-Eu sei. As notícias correm.
Raed o encarou, talvez fosse verdade. Sua vinda foi interrompida por uma caça a um dragão afinal.
-E agora?
-Agora você vai para uma encruzilhada próximo a cidade de Morthal.
Raed o encarou longamente avaliando o argoniando. Ele de braços cruzados esperou. Mas quando o redguard quebrou o silencio, pareceu haver um certo alívio na postura do seu ouvinte.
-Quantos testes eu preciso fazer? Cansei dos seus joguinhos.
Raed falou com firmeza, mas seus pes ficaram firme diante do argoniano.
-Acabaram os testes, só resta a entrevista.
-Meu pai?
Veezara sorriu, com aquele sorriso que mostrava todos os dentes pontiagudos.
-Seu pai é muito estimado por todos, mas não é nosso líder. Você saberá quando a vir.
-E devo acreditar que não estou indo para uma armadilha.
-Se a irmandade quisesse você morto. Já estaria morto. Descanse e parta cedo. O líder estará a sua espera daqui a dois dias. Boa sorte! Leve a adaga.
Veezara se afastou da arvore e seguiu para o barco, empurrando-o para a água. Raed contemplou enquanto ele sumia na nevoa da manhã, depois se virou para a taberna fora da cidade. Não queria entrar na cidade, não haveria tempo inventar alguma desculpa e despedir mais uma vez de Liv.
A cavalgada para oeste foi um exercício de paciência e introspecção. À medida que Raed deixava as terras altas de Eastmarch, a paisagem mudava drasticamente. A neve densa dava lugar a uma terra encharcada e lúgubre. O ar em Hjaalmarch era diferente; não era apenas frio, era pesado, carregado com o cheiro de turfa, algas mortas e algo que Raed só conseguia descrever como o hálito da própria terra apodrecendo.
Raed pensava nas palavras de Marcurio e em Delphine com seu dragonborn. Se surpreendeu com a maneira que pensou nesse último. Seria inveja? Voltou seus pensamentos a velha do orfanato. Ele nunca se vira como um assassino, apenas um sobrevivente. Mas em Skyrim, a linha entre os dois parecia ter-se desfeito. O ritmo do galope do seu cavalo parecia ecoar um batismo sombrio. Ele estava a ir ao encontro de um destino que não envolvia honra de guerreiro, mas sim o silêncio da lâmina.
Menos de dois dias depois, em um ritmo firme, a encruzilhada perto de Morthal surgiu entre a névoa que subia dos pântanos. Era um lugar desolado, onde árvores retorcidas pareciam dedos esqueléticos tentando agarrar o céu nublado. Raed puxou as rédeas, parando o cavalo no centro do cruzamento. O silêncio era absoluto nem o pio de um pássaro, nem o som do vento nos pinheiros.
Ele sentiu um desconforto instintivo, a mesma "proteção" que Marcurio mencionara, gritando em aviso. Mas antes que pudesse levar a mão ao punho da sua espada de aço, um som sutil de algo cortando o ar, um flic quase imperceptível, atingiu o seu pescoço.
Raed levou a mão à nuca e sentiu a haste pequena e emplumada. Um dardo. Depois tudo escureceu e ele sentiu cair do cavalo.
O mundo começou a girar. O cinza do céu misturou-se com o verde escuro do pântano em uma espiral caótica. As suas pernas perderam a força e ele deslizou da sela, caindo pesadamente no solo macio e húmido. A última coisa que viu, antes que a escuridão o reclamasse totalmente, foi uma silhueta movendo-se na névoa e o sussurro de uma voz que não era a de Veezara, mas que carregava a mesma frieza do Vazio.
A irmandade viera cobrar o seu sono. E quando Raed acordasse, o mundo que conhecia teria ficado para trás.
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