Cronicas de Skyrim- Raed o Redguard.
19 O Despertar na Cabana Abandonada

Primeiro ele sentiu que podia se mexer, mas não tentou. Depois sentiu que podia abrir os olhos e assim o fez. A princípio nada enxergou, mas pelos pássaros cantando pode supor que era dia, não noite. Teve que se controlar para não pensar e bater o desespero que pudesse estar cego. Graças aos deuses esse não era o caso, e aos poucos o foco foi voltando aos seus olhos e ele pode começar ver o vislumbre de um telhado de madeira esburacado. Seu nariz começou sentir cheiro de umidade e mofo, e seu corpo pode sentir que estava sobre uma cama. Não confortável, mas uma cama.
Raed forçou os cotovelos contra o colchão de palha estragada, sentando-se devagar enquanto uma pontada de dor latejava em sua nuca. Onde diabos ele estava? A última memória clara era de estar cavalgando para localização marcada por Veezara e então algo atingir seu pescoço. Ser pego desprevenido daquela forma era um insulto imperdoável ao seu orgulho de guerreiro de Hammerfell. Sua mão foi a nuca, apenas a dor existia lá e um pequeno caroço que podia ser confundido com uma mordida de um inseto. Ele não precisava olhar para baixo para saber que estava desarmado.
Com sentidos voltando gradualmente, um som rítmico chamou sua atenção. Três respirações pesadas, abafadas e trêmulas vinham do centro do cômodo. Ele não se virou de imediato, espero seus sentidos voltarem totalmente. Seja quem for, se quisesse matá-lo já teria feito isso.
Quando enfim se virou olhando para o chão de tábuas apodrecidas, Raed deparou-se com uma cena intimidadora. Três pessoas estavam ajoelhadas em linha, com as mãos firmemente amarradas para trás e sacos de estopa cobrindo suas cabeças. Eles se contorciam levemente, soltando gemidos de puro pavor através do tecido grosso. Por uma fração de segundo seu coração acelerou, mas foi apenas esse tempo que levou para perceber que nenhum deles era um redguard e seu coração se acalmou. Nenhum deles significava nada para ele.
— Olha só... O belo adormecido finalmente resolveu se juntar a nós.
A voz era feminina, carregada de uma calma predatória e um deboche cortante. Vinha de cima. Raed ergueu os olhos rapidamente. Mas o único movimento feito foi apenas de sua cabeça. Não queria fazer movimentos bruscos. Não sabia o que lhe atingira, e nem que efeito tinha.
Sentada casualmente no topo de uma prateleira de madeira alta, com as pernas cruzadas e uma postura incrivelmente relaxada, estava uma mulher. Ela vestia uma armadura de couro ajustada em tons de vermelho escuro e preto. As cores do sangue e da noite. Seus olhos brilhavam com divertimento, e seus dedos brincavam distraidamente com o gume de uma adaga de formato cruel, a adaga que de seu pai! A mesma que Veezara lhe dera.
— Quem é você? — a voz de Raed saiu mais rouca do que ele planejava, a garganta seca pelo tempo adormecido. Deve ter se passado algumas belas horas para ele estar com a garganta seca.
A mulher deu um salto leve, pousando sem fazer o menor barulho no chão de madeira, a poucos passos dele. Raed se levantou lentamente, não porque tinha medo dela, ela parecia bem capaz de matá-lo a qualquer momento. Mas sim porque tinha receio de ainda não estar bem e cair. Não foi o caso. Ficou de pé e suas diferenças de alturas não a intimidou. Ela embainhou a adaga com um movimento fluido e cruzou os braços, encarando o Redguard com um sorriso de canto que podia ser percebido mesmo debaixo da mascara.
— Meu nome é Astrid — disse ela, o tom de voz suave, mas que carregava o peso de uma sentença. — Sou a líder da Dark Brotherhood em Skyrim. E nós temos um problema de negócios, Raed.
O guerreiro cerrou os punhos, e relaxou dedos em seguida experimentando a rigidez deles enquanto a encara. A Dark Brotherhood. O boato era real; os sussurros que ele ouvira sobre ela ainda existir em Skyrim, se materializaram na figura daquela mulher.
— Me refresque a memória. Não lembro de ter feito negócios com vocês. — Retrucou Raed, tentando manter a voz firme enquanto calculava a distância até a porta trancada. Ela revelar seu nome, mesmo que falso só significava que sairia dali apenas de duas formas. E não gostava da segunda opção.
— Ah, mas você tem — Astrid deu um passo à frente, a expressão tornando-se subitamente fria e profissional, ignorando totalmente o blefe dele. — Você matou a velha Grelod, a Bondosa, no Orfanato de Riften. Um trabalho encomendado pelo pequeno Aventus Arentino. Aquele contrato... era nosso. O garoto realizou o Sacramento Negro, a Mãe Noite ouviu, e a Brotherhood deveria coletar aquela alma. Você roubou de nós, Redguard.
Ela se aproximou dos três prisioneiros ajoelhados, tocando suavemente no ombro de um deles, que se sobressaltou de pavor.
"Uma vida foi tirada, e uma dívida foi criada. E na nossa linha de trabalho, uma dívida com o Vazio só se paga de uma forma: com sangue. Uma vida por uma vida." — determinou Astrid.
Astrid afastou-se dos reféns e apontou para eles com um gesto teatral.
— Eu fui justa com você. Trouxe três opções para facilitar o seu pagamento. Um deles tem um contrato ativo de assassinato emitido contra a sua cabeça. Os outros dois... bom, talvez sejam apenas pessoas azaradas no lugar errado e na hora errada.
Ela olhou fixamente nos olhos de Raed, desafiando-o.
— O seu passe livre para sair desta cabana e manter a sua cabeça sobre o pescoço é simples: olhe para eles, use o seu instinto de matador e execute um deles. Não me importa qual. Mate um, a dívida estará paga, e talvez — apenas talvez — você prove que tem o que é preciso para vestir as nossas cores e encontrar quem procura. Caso contrário... bem, você sabe o que acontece com quem rouba da Brotherhood.
Os prisioneiros, percebendo que a hora do julgamento havia chegado, começaram a se desesperar. Raed os avaliou com calma.
O da esquerda era um guerreiro robusto com uma armadura simples de couro, cuja voz tremia de forma patética, mesmo tento todo aquele corpo cheio de músculos.
-"Por favor! Eu tenho ouro, eu sou um soldado! Não façam isso, eu imploro por Divine!
A do meio se mostrou uma mulher extremamente arrogante, que mesmo encapuzada cuspia as palavras com raiva diante do seu destino. Ela era bastante corajosa.
-Seus vermes imundos! Quando eu me soltar daqui, vou caçar cada um de vocês! Minha família vai triturar seus ossos!"
O da direita vestia vestes de mercador e seus pelos denunciam claramente se tratar de um Khajiit antes mesmo de sua voz assustadoramente calma e asquerosa, o denunciasse.
-Ah, meu amigo... não dê ouvidos a eles. Vasha sabe como recompensar um favor. Escolha um dos outros e Vasha garantirá que seus bolsos nunca fiquem vazios...
Astrid deu um passo para trás, encostando-se na parede ao lado da porta, os braços novamente cruzados, esperando. No chão, a poucos centímetros dos pés de Raed, estava sua espada que ele jurava que não estava ali segundo antes e nem escutou sendo jogada ao chão.
O silêncio na cabana tornou-se sufocante. O Vazio estava assistindo.
Raed se inclinou pegando a espada e tirando lentamente da bainha. Sabia como funcionaria. Não tinha escolha. A porta da cabana só abriria de duas formas. E a segunda tinha riscos. Além do mais a curiosidade de encontrar seu pai. Entender aquilo tudo já tinha dominado seu coração.
Ele caminhou surdo para os três a sua frente, tentando adivinhar qual deles teria o contrato pela sua cabeça, quando um pensamento lhe ocorreu. Não havia contrato, ou podia haver três. Não importava, era um teste. Então fez sua escolha.
Com um rápido movimento ele fez a espada deslizar no ar e logo em seguida uma das vozes foi silenciada e após o barulho da cabeça rolando ao chão as outras duas se calaram em seguida compreendendo o que aconteceu.
O Khajiit caiu morto e sem cabeça no solo que logo foi ficando vermelho, à medida que a poça se alargava. Ele sacudiu a espada e fez o sangue sair da lâmina antes de embainhar novamente. Quando se virou silvos passaram por ele. Ele não se moveu. Apenas encarou quem fez o movimento. Atras dele pode ouvir os outros dois prisioneiros caindo no chão, engasgando-se no próprio sangue.
-Aquele Khajiit era bem ardiloso. Com certeza teria inimigos, não é? Entendo perfeitamente por que o escolheu. Eu teria feito o mesmo!
Ela andou calmamente até a porta e descantou a abrindo olhou lá fora e fez sinal saindo se espreguiçando calmamente e olhando ao redor. Raed a seguiu. O pântano enevoado se mostrou a sua frente. Arvores sombrias surgia entre os lamaçais. A casa ficava bem nem no meio daquele pântano. Entendia por que foi escolhido para aquela tarefa. A sua direita, dois cavalos selados estavam cavando solo com casco. Um deles era o próprio cavalo de Raed com todo seus equipamentos e suprimentos.
Ela foi até o cavalo de Raed e o pegou trazendo e entregando as rédeas na mão do seu dono, que pegou e a encarou sem muita emoção. Ele apenas esperava o que vinha a seguir. Ela então mostrou seu rosto ao baixar a máscara, era um voto de confiança ele sabia. Ela era bela, mas não tão jovem quanto devia ser ao começar nessa vida. Ela sorriu de canto e falou com um tom, mas brando. Sem deboches ou ameaças.
-Muito bem! Você provou seu valor, Raed. A nossa 'família' se reúne no Santuário. Fica escondido na floresta a oeste de Falkreath, perto da Passagem de Pinepeak. Você saberá quando encontrar. Vá até lá e diga a senha para a porta. -Silêncio, meu irmão. Seu pai vai adorar te encontrar. Desculpe, mas a lâmina dele fica comigo por enquanto. – Ela bateu em seu ombro. -Você se parece com ele. Só que mais bonito. – Ela gargalhou – Em Falkreath ali perto possa ser que esbarre em outros redguards. Fica próximo a fronteira. Pode procurar direção la, caso fique perdido. Mas seja esperto.
Raed subiu em seu cavalo que reagiu com um pequeno relincho. Raed a encarou agora do alto e estendeu a mão que ela apertou em um breve cumprimento.
-Nos vemos daqui a pouco então.
-Nos vemos daqui a pouco, irmão. Que Sithis te proteja.
E assim Raed cavalgou para fora do pântano, deixando a assassina para se livrar dos corpos na cabana.
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