Cronicas de Skyrim- Raed o Redguard.
11 Aventus Arentino

A missão de Aventus Aretino se tornaria o rito de passagem para Raed. Uma prova de lealdade e sangue para entrar no mundo sombrio que seu pai deixou como rastro a ser seguido, caso ele quisesse encontrá-lo.
Veezara remou silenciosamente até o porto de Windhelm. Raed encarava a lâmina em suas mãos pensativamente durante todo percurso. O barco deslizava pela água gelada fantasmagoricamente. Ao desembarcar, ele levou Raed para os depósitos do Porto onde os argonianos eram permitidos ficar. Argonianos eram limitados ao Porto, proibidos de andar na cidade sem um objetivo específico, e para sua surpresa notou muitos deles.
Veezara deu a Raed a localização da casa de Aventus Aretino e explicou os próximos passos, depois de se sentarem em uma mesa de madeira, localizada em um dos cantos mais afastado de um dos vários depósitos existentes.
-Cumpra a tarefa. -Disse ele em um sussurro, — e retorne para recolher sua recompensa com a criança. Um trabalho sempre deve ser pago. — Raed interpretou a forma que ele mostrara os dentes como um sorriso. — Depois, vá para esta localização que estou lhe dando. – Ele apontou em um pequeno mapa que desenrolou de sua bolsa, um ponto entre a cidade que estavam e outra localização- Alguém estar lhe esperando. Liv e os outros permanecerão em Windhelm por algum tempo, o que deve ser suficiente para completar a missão e voltar aqui.
-E se eu não quiser cumprir essa tarefa. O que acontece?
-Você vai ganhar uma bela lâmina. E nunca mais vamos nos ver, ou encontrar outro membro da irmandade. Se encontrar, nunca saberá. E a pior parte seria que não veria seu pai.
-Você fala como se a nossa relação fosse das melhores. -Raed suspirou alto demais para seu gosto, e disfarçou olhando para o lado.
Ouviu uma cadeira se afastando e depois uma mão tocando-lhe o ombro.
-No final de tudo -Raed o olhou- Ele ainda é seu pai. E fala bastante de vocês. – Sorriu uma última vez e deu um leve tapa em seu ombro, antes de sair do deposito e se misturar com os demais de sua raça.
Raed saiu para o tempo frio amassando o mapa que Veezara lhe dera, mas guardou o papel amassado na bolsa em sua cintura. Retirou da a adaga da bainha e conferiu mais uma vez. Não precisava testar a lâmina para saber que estava extremamente afiada. Suspirou. A real questão é se ele realmente desejaria realizar um assassinato para uma criança, com a esperança de encontrar seu pai. Mas a adaga como prova que estava vivo, era realmente intrigante. Ele decidiu que de imediato não precisaria se preocupar com isso. Primeiro iria atrás de Liv.
Andou pelas ruelas escuras da cidade, onde sussurros e sombras reinavam, com sua capa cobrindo o rosto e suas armas, os guardas não o incomodaram. Talvez figuras assim fossem comuns naquela parte da cidade de pedra e gelo. Além de que ele teve o cuidado de permanecer na periferia da cidade. Mas sabia que se curiosidade ganhasse, deveria se encaminhar ao centro e encontrar o garoto.
A cidade ou melhor a periferia da cidade era cheia de ruelas apertadas com paredes de pedra bruta. O frio apesar das muralhas percorria os caminhos como facas afiadas; Raed apertou ainda mais sua capa contra o corpo, xingando baixinho.
Para sua surpresa, são seguir por uma das ruas mais largas, viu uma figura conhecida adentrar em um estabelecimento, levantou a cabeça para placa e viu se tratar de uma taberna. Só reconheceu a figura porque ela tirara o capuz antes de entrar. Revelando a pele de elfo negro e os olhos vermelhos da mercenária Jenassa. Ele foi atrás dela entrando no estabelecimento que rangeu a porta, e o vento que entrou com eles fez alguns ocupantes xingarem alto.
Ao tirar o capuz, pode ver os rostos desconfiados e intimidadores dos clientes. Todos eles elfos negros. Antes que alguém questionasse o que ele estava fazendo ali, Jenassa anunciou.
-Ele está comigo.
Raed atravessou o ambiente e se sentou em um banco de madeira ao lado da elfa. Ela apenas resmungou.
-Então conseguiu entrar na cidade.
-Por sorte, não precisei nadar.
O atendente entregou uma caneca a Jenassa. Raed sinalizou querer o mesmo. Sem olhar para Raed, ele se virou e foi encher uma caneca. Era vinho, meio aguado, mas sentiu o calor ao descer pela sua garganta. Ficou grato por isso.
-Eu imaginei essa cidade de maneira diferente.
Jenassa soltou um riso sarcástico enquanto bebia.
-O que imaginou?
- Uma cidade mais movimentada devido a guerra.
-Ela é – Respondeu Jenassa sem se quer olhá-lo – La no centro. Para os nórdicos. Não sei se reparou, mas todos aqui somos elfos. Eles nos limitam ao mercado e a periferia. E não gostam de nos ver pelas ruas.
Raed nada comentou. Apenas terminou de beber a sua bebida.
-Onde encontro o Liv?
-Acredito que ele esteja na estalagem principal do centro. Talvez você consiga entrar. Não ficar. Você pode não ser um elfo. Mas também não é um nórdico.
-Entendi.
Apesar da frieza inicial de Jenassa, eles conversaram por um tempo, com ela explicando sobre a região e a estrada. Afinal ela era mercenária em Skyrim a muito tempo e ele apenas um recém-chegado. Ele chegou a pedir algo para comer enquanto conversam. Por fim decidiu dar uma volta e conhecer a cidade. Ela chegou a indicar um local em que ele podia dormir, aos redores da periferia.
-Nos vemos amanhã. -Disse ele.
Com o aceno da cabeça dela, ele saiu.
O frio da noite o cortou quando saiu. Caminhou imerso em pensamentos, mas seu subconsciente o guiou até seu destino. Mesmo que ele pensasse ser outro. Quando parou a porta de uma velha casa de andar. Observou uma velha afastando uma criança da porta.
-Saia dessa porta. Você sabe que essa criança faz coisas amaldiçoadas. -Puxando a orelha da criança a afastou da porta.
Pegando o mapa amaçado do seu bolso, Raed já sabia onde estava mesmo antes de abrir. Seguiu as instruções de Veezara, e se dirigiu à casa de Aventus Aretino mesmo sem perceber. O exterior da residência era sombrio e descuidado, com tábuas soltas e a janela do andar de cima aberta. Raed bateu na porta, e o som oco ecoou no silêncio da rua. Trancada.
Olhou ao redor antes de correr contra a parede próxima da casa e pegar impulso para escalar a janela. Entrou o mais silenciosamente que pode. O chão marcando suas botas devido a poeira acumulada. De uma porta saia a fraca luz de velas. E ao se aproximar, pode escutar o cântico que a voz de criança recitava.
-Querida Mãe...Querida Mãe....
A porta estava aberta, revelando a figura de um garoto magro e pálido. Ele usava um pijama sujo e segurava uma adaga de ferro, que apontava para o um boneco que ele esfaqueava. Ao perceber Raed parado a porta, se afastou se arrastando de costas até bater na cama, com os olhos assustados.
-Você... você é o mensageiro da Irmandade Sombria? — Ele perguntou, sua voz falhando.
A expressão do garoto mudou, passando do medo para a esperança e começou a chorar, aliviado.
-Funcionou! Eu sabia, eu simplesmente sabia! Então você chegou. Um assassino da irmandade.
Raed, mantendo a calma, abaixou a cabeça em sinal de respeito.
-Não precisa dizer nada. Não há necessidade. Você está aqui. Então sei que aceitara meu contrato.
Finalmente, a expressão do garoto mudou para uma determinação sombria. Ele recuou, permitindo que Raed entrasse na casa. Ele entrou. Dando alguns passos e parando a porta. O interior era ainda mais decadente que o exterior, com teias de aranha cobrindo os cantos e um cheiro forte de mofo no ar. No centro da sala, havia um círculo desenhado no chão, rodeado por velas e um crânio, certamente roubado, além da boneca que a luz das velas, ele pode ver que era feito de carne. Ela estava toda perfurada pelas estocadas da faca.
-Eles me disseram que você viria. — Aventus disse, enquanto apontava para uma pequena boneca em uma das mesas. — Eu preciso que você mate Grelod, a Gentil. Ela é uma velha cruel que comanda o orfanato de Riften. Ela me tratou de forma horrível, e eu prometi que os mensageiros da Irmandade viriam para fazer justiça.
Raed pegando a pequena boneca continuava retribuindo o olhar do garoto. Aventus continuou. — Ela não merece viver. Ela bateu em mim, nos assustou e nos deixou com fome. Com sede. Faça isso, por favor. Eu tenho as peças de prata de minha família. O Jarl não deixou que levassem.
- Cuide-se Garoto.
Ele virou as costas e saiu. Podia usar a porta, mas preferiu sair pelo mesmo caminho que entrou. O ar gélido de Windhelm pareceu chicotear o rosto de Raed com mais força assim que ele saltou da janela para o beco nevado. O silêncio da cidade de pedra era interrompido apenas pelo estalo distante de uma tocha ou pelo uivo do vento nas ameias.
Ele sentia o peso da adaga na cintura e, agora, o peso daquela promessa infantil. Grelod, a Gentil. O nome soava como uma piada de mau gosto. Ele olhou para as próprias mãos, ainda sentindo o formigamento da adrenalina. Ele não era um assassino — pelo menos, ainda não. Mas a Irmandade Sombria era a única trilha de migalhas que levava ao seu pai. E em Skyrim, o sangue parecia ser a única moeda que comprava a verdade.
Raed não voltou para a periferia imediatamente. Ele caminhou até a ponte de pedra que levava ao centro da cidade, observando de longe as luzes da Estalagem. Liv estaria lá, cercado pelo conforto que o ouro e o sangue nórdico podiam comprar. Por um momento, Raed sentiu o impulso de entrar, e querer contar ao amigo tudo que aconteceu. Mas as palavras de Veezara ecoavam como um veneno lento: “Cumpra a tarefa... e retorne para recolher sua recompensa”.
Ele deu as costas ao brilho das fogueiras do centro e começou a descer em direção ao porto, onde o cheiro de peixe curado e água salgada congelada dominava o ar.
Ao passar pelo mercado deserto, uma sombra se destacou contra uma parede de pedra. Jenassa estava encostada ali, como se nunca tivesse saído, observando-o com aqueles olhos carmesins que pareciam enxergar através da escuridão e da moralidade.
— Você tem aquele olhar — disse ela, a voz baixa como o roçar de metal em couro. — O olhar de quem acabou de aceitar um fardo que não sabe se consegue carregar.
Raed parou, mas não a encarou.
— É um longo caminho até Riften? — perguntou ele, a voz rouca pelo frio.
Jenassa deu um passo à frente, a luz da lua refletindo em sua armadura de couro.
— Através das fontes termais e das passagens nas montanhas? Sim. E Riften não é como Windhelm, Raed. Lá, se você cair, ninguém tenta te segurar. Eles apenas roubam suas botas antes que seu corpo esfrie.
Raed apertou o cabo da adaga sob a capa.
— Ótimo. Talvez eu me sinta em casa.
Ele seguiu em direção ao local que Jenassa indicara para dormir, mas sabia que o sono não viria fácil. Em sua mente, a voz de Aventus Aretino repetia o cântico como um mantra, e a imagem daquela "boneca de carne" perfurada servia como um lembrete do que ele estava prestes a se tornar.
O caminho para o pai passava pelo orfanato de Riften. E Raed sabia que, ao amanhecer, o filho que seu pai conhecera teria ficado para trás, perdido em algum lugar entre a neve de Windhelm e o sangue que ele teria de derramar.
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