Crises do Amor

1 Capítulo 1 - Reflexões do Amor


Notas iniciais
Refletir sobre a vida é um passo para o descobrimento de detalhes que, muitas vezes, não gostaríamos de saber.

Mais uma noite em que eu não dormi direito... Na verdade, eu não dormi nada, fiquei com meus olhos abertos totalmente. Havia algumas lágrimas escorrendo por eles, mas nada que um lenço não resolvesse. Ainda eu sofria um pouco com o término do meu relacionamento. Foram alguns anos excelentes, mas ele havia partido, assim como aqueles que eu mais gosto.

Não morreu. Eu nem sei o que aconteceu. Ele disse que precisávamos terminar e eu aceitei. Se para ele não estava nada bem, por que eu teria que segurá-lo por mais tempo? Eu sentia essa dor, mas não sabia o que era. Era um vazio. Para os piadistas: não, não era fome e nem crise existencial, somente um grande vácuo.

Parecia que eu me torturava ainda mais: em uma parede, perto de minha cama, havia um imenso painel com cartas, fotos e mensagens que me mandou. No centro, um pequeno coração de vidro que compramos juntos. Sim, eu havia ficado com o coração que "fizemos" juntos.

Era férias e, ao invés de curtir a minha vida, eu me atormentava a cada segundo que ainda restava da minha extensa vida. Quando eu saía da cama, não sentia o chão, não sentia meus passos, meus pés ou a bagunça. Eu não caminhava, eu flutuava. Meu solo desapareceu por completo.

Meus pais pediam, ou melhor, imploravam para eu sair do quarto, contudo, eu resistia. Não queria enfrentar a vida lá fora, a vida que eu chamei de feliz dias atrás. Era um pequeno caos tudo isso o que eu sentia e eu fazia o meu mundo ficar da mesma maneira: pratos e copos sujos na minha cabeceira, meias e roupas fedorentas escondem a cadeira que eu uso para ler, papel e mais papel voando pelo quarto.

—Filho, por favor...

Era a minha mãe, mais uma vez, abrindo a porta de meu quarto. Por que eu me torturava? Por que eu queria sofrer com algo passageiro? Por que eu fazia isso?

Ela, depois que deixava mais um prato com comida, mais um copo com suco, tudo em minha escrivaninha, ficava – de braços cruzados – parada diante de minha porta, encarando meu corpo desfalecido em minha cama bagunçada, que eu mal tinha paciência para arrumar o lençol que saía a todo momento.

Pela primeira vez depois que ele terminou comigo, ela se sentou do meu lado e começou a fazer cafuné em minha cabeça. Eu chorava o que me restava de lágrimas.

—Você precisa sair um pouco e respirar ar puro.

Ela fez um gesto de que abriria a porta de meu quarto, uma que substituía a janela que não existia. Porém, ela parou e apenas afastou as cortinas beges, as quais impediam a passagem de luz solar. Era pouca, de fato, pois o dia estava acabando. Após um beijo em minha testa, ela saiu, largando seu leve cheiro de temperos para trás e a solidão em minha companhia.

Eu não costumava levantar, a não ser que minha fome fosse extrema, e essa era a hora: meu estômago se revirava dentro de minhas entranhas. Ele socava cada parte de meu abdômen, somente para me forçar a comer o alimento deixado no prato. Eu não vestia roupa alguma quando levantei, apenas uma cueca box.

Assim que eu me aproximei da comida, senti seu forte aroma e ataquei aquela refeição que eu não degustava há muito. Após engolir tudo e beber o suco – de laranja, se quiserem saber o sabor – voltei até a minha cama. Entretanto, uma pequena fresta da porta se abriu, permitindo que uma leve brisa corresse pelo meu quarto, bem fraca e bem úmida. Isso fez que com uma das cartas presas à parede se soltasse e viesse até mim, como um metal até um ímã.

Li e a reli muitas vezes, mesmo que as palavras martelassem em minha mente. Era estranha a sensação, era um salto em meu coração que eu não sentia desde o dia. Falo de tal forma que uma guerra foi enfrentada... Para mim, um mero dramático, era um pandemônio. No momento em que eu fui recolocar a peça de uma parte da minha vida em seu respectivo lugar, a brisa invadiu meu quarto, tornando-se uma forte ventania.

As portas se abriram bruscamente e isso me fez correr para fechá-las, mas – sem antes – ouvir e sentir meus papéis voando pelo quarto. Eles corriam como pedaços de folhas no final do outono, instante em que o inverno mostrava seu rosto. Eram cartas minhas e dele, poemas nossos e lembranças que eu gostaria de apagar, mas parte de mim me impedia.

Eu, sem vontade de segurá-las, permitia que o vento as carregasse. De repente, escutei um impacto no chão e um forte estralo. Olhei para o centro do painel e percebi que o coração de vidro se transformou em cacos. Sim, o último item nosso se desfez. Se isso era um sinal, não saberia dizer, queria apenas me revigorar. Mesmo com os pés descalços, eu pisava sobre o vidro e nem me importava.

Corri até a varanda, onde podia ver alguns papéis planando pelos sopros suaves ao meu redor. Minha casa dava direto para uma praia e eu não a aproveitava direito, diferente das pessoas que pulavam sobre as ondas quebradas na extensa orla. Olhando com mais força, reparei que uns amigos meus, também dele, curtiam as férias merecidas por todos nós.

No instante em que me viram, começaram a me chamar. Eu queria ir, mas não queria. Era um conflito que eu não conseguia terminar e isso me machucava. Não, não era os cortes de vidro, mas sim meu psicológico. Eles acenavam as mãos e mostravam como a felicidade fazia bem a todos, inclusive a mim.

Eu havia tomado a minha decisão. Enquanto corria de um lado para o outro em meu quarto, arrumando a bagunça da minha bagunça: levando as roupas para lavar e a louça para a cozinha. Passei um rápido pano, uma rápida retirada de pó, uma lavada bem boa nos pratos.

Meu pai, que estranhou, ficou feliz em me ver daquele jeito. Minha mãe quase chorou por me ver assim. Eu esboçava um enorme sorriso. Peguei uma bolsa com minhas coisas e corri para a praia. O mais estranho era que essa força, a mesma que me quebrava todo, ficou boa quando um coração se quebrou.

Notas finais
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