Crises do Amor
2 Capítulo 2 - Retornos do Amor
Esse foi o primeiro momento em que eu saí de minha casa. A brisa do vento refrescava a minha pele seca e quase mofada de tanto tempo condenado a um sentimento terrível que não amaciava a vida petrida vivida por mim. Solidão que eu sentia tão profunda e tão dolorosa e tão amarga como as podres folhas de uma árvore morta. Vagarosamente, os pés eu colocava na areia macia da praia com tanto medo que meu corpo se retraia como um animal indefeso perseguido por uma fera sem alma. Nossa, como era boa aquela sensação!
Os cristais da areia começaram a cocegar meus dedos dos pés com tanta emoção que eu ria sozinho, com lágrimas nos olhos por estar com aquele sentimento tão esquecido como as bibliotecas oferecidas às traças e à poeira. Todos gritavam de emoção ao ver o que eu fazia, a solidão não era mais a minha rainha, era apenas a minha companheira que eu aprendi a usar a meu favor. Com as mãos já soltas, eu me despedi dela e me juntei aos amigos que há tempos não via. Uns sorriam, outros choravam, mas todos pulavam em cima de mim me parabenizando pela minha atitude de coragem. Finalmente, uma das batalhas foi vencida: ela se fora, ou eu achava que tinha se ido.
Nesse desespero de querer rever a vida como eu não me recordava como era, todos me ajudaram a caminhar em direção ao imenso mar que me esperava, que me chamava, que fazia festa em ondas com espumas, tudo isso para me receber. Pouco a pouco, célula por célula, eu adentrava naquele imenso manto líquido de água gelada, toda num tom marrom esverdeado. Os pulos dos meus amigos lançavam água para todo canto, faziam a espuma dançar pelos seus corpos. O êxtase de caminhar novamente em terras conhecidas era intenso, meu sorriso escancarava dentes levemente amarelados, muitos estavam eufóricos com a minha aparição na praia depois de muitos dias e semanas de muitos pedidos.
Dois pegaram as minhas mãos e começaram a me levar para mais fundo do mar. A frieza daquele líquido me fez acordar ainda mais do meu estado mumificado que tantos momentos fiquei trancafiado. Mais longa, na praia, o pôr do sol me fazia resplandecer as lágrimas de felicidade. As luzes rosas alaranjadas começaram a pintar o céu azulado tão delicadamente, tão sutilmente que minha única reação eram sentar-me em cima das ondas e admirar as belezas da natureza, a única amiga que eu tinha certeza que me abraçaria.
Nessa simples solidão que apertava o meu peito tão largado e perdido, eu me mirava tão profundamente, encarando o meu interior tão mudado, tão solitário que eu mal reconhecia o que eu era antes de você. Nossas mãos ainda presas pelas algemas já estavam fracas de tão pressões do mundo que a felicidade era o nosso principal objetivo. Mas quem dera eu conseguir me libertar de tal maneira tão profunda e tão rebelde das amarras que me prendem em oceanos de turbulações. Somos duas almas queimando tão livremente como duas madeiras podres sem mais respiração para sentir as veias transpassando o líquido puro que tanto carecemos.
Sinto, subitamente, um forte braço por minhas costas e pousando as mãos estranhas em meu ombro. Olho para o lado e me deparo com você, ou quem quer que fosse. Seria você o meu mais novo pecado? Seria você o meu mais puro sentimento de perdão? Seria a consequência que tanto queremos vivenciar? Retornar ao amor que nunca senti só me faria afundar mais profundamente no poço que batalhei para lutar e chegar a superfície e gritar meu nome.
Seu sorriso como presas que me prendem nas garras de tão vorazes lobos famintos, serpentes que me enrolam em seu corpo malicioso e cilindrado tão bem musculado em partes tão finas de seus encantos enfeitiçados de poções intensas de amor falsificado das paredes que me cadeiam em noites desamparadas. Nossa! Que sentimentos são esses que sinto nesse solilóquio inconstante de mentiras que você teceu para me cobrir?
Ainda sinto borboletas em meu corpo, sinto as nuvens abaixo de meus pés, permito que o sangue fervilhe em meus passatempos lotados, tudo isso somente ao encarar essa visão que colocaram em minha frente. Muitos tentam nos separar que não sei como reagir, deixo as ondas transpassarem por nossos dedos já entrepostos e por nossas roupas já costuradas juntos.
Correndo para longe, vejo muitos gritando os nossos nomes e, inopinadamente, minha visão é vedada por um delicado e macio algodão em forma de tecidos aconchegantes que amaciam a vida como ela deveria ser. Nesses gritos de guitarra, persisto com os passos bambos em todos os momentos que não sei como reagir. Sou guiado até instantes em que percebo não ser mais o poder que acompanha os meus caminhares tão confusos e indecisos. O que seria de mim para tal fato?
Sinto cheiro de queimado. Socorro! O que farão comigo? Meus olhos são castigados pela luz que adentra velozmente pelas minhas fracas íris e me deparo com muita emoção e comoção, me deparo com muita paciência de todos, que uma festa fizeram na praia. Gritos que me apanham com as palmas e me trazem para a realidade que poucas vezes sentimos. Abraços amorosos que nada mais é uma divindade são postos em meu corpo, cuja recepção é tão magnifica que não passo de uma criança que falou as primeiras palavras em uma boca cheia de sem dentes.
Comemoração adentra tão bem, adentra tão mal, comer e beber até poder não mais enxergar o que não há mais nada a dizer. Sou mais um que não queria ter passado pelos reveses que precisei passar, sou mais um que me perdia pelas trilhas que não mapeavam a nossa existência corretamente.
Mas, tudo é muito bem engraçado, tudo é divertido, como circos que fantasiam pesadelos em forma de loucura que conseguimos aceitar sem pensar duas ou mais vezes. Sem muitas garrafas que voam em nossa direção, não sou nada que enfinca a bandeira sem perder a honra isolado. Tudo revira em vantagens e desvantagens e com tantas voltas que me perco nessas lamentações. O que diria que um pequeno empurrão não era nada? Quase me caio sobre as labaredas bailantes na noite que já nasceu em nosso céu tão puro, com seu olho branco alumiando com a luz que não te pertence, não se despeça.
O que seria essa nova sensação? Duas carnes tão distintas que se encostam em uma explosão que não sei nem como não dói. Sou mais um que não precisa ir, sou mais aquele pego de surpresa, aquele que me empurra no chão e sapateia em cima de mim. E como há cruéis que felicitam as desgraças do nosso corpo, que queimam o nosso corpo em brasas que um dia serviu somente para nos aquecer.
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