Criminal Ways
27 27. Pólvora
Notas iniciais
Elena Gilbert
*
— Não precisa fazer isso Nic, não... — Hayley apertou os olhos sugou um longa respiração recuando alguns passos — Isso é doentio.
— Marcel — Nic fez um sinal, e o cara se afastou de Matt, agarrando uma flanela branca para limpar o sangue das mãos.
Continuei de pé, encarando Matt enquanto ela sagrava, os dentes no chão e os ferimentos no corpo. Por fim, percebi que À direita haviam cinco jaulas e em cada uma dela um cachorro rosnado ou latindo com os olhos atentos e as orelhas altas. Voltei a encarar Matt e então Nic enquanto ainda ouvia Hayley chorar.
— O plano era soltá-lo no deserto com os cães — Nic me encarou com alguma preocupação — O Tyler queria matá-lo, mas eu achei que devia isso a você.
— A mim ou a Rebekah?
— Dá no mesmo — Nic sussurrou — Pra mim dá no mesmo. Eu sei que precisa disso.
— Você precisa disso — Desviei outra vez o olhar para todo o sangue no chão.
— Não foi por isso que eu te contei Nic — Hayley continuou choramingando — Droga, eu devia ter falado com o Eijah.
— Ah, Hayley as coisas que você devia ter feito.
— Você é doente! — Ela soluçou — Todos vocês.
— O Tyler está aqui? — Pergunto me sobressaltando um tanto com os latidos dos cachorros.
— Quer que ele esteja?
— Elena, eu não conheço você está bem? Mas isso é loucura não é? Quer dizer o Nic devia deixá-lo ir. O Matt não vai mais irritar qualquer um de nós. Ele aprendeu a lição.
— Por que está chorando? — Me virei para encará-la sentindo algo parecido com irritação quebrar minha voz.
— Eu...
— Você tem ideia do que ele fez comigo? De quantas vezes ele... — Fechei os olhos tentando espantar as imagens da memória enquanto sentia um aperto no abdômen cada vez mais forte. Agarrei com força meu baixo ventre e suspirei com alguma dificuldade.
Nic veio mais perto e me segurou pelos ombros, deslizando as mãos por meus braços numa tentativa de me tranquilizar.
— Está tudo bem, querida?
— Vai me dar uma de suas facas pra me fazer melhorar? Ou será que tem um médico aqui?
— Pra ser sincero, eu sou formado em medica — Ele ergueu os ombros e sorriu — Vem, nós podemos sentar um minuto.
— Não podemos deixá-lo sangrando assim — Hayley resmungou — Não podíamos só... eu não sei, ligar para a polícia?
— A Elena toma as decisões aqui — Ele respondeu me encarando — Mas polícia está fora de cogitação por razões óbvias. E eu não posso prometer que consigo deixá-lo ir.
— Qual é a dos cachorros, Nic?
— Temos cobras se preferir, só achei que seriam mais rápidos. Não quer você mesma fazer isso, quer? — Ele ergueu as sobrancelhas e parecia realmente curioso. Me afastei de Niklaus alguns passos apoiando ambas as mãos nos joelhos enquanto obrigava o ar a entrar nos meus pulmões. Todas as imagens de antes e todo o sangue no chão martelando na minha cabeça...
— E se eu quiser só ir embora? — Perguntei à meia voz encarando o chão percebendo que não ia mais chorar.
— A escolha é sua.
Respirei fundo uma ultima vez, me voltei para Matt amarrado e sangrando e continuei ali, o encarando indefeso como tantas vezes ele tinha me tido. O que me restava agora? Tudo que eu queria na vida era vê-lo implorando por um pouco mais de ar. Cada parte de mim queria vê-lo implorar para pararem como eu fiz. Eu podia sentir até no ar que respirava o quanto queria vê-lo sangrando até morrer, ou sendo devorado por cães, ou agonizando enquanto o veneno corroía suas entranhas de dentro para fora.
Mas e se todo aquele ódio me consumisse, como fez com Nic? Ou se fosse atormentada pela culpa como Damon e Katherine?
E se eu fizesse aquele maldito teste e descobrisse que não estava grávida do Tyler afinal de contas? E se todas as vezes que eu olhasse para roupas de bebês ou decorações infantis, me lembrasse de todas as vezes que Matt me bateu e gritou para ficar calada? Eu queria Matt morto, sim, era o que eu mas queria. Mas eu queria saber que dei à luz à um filho de um estuprador e uma assassina? Era como se finalmente essa morte fosse despertar minha culpa para todas as outras com as quais fui conivente. A morte de Vicky, a do Alaric, e das pessoas que o Tyler matava trabalhando para o Nic. Por mais que gostasse de negar, eu era culpada por cada uma delas, e eu sabia bem disso.
Quais chances eu tinha de fazer aquela criança ser amada, se viesse a dar a luz?
Eu não tinha quaisquer chances.
Qualquer decisão que tomasse, seria a pior.
— Klaus. Ele está aqui — Me virei encarando o homem recém chegado, por um instante esquecendo meus devaneios.
— Muito bem Stefan, você e o Marcel tomam conta do convidado aqui. Venha Elena, tenho outro presente para você.
Tomei um longa respiração e com as pernas trêmulas o segui para outra daquelas divisórias onde a luz era mais suave.
Assim que entrei o vi. Puxei uma longa respiração aliviada vendo-o vir em minha direção. Corri até ele que me abraçou com força fazendo com que meus pés se erguessem do chão.
— Elena — Ele suspirou, seus braços fortes me torneando enquanto sua palma se perdia em meu cabelo acariciando-o com cautela.
— Tyler — Fechei os olhos com força descobrindo que estava errada sobre não chorar mais. Escondi o rosto na curva de seu pescoço e suspirei quando ele me segurou mais forte.
— Acho que precisam de um tempo juntos — Nic fez uma pausa — Se achar que está tudo bem, Elena.
— Sim. Tudo bem — Me afastei de Tyler para encará-lo — Tudo bem.
— Você está bem, está feriada? Ele fez algo contigo? — Tyler tomou minhas mãos entre as suas — Quer que eu te tire daqui? Eu posso...
— Shh, Tyler. Está tudo bem. Eu estou bem... O Matt está aqui.
— Eu sei, eu... — Ele deu às costas e passou a andar em círculos — Eu quis matá-lo, eu quis tanto, Elena...
— Eu cheguei a pensar que estivesse morto Tyler — Passei as mãos pelo rosto — Por onde andou?
— Procurando esse desgraçado, eu... — Ele se deixou cair sentado numa das poltronas e fez uma longa pausa — Ele estava escondido na casa da família...
Uma onda de enjoo corroeu meu corpo. Pensei em perguntar se eles ainda estavam vivos, mas eu sabia que não...
Com quantas mortes mais eu teria de lidar?
— Você lembra quando as coisas eram boas? Antes da Jenna morrer? Eu e você e o Jer, nós éramos feliz, e eu te amei tanto Tyler, tanto... — As lágrimas finalmente vieram, e minhas pernas cederam me fazendo sentar no chão frio e empoeirado.
— Ainda podia ser assim — Ele respondeu sem sair do lugar. Sua voz nada firme e o olhar no chão — Eu sei que eu estraguei tudo, mas...
— A culpa não é sua — Tentei secar as lágrimas — Eu tentei te odiar Tyler, eu tentei muito. E acho que em algum momento eu até consegui. Mas... — Suspirei — Conhecer todas essas pessoas me fez ver as coisas de outro jeito, sabe? A Katherine, o Elijah, o Nic... O Damon... Todos eles são tão infelizes e atormentados como nós, e eu não quero mais ser assim, eu... — Outro rio de lágrimas que não consegui impedir interrompeu minha fala — Eles vivem consumidos pela culpa, tentando encontrar um culpado, acusando uns aos outros por algo que não podem mudar. Nenhum deles consegue ver além da culpa e cada escolha que fizeram está enraizada por ela. Eu não quero ser assim.
— Mas é assim que nós somos — Ele cobriu a boca com uma das mãos como fazia para tentar se acalmar — Nós somos ferrados Elena. Olhe só pra mim? Acha que nunca pus a culpa em você? Acha que eu nunca te odiei? Eu era só um garoto e larguei tudo por você.
— Eu nunca te pedi isso.
— Eu sei, mas eu te amava, e você precisava de mim. O que eu podia fazer? Eu desisti de tudo que eu queria de todas as minhas ambições só pra ser o homem que te faria feliz, e eu fiz isso sem nenhum arrependimento. Foi uma escolha, e eu fui um merda egoísta por culpar você por essa escolha. Eu falhei em te fazer feliz, falhei em te dar a vida que você merecia, eu falhei em tudo, mas fiz isso por você!
Tyler passou as costas das mãos pelo rosto espantando uma lágrima solitária.
— Foi por você — Ele repetiu — Não estava nos meus planos trabalhar pro Nic, ou virar um assassino de merda, não estava nos planos fazer da sua vida um inferno, mas droga, eu te amo. E sempre irei te amar. Mas... Foi por você, que eu matei tudo de bom que havia em mim, foi pra você, eu só queria que tivesse uma chance, então eu... Você entende? Eu tive que matar cada parte boa de mim, e mesmo que o homem que eu sou hoje ainda te ame, ele não merece ser amado por você, mas droga, eu fiz por você, eu... — El apertou os lábios numa linha firme e então soltou o ar preso.
— Eu vou te amar pelo resto da minha vida pelo que fez por mim — Sussurrei com o olhar baixo — Da forma mais verdadeira e pura que alguém pode ser amado, eu vou te amar. Mas eu nunca, nunca mesmo vou conseguir perdoar o que você me fez... Eu... Me desculpa... Eu sinto tanto... Me desculpa, Tyler, eu não consigo.
— Eu queria que as coisas pudessem ter sido diferentes — Ele me ajudou a levantar do chão — Eu vou amar você para sempre, mas eu sei que nunca será o bastante.
Eu queria muito ter algo para dizer ao Tyler, mas eu não tinha. Sim, eu estava desesperada para vê-lo, para saber que estava bem, mas tudo que eu queria era dá-lo uma chance. Um final. Queria que todos nós pudéssemos ter um recomeço. Queria que ele soubesse que depois de todas as coisas más que ele me fez eu ainda dava valor às boas.
Queria que ele soubesse... Antes de morrer.
Não importava como Nic quisesse chamar aquilo, eu sabia o que era. Tyler não sairia mais vivo daquele lugar do que Matt. E no fim da contas, Josette tinha razão. Aquela família era amaldiçoada.
…
— Vocês tomaram uma decisão? — Nic estava nos esperando do lado de fora da sala — Eu adoro ter visita, mas há uma hora dessas o Damon e o Elijah não devem estar felizes.
— Elena? — Tyler me encarou de braços cruzados e eu suspirei.
— Eu quero falar com ele — Disse por fim.
— O quê? — Os dois se exasperaram e começaram a falar ao mesmo tempo — Você perdeu o juízo? Está fora de cogitação. Não mesmo. Não ouviu nada do que eu disse? O que você falou para ela? Tem certeza disso? Deus, você é mais louca do que eu!
— Calem a boca vocês dois! — Ergui a voz e o silêncio se fez — Você me sequestrou e trouxe para o meio do nada esperando que eu desse um fim à tudo isso, não foi? Não disse que a escolha minha? Ou não é um homem de palavra Nic?
Ele considerou por alguns instantes, e então assentiu.
— Tudo bem, mas não vai entrar lá sozinha.
— Eu...
— Você não, Lockwood. Stefan, acompanhe a moça.
— Eu também posso falar com ele? — Hayley até então estava encolhida num canto.
— Não. Você não pode.
…
Matt levou alguns segundo para conseguir erguer a cabeça, e mais um pouco para me reconhecer, e então ele riu.
— Consegue me ouvir?
Ele continuou rindo, enquanto expelia saliva e sangue. Os olhos azuis estavam desfoques e o branco neles avermelhado. A sobrancelha partida numa grande confusão de pele, sangue e fragmentos de alguma outra coisa. O nariz estava quebrado e o maxilar possivelmente deslocado, seus lábios eram alguma coisa vermelha e desgrenhada por cortes.
Em outro tempo, eu teria afastado os olhos.
— Ficou com saudades? — Ele disse enquanto tossia até expelir um dente, então riu de novo e me encarou — Quer dar pra mim outra vez?
Tive de conter toda a vontade de ir até lá e acabar eu mesma com a vida dele.
— Uma palavra e eu atiro, senhora — Encarei Stefan e me voltei para Matt.
Será que todas os homens que trabalhavam para Nic agiam daquele jeito? De onde eles vinham? Eram todos como o Tyler? Com um passado e uma família? Ou só era garotos tristes sem qualquer alternativa? Ou ainda produto das circunstancias como o próprio Nic?
— Você sabe por que está aqui?
Matt voltou a rir e em sua fala enrolada e quebradiça respondeu:
— Você é uma maldita puta de sorte, é por isso.
— Eu devo ser — Acertei minha postura e me afastei mais dele — Por que fez aquilo comigo? Com todas as outras? Como consegue respirar sabendo o monstro que você é? Como pode...?
Tive de fazer uma força gigantesca para não me deixar levar pela tontura, segurando aquele enjoo contínuo e a vontade de fechar os olhos e ser imersa pela inconsciência.
Ele nunca parava de rir ou tossir.
— Você não é assim tão inocente — Ele cuspiu no chão com um gemido de dor brotando do fundo da garganta — Minha irmã está morta por sua causa.
— Eu não queria que a Vicky morresse, eu nunca pediria isso...
— Mas você não se importou não é? — Sua voz saiu na tentativa de um grito — Ela não tinha nada a ver com essa merda toda! Ela era só uma garota perdida.
Imagino que ele estivesse tentando chorar. Não dava para ter certeza com todo o sangue e desfiguração... Continuei encarando-o por algum tempo e então respondi:
— Eu também era.
Dei-lhe as costas e fui até Stefan, ele me encarou com o cenho franzido e fez menção em guardar a arma.
— Pronta para ir?
Segurei sua mão e meneei a cabeça negativamente. Tirei a arma de seus dedos sentindo que meu coração batia tão forte que podia sair do peito.
— Eu acho que no fundo você até gostou.
Voltei a encarar Matt, que murmurava coisas sem sentido enquanto ainda sangrava e tossia, então ergui a arma, sentindo a fluidez de tudo que havia acontecido nas ultimas semanas, e das lágrimas que banhavam meu rosto.
Meus pensamentos voaram para quando tinha dezesseis anos, numa tarde de verão, enquanto Tyler segurava meus braços me dando aulas de tiro, rindo surpreso a cada lata que acertava.
“ Nós podemos assar para o jantar” Foi o que ele me disse quando por engano acertei um coelho.
Bem, esse só serviria de jantar aos cães do inferno.
[…]
Pov Nic.
Hayley estava dizendo em quantas formas aquilo era errado e Tyler estava cabisbaixo e cansado, como um cachorro encurralado na chuva.
Eu não podia dizer que não me identificava. Eu o pus no meio daquilo tudo, porque devia à Rebekah uma vingança, ele entrou naquilo pela garota que amava. No fim das contas éramos todos doentes e condenados.
Ouvimos o primeiro tiro com um sobressalto e depois mais quatro. Uma longa pausa e mais um.
— Ai meu deus — Hayley cobriu o rosto e voltou a chorar — Isso não...
— Nic — Tyler deu um passo — O que diabos?
Elena saiu de lá no segundo seguinte, com respiração afetada e chorando como uma criança. Havia sangue em suas roupas e segurava a arma de Stefan. Ela estava trêmula e seus dedos seguravam o aço com força.
— Elena — Tyler foi até ela e a abraçou. Ela continuou chorando enquanto ele dizia que tudo ficaria bem.
— Você me perdoa? — Ela sussurrou ainda segurando a arma enquanto ele a abraçava.
— Eu não tenho nada o que perdoar, meu amor — Foi resposta dele ainda com os braços envoltos nela.
— Eu te amo, Tyler — Ela disse e ele não pode ver o que estava acontecendo quando Hayley gritou e Elena disparou a arma, mais uma vez.
Foi um tiro preciso, morte imediata. Ele não deve ter visto vindo. Uma hora estava aqui e depois não mais.
Os dois caíram no chão e ela por fim largou a arma e abraçou o cadáver de Tyler Lockwood chorando ainda mais que antes. Os soluços balançavam todo o seu corpo e ela tremia enquanto deixava cair as lágrimas em algo como desespero enquanto não parava de repetir “ Eu sinto muito”
Eu costumava ser assim.
Pela primeira vez em anos perdi o controle, e me deixei ser tomado pelas lembranças que eu jurei esquecer.
FLASHBACK ON.
Cinco anos antes...
Era uma linda tarde de sol. Eu sabia que Rebekah tinha de estar bem, ela precisava estar. Depois do que fizeram com ela, ficar perto do Salvatore e dos outros só iria fazê-la piorar, então a trouxe para o campo. Eu sabia que ela gostava de viver aqui. Sabia que ela ela ficaria em paz e se curaria.
— Bom dia Karen — Sorri para a governanta que também era a efermeira, quanto ela abria as cortinas da sala.
— Sr Mikaelson — Ela sorriu — Veio visitar sua irmã? Ah ela está um pouco melhor, outro dia até visitou o jardim.
— Isso é bom — Me animei — É ótimo. Rbekah está acordada?
— Lá em cima, Senhor.
Subi as escadas num salto, até o quarto onde ela estava. Aporta estava aberta, e desde muito, ela estava de pé.
— Nic! — Ela abriu um sorriso ao me ver, e apesar das cicatrizes nos lábios, ainda era um bom sorriso.
Fui até minha irmã e a abracei, ele suspirou e indicou a janela aberta.
— A Karen disse que seria bom deixar um pouco de luz entrar.
— Sim, vai ser, você precisa de um pouco de ar puro.
— Ar puro — Ela entoo tristemente, e se voltou para o espelho da cômoda.
Beijei-lhe o topo da cabeça, e suspirei encarando também a imagem no espelho. Ela estava muito mais pálida do que já fora, e extremamente magra. Os ossos saltavam do maxilar e sobre os contornos do rosto. Havia uma longa cicatriz traçando a bochecha esquerda e alguns cortes menores correndo o queixo e a testa. O cabelo desgrenhado e ressecado, muito diferente do que costumava ser.
Ela suspirou, agarrou uma escova e coçou a se pentear.
— Nic?
— Sim, Rebekah.
— Você acha que eu vou ver o Damon outra vez?
Seus dedos estavam enfaixados, e as unhas quebradas. Haviam marcas de arranhões subindo o pulso.
— Você quer vê-lo? — Ela me encarou através do espelho por algum tempo, o olhar cansado, os hematomas quase sumindo ao redor dos olhos...
— Não, eu acho que não. Mas você poderia trazer a Sara até aqui?
— Eu prometo tentar.
— Não — Ela se virou para me encarar — Ela não devia me ver desse jeito, mas quando eu melhorar...
— Quando quiser.
— Pode dizer que eu a amo? E que sempre serei a mãe dela? Eu a amo tanto...
— É claro, agora vamos. Eu tenho presentes.
— Desce — Ela se afastou — Pede a Karen para preparar sopa, eu vou tomar banho para o jantar.
— É um ótimo plano.
…
Fiz o que ela me pediu, fui até o estabelecimento mais próximo, comprei os ingredientes para o jantar e flores. Ela gostavam de flores amarelas.
Enquanto Karen cozinhava, pendurei seu quadro preferido na parede e pus as flores num vaso.
Pus seu disco preferido para tocar, com alguns clássicos da época em que fazia bellet, e fui até a janela.
O fim de tarde dava as cores certas ao céus, talvez eu devesse pintar algo novo. Talvez estivesse na hora, talvez fizesse bem à Rebekah ver a família...
— Sr Mikaelson — Karen me chamou depois de algum tempo — O Jantar está pronto.
— A rebekah ainda não desceu?
Ela me deu uma negativa e então sorri: — Eu mesmo vou chamá-la.
Subi as escadas depois de alguns minutos, chamando por minha irmã. A porta ainda estava aberta. Eu sentia o cheiro recente do perfume no ar, e seus sapatos preferidos estavam sobre a cama.
— Já está pronta? — Perguntei encarando a porta do banheiro entreaberta — Trouxe algo de que vai gostar.
Esperei mais, mas não tive resposta.
— Rebekah? — Chamei outra vez e então meus olhos varreram o quarto até encontrar o espelho. Estava quebrado. Despedaçado numa centena de fragmentos — Rebekah!
Corri até lá empurrando com força a porta do banheiro só para tropeçar nos meus próprios pés.
Um grunhido morto escapou pela minha garganta do que seria um grito de seu nome. Um grunhido veio em seguido e logo eu estava tentando arrancar minha bulha enquanto gritava sentindo as lágrimas queimarem meus olhos como maldições.
— Rebekah — Gritei me arrastando até ela sentindo a visão turva pelas lágrimas sem conseguir parar de repetir seu nome aos gritos — Oh, Deus.
Ela ainda segurava o fragmento de espelho e seus dedos estavam cortados, o chão antes branco, agora era completamente vermelho e também havia água escorrendo da banheira. Meus olhos se fixaram mais uma vez nos cortes fundos em seus pulsos e senti o mundo inteiro à minha volta se partir enquanto meu estômago devolvia o que quer que estivesse nele.
Gritei seu nome outra vez enquanto a segurava em meus braços aos prantos.
— Não, não, por favor, oh não, rebekah — Um outro grito rompeu minha garganta enquanto sacudia seu corpo sem vida tentando fazê-la voltar para mim — Por favor, irmã, por favor...
Minhas mãos e roupas já estavam tão encharcadas de seu sangue e minhas lágrimas eram parte da confusão que eu era no momento — Eu sinto muito, me desculpe. Eu sinto muito.
Karen entrou no quarto aos gritos e não consegui encará-la enquanto ainda segurava minha irmã sentido que parte de mim morrera junto com ela.
— Olhe só para ela — Chorei enquanto tentava limpar seu rosto mas só o impregnava mais com o sangue — Minha pobre irmãzinha, por que a tiraram de mim? Rebkah. Acorde,vamos! Acorde.
Não posso dizer quanto tempo fiquei alí, chorando abraçado ao seu corpo, enquanto cada parte da minha blusa branca aderia ao vermelho puro. Mas assim que saí de lá atirei em Karen e a deixei sangrando no chão.
Eu me sentia exatamente como aquele espelho. Sujo. Quebrado, estilhaçado, irrecuperável e fatal. Amaldiçoado, como se nenhuma parte de mim merecesse algo mais do que um futuro miserável, eu não me importei quando caí no sofá branco o sujando de sangue também e apontei minha própria arma para a cabeça...
Como aquele espelho, eu sabia que haviam partes de mim que jamais se uniriam outra vez.
Eu estava quase puxando o maldito gatilho quando percebi. Precisava fazer cada um deles pagar por aquilo antes. Precisava dar a ela uma vingança.
Era tudo o que eu ainda podia lhe dar. Eu lhe devia.
FLASHBACK OFF
— Oh, céus — Que diabos está fazendo? — Meus olhos voaram para Hayley, tentando afastar todo aquele tormento que eram as minhas lembranças.
Elena ainda estava chorando, agarrada ao corpo de Tyler e à arma quando voltei a encará-la.
— Eu devia acabar com tudo isso de uma vez — Ela chorou — Olha o que você me fez fazer! Você tem ideia do que eu fiz?
— E não pedi que matasse o Tyler, Elena — Murmurei — Nenhum dos dois.
— Mas agora ele está morto! — Ela grunhiu, fungando com força — Ele está... — Ela passou a mão pelo rosto dele ainda chorando e sguerou a arma com mais força — Não era isso que você queria? Uma vingança? Seu doente miserável, espero que esteja feliz!
— É, eu sou um maldito desgraçado, mas você não pode me culpar pelas suas escolhas! — Gritei sem saber ao certo se aquela fala cheia de raiva era direcionada a ela.
— Você teria o matado! — Ela gritou de volta — Ou o Elijah teria, ou o Damon! Não o teriam? Ele não já estava sentenciado? Ele não merecia isso, eu só quis lhe dar uma morte limpa.
— Uma morte limpa é mais do qualquer um de nós vai ter — Dei um passo em sua direção e estendi a mão — Vamos, nós precisamos ir agora.
— Não! Não toca em mim! Eu não vou a lugar nenhum com você!
— Elena... — Grunhi irritado e tentei puxar sua mão.
— Eu mandei não tocar em mim! — Ela ergueu a arma na minha direção, ainda segurando o cadáver — Eu devia dar um fim à tudo isso.
— Também vai atirar em mim? Me matar? O que você ganha com isso? Vá em frente, livre um desgraçado de uma vida miserável, vai me fazer um favor! — Minha voz se propagou com um eco por todo o espaço e Elena nem sequer piscou enquanto apontava a arma para mim. Dei um passo à frente vendo a tomada de decisões correr por seus olhos.
— Você tem razão — Ela sussurrou com um sorriso — Isso não te faria sofrer — Assenti lentamente, mas então percebi o que havia de errado — Mas isso faria — Ele segurou a arma com força e apontou para a própria cabeça — Não faria Nic?
Senti todo o resto do mundo partir naquele momento, e mais uma vez, eu era o espelho.
— Elena, não — Sussurrei lentamente e tive de me obrigar a manter os olhos abertos e encará-la quando tudo que eu queria era correr para longe das imagens rondando meu cérebro.
— Não? Porque não? Isso estragaria sua vingança? Me fazer terminar igual a Rebekah?
— Por favor — Caí de joelhos à sua frente, sentindo lágrimas novas cheias de carga brotarem dos meus olhos cansados — Por favor, atira em mim, faz o que você quiser, mas...
— Mas o quê, Nic? Não é o que você quer?
— Não!
— É mentira — Ela gritou — Você quer isso, você sempre quis isso, não quis? Daria uma lição no Damon e na Katherine de uma só vez, é sua última vingança perfeita.
— Larga a arma, Elena — Encarei Hayley por um segundo que nos encarava perplexa com as mãos sobre a boca — Por favor, eu... Porra, eu não consigo fazer isso, eu não... — Cobri os olhos com as mãos tentando inibir o choro, mas as lágrimas vieram mais forte enquanto eu perdia o foco dela alí à minha frente, segurando a arma colada à têmpora esquerda e uma enxurrada de lembranças de Rebkah turvavam minha consciência numa sensação gélida e cruel.
— Admite — Ela continuou chorando enquanto gritava — Foi isso que sempre quis.
— Não, não foi — Devolvi sentindo a garganta arder — Mas podemos fazer isso juntos. Agarrei minha pŕopria arma e a destravei apontando para o espaço logo abaixo do meu queixo.
— Vamos lá, Elena. O quão corajosa você é?
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