Criminal Ways
24 24 - Sonhos Escuros
Notas iniciais
Pov Elena
*
O chão estava sujo. Sim, eu sabia que precisava continuar limpando, e limpando sem parar. Minhas mãos se moviam sem descanso, esfregando o pano já encharcado pelo piso amadeirado, para depois mergulhá-lo no balde, torcê—lo com força e voltar a Esfregar. Mas por mais força que eu usasse, por mais que eu limpasse, nunca pareia o suficiente.
“ O chão ainda está sujo, Elena” Sim, estava sujo. Eu sabia que sim. E minhas mãos também estavam sujas com o sujo do chão. Todas as vezes que as enfiava no balde sentindo a água subir até os cotovelos, tentava pensar que sairiam mais limpas, mas cada vez mais se impregnavam com o cheiro forte do sabão fresco. Tudo tinha aquele maldito cheiro de sabão e álcool e água sanitária. Era como uma tortura velada, me fazendo ficar cada vez mais enjoada e tonta, como se aquilo fosse um castigo brando por tudo “ Você só pode estar brincando Elena! Mandei limpar o chão”
E o que estou fazendo? Era o que eu pensava. Não estava justamente limpando a droga do chão? Meus pulsos já doíam como o inferno, e meus joelhos postos ao chão sangravam arranhados pelo contato cru. Eu devia estar chorando também, mas até as lágrimas tinham gosto de sabão, enquanto não parava nunca de esfregar. Hora ou outra o ardido do sabão fazia meus machucados doerem ainda mais e as lágrimas vinham com mais força.
O cheiro do sabão ficava mais e mais forte, e eu sentia meu estômago revirar, obrigava minhas mãos a trabalhar mais rápido, enquanto inibia o enjoo que aquele cheiro me causava... Mas sabão? Torci o pano mais uma vez fazendo com a água corresse barulhenta ao cair de volta no balde. Cheiro de sabão nunca me enjoou. Esfreguei com mais força. Qual era o problema com sabão?
“Abra os olhos Elena” Ouvi o sussurro ao longe, mas me neguei à dar ouvidos, eu só precisava continuar limpando “Onde estão todos? Abra os olhos, Elena. Veja!”
“ Não, eu preciso limpar” Sentia como se a qualquer momento meu braços pudessem se desintegrar e virar pó, mas continuava limpando e limpava com força.
“Você precisa ver”
Limpe. Limpe. Limpe. Esfregue Não abra os olhos, não abra!
Eu não quero ver, nunca quis ver. Eu só queria limpar e continuar limpando. Era o que era preciso.
“Abra os olhos, Elena”
“ Não!”
“ Abra os olhos, veja”
“ NÃO” Voltei a gritar e dessa vez, gritei tão forte que as paredes da minha garganta pareciam queimar. Então uma risada soou ao longe, chegando cada vez mais perto, fazendo o cheiro de sabão ficar cada vez mais forte.
“ Abre a porra dos seus olhos!” Foi um grito dessa vez, bem perto do meu ouvido, enquanto meu cabelo era puxado com força, não me dando alternativas senão obedecer, e quando o fiz, abri os olhos, percebi o que há muito estava ignorando.
O cheiro de sabão... Não era sabão.
Meu olhar caiu pro balde cheio, e em vez de água , ele estava cheio de sangue. Era sangue. Cheiro de sangue. Sangue fresco.
Chorei com mais força, mas minhas lágrimas também eram de sangue, que sujava todo o chão e minhas roupas, e o pano.
“Eu não quero ver” Chorei “ Por favor, para” E as risadas recomeçaram e o sangue fazia minha cabeça rodar e o escuro começava a ser preenchido por vermelho e o vermelho enchia meus olhos.
“ Eu só quero que abra os olhos, querida” E outra vez obedeci, mas dessa vez, não era só sangue. Havia um corpo lá, bem à minha frente, e coberta de sangue, com o cabelo despenteado, o cadáver de Vickie Donavan me encarava com um sorriso no roto “ Está vendo, querida? Precisa limpar o chão”
Por fim, reconheci a voz de Matt, e ele voltou a rir enquanto puxava meu cabelo mais forte .
“ Limpar, Elena. Você precisa limpar”
Voltei a pregar os olhos chorando e quando menos esperava senti-o me jogar no chão... Tentei espernear e correr pra longe. Me arrastei pelo chão e quando tentei engatinhar, meus joelhos se feriram mais e mais, rasgados pelo piso e ele me puxou pelo pé, até que voltasse para onde estava “Abra os olhos!” Voltou a ordenar e me neguei gritando e tentando empurrá-lo, mas suas mãos penderam as minhas, e seus joelhos entre minhas pernas não me deixam mexer.
“ Abra os olhos, veja” Ele riu outra vez e mordeu minha orelha, gritei que não e não e me neguei o quanto pude, então ele bateu minha cabeça contra o chão e me virou de costas fazendo com que meu rosto raspasse o chão áspero.
“ Veja” Foi seu ultimo grito e ao que neguei, invés das risadas, ouvi choro de bebê, alto e agudo, e no fundo, uma canção de ninar e então ele voltou a rir “ Eu quero que abra os olhos, docinho”
Gritei mais e mais alto, tentando empurrá-lo e mordê-lo, mas ele não parava de rir.
“ Sabe que eu adoro quando resiste, não sabe?”
E mais uma risada foi o suficiente para que perdesse as forças e abrisse os olhos. O cadáver ainda estava bem ao meu lado. E com o rosto pressionado ao chão eu o via bem. Não era mais Vickie Donavan quem me encarava. O cadáver dessa vez, estava sentado, e seu rosto... Era meu rosto. Eu mesma olhava de volta pra mim com um sorriso sombrio, o rosto sujo de sangue e a pele pálida sem parar de repetir “Abra os olhos, veja, abra os olhos”
Ela, que era eu, tinha uma criança nos braços, que não parava de chorar e me dei conta que Matt não estava mais ali.
“ Abra os olhos” Eu mesma disse e aquele outro espectro de mim respondeu com um aceno de cabeça “ Por que não abre os olhos?”
E quando levantou a cabeça, pude ver um corte vermelho traçando sua garganta, por onde o sangue escorria, e quando baixei o olhar para minhas próprias mãos, em uma segurava um relógio de pulso, na outra uma faca.
“ O tempo acabou. Abra os olhos”
...
Acordei aos gritos, sentindo o suor grudar em minha pele, e uma frialdade densa pesar em mim. Não conseguia conter os gritos que me queimavam a garganta enquanto tentava me livras das cobertas, e assim, em desespero sentir meu corpo ser sacudido com força.
Damon e Bonnie tentavam me acordar enquanto eu gritava feito louca, com o rosto banhado em lágrimas.
— Ei, Elena. Está tudo bem — Ele tentou me tranquilizar quando finalmente parecia desperta — Foi só um sonho. Abra os olhos.
Voltei a chorar com força e me afastei dele o quanto pude. Bonnie me segurou e abraçou até que estivesse calma, e quando minhas lágrimas cessaram, ela continuou me abraçando e dizendo que tudo ia ficar bem.
Damon ficou louco de preocupação, eu podia ver em seu roto, mas quando ele perguntou o que eu tinha, disse apenas que foi um sonho ruim e Bonnie confirmou. Ela já me vira acordar daquele jeito diversas vezes, mas nunca um havia sido tão apavorante. Eu vomitei por toda a manhã sem conseguir tirar as cenas da cabeça e quando me perguntaram sobre aquilo, disse que devia ser a gravidez, não era difícil ser convencido por aquela desculpa, que talvez até fosse real.
Mas, a todo instante Damon perguntava se eu estava mesmo bem e se eu precisava de algo mais. Sara também havia chorado muito, acordou assustada com meus gritos, e passou o resto do dia irritadiça e assustada sem querer sair do quarto. Tudo aquilo estava me sufocando, então acabei lembrando daquele ultimo dia “em casa” Quando fomos ao hospital, e o médico disse que eu precisava de repouso. Era isso, a desculpa perfeita.
Disse a Damon que era melhor ele ficar com Sara, para acalmá-la enquanto Bonnie me levava ao hospital para ver se estava tudo bem.
***
— Mas não é por aqui? — Bonnie perguntou quando me neguei a virar um corredor.
— Não, não. Eu estou bem, só queria sair de lá.
— Elena... — Ele me encarou com censura.
— Nem começa, Bonn. Vem, eu preciso ver o Jer — Sorri a encorajando, e ela agarrou minha mão com um aceno positivo.
— Claro. Vamos.
Antes de entrarmos no quarto de Jeremy, podíamos ouvir os risos, o que me deixou confusa, mas logo que entramos demos de cara com Katherine.
Ela estava lá sorrindo enquanto a filha e Jeremy pareciam se divertir muito com alguma coisa.
Bonnie correu para abraçar Jeremy e Katherine fez o mesmo comigo.
— Já estava com saudades! — Ela exclamou e então meu olhar encontrou com o do meu irmão, há tempos não o via tão lúcido... Ele estava pálido, e com olhos fundos, mas ainda era muito melhor que vê-lo alto e fora de si.
— Jer! — Exclamei com um largo sorriso e o abracei. Ele murmurou de dor quando o abracei forte demais e me desculpei rindo enquanto lágrimas de alívio banhavam meu rosto.
— Você tá chorando, Lena?
— Não, eu só... Estou muito feliz te ver bem. É isso — Sequei as poucas lágrimas sem conseguir parar de sorrir e o abracei outra vez.
— Olha, eu conhecia a Kath — Ele riu — Ela me contou tudo.
“Quase tudo” Ela moveu os lábios para me tranquilizar. E ele continuou:
— Ela é muito legal. Não é incrível termos uma irmã mais velha?
— É Jer — Sorri — É incrível sim — Eu concordaria com qualquer coisa àquela altura.
— A Nadia estava louca pra conhecer vocês dois! — Finalmente prestei atenção na menininha parada ali perto. Ela era pouco menor que Sara, tinha grandes olhos cor de Mel com nuances esverdeadas, e um longo cabelo escuro adornado com tranças — Não vai cumprimentar a tia Elena, Nadia?
Instantaneamente me lembrei de quando Damon havia me apresentado Sara, mas invés de mostrar uma postura tímida como a pequena Salvatore havia feito, Nadia correu até mim e me abraçou. Aquilo podia ter me arrancado mais lágrimas. Era estranho que nas ultimas semanas estivesse mais cercada de crianças do que em toda a minha vida.
— A mamãe disse que se parecia comigo — Ela falou e eu sorri.
— É verdade, mas também se parece com ela, e com o Jer — Sorri, e era verdade. Eu não havia visto Elijah muitas vezes, mas Nadia era uma cópia quase fiel da parte de cá da família.
O cabelo era mais escuro, como o de Jer, e os traços realmente pareciam com os meus e os de Katherine, sendo o único diferencial seus olhos muio mais claros do que o do resto de nós — Mas seus olhos são bem mais bonitos que os meus!
Por algum motivo o sorriso de Katherine se dissolveu quando eu disse aquilo, e num tom seco ela respondeu:
— Os da nossa mãe eram assim.
— Ela prometeu de conseguir uma foto! — Jeremy riu e Katherine confirmou que traria assim que possível, nós conversamos por mais um tempo e então os médicos pediram que deixássemos Jeremy descansar. Bonnie foi visitar a avó que descansava de uma operação recente enquanto o resto de nós fomos até o refeitório.
Nadia era tão encantadora quanto Sara, elas eram não mão podiam ser mais diferentes, mas também eram muito parecidas. Talvez fosse assim que eram as crianças Mikaelson, menos é claro pelas filhas de Josette que pareciam mais... assustadoras.
— Olha só, a família perdida — Olhei assustada quando um garoto sentou à mesa. Ele não devia ter mais de dezessete, talvez dezenove anos. Seus olhos eram iguais aos de Damon, o que logo me fez lembrar de onde o conhecia.
— Podia pedir licença antes de sentar, Kai — Katherine grunhiu.
— Você tá mais bonita hoje titia — Ele sorriu e começou a mastigar as batatas fritas na mesa — Mas a mais nova é ainda mais bonita.
— Eu não tenho idade pra ser sua tia, moleque — Ela reclamou jogando o cabelo pra trás.
— Obrigada, eu acho — Disse um tanto perdida.
— O quê? Não. Eu estava afalando dessa coisa linda aqui — Ele puxou Nadia para um abraço e começou a fazer cócegas nela que riu sem parar.
— Não chama minha filha de coisa, Malachai! — Ela puxou a menina de volta — Vai despentear a menina.
— Nossa, você é tão chata — Ele revirou os olhos e então me encarou — Dá pra acreditar que os homens da minha família vivem brigando por ela?
— Ahn, eu...
— Não precisa responder, mas ei. Me diz, você e o tio Damon estão brincando de casinha? Não estou julgando, sério. É que eu tenho ótimas piadas pra fazer sobre isso e...
— Deus, Kai! Cala a boca! Onde diabos está sua mãe?
— Abrindo o cérebro de um cara, lá em cima. Não me deixaram assistir. Ei, Elena. Não se importa de eu te chamar de tia, sim? Tia Elena. Elena é nome de tia. Por exemplo, Katherine é nome de... — Ele a encarou, então sorriu de lado como Damon fazia e se calou — Deixa pra lá. Certo. Tia Lena, será que você não me consegue o número daquela sua amiga? E antes de responder lembre que eu poderia ter roubado dos arquivos se quisesse.
— Eu... — Tentei lembrar de tudo que ele havia dito, mas ele falava tão rápido que talvez tenha me perdido um pouco. Comecei a rir, então Katherine suspirou.
— Tá vendo? É por isso que eu odeio ele — Katherine revirou os olhos.
— O que é odiar mamãe? — Todos nós olhamos para Nadia e Katherine sussurrou uma praga pra Kai.
— É o que todos nós sentimos pelo seu primo.
— Não me leve a mal, tia Kath. Eu tentaria com você, se seu marido não fosse bom de mira. E pra falar a verdade ele meio que me dá medo. Todo mundo devia ter medo dele.
— Eu devia ter medo do papai, mamãe?
— Não Nadia. Não devia — Kath grunhiu irritada e eu voltei a rir. Quem diria que meu dia poderia ser divertido?
— Acho que a Bonnie não está disponível —Sorri como se me desculpasse — Acho que ela eu Jer estão meio que apegados.
— Mas isso pode mudar fácil quando ela me conhecer — Ele sorriu mais um pouco — Sabia que o meu pai era meio primo da sua mãe? Vamos lá, nós somos quase que irmãos.
— Tá bom. Chega de conversa fiada. Vem Elena, não ouve o Kai, você enlouqueceria, esse moleque é impossível.
— Espera — Ele se levantou e veio atrás de nós — Eu vou com vocês. Preciso falar com o tio Damon.
— Você não devia esperar sua mãe?
— Não, ela vai ficar em cirurgia por quatro horas.. A Meredith já levou as meninas pra casa.
— Eu vou chamar a Bon — Disse — Nós podíamos todos ir jantar lá em cas... Na casa do Damon.
— Ah, seria ótimo. Vamos lá chamar a Bonnie — Ele sorriu, Mas Kath parou no lugar.
— Não parece uma boa ideia — E sorriu estendendo os braços para erguer Nadia do chão — A Nadia está cansada, é melhor eu voltar pra casa.
— Eu não estou cansada, mamãe.
— Mas eu estou. E seu pai deve estar com saudades.
— Exatamente, querida. Seu pai deve estar com saudades — Kai disse e ergueu uma sobrancelha recebendo um olhar quase letal de Katherine — Ah, vamos Kath! A Sara vai adorar ver a Nadia, você sabe que eu amo minhas priminhas.
— Por favor, mamãe...
— Não. Dá tchau pra tia Elena — Ela disse ainda encarando Kai como se fosse esganá-lo. E quando elas se afastaram ele gritou:
— O Tio Nck mandou lembranças — E riu quando, sem que a filha visse, Kath ergueu o dedo do meio pra ele. Depois, Kai passou o braço por meus ombros e sorriu — Vamos buscar a Bon Bon?
[…]
~ POV DAMON ~
— Aqui — Toquei num ponto na parede, que ficava cerca de dois palmos acima da cabeça da mais linda e perfeita garota à minha frente — Era exatamente aqui que estava quando tinha sua idade.
Sara apertou os olhos numa expressão desconfiada tão parecida com a da mãe, que nublava um pouco o brilho de seus olhos azuis, tão parecidos com os meus.
— Mas.... — Ela balbuciei e então fitou a escala numérica que estampava toda a lateral da parede. Havia vários “D” e “J” marcando os centímetros enquanto eu e Josette crescíamos. Nos últimos dias, com a Sara e a Elena ali, eu tinha percebido que aquele lugar não tinha só lembranças ruins.
— Papai, você não prometeu me levar pra tomar sorvete, hoje?
A encarei com um sorriso tentando deixar de lado as sombras do passado.
— Prometi? — Ergui uma sobrancelha e ela, ainda sorrindo, baixou os olhos e assentiu como se não fosse a maior mentira. A ataquei com cócegas e ela caiu na risada.
— Olha só, não cresceu nem dez centímetros, e acha que já pode passar a perna em mim.
— Mas eu cresci — Disse erguendo o queixo e voltei a fazer cócegas nela. Cessei o ato quando ouvi a porta da frente abrir.
Elena estava sorrindo, e nem em duzentos anos eu poderia descrever o quanto ela ficava linda assim. E mesmo que esses duzentos anos passassem, eu reconheceria aquela voz que a seguia.
— Eu trouxe visita — Ela disse um pouco tímida, e Kai apareceu com um imenso sorriso no rosto.
— Advinha quem tava com saudades?
— Advinha quem vai ser jogado pela janela?
— Quem? — Sara perguntou me encarando e eu olhei pra ela, e respirei fundo inibindo a vontade de torcer o pescoço do filho da minha irmã.
— Um passarinho, e ele vai voar e voar pra longe — Voltei a encarar Kai — Bem longe.
— Não vai falar comigo Sara? — Kai se agachou perto dela e Bonnie revirou os olhos se afstando.
“ Também odeia ele?” Murmurei quase sem fazer som e ela abriu um sorriso e ergueu os polegares num gesto afirmativo.
“ Podemos atirar nele?” Perguntou de volta, também apenas movendo os lábios.
“Só depois do jantar” Respondi.
— Sabem que eu posso ouvir vocês, não sabem? — Ele me encarou com um sorriso idêntico ao meu.
— Estava contando com isso.
— Não vai mesmo me abraçar, prima? — Ele ergueu uma sobrancelha e Sara tentou lhe mostrar uma expressão de desdém.
— Eu não gosto mais de você, Malachai — Disse enrolando um pouco as palavras e eu caí na risada.
— Essa é a minha garota! — Ri, e logo em seguida Elena me deu um olhar repreensivo e meneou a cabeça negativamente.
Antes que eu dissesse algo, Kai enfiou a mão no bolso do casaco e tirou um embrulho dourado e retangular.
— Eu trouxe chocolate!
Em menos de dez segundos Sara correu até ele jurando que ele era seu primo favorito.
— Mas eu sou seu único primo!
— Por isso mesmo — Ela respondeu ainda rindo, e se afastou com a embalagem.
— Dá pra não amar ela? — Bonnie riu e se juntou a Elena sentada no sofá.
— Não, não dá — Respondi com um sorriso — Agora diz educadamente pro seu primo preferido para ele ir embora, princesa.
— Tchau, Kai — Ela sorriu e então se virou já tentando abrir o pacote que tirei de suas mãos.
— Nada de doces antes do jantar — Sara me deu um longo olhar magoado e quando percebeu que não iria funcionar foi também para o sofá e se jogou nos braços de Elena.
— E você ainda está aqui.
— Não vai me negar um jantar, vai tio?
— Existem muitos restaurantes na cidade — Bonnie disse e Elena deu um tapa em seu ombro.
— Só se você preparar o jantar — Ergui uma sobrancelha. Pelo menos naquilo o desgraçado era bom — Algumas pessoas aqui, reclamam da minha comida — Fitei Elena que sorriu.
— Você é uma vergonha pra linhagem Salvatore — Ele disse antes de seguir pra cozinha — Não quer me ajudar Bon Bon?
— Eu, você e facas? Damon, você é o advogado. Pode funcionar?
— Pra mim? Completamente.
— Parem de implicar, vocês — Elena disse sorrindo — O Kai é legal.
“ Pelo menos alguém reconhece meu valor” Ele gritou da cozinha.
— Vale uma barra de Wonka — Respondi, e logo Sara começou a reclamar de sono, mas se recusou a ir dormir até que Kai fosse colocá-la na cama para contar uma história.
— Você gosta dele — Elena disse bem baixo atrás de mim, enquanto de longe eu olhava pela porta entreaberta, Kai sentado no chão lendo um livro de histórias bem ao lado da cama de Sara — Só não gosta dele perto dela.
— Eu saí do Sul porque não queria que a Sara crescesse perto da família, mas... Ela o adora. Você mesma disse, não foi? Coisas ruins acontecem com gente que se aproxima de nós.
— Ele não faria mal à sua filha. Aliás, ele parece inofensivo. E eles são primos.
— Não duvido o Niklaus ser mais inofensivo do que o Kai. E eu a Rebekah também éramos primos — Minha voz falhou no fim, mas Elena sorriu pra mim e se inclinou para beijar meu rosto, então lhe retribuí com um sorriso.
— Ela adora mesmo o Kai, mas ela o adora porque ele se parece com você. E acho que no fundo, também é por isso que ele a adora.
Puxei Elena mais pra perto e beijei sua testa.
— Ela também adora você, assim como eu — Sorrimos um para o outro, e me dei conta de que era a primeira vez que estávamos 'sozinhos' desde que a havia beijado.
— Olha — Ela apontou para o quarto, e enquanto Sara dormia na cama, Kai dormia abraçado ao livro de contos de fada no chão. Sorri e voltei a encará-la lembrando de como o dia havia começado.
— Você está bem? Essa manhã parecia bem assustada.
— Não se preocupe, foi só um sonho ruim.
— Okay, vem.
— Espera, você não pode deixar ele no chão!
— Ah — Sorri e fui até Kai, acordei-o sacudindo seus ombros. Ele esfregou os olhos e sorriu, olhou pra Sara e então me seguiu.
— Nós precisamos conversar — Disse assim que cruzamos a porta num tom sério. Elena o encarou surpresa, mas eu já esperava algo saindo daquela visita.
— Imaginei que sim — Respondi e ele olhou para Elena, depois suspirou e voltou para mim.
— Não devia ter voltado, Tio Damon — Ele sorriu, enfiou a mão no bolso outra vez, e então me entregou o objeto que só depois de segurar percebi ser uma faca. Uma de cabo curto de madeira, era a faca que eu costumava usar quando tinha a sua idade — O tio Nic quer falar com você. Com vocês dois. Rápido.
Elena encarou Kai assustada, finalmente vendo por detrás da máscara de bom moço.
— Manda o Nic enfiar as facas dele...
— Damon — Ele apontou para o quarto de Sara — Isso aqui não é lugar pra ela, tio. Você sabe como a família funciona, leve ela pra longe enquanto é tempo. E você... — Ele se virou para Elena — O Nic mandou um presente — E depois entregou a Elena um canivete, que eu já havia visto apontado pra mim. Era o do Lockwood — Ele disse para não esquecer. E manter os olhos abertos.
— Você virou garoto de recados do meu irmão, Malachai?
— Ele acha que eu sou como você, mas eu não sou, tio. Já disse isso pra ele. O Nic não sabe tocar os negócios — E Suspirou — Agora, seria gentil me oferecer um quarto, estou com sono.
— Está brincando?
— Com vocês dois apontando armas pra mim? Eu não sou sou louco. Não se importaria se eu ficasse algumas semanas não é? — Ele sorriu — Não vou reclamar de um quarto perto da Bonnie.
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