Criminal Ways
19 19 - Calmaria
Notas iniciais
Estava sentado no corredor com a cabeça apoiada à parede fria, aquele maldito cheiro de álcool éter estava me matando. Mantinha os olhos fechados porque a luz forte naquele ambiente claro fodia com a minha cabeça, fazendo os meus olhos queimarem como o inferno.
– Está usando óculos escuros no corredor?
– Se está com inveja do meu senso de estilo, maninha, é só dizer.
– Acho que está confuso, Dan. A ala psiquiátrica é virando à esquerda – Uma risada fraca me escapou, abri um olho para encará-la por um segundo, antes de voltar a fechá-los e coçar a barba de uma semana que tomava meu queixo. Josette vestia roupas normais e tinha um daqueles enormes copos de café em mãos.
– Está indo pra casa?
– Se eu ainda lembrar o caminho – Ela e puxou os óculos do meu rosto sentando-se ao meu lado – Toma isso. Vai ajudar.
– O café daqui é uma merda – Reclamei e ela me deu um tapa no ombro dizendo que aquela era a melhor água suja da cidade quando o deixei de lado, mas eu sabia que Josette só estava me “provocando” por medo de eu cair em outros daqueles ataques e acabar quebrando tudo como fiz com cada móvel do dormitório. Talvez fosse por ser minha única irmã consanguínea, que Josette entendia meu humor tão bem.
– Como você está Dan? De verdade? Com tudo?
– Doente – Assumi tentando me lembrar do que exatamente havia dito a Katherine, sabia que tinha sido algo absurdamente fodido – E cansado.
– Meu irmãozinho está cansado – Ela cantarolou em falsete como se fazia com os bebês e começou a afagar meu cabelo como um cachorro carente – Pobrezinho dele. Quem manda não visitar a irmã? Isso é carma ruim de tanta praga que te joguei – Ela me abraçou e pendi a cabeça me perdendo numa gargalhada intensa.
– Eu não tenho mais cinco anos, porra. Apesar de que agora você está bem mais parecida com a mamãe agora.
– Seu cretino – Ela me xingou e empurrou e caímos na risada novamente, eu tentava respirar enquanto o riso me corria o corpo, sem entender porque não conseguia parar de rir até notar que estava chorando. Ela não tentou me conter, apenas abraçou minha cintura e descansou a cabeça em meu peito – A vida é uma merda não é, maninho? Já imaginou como seria se as pessoas fossem felizes, Dan? Felizes de verdade, o tempo todo?
– Não. Nunca – Respondi e era totalmente verdade. A felicidade plena nunca foi algo alcançável para nós. Não naquela família.
– Seu maldito gótico – Ela empurrou meu ombro outra vez para então passar as mãos nas minhas bochechas exatamente como mamãe fazia, mas então puxou a pele debaixo dos meus olhos e pôs a mão na minha testa. Com os olhos na pele ferida do meu queixo.
–Vai bancar a médica comigo Josette?
– Eu banquei a médica com você quando costurei esse corte no seu braço. Duas vezes.
– Okay, tá. Agora para. – Empurrei suas mãos sem força que riu e voltou a bagunçar meu cabelo – Porra, Josie. É serio. Daqui a pouco vai tentar me levar pra escola e escolher minhas roupas.
– Ah, está aborrecido? Meu garotinho quer leite com biscoitos? – Sorri assumindo que ela estava se esforçando para manter a clima leve, adiando a conversa que precisávamos ter.
– Está precisando adotar um gato.
– Só estou com saudades do meu filho – Ela suspirou e voltou a me “examinar”
– Faz isso com o garoto? Preciso ensiná-lo a arrombar fechaduras pra fugir de casa.
– Come se ele já não fizesse isso – Ela suspirou cansada e me largou fazendo uma careta – Ele é exatamente igual a você.
– O que eu tenho doutora? –Franzi as sobrancelhas tentando ignorar o fato de que sim, Kai era assustadoramente parecido comigo, não só na aparência – Tem cura?
– Acho que não. É um caso grave de ressaca. Indico que procure um especialista.
– Isso parece sério – Abri um enorme sorriso – Conhece algum?
– Ah, claro – Ele tentou manter o tem sério, falhando miseravelmente – Joel Harris, não é funcionário desse hospital, mas tem um bar logo ali na esquina.
– O velho Harris? Me receitou tequila da ultima vez.
Nós sorrimos um para o outro e depois de um tempo de silêncio estranho, Josette respirou fundo e olhou pra mim.
– Você está péssimo. De novo.
– Eu sei – Voltei a coçar a barba, e passei as mãos pelo rosto tentando espantar o cansaço, tentei fingir um sorriso pra ela, mas agora era inútil – Isso tudo fode comigo, Jo. Muito.
– Precisa manter ela longe. A Katherine. Ela pode ser um amor de pessoa, mas ainda é o diabo de vestido.
– Ela não é um amor de pessoa – Consegui esboçar um sorriso – Devíamos ficar todos longe um do outro. Ou o Nick podia nos matar de uma vez e acabar com tudo.
– Não. Somos uma família, no fim das contas não é? Lembra-se de quando dizíamos que sempre iríamos lutar um pelo outro, e ficar juntos? Parece que foi em outra vida, eu sei, mas ainda assim, somos irmãos.
– Oh, sim? Como a Rebekah e eu?
Ela torceu os lábios e seu olhar se compadeceu ao mesmo tempo em que senti minha máscara de “estou bem” cair. Há quanto tempo eu não falava o nome dela? Há quanto não o ouvia? O modo como Josette me encarou trazia a certeza que no meu olhar era claro o quão ouvi-lo ainda dilacerava cada fibra do meu peito.
– Damon... Já faz cinco anos, seguir em frente faria bem a todos nós.
– Tudo que aconteceu com ela foi por minha culpa. Não há como seguir em frente com isso.
– Eu odeio te ver assim – Ela suspirou desgostosa e eu quase sorri com a constatação do que ninguém tinha mais coragem de negar, era minha culpa e só minha – Vamos comigo pra casa, a gente dorme um pouco, eu faço espaguete, amanhã ou depois nós voltamos.
– Você é a melhor, mas não. Melhor ficar longe – Esfreguei o dorso da mão nos olhos para espantar o sono ou a aliviar os efeitos da fotofobia – Como estão os Gilbert?
– É estranho ouvir esse sobrenome – Ela estremeceu, respirou fundo, e ficou de pé de frente para mim – A garota está bem, estou mantendo ela sedada por enquanto, ela estava meio histérica antes. E ele... Está em coma induzido.
– Não parecia tão grave assim, o que diabos houve?
– Ele entrou em choque quando tentamos medicá-lo e depois, eu sinceramente achei que fosse morrer na mesa.
– O que houve, Josette?
– Por tudo que ele misturou, acho que estava tentando se matar – Sua voz estava cautelosa, esperando que eu me descontrolasse – Os níveis de anticoagulante estavam altos também. E também...
– Também?
– Há sempre a possibilidade de não saber o que estava ingerindo – Demorei ainda um tempo para entender do que ela estava falando, mas acabei respirando fundo, não era difícil forjar uma overdose em um viciado.
Pus-me de pé e agarrei de volta meus óculos sabendo que o sol lá fora me torturaria até a morte.
– Vai ver a garota?
– Não. Eu sei que ela está bem. Vou ver como estão as coisas com o Elijah.
– Bem, eu estou indo. Preciso ver as crianças. Não quer mesmo vir comigo? Vão ficar tão felizes...
– Eu acho mesmo que é uma péssima ideia – Sorri com amargura antes de me inclinar e beijar sua testa – Diga que sinto saudades sim?
– Talvez eu ponha um sorriso no seu rosto, Salvatore.
Meu sorriso cresceu enquanto me afastava, mas logo se desvaneceu. As coisas não ficavam tão calmas, se não fossem piorar depois.
Flashback on
Era difícil controlar a respiração quando meus olhos estavam embaçados pelas lágrimas; Culpa. Era o que me queimava de dentro, fazendo o desespero ruir em lágrimas pelo meu rosto.
– É tudo minha culpa – Resmunguei tentando inibir o choro amargo enquanto passava as mãos trêmulas pelo meu rosto e cabelo – Minha culpa.
A dor era difícil de assimilar, já havia perdido muitas coisas, mas dessa vez, era diferente, dessa vez tinha sido causado por mim. Eu havia feito tudo errado como todos disseram, havia estragado tudo e fodido com a família inteira.
O simples olhar acusador que a mãe me lançou quando nosso olhar se cruzou na escadaria poderia ter me matado. Chamei seu nome e ela me deu as costar impassível “por favor” sussurrei entre as lágrimas e numa voz fria ainda sem olhar pra mim e se afastando ela respondeu “Ainda bem que seu pai está morto, ninguém merece a vergonha de ter dado a vida a um covarde” Foi nesse instante que desabei, eu não merecia sua compaixão, eu sabia, e não merecia a pena de ninguém, eu merecia sofrer tudo aquilo sozinho. Toquei o ombro dela que parou no lugar só para então completar “mas acho que todos sabemos disso, e talvez ele se orgulhasse, Salvatore”.
Olhei ao redor do quarto sendo aturdido pelo turbilhão de lembranças, e num acesso de raiva comecei a quebrar os vasos, as luminárias e os moveis enquanto gritava tentando derramar tudo que sentia. Raiva. Nojo. Culpa. Medo. Arrependimento. Eles me matariam, e eu merecia morrer por tudo aquilo.
Ouvi os gritos primeiro, eles estavam brigando, céus; Onde estava o resto da família? Onde estavam as crianças?
– Por favor, Nick, se acalma – Ouvi-a chorar e antes que me desse conta a porta abriu com um chute, os trincos tilintaram no chão, quando dei por mim ele já havia arremessado o punho com força contra meu rosto. Levei as mãos até seus ombros tentando afastá-lo, mas só cambaleei pra trás sentindo o próximo golpe firme.
–Para com isso Nick, perdeu o juízo? – Josette o empurrou e se pôs entre nós e eu cheguei a ter medo que ele pudesse ferir nossa irmã, mas ele apenas ponderou o olhar entre ela e eu com o punho erguido no ar.
– Nicklaus, se afaste – Foi a simples ordem que Elijah deu, sua expressão não estava tão segura e cética quanto sempre, ele parecia atordoado e confuso, mas ainda exercia autoridade sobre nós.
– Damon, pelos céus – Ela me abraçou, mas permaneci parado com os braços caídos ao lado do corpo – Olha pra mim.
Neguei caindo nas lágrimas e ela se afastou para segurar meu rosto e limpar minhas lágrimas, encarei seus olhos azuis chorosos, mas ela não tinha aquele olhar acusador que os outros me lançavam – Não é culpa sua, não é – Ela sussurrou, era tão parecida com nossa mãe, que...
Afastei-a para olhar os homens atrás de si.
– Pelo pouco respeito que ainda tenho por essa família, eu não vou matar você aqui dentro, mas eu juro que acabo com sua vida, bastardo.
– Não cansa de fazer cena Niklaus? Podemos fingir por um instante que isso ainda é uma família, pelo menos aqui. Pelo menos hoje?
– Acha que me importo com você e suas ordens? Vou matar aquela puta com quem você dorme também, vou acabar com a vida de todos vocês, desgraçados. Eu avisei que você a destruiria Salvatore, e agora o sangue da minha irmã está nas suas malditas mãos.
A voz gritada de Nick, só cessou quando Josie o acertou com um tapa, e então ele trincou os dentes, ergueu os olhos pra mim e voltou a encará-la.
– Uma puta agressiva, igual a mãe.
Dessa vez fui eu que parti pra cima dele, e nos emaranhamos em tapas e socos pelo chão e derrubando os móveis, cercados pelos gritos dos estavam ao nosso redor.
Flashback off
Voltei ao hospital um dia e meio depois. Percebi que ela estava acordada quando vi uma das velhas médicas sair do quarto. Eu não sabia o que deveria, ou poderia falar para ela, mas queria vê-la. Precisava por os olhos nela, por mais que aquilo parecesse a coisa mais errada a se sentir.
– Onde está a Dra. Salvatore, querida?
– Não me chame de querida como se fosse uma das suas amiguinhas Damon! Eu fiz partos para sua família, garoto – Eu tinha uma leve impressão de que as pessoas tinham um certa disposição a me dar bronca. Se bem que Nancy gritava com qualquer um – Essa aí é a cara da outra lá, não vai se meter em problemas de novo, hein! Eu não aguento vocês garotos me arrumando problemas.
– Eu prometo me comportar dessa vez – Sorri para ele e agarrei sua mão plantando um beijo. Nancy não trabalhava mesmo para o hospital há alguns bons anos, mas ela era de confiança e sempre que havia um problema “de família” Josette ligava pra ela, então quando estávamos mal, ela cuidava de todos nós. E céus, cada um de nós obedecia àquela mulher.
– Já acordou? – Abri um sorriso torto, e imaginei que ela estivesse acordado antes, e talvez estivesse ali já há algum tempo, porque usava roupas normais e estava sentada no leito, com um olhar atordoado – Achei que ia precisar de todos aqueles rituais de contos de fadas e coisas do tipo. Eu estava realmente preocupado com o lance dos anões.
– Damon Salvatore, especialista em contos de fada? Quem diria.
– Ah, você nem imagina. Me dê um título e eu te dou uma história – Sentei na poltrona em frente a ela que esboçou um sorriso e ergueu uma sobrancelha.
– Quem sabe...
– Pelo amor de Deus, estou brincando, Elena.
Ela meneou a cabeça afirmativamente e abriu um sorriso maior e então seus olhos correram pelo quarto, tentei não aparentar o nervosismo, mas estava mordiscando o canto do lábio enquanto analisava atentamente cada um de seus movimentos ansioso. Eu sempre estava esperando que alguém surtasse, começasse a gritar ou atirar coisas, porque era assim em casa, e era esse tipo de coisa que eu fazia.
– Eu me sinto estranha – Ela suspirou – Como se as coisas não fossem o que são.
Eu acho que realmente, no caso dela eram, mas não sabia até onde ela estava atordoada e tentei me lembrar de como aqueles sedativos funcionavam.
– São os remédios, vão te deixar zonza por um tempo, melhor não tentar ficar de pé.
Elena me olhou por um tempo, depois olhou para a porta e encolheu os ombros, ela estava com medo? Assustada?
– Você pareceu... irritado, quero dizer, de um jeito triste e raivoso. Você anda muito triste, não é Damon? – Eu estava com as sobrancelhas franzidas, quando me aproximei parando à beira da cama onde apoiei os braços para observar mais de perto – Sempre que eu o vejo está triste, mesmo quando está sorrindo.
– A Josie te deu uma dose forte de alguma coisa – Constatei que ainda não estava de todo “em si” quando continuou falando sem olhar pra mim.
– Porque você está triste Damon?
– Eu nem consigo mais me lembrar de como começou – Comentei e endireitei a postura para manter seu olhar no meu – Mas você também anda bem triste, Elena.
– Eu sei exatamente onde começou – Depois de algum tempo ela sorriu e desviou o olhar. Ao mesmo passo em que ela parecida com Katherine, era substancialmente diferente. E não eram pelas bolsas debaixo dos olhos pelas noites mal dormidas, ou pelos hematomas agora já róseos, quando invisíveis em seu pescoço e ombros. Seus olhos não eram só mais escuros, eram mais intensos, e vivos e puros. Mesmo depois de tudo pelo que tinha passado, seu olhar tinham uma carga de gentileza que a irmã jamais tivera. Seus traços eram mais sutis e a pele mais pálida também, além do cabelo mais logo que teimava em me irritar cobrindo seu rosto enquanto tentava olhar pra ela – Queria não lembrar.
– Nós nunca temos o que queremos – esfreguei os olhos sendo atingido pelo cansaço outra vez e me dei conta que estava sendo injusto com os fatos – E quando temos, desejamos não ter quisto.
– E eu é que estou sedada – Ela sorria fracamente e percebi que minhas palavras não deviam mesmo fazer o menor sentido – Você mudou depois de ver meu irmão... Ele matou o Ric, não foi?
– Sim, foi ele.
– Porque ele fez isso? – Eu pensei que ela fosse chorar do tanto que sua voz estava entrecortada, mas ela apenas olhou pra mim. É, talvez ela não estivesse tão inconsciente quanto pensei.
– Às vezes nós só precisamos de alguém para culpar, você sabe.
– Mas... – Ela pestanejou e seu olhar se firmou no meu, tentei sorrir encorajando-a e prendi o cabelo que pendia sobre seu rosto atrás da orelha – É normal eu não estar triste? Pelo Alaric?
– É perfeitamente normal – Assenti e respirei fundo – Você não quer voltar a dormir agora?
– Onde está o Jeremy, Damon? – Ela evitou meu olhar de novo e fiz força para não desmoronar outra vez, sua voz tinha uma carga de medo tão forte que desejei ter noticias boas só por temer sua reação – Ele não...
– Seu irmão está bem, ele está dormindo agora, e vai continuar dormindo por um tempo, mas não pode se machucar como está.
– É melhor desse jeito?
– Acho que sim.
– Você não parece estar aborrecido agora – Ela limpou a garganta e voltou a olhar e percebi que a conversa tinha mudado de rumo e ela estada a cada frase mais lúcida do que era dito – Porque aquilo, com o Jer te irritou tanto?
– Convivi com algumas pessoas assim antes. Nunca é fácil – Eu não sabia por que estava sendo sincero com ela, só não conseguia evitar, não conseguia erguer aquela parede de vidro que mantinha entre mim e todo o resto. Talvez, ela houvesse se quebrado na noite anterior.
– Mas a Katherine conseguiu te acalmar por um instante.
– Ela infelizmente, me conhece muito bem. E sabe persuadir.
– Você, o Elijah e o Nick são mesmo irmãos?
Dessa vez fui eu quem afastou o olhar encarando a parede atrás da cama antes voltar a encarar seu olhar cálido e quase afetuoso. Ele piscou um pouco mais sonolenta, antes de esticar os dedos para tocar o pequeno corte avermelhado pouco acima da base do meu queixo, cortesia da briga com o Lockwood na ultima noite.
– Nós crescemos como irmãos. Fui adotado pelos Mikaelson aos quatro anos, mas na verdade somos primos maternos.
– O que houve com a sua família?
Segurei a mão dela que estava no meu rosto, ignorando as coisas que o meu subconsciente me gritava. Mantive os olhos fechado enquanto tentava por ordem na bagunça dentro de mim.
– Melhor descansar agora. Sim?
– Eu não quero dormir. Tenho sonhos, eles me atormentam.
– Eu estou aqui – Disse soando um pouco mais convencido enquanto sorria – Nenhum sonho ruim é pior do que eu.
– E quanto ao Tyler....?
– Não precisa se preocupar com ele. Não vai causar problemas por enquanto.
– Tem certeza?
– Eu prometo.
Ela assentiu, mas continuou olhando para a porta. Eu chegava a ter medo do que podia atormentá-la daquele jeito em sonhos, então me dei conta que não deviam ser os sedativos, mas aquilo que a deixava atordoada.
– Aqui – Disse quando tranquei a porta do quarto com um dos cartões que nos dava acesso à todos os andares – Está feliz agora? Ninguém vai entrar aqui. Eu garanto.
– Não vai sair daqui?
– Só quando você quiser – Confirmei, mas ela continuou me olhando um tanto indecisa – Eu juro Elena, vou ficar bem aqui.
– Eu não sei se consigo dormir.
– Sem dormir então – Concordei – Chega pra lá.
Elena me encarou por um tempo e então eu ri, quando ela por fim suspirou e se arrastou para o lado. Sentei ao seu lado na cama e tentei não pensar nos sonhos que me atormentavam.
– Aquela médica entrou aqui e gritou comigo.
– Ela faz muito isso , melhor se acostumar – Disse num riso fraco e apoiei às costas à parede sentindo os ombros pesarem – O que ela te disse?
– Algo que envolveu um banho, uma sopa que era horrível, e ficar forte para o... bebê... – Não entendi o tom cauteloso que ele usou, mas decidi não perguntar – Parecia preocupada de verdade, mas me assustou um pouco.
– Você não viu nada, ela assusta até o Nick – Meus braços estavam cruzados sobre o peito, enquanto me mantinha recostado à parede. Elena estava sentada na outra ponta da cama, encolhida, abraçando os joelhos e de vez em quando mordiscava as pontas dos dedos encarando a porta.
– Eu não imagino isso – Ela suspirou e apoiou o queixo ao joelho, encarando meu olhar e depois de um tempo sorriu.
– Você está morrendo de sono não está?
– Eu estou vendo três de você, numa versão borrada – Ela riu e esfregou os olhos e se eu não estivesse tão cansado poderia estar rindo também.
– É melhor fechar os olhos, tenho certeza que não sou tão bonito com seis olhos.
– Se eu dormir...
–Não vai querer que eu chame a Nancy, não é? – Seus olhos ainda estavam nublados pela dúvida quando estendi o cobertor por seus ombros – Quando acordar o efeito dos remédios vai ter passado e vai se sentir melhor.
– Não vai sair do quarto quando eu dormir? – Senti outra onda de amargura, temendo pelas coisas horríveis que a deviam assombrar quando fechava os olhos.
Respirei fundo, então ordenei as almofadas rígidas rentes à parede, descansando minhas costas a elas e segurei sua mão. Ela olhou para mim receosa, mas por fim se aproximou. Eu não queria assustá-la, mas se ela confiasse em mim iria fazê-la sentir o mais segura possível.
Rodeei seus ombros, torneando-a com meus braços e puxei-a pra mim, fazendo seu corpo descansar sobre o meu. Ela ficou tensa por alguns segundos, depois enterrou a cabeça no meu peito. Eu tinha os olhos fixos no teto. Sua respiração calma me tranquilizava de um jeito que chagava a me assustar. Era estranho, intenso, e diferente.
– Está com os olhos abertos, Elena.
– Você também está.
– Acho melhor ficar acordado, você sabe. Vigiando a porta.
– Sabe o que eu acho, Damon?
– Sim? – Fique esperando, mas ela não respondeu, e depois de alguns minutos achei que estivesse dormindo, mas quando já tinha me distraído vendo as sombras que a luz jogava sobre a parede, sua voz soou outra vez:
– Acho que você tem feridas mais profundas do que as minhas – Sussurrou e eu apenas sorri, negando-me a mover um centímetro sequer. Tudo que eu podia fazer era respirar, respirar e esperar que pela manhã, as feridas houvessem sarado.
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