Criminal Ways
11 11- Lágrimas
Notas iniciais
A comida era horrível. Mal temperada, com gosto de enlatado, congelado e requentado. Eu estava acostumada à comida ruim e gordurosa de bar de estrada, mas era a comida ruim e gordurosa de bar de estrada que eu fazia e servia no Donavan's.
– Você foi bem convincente no depoimento. Até eu, que sou pago para mentir, tenho de admitir que quase acreditei.
– Do que você está falando, Damon? – levei o canudo à boca pensando que talvez o suco de laranja afastasse o gosto ruim da comida, mas era tão ruim quanto.
Damon riu, depois assumiu uma expressão teatralmente inocente e começou a imitar minha voz:
– Eu só queria que ela deixasse meu irmão em paz, ele tem traumas.
– Mas é verdade, o Jeremy é só um garoto traumatizado.
– Ele é um imbecil drogado – Damon esfregou os olhos com o dorso da mão – Você estaria bem melhor se aceitasse isso.
– E fazer o quê? Abandoná-lo? Como o resto da nossa família fez?
– Isso outra vez? Acaba de comer Elena, eu não quero aquele seu cão de guarda psicopata atrás de mim porque a autodeclarada não-namorada dele está anêmica.
– Você faz piada com tudo, não é? – Sorri analisando seus traços, e lembrei do que Bonnie disse sobre ele ser "Bonito demais pra ser confiável" Com toda a certeza ele era bonito, e altamente sarcástico, sarcasmo era facilmente usado como capa em pessoas tristes. Eu não o conhecia, mas ajudando ou não, não ia deixá-lo fazer piada com a minha vida – Tyler disse que é amigo da minha... Irmã? Me fala dela.
O sorriso de Damon sumiu instantaneamente. Ele estreitou os olhos me fitando com um ar contrito. O havia irritado? Ótimo.
– Vocês se parecem – Ele disse por fim – A diferença é que no seu lugar, ela mesma teria matado o Matt, o Tyler, a Vicky e até o Jeremy.
– E então iria pra cadeia – Respondi secamente sem saber porque aquilo estava me incomodando tanto.
– E então eu a tiraria de lá – Ele deu de ombros sorrindo.
– Você não acabou de falar sobre o Sr. Johnson. Porque a Jenna inventaria um padrasto que nunca existiu?
– Na verdade ele existiu, só não era o Sr Johnson.
– Por favor Damon – Passei a mão pelo cabelo tentando me concentrar – Dá pra ser claro?
– Tudo bem – Ele suspirou – Vamos começar com sua mãe sim?
Assenti positivamente esperando que ele concluísse. Então ele voltou a falar parecendo finalmente ter assumido o tom sério:
– Isobel sempre foi inconsequente, aliás é uma marca das pessoas da sua família. Ela era amante do homem que você conhece por Sr. Johnson, o nome dele era Simon Gilbert.
– Daí o meu sobrenome.
– Sim, isso mesmo. Jenna era sua babá, Isobel não costumava passar muito tempo em casa, então Jenna é o mais perto de uma mãe que você realmente deve ter tido. Alguns meses depois que o Jeremy nasceu, Isobel teve algum tipo de surto e um belo dia pegou sua irmã e dirigiu cerca de dez quilômetros com ela no carro, depois apenas parou na beira da estrada esperando eu não sei bem pelo quê.
– Ela tentou se matar? – Perguntei horrorizada com aquela história. Eu pensei que já estivesse cercada das piores pessoas.
– Na verdade o que matou ela foi uma overdose de remédios. Sua irmã foi achada asfixiadas quase até a morte. A policia encontrou seu pai, e a entregou a ele, pelo que ficamos sabendo sobre vocês; Jenna só via o "Sr. Johnson" quando ele ia até sua casa visitar você e seu irmão, e depois da morte de Isobel ela o procurou por meses, mas como não tinha seu nome verdadeiro, não podia fazer muito, estava disposta entregá-los para as autoridades quando Simon apareceu e ofereceu dinheiro a ela para ficar de vocês, e é claro ficar calada. Ao que parece um escândalo faria mal á sua carreira política.
– Isso tudo é horrível. Eu não... É pior do que eu imaginei que pudesse ser..
– Família nunca é uma coisa fácil com o que lidar.
– Essas... pessoas, não são a minha família, eu não quero o dinheiro deles, eu não quero a ajuda deles. Eu não quero mais saber de nada disso – Me levantei cega pelas lágrimas que rondavam meus olhos. Como eu podia ter dito um destino tão torto desde sempre? como podia sofrer tanto as consequências das escolhas dos outros? Saí daquele lugar tentando secar as lágrimas que não cessavam até que alcancei o carro de Damon, me senti repentinamente tonta e apoiei as duas mãos ao carro para não cair. Só então lembrei da minha gravidez, o que seria do futuro daquela criança? Ser filha do Tyler ou do Matt tanto fazia, eu não deixaria meu filho viver rodeado por gente tão doentia como as pessoas que me criaram.
– Elena, ei você está bem? – Damon chegou até mim com uma expressão genuinamente preocupada.
– Me leva pra casa, depois some da droga da minha vida, e fala pras pessoas que te mandaram pra nunca mais aparecer – Gritei enquanto chorava em histeria, sem ligar muito para o fato de que todos paravam para observar.
– Calma, calma – Ele deu um passo até e eu recuei – Elena...
– Não fala comigo – gritei empurrando o peito dele – Você é igual a todos eles! todos eles – Continuei batendo no peito dele enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto – O que você quer? Dinheiro? Sexo? Mais dinheiro? Ninguém nunca se importou, não vai ser diferente agora!
– Para Elena, você está descontrolada.
– Talvez eu seja a droga de uma vadia descontrolada.
– Para – Damon gritou agarrando meu punhos e os mantendo colados à seu peito. Seus olhos adquiriram um brilho raivoso que logo se anuviaram quando meus olhos pararam nos seus.
Eu queria gritar, mas tudo que saiu da minha garganta foi um soluço, então voltei a choras descontroladamente e teria caído no chão, não fosse Damon me segurar com força e me abraçar
– Isso tudo vai passar Elena, eu prometo – Ele surrou no meu ouvido – Tudo vai ficar bem – Enterrei ainda mais meu rosto em seu peito sentindo minhas lágrimas encharcarem sua camisa escura. Eu só precisava chorar por todo o tempo que sorri e fingir ser forte, e Damon me deixou fazer isso. Me deixou chorar até que minhas lágrimas secassem e eu me sentisse tão exausta que mal conseguia piscar os olhos.
***
Pisquei os olhos uma ou duas vezes sentindo a brisa tocar meu rosto, eu não queria acordar, não queria mesmo. avistei um vislumbre do céus estrelado, e achei melhor fechar os olhos, tudo aquilo parecia tão distante que até mesmo era triste pensar sobre.
– Elena – Senti mãos tocarem meus ombros e suspirei duas ou três vezes antes de abrir os olhos. A primeira coisa que pensei foi " Quando consertaram o papel de parede?" Foi a primeira coisa que pensei. Depois percebi que não estava em casa.
– Elena? – ele me chamou outra vez, e abri os olhos por completo encarando o azul dos seus.
– Onde estamos, Damon?
– Não surta – Ele suspirou me indicou uma cama adiante – Eu te trouxe pra fora da cidade. O depoimento está correndo, você não precisa ficar na cidade.
– É claro que eu preciso ficar na cidade, eu tenho uma... vida...
– Duas – Ele disse fitando meu abdômen – Eu preciso voltar pra Atlanta, preciso conversar com a sua família direito.
– Eu já disse que não quero a ajuda deles. Eu não quero o dinheiro de gente que me abandonou.
– Eu acho que não expliquei direito – Ele franziu o cenho – Seus pais, seus avós... Estão todos mortos.
– Mas... Você disse que a minha família..
– Sua irmã. Sua irmã está fazendo isso.
– Minha irmã? – Pensei sobre aquilo por algum tempo, eu não havia parado para pensar sobre aquilo com calma – Ela não...
– Só dorme, tá? – Ele se afastou e respirou fundo – E dessa vez não conte a ninguém onde está.
– A quem eu contaria?
– Quer uma lista? – Ele riu – Não fui eu quem disse que tinha um assassino da discagem rápida.
– Ei – Chamei quando ele abriu a porta, pouco antes de sair do quarto. Seus olhos caíram sobre mim em expectativa.
– Obrigada – Sussurrei e em segundos ele saiu de lá sem dizer mais nada...
Olhei em volta analisando o quarto de hotel, onde diabos eu estava ?
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