Criminal Ways
10 10- Hereditário
Notas iniciais
– Eu não consigo acreditar – Bonnie sussurrou parecendo ainda chocada. Eu também estava chocada, talvez a ficha só ainda não houvesse caído, mas eu tinha de contar com a sorte – Você tem certeza?
– Tenho, eu quis contar antes, mas achei você precisava de um tempo... A Sheyla melhorou?
– Minha avó está bem, Elena. É com você que nós temos que nos preocupar. O que você vai fazer?
– Shh, eu não quero que o Jeremy saiba. Só me traria mais problemas. O advogado me mandou mensagens, nós vamos conversar hoje à tarde.
– Eu não confio naquele advogado, Lena. Ele é bonito demais pra ser confiável.
– Bonito demais pra ser confiável? – Pela primeira vez em dias ri de verdade, Coisa que só Bonnie conseguia fazer – O caso, Bennet é que eu não confio nele. Nós vamos almoçar e ele vai ter de me explicar essa história desde o começo.
– Você não está focando no maior dos problemas – Bonnie baixou a voz – Você está grávida Elena, já parou pra pensar no que isso significa?
Eu realmente não queria pensar naquilo. Eu nunca pensei muito sobre ser mãe, e depois de ter passado a vida inteira cuidado do meu irmão eu não sabia se iria conseguir algum dia assumir uma responsabilidade assim. Eu me sentia culpada por não estar feliz com aquilo, afinal eu estava carregando uma vida dentro de mim, mas eu sabia o quão aterrorizante podia ser. Eu não queria criar uma criança vinda do Matt, só de pensar naquilo meu estômago embrulhava, meu filho não teria o sobrenome Donavan com toda a certeza. Era horrível admitir, mas eu tinha toda a certeza de que não amaria uma criança nascida naquelas circunstância, mas também não teria coragem de entregar um filho à adoção como fizeram comigo e meu irmão, estava fora de questão. Contudo, no fim das contas ainda podia estar grávida do Tyler, eu só não sabia se isso podia ser exatamente lucrativo...
– Elena! Lena, eu estou falando com você! – Bonnie estalou os dedos para chamar minha atenção – Acha que o Matt vai querer ficar com o bebê?
– Se for do Matt, eu duvido muito que ele se importe.
– Se for do Matt?– Ela semi-gritou estreitando os olhos – Você ainda está transando com o Tyler?
– Foi há três semanas, nós passamos três dias juntos, eu quase pensei em dar uma segunda chance pra ele, mas...
– Segunda chance? Está mais pra quinta ou sexta chance , Elena. Eu vou ter de lembrar tudo o que ele fez com você? Eu ainda acho que devia ter dado queixa daquele marginal.
– Eu só queria que nada disso estivesse acontecendo, desde o início... Tipo ir dormir e acordar na vida de outra pessoa.
– Pena que isso é impossível.
– Sim, é uma pena....
[...]
A lanchonete ficava numa cidade vizinha, era estreita, com o cheiro forte de café e fritura que eu estava habituada pela cozinha do Donavan's. Estremeci ao lembrar do Bar. Eu nunca mais voltaria lá... Aquele pensamento me deu novas preocupações... Como eu ia viver a partir de agora sem um emprego? E Bonnie? E Jeremy? E o bebê...?
– Não que eu não aprecie sua companhia, é claro – Damon usou seu tom irônico usual enquanto circulava a borda de um copo com a ponta dos dedos – Mas você tem certeza que seu namorado não vai tentar me matar?
– O Tyler não é meu namorado – suspirei apoiando os braços à mesa. Eu tinha cansado de ficar irritada com Damon, desisti de acreditar que ele algum dia aprendeu a falar sério.
– Talvez devesse dizer isso a ele – Ele abriu um sorriso torto e eu não pude me impedir de rir. Realmente, Tyler estava preso numa realidade em que formávamos uma família feliz, onde ele podia matar qualquer um que atrapalhasse nossos planos.
– Você não me trouxe até aqui pra falar sobre mim, quer dizer, claro que foi pra falar sobre mim, mas não sobre isso.
– Eu soube que já sabe sobre sua família, o quanto sabe Elena.
– Que você é pago por eles, que eles abandonaram eu e meu irmão nessa droga de vida, e de repente querem me usar pra limpar a consciência...
– Engraçado, você nunca me pareceu amargurada...
– E você sempre foi evasivo.
Uma garçonete veio até nós e pôs dois pratos na mesa, eu mal olhei para a comida, meus olhos foram para a garota, ela devia ter a minha idade, será que levava a mesma vida que eu? Será que tinha alguém para ajuda-la?
– Não vai comer?
– Eu não quero comer, eu quero a verdade!
Ele me olhou com as sobrancelhas franzidas, e uma feição preocupada, ou pelo menos era o que parecia. Ele suspirou e passou a mão pelo cabelo.
– Você tem o temperamento da sua família – Ele disse com seriedade – Agora come, você não quer um belo bebê saudável e chorão?
Afastei o prato e cruzei os braços sobre a mesa fitando seus olhos, eu poderia me distrair tentando separar cada tonalidade ímpar daqueles olhos.
– A verdade Damon.
– Ou o quê? vai jogar café quente em mim? – Ele abriu aquele seu sorriso sarcástico espelhando meus movimentos. Apoiados como estávamos à mesa, tudo que ocupava nosso campo de visão eram os olhos um do outro.
– Tenho um assassino na discagem rápida, esqueceu?
– Aquele que não é seu namorado? – Ele abriu um longo sorriso e eu o fiz também:
– Talvez devesse dizer a ele
– Você venceu – ele sorriu se recostando à cadeira – Se você morrer de desnutrição eu não vou receber no fim do mês não é?
– Além de advogado você é nutricionista, Damon? Que talentoso...
– Sabia que essa coisa de sarcasmo é bem irritante?
– Ah, eu estou te irritando, agora? – Sorri tilintando os dedos na mesa num ritmo irritante – Talvez seja melhor começar a falar.
– Droga, é como falar com ela – Ele fez uma cara de susto e então riu – Pra começar o que você sabe sobre as pessoas que te criaram?
– Jenna era... Ausente. Eu não lembro do seu primeiro marido muito bem o Sr. Johnson... O Alaric era um péssimo padrasto, gastava todo o dinheiro com bebida além de ser agressivo... E é isso.
– E seus pais biológicos?
– Jenna me disse que eles morreram em um acidente duas semanas após o Jeremy nascer. E que o Sr. Johnson era o único parente vivo que nós tínhamos, então eles resolveram nos criar.
– Sr. Johnson? – Damon riu – Você lembra do Sr. Johnson?
Pensei sobre aquilo por alguns segundos. Não. Eu realmente não me lembrava. Meneei a cabeça negativamente e ele sorriu de novo.
– É porque ele não existe. Agora come antes que esfrie, quando terminar eu conto o resto.
– Mas...
– Mas? – Ele ergueu as sobrancelhas pra mim e assumi que era melhor obedecer, Damon tinha um jeito estranho de se fazer ouvir... Talvez eu pudesse me acostumar com aquilo...
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