Criminal
16 Capítulo 16
Notas iniciais
" Seria possível? ". O estômago embrulhou novamente e ela se ajoelhou rapidamente ao lado do vaso o abraçando enquanto esvaziava todo conteúdo que tinha em seu estômago, se sentia tão esgotada que continuou ajoelhada no chão, cabeça apoiada na parede mais próxima enquanto respirava fundo.
Fazia mais de duas semanas que passava mal e a ideia de alguma gripe ou algum outro vírus havia se dissipado sendo substituída por outra que fazia seus pelôs da nuca se arrepiarem, sabia que ela e Jack haviam transado inúmeras vezes sem proteção, mas nunca se preocupara com isso, até agora, se levantou apoiando-se na parede respirando fundo, abriu a torneira se olhando no espelho, estava mais pálida que o normal, as bolsas arroxeadas abaixo dos olhos era a prova de noites mal dormidas, encheu as mãos de água a jogando no rosto. "Céus o que eu vou fazer". Abriu os olhos fechando a torneira e pegando a toalha ao lado para se secar, escovou os dentes enquanto olhava sua imagem fixamente no espelho.
Apenas quando escutou a voz de Jack a chamando finalmente andou em direção ao quarto vazio, parou em frente ao armário aberto, agora mais cheio do que jamais estivera, deslizou os cabides, observando as novas peças de roupa masculina que se misturavam entre suas roupas, decididamente, teria de comprar um guarda-roupa mais espaçoso, tirou um vestido azul turquesa, soltou a toalha de seu corpo a deixando escorregar em direção ao chão, colocou o vestido e, ao fechar o zíper, sentiu o tecido mais justo ao seu corpo como jamais sentira antes, Elsa se voltou para o espelho, passou a mão sobre o tecido olhando sua imagem no espelho, se virou de lado medindo cada centímetro de seu corpo, tudo parecia perfeitamente normal, embora sentisse o vestido mais apertado que o normal na parte dos seios.
As mudanças e certezas estavam a sua frente, mais claras que nunca, e mesmo assim tudo parecia desorganizado. " Pare de ser tão medrosa" era a frase que repetia para si mesma enquanto juntava os fios loiros os prendendo no alto da cabeça, em um rabo de cavalo, pintou os cílios e passou um batom rosado, colocou os sapatos de salto bege, pegou o sobretudo forrado, tentando dissipar qualquer pensamento, Jack era um bom observador. Bom até demais.
Quando saiu do quarto, o cheiro de café recém-passado tomava conta da casa. Ela seguiu o aroma até a cozinha, onde Jack estava sentado a mesa, uma xícara repousava a sua frente enquanto ele lia o jornal, assim que o som de saltos se aproximou ele levantou o olhar, e o sorriso que apareceu em seus lábios enquanto ele a observava foi mais do que encantador.
— Está melhor? — Jack perguntou, a voz carregada de preocupação enquanto a puxava a trazendo para seu colo, onde ela se acomodou com um leve sorriso nos lábios.
— Estou ótima, mas estou atrasada e terei de tomar café no caminho — Jack suspirou, a mão passeando com carinho pela perna exposta de Elsa.
— Você anda saindo muito cedo de casa.
— Hoje será o último dia, prometo — Elsa falou enquanto segurava o rosto de Jack entre as mãos o observando, um último sorriso leve e feliz, o tipo de sorriso que quando ela dava Jack queria cobri-lo com um beijo, e foi o que ele fez, juntou os lábios em um beijo cúmplice, sem medos, sem descobertas, um se deliciava do gosto do outro, gosto que já estava mais do que
gravado em suas memórias.
(...)
Os pensamentos vagavam enquanto dirigia em direção ao Instituto, os olhos voltavam a cada segundo para a sacola no banco ao lado, estacionou em frente a prédio frio, retirou o pacote da sacola, abriu a caixa, retirou as instruções lendo-a, sabia que não iria conseguir se concentrar por inteira no trabalho até ter certeza, ou mesmo após.
O som de uma porta batendo a assustou, Elsa guardou o pacote dentro da bolsa levantando o rosto, observando Anna andar com um sorriso no rosto em direção a porta de aço, ela saiu do Mercedes deixando o vento frio bater em seu rosto, andou a passos calmos pela calçada escorregadia em direção a porta, o corredor quente a fez suspirar enquanto retirava as luvas.
Passou por Aurora lhe lançando um rápido cumprimento junto a um sorriso, entrou em sua sala colocando a bolsa sobre a mesa retirando o pacote, abriu a caixa, rasgou o pacote de plástico e tirou a vareta de teste. Suas mãos estavam geladas, e embora o ar não estivesse ligado, ela tremia.
Trancou a porta do consultório, e andou em direção ao pequeno lavabo, fnalmente sentou-se no vaso, segurando a vareta entre as coxas e urinando, a colocou sobre o balcão e voltou em direção a sala se sentando em sua cadeira, apertando as mãos, os nós dos dedos tornando-se mais brancos a cada segundo, espere dois minutos, era o que dizia a instrução, malditos dois minutos que pareciam não passar, o estômago embrulhou e ela fechou os olhos respirando fundo, olhou para o relógio de pulso, sentindo o coração acelerar à medida que que passavam os dois minutos. Nunca fora covarde, insegura, sempre odiara essa sensação, mas ali estava ela, milhões de emoções lhe dominando, entre tantas, a insegurança era a que lhe dominava. O soar baixo do celular lhe indicava que havia passado o tempo esperado, suspirou, estava na hora.
Não se lembrava de ter voltado para a poltrona, quando deu por si estava sentada, a vareta de teste no colo. Não era mentira, nem mesmo um erro, estava grávida. Era o que ela sempre quis, uma família, e estava conseguindo isso ao lado de Jack, tentou desviar os olhos da fita vermelha mas não conseguia, até seu cérebro parecia ter congelado, todo pensamento imobilizado pelo choque e pela indecisão, a dúvida de se conseguiria ser uma boa mãe. Afinal, ela era Elsa Snow, a fria médica legista, a rainha dos mortos. Ela não conseguia imaginar o que fazer a seguir.
(...)
Todos os dias são a mesma coisa, corpos frios e sem cor, sangue seco em suas veias, formando púrpuras onde se acumularam e coagularam, olhos sem vida e brancos, mesmo assim eu consigo enxergar a beleza na morte, consigo imaginar o trabalho que o sangue fez por esse corpo, fazendo cada órgão funcionar, trazendo coloração a pele e nos mantendo vivo, dizem que o cérebro e o coração são os órgãos mais importantes, mas se esquecem da função do sangue, ele é o responsável por tudo, tão vermelho, brilhante e quente.
Mas não consigo ver sua função no corpo a minha frente, a menina que chegou ontem está deitada, nua e ainda mais pálida sobre as luzes do laboratório, o corpo ainda em
crescimento, tão jovem, consigo sentir a maciez que sua pele era, me trazendo imagens de seu corpo quente, o suor escorrendo entre os seios pequenos, passo minha mão ao redor dos seios, imaginando-os entre meus lábios, os olhos agora opacos indicava uma coloração castanha , posso imaginá-lo, olhos castanhos e sonhadores, uma pequena boneca, pronta para ser usada, uma pena não termos nos conhecido antes.
Aperto um dos seios, pequeno e duro, fecho os olhos sentindo a pele fria como gelo em contato com a minha, o imaginar de um coração pulsando, do sangue escorrendo, dos gritos de dor e agônia, posso sentir meu sangue fluir com mais força, o aperto que está tomando conta em minha virilha, abro os olhos e encaro seu rosto novamente enquanto solto seu seio, tão nova.
A luz da sala ao lado se acende, repouso o bisturi sobre a mesa fria enquanto vejo a imagem de Elsa andar em direção a uma das caixas de radiografia, não sabe o quanto eu imagino sua pele quente e sedosa, imagino seu perfume entre meus lençóis, seus gemidos cada vez mais altos. Ela volta a guardar as radiografias e sai do laboratório sem se dar conta de que eu a estava observando.
Volto o olhar para o cadáver, agora, não sinto mais o mesmo interesse de antes, ela parece pálida demais, morta demais, volto o olhar para a sala que Elsa deixou, agora escura, e a lembrança de dias atrás volta a minha mente, ela estava comprometida, e isso não fazia parte de meus planos. Seguro o bisturi novamente o pressionando sobre a pele pálida, enquanto minha mente volta a trabalhar na imagem de Elsa.
(...)
Apenas quando Aurora a chamou pela segunda vez, foi quando Elsa desviou os olhos de suas anotações, completamente riscadas.
— Doutora? — Aurora lhe chamou novamente.
— O que você disse? — sua pergunta soou com um nível de tensão perceptível, e ela viu Aurora dar um sorriso nervoso.
— Estou indo almoçar, a senhora precisa de algo?
Ela negou rapidamente com a cabeça, Aurora olhou-a durante algum tempo, então entrou na sala e sentou-se na cadeira em frente a escrivaninha de Elsa, fato que a surpreendeu, trabalhavam à quase dois anos juntas e eram poucas as vezes, que a secretária fazia algo assim.
— Você está bem, Doutora? — perguntou Aurora.
— Estou bem, apenas distraída.
— Apenas isso? — Aurora engoliu em seco, como se tomasse coragem para continuar — Percebi que anda mais distante que o normal essa semana, escutei que andou doente.
— As fofocas andam bem rápidas aqui — essa resposta, ríspida, fez Aurora recuar na cadeira.
Houve um silêncio, o ar parecia mais pesado que o normal. De repente Elsa percebeu o
modo com o qual falara, encarou a secretária que apesar de sua resposta anterior, lhe observava com os olhos repletos de preocupação. Tenho vivido tanto tempo sozinha, pensou, que nunca me ocorreu que há gente neste mundo que pode se importar comigo.
Aurora levantou-se: — Se precisar de algo Doutora, não hesite em pedir.
Elsa a observou se afastar, o estômago embrulhou novamente, respirou fundo enquanto a porta era fechada.
— Aurora?
— Sim? — a secretária perguntou colocando a cabeça novamente para dentro da sala.
— Pode me esperar? Podemos almoçar juntas.
A mulher concordou com a cabeça, as sobrancelhas erguidas em sinal de surpresa, Elsa apenas sorriu enquanto juntava os papéis os arrumando, havia prometido a si mesma que deixaria a parede de gelo e lado, e agora, precisava de alguém para conversar.
(...)
O filé de frango continuava intacto em seu prato, pousou o garfo ao lado com calma enquanto observava Aurora e Anna conversarem, estavam de saída quando Anna apareceu na frente delas perguntando se poderiam almoçar juntas.
Como se percebesse que estivesse sendo observada Anna observou a imagem de Elsa, estudando a feição impecável da médica, a pose de uma majestade, frente a seus súditos.
— Como estão seus filhos Aurora? — a pergunta repentina de Elsa as pegou de surpresa.
— Ótimos, já não são mais crianças, estão enfrentando a fase da adolescência agora — e um sorriso tênue se formou nos lábios de Aurora enquanto encarava Elsa — Mas nunca deixarão de serem meus bebês.
— Com quantos anos eles estão? — Anna perguntou animada.
— Audrey está com 15 anos e Adam com 13, sempre escutava falar que nessa fase as coisas ficam mais complicadas — ela riu — Não posso descordar.
— Kristoff quer começar uma família — disse Anna — conversamos sobre isso essa semana, mas ainda acho que é cedo — e então ela encarou Elsa, com um amplo sorriso e os olhos brilhando.
— Quando pensa em começar uma família ?
Elsa permaneceu calada, Anna e Aurora eram as únicas que sabiam de seu relacionamento com Jack, descobrira dias atrás, quando os viu no estacionamento aos beijos. Diferente do Distrito policial, onde todos já sabiam do relacionamento deles, por meio de Jack, que a beijou na frente de todos na última cena em quem ela compareceu, diferente das outras vezes que apenas se olhavam discretamente.
Ela sabia que a pergunta de Anna fora inocente, e que a resposta já estava confirmada, iria
começar uma família agora, mas mesmo assim as palavras pareciam estranhas demais para serem ditas em voz alta. Elsa encarou as duas mulheres a sua frente, ambas sorriam em sua direção, como para encorajá-la, como se no fundo soubessem a verdade.
— Acha que eu daria uma boa mãe? — a pergunta saiu antes de que ela formula-se uma, seu corpo lhe traindo.
— Claro que seria — Anna lhe garantiu, sorridente e animada.
— Aprendemos com o tempo Elsa — a voz de Aurora soou suave, como uma brisa fresca em uma manhã de verão — Quando descobri que estava grávida de Audrey foi um choque, tinha medo de não conseguir, de não ser uma boa mãe. — ela sorriu — Mas quando eu a vi, chorando, enrolada em um cobertor, os bracinhos ao alto, todo aquele medo desapareceu — Aurora riu e passou as mãos nos olhos — Ser mãe não vem junto a um manual de instruções, aprendo cada dia mais — ela levantou o olhar para Elsa, a encarando de uma maneira tão direta que ela precisou desviar o olhar — Espere até ter seus filhos, e então vai saber o quão grande será.
— O quê?
— O amor — respondeu Aurora.
Elsa olhou para o rosto sorridente de Aurora, permaneceu em silêncio enquanto processava toda a conversa, as mãos seguiram por debaixo da mesa em direção ao abdômen onde a repousou, não se moveu ou falou por um bom tempo, enquanto era tomada por um turbilhão de emoções. Alívio. Ansiedade. Mas nenhuma dúvida, as palavras de Aurora lhe trouxera uma nova visão, ela sempre desejara aquilo, mas o medo falara mais alto a todo momento, levantou o olhar para as mulheres, sentindo-se subitamente leve, liberada do fardo das dúvidas e incertezas. Sua vida iria mudar.
— Podíamos fazer isso mais vezes — Anna falou, quebrando o silêncio, logo começando um novo assunto, onde em poucos minutos, era possível escutar as risadas que ecoavam da mesa ao canto, onde as três a ocupavam.
(...)
Ela estava mais nervosa do que imaginava, de cinco em cinco segundos ia em direção a janela para ver se Jack estava chegando, havia ligado para ele voltar o mais cedo possível, e sabia que ele faria isso apenas pelo seu tom de voz.
Os faróis de um carro apareceu no começo da rua e seu coração acelerou quando a viatura parou em frente a entrada da garagem, ela correu em direção a porta a abrindo, a tempo de ver Jack descer, a feição preocupada deixava claro que sua ligação o alarmara.
— Aconteceu alguma coisa? — Jack perguntou, a fina ruga se formando em sua testa.
Elsa apenas o abraçou, as mãos se perdendo nos cabelos de Jack enquanto aspirava seu perfume, ele ficou parado por alguns segundos antes de devolver o abraço, ainda sem saber o motivo, beijando-lhe a cabeça. Quando Elsa se afastou dele, com um sorriso e os olhos brilhando foi quando seu coração se acalmou. Então, a puxou contra si, as línguas se
encontraram, ele a trouxe mais para perto, as mãos apertaram a cintura feminina enquanto as dela desciam pela sua nuca. Separaram os lábios em busca de ar, ambos com sorrisos estampados.
— E agora? Posso saber o que aconteceu? — a voz de Jack soou baixa.
— Você vai ser pai — ela sussurrou, os olhos observando cada canto do rosto de Jack. Pode ver com clareza o sorriso diminuir, Elsa sentiu o coração disparar dentro do peito e o estômago embrulhar.
— Nós... — a voz de Jack soou baixa — Nó..Nós estamos? Você está? — Jack falou boquiaberto, os olhos azuis fixos na barriga de Elsa a sua frente, a médica apenas desceu as mãos as colocando sobre a barriga.
— Seremos pais, Jack, fiz o teste hoje — ela falou sorrindo a cada palavra — Deu positivo — a última palavra saiu em um tom pouco mais alto do que esperava, e o sorriso que estampou no rosto de Jack foi o maior que ela já havia visto.
— Seremos pais — ele falou sorrindo, segurando o rosto de Elsa delicadamente entre as mãos, Jack se inclinou e ela fechou os olhos. Quando seus rostos se encontraram, foi como se nada mais no mundo tivesse importância.
O beijo foi demorado e, quando terminou, Jack abraçou Elsa, enterrando o rosto em seu pescoço, depois desceu os lábios desferindo um beijo na pele exposta de seu ombro. Ela permaneceu de olhos fechados, um sorriso estampado nos lábios.
Com um movimento inesperado ele a levantou do chão, Elsa rodeou as pernas ao redor de sua cintura, enquanto ria ao escutar Jack murmurar palavras doces e baixas, como uma prece.
Fizeram amor sem pressa alguma. Jack movia-se por cima dela, desejando que aquele momento durasse para sempre, sussurrando em seu ouvido. Podia sentir o corpo de Elsa tremer de prazer a cada investida. Quando ela caiu no colchão com um estremecimento de satisfação, os dois ficaram deitados juntos, como sempre faziam, braços e pernas entrelaçados, como dois amantes que conheciam bem o corpo um do outro. Conversaram, riram e acariciaram-se.
E depois de terem feito amor pela segunda vez, ele deitou-se ao lado dela, olhando em seus olhos antes de deslizar os dedos gentilmente em seu rosto, parando-os sobre a pele quente de sua barriga.
— Obrigado, amor — sussurrou, sabendo que suas palavras eram verdadeiras em todos os sentidos, os dedos acariciando a pele da barriga de Elsa.
Ela sorriu antes de se aninhar ainda mais em seu corpo, o coração se chocando contra as costelas, enquanto era invadida por um sentimento que á muito reprimia. Amor.
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