Criminal
4 Demons
Notas iniciais
Quando todos os seus sonhos falham
E aqueles que saudamos
São os piores de todos
E o sangue fica seco
Quero esconder a verdade
Quero abrigar você
Mas com a fera dentro
Não há onde nos escondermos
Não importa aquilo que criamos
Ainda somos feitos de ganância
Este é o meu fim
Este é o meu fim
Quando você sentir o meu calor
Olhe nos meu olhos
É onde meus demônios se escondem
É onde meus demônios se escondem
Não se aproxime muito
É escuro aqui dentro
É onde meus demônios se escondem
É onde meus demônios se escondem
Respirei fundo quebrando o silêncio constrangedor que estava no ar. O que me pareceu que só ficou pior ainda após eu fazer isso, queria me mexer ou fazer algo assim porém toda maldita vez que me mexia naquele banco o som do couro rangia. Engoli em seco e olhei para Klaus novamente. Ele estava sentado no banco do motorista, uma mão no volante e a outra no cambio de marcha do carro, estávamos indo para o encontro com meu pai. Já passava da meio-dia e o sol estava no ponto mais forte do céu.
Cercados e protegidos em nosso carro, na nossa frente havia um Jeep Commander preto e outro atrás também. O da frente quem dirigia era Stefan. Ele estava com mais três seguranças e o de trás quem dirigia era Damon, ele estava com Elena e mais dois. Eu sei que Klaus havia dito ao meu pai para ir sozinho e que ele iria também mas eu não era tão inocente em acreditar nisso, meu pai ia estar tão preparado quanto Klaus. Era uma briga de leões e eles iam se matar com unhas e dentes.
Suspirei de novo, me mexendo no meu lugar sem perceber, procurando uma forma de relaxar. Eu estaria mentiria se dissesse que não estava ficando cada vez mais nervosa. Parecia que não chegava nunca, talvez por eu estar assim era pior. Fiquei tão envergonhada quando minha bunda esfregou no couro do banco, fazendo um som alto. Viu? É por isso que eu odeio esses malditos bancos de couro.
Klaus afastou os olhos da rua e olhou para mim, deu uma risadinha baixa. Minhas bochechas coraram, tenho certeza. Eu deveria estar vermelha como um tomate.
― Não consegue ficar confortável? Já estamos chegando. Tudo vai acabar mais rápido do que você imagina. ― Ele me deu um sorrisinho de canto, esperançoso. Sua atenção voltou rapidamente para a rua.
― Não... é só... que... ― Mas decidi me calar, tudo que eu fiz foi gaguejar e murmurar coisas sem sentido.
O carro parou no sinal, o Jeep ainda estava na nossa frente como uma barreira protetora. Klaus olhou para o semáforo e viu que ainda tinha tempo. Se encostou no banco e enfiou a mão no bolso interno da jaqueta de couro, tirou um maço de cigarros. Ele bateu com o indicador no maço tirando um cigarro e o colocando entre os lábios, guardando o maço de volta em seguida na jaqueta. Quando ele já estava com o isqueiro na mão que ele se dirigiu a mim, apagando o isqueiro acesso.
― Ah, perdão querida. Esqueci de perguntar, você se importa? ― Disse ele ainda com o cigarro preso entre os lábios.
― Não. ― Fiz que não com a cabeça e dei um sorrisinho sem graça. Nem que eu me importasse eu iria falar, né? Não estava numa situação de me importar com muita coisa, por mais que Klaus me desse toda a liberdade para falar o que quisesse. Apesar de que na maioria das vezes ele questionava tudo que eu falava e acabávamos brigando.
Ele acendeu o cigarro e deu um curto trago porque o sinal abriu, suas mãos rapidamente voltaram para o volante e o câmbio.
Agora que estávamos tão perto do fim de tudo isso, foi inevitável não pensar na noite passada. A noite em que Klaus foi até o quarto que eu estava trancada, com um presente e um pequeno bolinho. Ele não se esqueceu do meu aniversário. Mesmo com toda a merda, com todas as nossas brigas e por mais que ele tivesse dito que queria me matar algumas horas antes isso não importou, porque ele foi tão doce e tão amável que eu me esqueci de tudo, eu só... me apaixonei instantaneamente.
Sempre me achei superior as outras garotas da minha idade por não me apaixonar por beleza, mas no caso de Klaus foi inevitável e então quando vi seu interior, não me pareceu nada com o monstro que eles diziam que ele era. Mesmo que eu já tivesse visto certas parcelas do monstro, do Híbrido...
Klaus me deu uma pulseira de ouro branco e brilhantes, pediu para que eu fizesse um desejo de aniversário, qualquer um que fosse e ele iria realizar. Agora eu penso em todas as coisas que eu poderia ter desejado naquele momento mas desejei uma única coisa... que Klaus fosse meu e eu fosse dele. Me lembrei de suas palavras na última noite.
― Você fez um desejo? ― Perguntou ele, a curiosidade evidente em seus olhos.
― Sim. ― Disse tão baixo, queria que mais ninguém ouvisse além dele, apenas ele. Você sabe sobre a regra dos desejos, se você contar para alguém eles não se realizam.
Depois daquele momento, Klaus me deixou. Disse que já era tarde, que era metade da madrugada. Me deixou o cupcake ali e mais um prato com sanduíches, acompanhados com um copo de suco de laranja. Quando ele saiu eu comi um sanduíche e bebi o suco, então me deitei para dormir novamente mas eu estava tão agitada que mal podia me controlar. Me lembro de pegar no sono bem mais tarde.
Pisquei duas vezes seguidas e voltei para o carro. Klaus manobrava o carro em um estacionamento e falava ao telefone ao mesmo tempo.
― Sim, está tudo pronto. Ok. Vamos fazer isso. ― Ele terminou a frase e desligou.
Olhei a minha volta e vi que estávamos no estacionamento do shopping, o lugar estava lotado. Especialmente por ser segunda feira na hora do almoço. Stefan já havia me explicado como seria feito a coisa toda, foi ele quem foi me buscar no meu quarto do porão hoje a hora que eu acordei. Klaus e eu iríamos até a praça de alimentação onde ele falaria com meu pai, Stefan disse que a praça seria perfeito porque era lotado de gente e eles não poderiam colocar atiradores de elite ali, apenas seguranças disfarçados como os de Nik então todos estariam preparados para qualquer coisa. Quando meu pai visse que estava tudo bem nós voltamos para o estacionamento onde meu pai entrega Elijah para Klaus e ele me deixava livre para ir com meu pai.
Era o plano perfeito, tudo tem que ocorrer perfeitamente. No fim do dia eu vou estar de volta a minha cama, a minha casa, aos meus pais... mas infelizmente não vou mais ver Klaus. Pelo menos por um bom tempo.
― Tudo vai ficar bem. ― Disse Klaus, confiante e calmo.
Ele abriu a porta do carro e saltou para fora primeiro, então veio até o meu lado do carro e abriu a porta para mim. Assim que sai do carro ele segurou em minha mão e saiu me arrastando pelo estacionamento em direção ao shopping. Seu aperto de mão firme na minha me passava tranquilidade, mas eu sabia que ele estava nervoso. Olhei para a frente e vi Damon andando com Elena e reconheci os dois rapazes que estavam com ele, andando um pouco afastados. Depois olhei para trás e vi Stefan.
Lindo como sempre e também de cara fechada. Ele estava sem o boné, o cabelo loiro bagunçado e arrepiado brilhava no sol do meio dia assim como o de Klaus, é claro que o de Klaus brilhava mais, assim como a sua barba. Os rapazes andavam ao lado de Stefan como uma formação de um time de futebol... não era mais violento do que isso. Era como soldados indo para a guerra.
Assim que entramos no shopping se misturar foi a coisa mais fácil, o local estava lotado como de costume e as pessoas andavam tão apressadas quanto nós com suas sacolas e carrinhos de super mercado. Quando chegamos a praça de alimentação o lugar parecia um formigueiro com tanta gente e barulho. Klaus avistou primeiro meu pai, depois eu. Ele estava sentado em uma mesa bem no centro das outras mesas, provavelmente uma mesa que Klaus havia escolhido pois ela ficava ''protegida'' pelas pessoas em volta, começar um tiroteio ali seria matar muitos inocentes e Klaus sabia que meu pai não ia querer isso. Caminhos até lá em silêncio, uma parte de mim gritava por dentro e queria correr para os braços do meu pai mas a outra parte lutava ferozmente com essa e falava para ela se controlar que tudo ficaria bem.
Eu me sentei primeiro na cadeira de frente para meu ai, não me sentei me joguei na cadeira como se não tivesse forças nas pernas. Coloquei as mãos sobre a mesa para pegar nas mãos do meu pai mas Klaus me impediu de me mexer quando senti o cano frio da arma que ele pressionava contra minha barriga por baixo da mesa. Afastei minhas mãos das do meu pai.
― Sem pressa, Bill. Temos todo o tempo do mundo. ― Klaus sorriu para meu pai.
― Se eu pudesse te matava aqui e agora... ― Meu pai cuspiu cada palavra, mordendo os dentes e cerrando os punhos de raiva, tentando se controlar.
Tudo que eu era ali um patinho assustado, eu estava proibida de falar. Stefan me disse para não falar nada, que se eu falasse isso poderia deixar meu pai alterado e o plano todo desandar.
― Você está com meu irmão? ― Perguntou Klaus.
― Sim mas primeiro me entregue Caroline. ― Pai, não seja tão burro! Pensei comigo. Você não está em ponto de negociar, o negócio já está feito, apenas resposta com sim ou não.
― Não. Não. Não. ― Klaus disse tão calmo, como se estivesse falando com uma criança. ― Não é esse o nosso acordo, lembra?
― Tudo bem. ― Ouvi o som do ranger dos dentes do meu pai. ― Vamos lá para fora e vamos acabar logo com isso.
Meu pai se levantou primeiro e em seguida Klaus que me arrastou para cima junto, puxando meu braço e não tirando a arma da minha barriga. Ele se posicionou do meu lado e me segurou pela cintura com uma mão, enquanto com a outra pressionava a arma na minha barriga. Se a situação não fosse tão complicada eu poderia jurar que ia estar surtando nesse momento, especialmente pela forma com que ele me segurava. Fomos caminhando de volta para o lado de fora, meu pai não andava nem um centímetro mais longe de Klaus, ele estava tão perturbado. As olheiras em seus olhos eram grandes e grotescas que chegavam a assustar, ele provavelmente não dormiu nenhum segundo nesses últimos dias e minha mãe deveria estar completamente dopada de calmantes.
O estacionamento continuava lotado, pessoas chegando e outras saindo. Procurei por rostos conhecidos ali mas sabia que seria impossível agora, eles estavam ali... eu só não conseguia encontrá-los. Disfarçados, escondidos, preparados para o que viria a seguir. Quem guiou nosso caminho do lado de fora foi meu pai, eu e Klaus apenas o seguimos tranquilamente. Klaus estava tenso mas com todo o pessoal em algum lugar ali ele sabia que tudo ficaria bem. Caminhos até quase o meio do estacionamento e reconheci de primeira o carro de serviço do meu pai, a BMW X5 preta, os vidros eram completamente negros impossível ver qualquer coisa lá dentro.
― Você sabe não é hora de fazer nenhuma gracinha, né? ― Klaus se dirigiu ao meu pai, tirando a mão da minha cintura e passando o braço em torno do meu pescoço como se fosse me dar um mata leão. Ele me colocou na frente do seu corpo como um escudo. Senti ele tocar minha cabeça com o queixo, um pedido de desculpas por aquilo.
Minhas costas estavam completamente coladas em seu peito, eu jurava que podia sentir o coração dele martelar no peito. Meu pai caminhou até o porta-malas do carro, o que eu estranhei, Klaus me puxou para trás junto com ele tentando me proteger, mas a julgar que eu era quem estava na sua frente eu não estava nada protegida, mesmo que a sensação de seu braço em torno de mim me dissesse que sim.
Meu pai colocou a chave na fechadura do porta malas e destravou, ele se virou para Klaus e o olhou por cima dos ombros uma vez antes de abrir o porta malas, dando um sorriso confiante. Quando ele subiu a porta de uma vez foi um choque. Tudo que havia ali era um grande saco preto como aqueles em que eles colocam cadáveres, o saco parecia contorcido e colocado de qualquer jeito no espaço pequeno do porta malas. Klaus olhou para meu pai como se aquilo fosse uma piada até que meu pai abriu uma parte do zipper e colocou a mão lá dentro. Meu estômago se revirou e eu jurava que ia vomitar. Meu pai puxou a mão do cadáver de lá de dentro e a soltou, ela ficou pendurava do lado de fora do saco, sem vida. Branca e inchada. Havia um pequeno anel no dedo do meio da mão e uma tatuagem no pulso com o número treze.
Foi involuntário o momento em que me virei e Klaus permitiu que eu me virasse, eu não queria mais olhar para aquilo. O rosto de Klaus estava tão branco, sua boca não tinha mais a cor vermelho vivo que tinha antes, ele estava estático. Passou seu braço em torno dos meus ombros, me abraçando de forma protetora não me deixando olhar para aquilo. Meu rosto estava escondido em seu pescoço e minhas mãos envolvidas em torno da cintura dele.
― Solte ela agora, Klaus! ― Ouvi o som da voz do meu pai. ― Seu irmão está aqui como pediu.
Mas eu não reconheci aquela voz, não parecia mais meu pai doce, gentil, protetor. Como ele foi capaz de fazer aquilo? Eu entendo que nós fazemos muita coisa por aqueles que amamos mas matar o irmão de Klaus? Como meu pai foi capaz de fazer isso? Ele era a última pessoa do mundo que eu esperava algo assim.
Afastei meu rosto do pescoço de Klaus, não sentindo mais seu cheiro. Levantei minha cabeça e olhei para o seu lindo rosto, ele parecia tão sem vida quanto aquele cadáver, quando ele me olhou de volta foi que senti o cano tremulo da arma na minha nuca. Os olhos de Klaus cheios de lágrimas e dor, o azul não tinha brilha, era opaco.
― Não faça isso! ― Meu pai gritou e deu um passo na nossa direção mas Klaus se manifestou rapidamente, sem tirar seus olhos dos meus.
― Experimente dar mais um passo e eu a mato. ― Seu tom calmo estava de volta, cada palavra era uma promessa.
Meus olhos nos deles não precisavam de palavras para se comunicar. Os olhos dele estavam tão triste e cheios de lágrimas, eu não sabia o que doía mais nele... se era o irmão morto ou o que ele estava prestes a fazer. Ele fechou os olhos e tomou fôlego, pressionando a arma com mais força na minha nuca, lágrimas escorreram por seu rosto.
Estava tudo bem, se ele me matasse agora eu não ia culpá-lo. Meu pai pediu por isso, ele fez isso... levou Klaus a fazer isso. O abracei com mais força, tentando dizer a ele que estava tudo bem sem precisar falar nada. Foi com a força em meu abraço que a pressão em minha nuca diminuiu até a arma não tocar mais em minha pele, Klaus mantinha os olhos fechados e as lágrimas escorriam sem parar.
― Está tudo bem. Está tudo bem. ― Soltei a sua cintura e levantei minhas mãos até seu rosto, segurei ele com as duas mãos e limpei suas lágrimas com o polegar como ele fez comigo quando me viu pela primeira vez. Minhas mãos pareciam tão pequenas agora, talvez fosse porque eu queria segurá-lo por inteiro. ― Tudo bem, você vai ficar bem!
Suas lágrimas não paravam de escorrer em momento algum e isso me preocupava tanto. Naquele momento não existia nada mais ali, só nós dois em nosso mundo. Não tinha mais lado bom ou lado ruim, só tinha alguém que perdeu sua família e se sentia uma dor terrível. Tudo que eu queria era ver ele parar de chorar, foi então que puxei seu rosto para mais perto do meu e fiquei na ponta dos pés. Fechei meus olhos e senti lágrimas caírem de meus olhos também. Nossos lábios se encontraram numa explosão de sentimentos e com sabor de água do mar. Lágrimas, tristeza, raiva, decepção, alegria, euforia, amor...
Minhas lágrimas se misturando com as deles, seu rosto em minhas mãos. Nossos lábios travavam uma batalha de forças sendo pressionados um contra o outro. Ele me segurou com os dois braços então, me envolvendo ali, suas mãos tão próximas dos meus quadris que eu quase poderia sentir elas.
Afastei meus lábios dos dele sem abrir os olhos e abaixei meu rosto novamente, minha testa foi parar em seus lábios onde ele depositou um beijo carinhoso e cheio de respeito.
― Sinto muito. ― Sussurrou ele em minha orelha.
Eu não tinha entendido porque ele disse aquilo e um segundo depois entendi. O som de um tiro cortou as conversas no estacionamento e iniciou uma gritaria e pânico. Olhei para trás e vi meu pai encostado no carro, como se estivesse muito cansado para ficar de pé mas na verdade ele havia sido atingido. Procurei por todo o seu corpo algum sinal de sangue mas vi que não havia, ele usava colete e o tiro estava bem no meio do seu peito, apenas um furo na camiseta e um pequeno dano ao colete.
― Sua filha é minha agora. ― Foram as palavras de Klaus antes do terror começar.
Primeiro foram os gritos pelo primeiro tiro, depois as pessoas passavam correndo e viam o corpo no porta malas então gritavam mais ainda. Depois outros tiros, muitos e por todos os lados. Cada tiro poderia ser sentido na minha alma.
Klaus não me deixou ver mais nada, escondeu minha cabeça em seu peito e saiu me arrastando pelo estacionamento, ele atirava tanto quanto os outros ali. As pessoas gritavam e choravam, tinha crianças e bebês chorando... aquilo fazia meu coração doer. Klaus me soltou me empurrando, achei que ele estivesse me deixando ir mais só então vi que cai em outros braços. Olhei para o rosto de quem me segurava e vi Stefan. Tive apenas tempo para isso porque fui empurrada novamente, dessa vez para dentro de um carro. Cai deitada no banco e a porta se fechou batendo com tudo. Klaus e Stefan montaram nos bancos da frente, era Klaus quem dirigia.
― Fique abaixada, Caroline! ― Klaus gritou comigo quando viu que eu ia me sentar pelo retrovisor do carro.
Os tiros ecoavam por toda a parte e o som dos pneus do carro cantando, o carro tremia com a velocidade que Klaus dirigia. Eu estava me segurando firme no banco para não cair. Foi então que vi Stefan se pendurando na janela do carro e atirando. Tinha certeza de que eu ia morrer ali. Klaus fazia curvas fechadas e eu não sabia como Stefan ainda não tinha caído, haviam sirenes e tiros. Eu estava mordendo meus lábios com tanta força para não gritar que havia cortado eles, foi quando ouvi um tiro bem acima da minha cabeça e o vidro traseiro do carro se quebrou, foi inevitável não gritar.
― Não levante! ― Stefan foi quem gritou comigo dessa vez.
― Vou ir pelos becos, consigo confundir eles rapidamente pelos becos. Mande uma mensagem de texto para Damon e diga para nos encontrar em casa. ― Ouvi Klaus se dirigir a Stefan.
Os minutos a seguir se passaram tão rápidos quanto o som das sirenes e dos tiros sumiu, Klaus não parou de dirigir por um minuto que fosse até que estávamos em completo silêncio e o carro parou. Respirei fundo antes de finalmente me levantar e vi que estávamos parados em um beco, Klaus desceu primeiro, depois Stefan e eu os acompanhei. Fomos até a saída do beco e só então que me dei conta de estávamos na rua Bourbon, caminhávamos os três em silêncio pela rua cheia de pessoas. Eu parecia uma criança entre Klaus e Stefan que me cercavam como meus guarda costas particulares. Nós entramos os três juntos em um dos prédios que haviam ali e só depois de andar por alguns corredores que reconheci aquele lugar, era a casa de Klaus.
Quando chegamos a enorme sala de estar, vi que Elena e Damon já estavam lá. Elena sentada no sofá, tremula como uma criança assustada enquanto Damon estava sentado ao seu lado e segurava sua mão como se tentasse acalmar ela.
― Shhh! Vai ficar tudo bem! ― Dizia ele, em tom carinhoso. Mas ela tremia como vara verde, dos pés a cabeça.
Eu invejei ela por um momento, queria que nesse momento Klaus estivesse fazendo o mesmo comigo. Mesmo que fosse egoísmo e que agora era mais ele quem precisava de um conforto.
― Caroline! ― Ela gritou e pulou quando me viu. Veio correndo na minha direção e me abraçou forte, um abraço que eu retribui na hora. Estava tão feliz por Elena não estar machucada.
― Você está bem! Eu fiquei tão preocupada! ― Disse a ela.
― Arrumem suas coisas. Estamos partindo amanhã de manhã... ― Ouvi Klaus dizer e nos afastamos.
― Porque não hoje a noite? ― Damon se levantou do sofá.
― Eles vão estar esperando por isso, se dermos esse intervalo de algumas horas não seremos tão pressionados. ― Disse ele. ― Onde está Rebekah?
― Matt está vindo com ela e Hayley. ― Damon disse cruzando os braços sobre o peito. ― O que eu digo quando ela chegar?
― Não diga nada, deixe que eu lido com a fúria adolescente de minha irmã. Eu... eu estou no meu quarto. Não quero ser incomodado por ninguém até amanhã cedo, você pode garantir isso para mim, Stefan? ― Stefan apenas fez que sim com a cabeça. ― Ótimo. Arrumem passaportes para as garotas, elas vão conosco.
― Para onde vamos? ― Stefan perguntou por todos nós, antes de Klaus partir.
― Vamos fazer uma visita ao meu irmão Kol. ― Informou. ― Fiquem prontos. ― Subitamente ele se afastou e saiu da sala, nos deixando sozinhos.
Abracei Elena novamente e olhei para Stefan. O silêncio ali era tenso e frio, todos sabiam o que havia acabado de acontecer. Elijah estava morto e meu pai fez questão de esfregar isso na cara de Klaus acabando com todas as chances que ele ainda tinha de me ter de volta um dia. Mas a nossa nova preocupação agora era essa, Klaus queria partir e nos levar junto.
― Onde é a casa de Kol? ― Perguntei para Stefan.
― Londres. ― Stefan passou a língua sobre os lábios os umedecendo.
― Londres na Inglaterra? ― Meus olhos se arregalaram com a resposta.
― Sim, a não ser que você conheça outra. ― Sempre uma montanha de delicadeza. ― Damon, pode resolver sobre os passaportes? Vou ter que segurar o furacão Rebekah quando chegar.
― Sim irmão, claro, sem problemas. ― Disse Damon, ele veio na minha direção e olhou para Elena em meus braços, então falou antes de sair. ― Cuide dela, ela precisa mesmo da amiga.
― Eu vou cuidar. ― Respondi com um pequeno sorriso no rosto, apesar da situação. Eu não havia tido nenhum tipo de contato com Damon nesses dias mas ele já subiu em meu conceito ao mostrar que se importa com Elena.
Damon se foi e Elena ainda não me soltou. Stefan sem dizer nada foi até o pequeno bar na sala e se serviu de um copo de whisky, deu um longo gole virando o copo inteiro.
― Vocês duas precisam de um pouco de paz. Vão para um quarto, tomem um banho, durmam ou sei lá. Peçam algo para comer aos seguranças, diga que fui eu que mandei. ― Disse ele sem nos olhar.
― Obrigado, Stefan. ― O meu agradecimento foi uma surpresa para ele. O modo como ele me olhou assustado, como se não escutasse essa palavra a muitos anos. ― Vamos, Elena.
Levei Elena para um dos quartos como Stefan me recomendou, ela não parava de chorar mas também não falava nada. Eu acho que conseguia lidar melhor com a situação por ter visto isso todos os dias com meus pais mas Elena não, ela era diferente. A filha de um professor e uma mãe meia maluquinha. Jamais em seus piores pesadelos ela ia imaginar algo assim acontecer com ela, os pesadelos de Elena eram sobre filmes de terror com Freddy Krueger e não esse horror que ela vivia agora. Queria que pelo menos ela pudesse sair livre daqui. Ajudei ela a tomar um banho e depois a se vestir com as mesmas roupas, então me deitei com ela na cama e fiquei ali a vendo chorar sem ter o que fazer, apenas a esperando terminar de chorar até finalmente dormir. Assim que ela dormiu sai do quarto.
Voltei para a sala e encontrei Stefan sentado numa poltrona no canto da sala, um copo de whisky vazio na mão e a garrafa no chão entre os seus pés. Ela estava cheia antes e agora estava quase no fim.
― Elena dormiu. ― Informei. ― Onde estão os outros?
― Matt levou Rebekah para... ― Uma pausa :― sei lá. ― Stefan disse se inclinando para pegar a garrafa e se servir de mais um copo. Ele estava embriagado, era evidente.
― O que ela ainda faz aqui? ― Fomos interrompidos pela voz que tinha um toque de sensualidade conhecida.
Hayley estava parada na porta e me olhava como se fosse me bater, os braços cruzados sobre o peito e cara fechada não negavam o seu evidente descontentamento com a minha presença ali.
― Agora não, Hayley! ― Stefan disse cortando o assunto, sua voz embriagada e o modo como ele revirou os olhos para ela.
― Agora não? Elijah está morto e é tudo culpa dela! ― Hayley gritou vindo na minha direção. ― Eu mesma deveria cortar a sua garganta se Klaus não tem coragem... ― Ela me ameaçou e por um momento achei que ela realmente fosse me bater ou fazer algo pior.
― Caso você tenha se esquecido, eu não pedi para ser sequestrada. ― Assim que terminei de falar com ela, me dirigi a Stefan. ― Desejo falar com Klaus, é muito importante.
― Você ouviu o que ele falou, não ouviu? Ele não quer ver ninguém! ― Stefan me explicou a situação como se estivesse falando com uma criança que ainda não sabia falar.
― Não fale comigo como se eu fosse burra! ― Disse irritada para ele e cruzei os braços. ― Vou falar com ele, com sua permissão ou não.
― É burra o bastante para pedir para morrer... Deixe que ela vá, Stefan. Estou aqui em baixo torcendo para que Nik faça com ela o que deveria ter feito a muito tempo.
Stefan bêbado e desleixado deu de ombros como se não se importasse com o que eu ia fazer a seguir, afinal, Hayley já tinha me avisado do que poderia acontecer e mesmo assim eu teimei então não é culpa dele.
― Primeira porta em cima da escada. ― Stefan murmurou. Hayley ficou de boca aberta com a atitude de Stefan.
Forcei um sorriso para ela e fiz questão de subir a escada degrau por degrau, bem devagar para que ela pudesse me ver. Eu ia falar com Klaus, ele poderia ficar comigo se quisesse mas que deixasse Elena voltar para a casa.
Sabia que não ia conseguir tirá-la dali por conta própria então ia tentar negociar isso com Klaus afinal, ela já tinha me escutado antes. Talvez pudesse agora também. Quando cheguei no topo da escada dei de cara com as portas mais luxuosas daquela casa que eu havia visto até agora, eu não sei porque aquilo me surpreendeu se era tão a cara de Klaus. A madeira que tinha detalhes perfeitos como se fossem desenhados a mão e levaram um longo e trabalhoso cuidado, sem contar os detalhes cravados em ouro e a maçaneta em ouro puro.
O design da porta era feito a semelhança de Klaus, era escuro e sombrio, luxuoso e fazia questão de chamar a atenção. Mas em momento algum deixava de nos fazer desejar aquilo.
Sabia que se eu batesse na porta ia ser completamente ignorada, então nada melhor do que uma entrada teatral. Abri a porta com tudo e dei de cara com um corredor não muito longo, porque eu já não esperava isso? Klaus não ia se contentar com um simples quarto. Fechei a porta bem atrás de mim e caminhei pelo corredor chamado por seu nome.
― Klaus! Klaus! ― Não recebi nenhuma resposta. Continuei a caminhar pelo corredor até finalmente estar no quarto. Parado como uma estátua no centro do quarto, os braços cruzados no peito e o único som ali era o da lareira queimando lenha a todo vapor. ― Oi? Você não me ouviu?
― Claro que eu ouvi, Caroline. Acredito que toda a cidade tenha escutado. Eu não estou em clima para companhia, só relembrando caso você não tenha entendido o recado lá embaixo. ― Sua voz estava fria e rouca mas eu podia sentir as faíscas de sentimentos nela.
― Olha, eu sei que você está mal com tudo isso mas, se vai me tratar mal de novo pelo menos espere para ouvir o que eu tenho para falar. ― Disse olhando diretamente para as suas costas, me irritava a maneira como ele fazia questão de não se virar e ele sabia que isso me deixava brava, por isso mesmo fazia questão. Fiz uma pausa esperando ele se virar mas nem deu sinal de vida. ― Você pode por favor, ― Dei ênfase no por favor:― olhar para mim enquanto estou falando? Porque eu sinto como se estivesse conversando com as paredes. Me mate mas, não me ignore porque isso em tira do sério.
A única resposta que eu tive foi um suspiro cansado demais para responder as minhas criancices, como ele pensava.
― Olha, você tem todo o direito de me fazer a sua prisioneira eterna mas deixe Elena voltar para casa. Ela não tem nada a ver com isso. ― Disse engolindo o pouco de saliva que tinha na boca.
― Eu não acho que você esteja na posição de pedir nada de mim, Caroline. Eu já fiz mais do que o suficiente hoje. Não cogite nem a ideia sobre me pedir alguma coisa. ― Finalmente ele se virou, soltando os braços e caminhando lentamente até mim. Ele parou na minha frente, tão próximo de mim que eu podia sentir o seu cheiro, podia ver os seus olhos vermelhos de chorar pelo que perdeu. Oh, Klaus, ver você sofrer dói em mim. Foi o que eu pensei mas não ia baixar a guarda, tinha que fazer pela a minha amiga e ajudá-la.
― O suficiente? Klaus você começou isso! Sabia desde o começo que isso poderia acontecer, deveria ter pensando nas coisas que você ia perder quando fez isso e não apenas na sua... na sua... ― Eu procurava as palavras certas mas tive que colocar do jeito mais rude que encontrei. ― paranoia de vingança.
― Não tente entender os meus motivos, nem as coisas que eu faço e porque eu faço, isso cabe apenas a mim. Não me importo com a sua opinião. Você viu o que você foi capaz hoje? Eu tenho uma reputação, eu deveria ter matado você hoje lá no meio de todo mundo para ensinar uma lição para o seu pai. Ele tirou de mim a coisa mais importante, mais valiosa e eu deveria ter tirado o mesmo dele. ― Disse ele, finalmente relaxado e não controlador. Seu lábio inferior estava um pouco trêmulo de raiva.
― Se está se mordendo de vontade aí porque não a mata? Vamos lá Klaus, me bata! Me mate! Faça alguma coisa porque não o vi agir até agora... Estou esperando, me mate ou me beije. ― Levantei meu rosto até que meu queixo ficasse na altura do dele, assim como meus olhos. Klaus não era o homem mais controlado do mundo mas eu também não ajudava, eu era tão infantil quanto ele nesse quesito, fazia questão de provocar também. Esse era um dos meus melhores talentos.
Ele agiu tão rápido que aquilo me pegou com a guarda mais baixa do mundo, vulnerável como uma criança. Suas mãos grandes e fortes agarram meus braços com força e me empurram pelo quarto. Ele me prensou contra a parede me fazendo bater as costas e a cabeça na mesma com toda a sua força, ficando presa entre ele e a parede. Seu rosto abaixado e bem perto do meu, sua respiração quente fazendo cócegas no meu rosto. E ele ainda fez questão de se encostar em mim, suas coxas nas minhas, seu peito no meu.
― Você sabe que eu nunca faria nada para machucar você e ainda assim faz questão de me provocar até o ponto em que eu explodir... ― Ele fez uma pausa e fechou os olhos, tentando se concentrar em suas palavras, como se estivesse contando até dez. Era com o híbrido que eu estava lidando. Klaus abriu os olhos novamente, me fitando. Então eles continuou logo :― Estou lutando com cada demônio dentro de mim por você, Caroline. E eu odeio isso. Você me torna fraco. Eu mostrei bondade, perdão, piedade. Por causa de você, Caroline. Foi tudo por você. Você é minha fraqueza e vou mantê-la comigo para que não seja usada contra mim. Você é minha agora, minha rainha das trevas.
Ele encaixou sua mão entre meus cabelos e me puxou para ele, sua boca tão próxima da minha, fervendo de desejo. Klaus inclinou a cabeça e me beijou. Nada poderia ser comparado a sensação que eu senti, não era um pequeno beijo e tímido como o que lhe dei mais cedo, era um beijo real. Um beijo desesperado, ofegante e cheio de paixão. Nossa cabeças viravam para lados opostos enquanto nos beijamos, sua língua deslizava pela minha e me invadia por inteira. Sua mão entre meus fios de cabelos me prendiam a ele e de outra forma ele também fez questão de me prender. Me afastou da parede apenas o suficiente para descer sua mão pelas minhas costas e só para sobre a minha bunda, a qual ele fez questão de apertar, o que me fez soltar um gemido entre o beijo. Depois sua mão deslizou pela minha coxa e a puxou até a altura da cintura dele, dando mais liberdade para ele se encaixar em mim. Ele me beijava de verdade pela primeira vez, não mais como sua moeda de troca e sim como sua mulher.
Klaus me levava para outro mundo, eu não conseguia me controlar perto dele. Talvez ele também fosse a minha fraqueza.
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