Criminal.
13 Capítulo 13: Beautiful liar.
Notas iniciais
Point of view: Demetria.
Eu estava distraída, perdida entre meus próprios pensamentos com a lembrança da cena do dia anterior me atormentando a cada segundo mais. É claro que mesmo querendo fazer o mal para a mulher, eu não seria capaz de fazer tão mal quanto aquele imundo pretendia fazer. Abaixei a cabeça sem me importar com o assunto que era abordado pela mesma que estava sentada em minha frente e escorreguei um pouco mais em meu próprio assento, evitando a explosão que estava prestes a ter por falta de paciência. Quanto mais Selena falava, mais o meu sangue subia. Eu precisava ter sentido o sangue daquele cara para me dar por satisfeita e saber que ele teve o que realmente merecia. Joseph com certeza havia feito coisas prazerosas com ele e eu estava ali, me controlando para não falar sobre mortes e assassinatos por causa de uma mulher. Por que eu estava me controlando?
- Com licença, senhoritas. Aqui está o pedido de vocês. – agradeci mentalmente quando o garçom serviu o almoço – Bom apetite.
- Obrigada. – Selena agradeceu com um sorriso –
Passamos milagrosos 20 minutos em silencio quase absoluto e mantive meu olhar sempre alerta no ambiente onde nos encontrávamos, procurando qualquer sinal de perigo que pudesse haver ali. Eu estava alerta desde que havia sido pega pela polícia e também não queria encontrar nenhum “conhecido” que tirasse a paz do meu almoço. Meus olhos pararam em uma mulher que tinha traços levemente finos e latinos e instantaneamente engasguei com a comida, chamando uma atenção que não queria para mim. Desviei o olhar para Selena apenas para constatar de que os traços eram extremamente parecidos e endireitei minha postura na cadeira, ficando completamente imóvel sem tirar os olhos da mulher que ainda me observava um tanto quanto hesitante.
- O que está olhando? – ouvi a voz distante de Selena me chamando –
- Onde exatamente sua mãe está agora? – fechei ambas as mãos em punho –
- Toluca Lake. – minha visão periférica me permitiu ver o franzir de cenho da mulher a minha frente – Por que?
- Sua mãe tem uma irmã gêmea? – engoli em seco com o plano que começava a se formar em minha mente –
- Ah Demi, que droga! O que você está vendo?
Selena girou na cadeira e olhou para trás, demorando alguns segundos para virar outra vez para mim, olhando-me com uma expressão que não consegui entender.
- É a minha tia. – retomou o garfo e voltou a comer –
- Será que podemos ir embora? – perguntei observando cada movimento que a mulher da mesa mais afastada fazia –
- Tudo bem.
Não esperei que o garçom viesse trazendo a conta ou nem mesmo que Selena pegasse dinheiro na bolsa que havia sido entregue a ela pouco antes de sairmos da minha casa. Prendi uma nota de 100 sob o prato e entrelacei meus dedos com os dedos finos de Selena para andar o mais rapidamente que conseguisse até o veículo preto que pertencia a minha mãe, abrindo a porta para a mulher antes de dar a volta e ligar o carro, apertando os dedos no volante.
- Você me pediu para esquecer a minha mãe por um dia e agora olhe só para você. Mal consegue disfarçar a raiva ou seja lá o que você está sentindo só porque viu uma mulher parecida com ela.
- Me faz um favor? – olhei para o lado e encontrei os olhos castanhos com uma pequena parcela de chateação –
- Fala.
- Só fica... quieta. Tente não piorar ou agravar a minha situação e você já estará fazendo bastante. – sorri forçadamente para ela –
- Será que se passa pelo menos um segundo na sua cabeça que eu não tenho culpa de ser filha dela? – o rosto pálido começou a ganhar um tom avermelhado – Acho que não! As vezes você age como uma estúpida, sabia? Isso é ridículo, Demi! Eu quase cheguei a achar que você realmente gostava de mim, mas quando eu começo a perder o medo coisas assim acontecem e a única conclusão que consigo chegar é que você só quer mesmo brincar! Você nem se importa se eu vou sofrer!
- Cala a boca! – gritei – Eu estou me perguntando desde ontem porque eu não enforquei aquele maldito garoto na sua frente já que eu não estou nem aí para sentimentos como você mesma diz, e então eu descubro que eu não sei por quê! Eu me esforcei por alguém que nem mesmo deveria me importar, e agora você começa com todo esse papo outra vez! – soquei o volante com força – Me dê um tempo! Eu estou tentando não odiar a sua mãe para conseguir gostar mais de você!
- Quer saber? – esticou o braço para trás até alcançar a bolsa que descansava sob o banco e com a mão livre abriu a porta – Eu desejo do fundo do meu coração que você bata esse carro e morra.
Não impedi Selena de sair, precisava mesmo de um tempo livre dela. Era difícil assimilar qualquer coisa com tantas informações sendo processadas ao mesmo tempo em minha mente. O quase estupro de ontem, Selena tentando me agarrar a noite inteira enquanto estava drogada, o turbilhão de palavras que ela disparava sem parar desde que havia acordado e agora aquela mulher, para terminar de bagunçar o que já não estava muito organizado. Eu não via a hora de conseguir a confissão de Selena de que estava apaixonada, assim eu poderia acabar logo com tudo aquilo, me livrar da garota e cumprir meu propósito de uma vez. Seria ótimo saber que Mandy estava perdendo noites de sono e tranqüilidade com a filhinha. Olhei no relógio constatando que haviam se passado apenas 7 minutos desde que ela havia saído do carro e dei partida no mesmo, dirigindo lentamente até observar alguns metros a frente a figura alta e com passos fortes visivelmente aborrecida. Os fios negros caíam ondulados na costa e o andar gracioso tornava-a ainda mais sexy. Se ela não fosse a minha vingança perfeita eu até poderia gostar mesmo daquela mulher. Abri o vidro do carona e diminui a velocidade, acompanhando o andar de Selena.
- Ei! – olhei para ela rapidamente – Entre aqui, vou te levar em casa.
- Já disse que espero que morra. – nem mesmo me olhou e continuou caminhando –
- Se eu morrer você irá se sentir culpada. – ignorei as buzinas atrás de mim e liguei o pisca alerta do veículo –
- Culpa é algo que não se aplica a mim quando o assunto é você. Nunca me sentiria culpada por nada que faço relacionado a você. – segurou a bolsa com mais firmeza junto ao corpo –
- Está dizendo que se eu bater o carro e morrer agora não vai sentir nem um pouco de remorso? – meu olhar alternava entre Selena e a pista a minha frente –
- Nem um pingo.
- Vamos lá, não banque a durona e entre logo no carro. – pedi –
- Prefiro ser baleada do que entrar nesse carro com você outra vez.
- Por que toda essa repulsa agora? – ri fraco achando divertido o jeito como ela tentava me ignorar –
- Repulsa é uma palavra forte demais. Eu não sinto nada forte demais por você.
- Você está começando a me tirar do sério. – admiti ao frear o carro de uma vez – Ou você entra ou eu vou sair e te colocar aqui dentro a força, e você sabe que eu sou capaz disso.
Por uns segundos nossos olhares ficaram conectados, ela parecia estudar as opções que haviam sido dadas e por fim optou por entrar no veículo um pouco contra a própria vontade.
[...]
A xícara presa em minhas mãos liberava uma fumaça quase transparente e imperceptível, porém o aroma do café fresco preenchia praticamente toda a sala onde eu me encontrava e suspirei satisfeita, sorvendo um gole do líquido escuro e melado antes de tragar meu cigarro já pela metade. Observei tediosamente o piano branco antes de desviar os olhos para a parede onde um diploma pendia emoldurado com uma madeira também branca. Estremeci com a simples lembrança do nome ao qual o pedaço de papel pertencia. Mandy. O som de Selena descendo a escada me fez esquecer por alguns segundos o que estava fazendo e quando voltei a realidade, estremeci outra vez, de uma forma diferente. Levei a xícara e o cigarro até a mesa de centro, recostando novamente no sofá para conseguir ter uma vista um pouco mais privilegiada da garota que vestia apenas um roupão. Selena aproximou-se de mim com passos lentos, parando diante do sofá com uma postura totalmente diferente da que mantinha quando chegamos. Os ombros relaxados e os olhos serenos eram complementados por um meio sorriso que era mantido pelos lábios rosados.
- Você já vai? – perguntou –
- Sim... Estava apenas esperando você descer para se despedir. Preciso mesmo voltar para o Brooklyn agora. – bati com a mão no espaço livre ao meu lado –
- Quando vamos nos ver outra vez? – sentou-se de lado no sofá, de frente para mim –
- Não sei... Sabe onde me encontrar. – virei-me para ela e sorri –
- Você também sabe. – suspirou –
- Eu sei cada passo seu. – falei em tom de brincadeira e ela sorriu cansada – Tente relaxar. Eu posso pedir para alguém ficar vigiando sua casa, se for fazer você se sentir mais segura. – coloquei uma parte da franja negra atrás da orelha dela – Mas nada vai te acontecer.
- Queria que ficasse aqui comigo. – a voz de Selena vacilou – Quero mais do que deveria.
- Por que diz isso? – segurei-a pelo pescoço fazendo um carinho leve com a ponta dos dedos –
- Eu não quero me machucar, Demi. – suspirei ao sentir o começo de uma conversa chata sobre sentimentos e blá blá blá – Nem quero falar sobre isso agora.
- E o que você quer? – estreitei os olhos –
- Eu só quero... Chorar.
- Por que chorar? – franzi o cenho –
- Porque eu estou apaixonada por você.
Involuntariamente meus lábios entreabriram e meu cenho se franziu. Será que o refrigerante do almoço estava com LSD e eu não vi?
- Quer dizer... – continuei olhando-a com a mesma expressão confusa – Eu não sei. As minhas mãos ficam geladas cada vez que eu te vejo, e algo no meu coração se acende quando você sorri. – a observação tímida me fez sorrir – Como agora. Alguma coisa me diz que isso pode ir além de vingança e jogos e dor. Talvez eu seja uma estúpida por estar dizendo tudo isso... – ela balançou a cabeça negativamente e suspirou – Mas eu não consigo mais controlar, e já que eu estou no inferno eu prefiro abraçar o diabo a tentar fugir dele.
- Percebeu do que acabou de me chamar? – ergui a sobrancelha tentando controlar a felicidade que estava praticamente entorpecendo minha mente –
- Você não é nenhuma santa. – revirou os olhos –
- Não parece muito feliz... – ajeitei-me melhor no sofá virando de frente para Selena –
- Fala como se estar apaixonada por uma criminosa que quer se vingar da sua mãe fosse a melhor coisa do mundo. – manteve a expressão facial fria –
- Também não é legal estar apaixonada pela forma mais fácil de vingança que eu tinha. – menti, sorrindo em seguida ao ver o rosto de Selena se transformar –
- Isso quer dizer que... Que... Você... – assenti mordendo uma pequena parte do meu lábio inferior –
- Eu estou apaixonada por você, Selena... – sentei-me com a coluna apoiada no encosto do sofá e puxei a garota para sentar em minhas pernas de frente para mim, me esforcei ao máximo para que a mentira recém dita fosse acreditada – Pode parecer difícil acreditar, e eu posso não tornar as coisas muito fáceis, mas é a verdade. Eu me controlei para não matar o garoto, não me aproveitei enquanto você estava drogada e até me controlei hoje para não dar uma boa surra naquela mulher que você diz ser sua tia. Quer mais provas?
Selena sorriu e envolveu meu pescoço com os braços, dando-me um selinho demorado antes de percorrer todo o contorno dos meus lábios com a ponta da língua e pediu passagem com a mesma através dos meus dentes, que logo foi concedida sem precisar pedir novamente. A parte mais difícil do plano já estava feita, e agora só dependia de mim. Ou eu partia logo o coração da pequena inocente em meus braços e não tirava nem um pouco de proveito da situação, ou eu fingia por mais um tempo e além de deixar a situação muito mais dolorosa eu ainda teria o bônus de carinho, atenção e é claro, sexo, a hora que eu quisesse. A segunda opção era muito mais atraente.
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