Criminal.
11 Capítulo 11: Tell me how could you be so cruel?
Notas iniciais
Point of view: Selena.
Aproveitei bastante o tempo no shopping com as meninas, sentia falta daquilo em minha vida extremamente atarefada desde que comecei a fazer faculdade. Depois de tirar a primeira nota baixa em todo o meu currículo universitário comecei a me dedicar mais ao estudo e consegui recuperar com facilidade os pontos que havia perdido, ficando até bem acima da média, o que tornou possível aquele “dia de garotas” estar acontecendo. Fomos a um pequeno “parque” montado dentro do próprio shopping e brincamos um pouco em todas as máquinas que haviam ali, Taylor até ganhou um urso em uma daquelas máquinas onde você controla uma garra que desce e tenta pegar um bicho de pelúcia. Era um elefante rosa, o mesmo que ela começou a chamar de Elle. Já era próximo das 22:00 quando liguei para Demi e precisei esperar um pouco até que a mesma atendesse com a voz rouca.
- Te acordei?
- Sim, mas não tem problema. Pode falar.
- Você disse para te ligar assim que estivesse saindo. Minhas amigas já foram embora, mas pode continuar dormindo, eu vou pegar um táxi. – comecei a caminhar na direção do ponto –
- Não... Eu vou até aí. – ouvi algo cair do outro lado da linha – Puta que pariu. Me espere na porta do shopping, em 10 minutos eu chegarei.
- Ok.
Coloquei o celular no bolso antes de dar meia volta e começar a caminhar tranquilamente por trás do shopping na direção da entrada do mesmo, mas ouvi passos arrastados atrás de mim e aquilo me fez começar a andar mais rápido. Quando dei por mim, estava correndo e olhando para trás diversas vezes apenas para me certificar de que um homem moreno e alto com cabelos espetados para cima repetia meu movimento. Meu esforço foi inútil pois ele conseguiu segurar-me pela cintura e ergueu meu corpo alguns centímetros do chão, interrompendo subitamente minha corrida.
- Onde pensa que vai, garotinha? – sussurrou próximo do meu ouvido –
- Me coloque no chão! – gritei –
- Ei, se eu fosse você não faria isso. – a risada baixa me fez gelar – Eu só quero conversar um pouco. – apertou-me ainda mais – Então por que não larga todas essas suas porcarias aí e me acompanha até o meu carro, ahn? –
- Demi vai matar você! – exclamei contorcendo-me inutilmente entre os braços fortes –
- Quem diabos é Demi? Sua irmã mais velha revoltada com a vida? – ele riu alto enquanto caminhava em direção ao veículo estacionado em uma área escura –
Tentei gritar novamente, porém a mão grande foi suficiente para tampar minha boca e até mesmo uma parte do meu nariz, deixando-me sem muitas opções. O choro desesperado rompeu minha garganta no momento em que minha bolsa e o capacete foram arremessados no banco traseiro do veículo e ele trancou as portas, jogando a chave em algum lugar no console. Observando por uma fração de segundos, reconheci aquele garoto. Ele estava na roda mais cedo assim que cheguei ao shopping. Senti o peso do corpo másculo ser largado contra o meu no banco ao lado do motorista antes que os dedos habilidosos estivessem segurando meu cabelo com fúria e certa violência para que eu não tivesse resistência ao beijo que o garoto depositava em meu pescoço. Ambas as minhas mãos estavam imobilizadas com a dele, e por mais que tentasse me livrar daquilo não tinha a menor chance contra os incontáveis músculos bem definidos no bíceps e tríceps do rapaz. Quando a mão livre do mesmo deslizou por baixo da minha camiseta como se a mesma não existisse e alcançou meu seio direito ainda coberto pelo sutiã, outro grito ecoou no veículo já fechado, retirando um sorriso satisfeito do rosto dele.
- Grite o quanto quiser, sua vagabunda. A gostosa da sua namorada não está aqui pra te defender. Sabe o que eu acho sobre garotas que beijam garotas? Precisam de uma experiência sexual com um homem de verdade, e eu estou querendo te dar uma, mas você não está contribuindo. – um tapa acertou meu rosto em cheio, tornando meu choro ainda mais intenso – Para de chorar! Diga que você não está querendo sentir isso dentro de você. – ele movimentou-se lentamente sobre mim, fazendo com que o volume rígido na calça roçasse em minha barriga parcialmente descoberta – Aquela piranha loira não tem isso, não é mesmo?
No momento que procedeu a frase, uma melodia fraca começou a tocar dentro de minha bolsa. Provavelmente Demi tentando saber onde eu estava. Por favor, Demi, me encontre!
- Vejamos quem está procurando a gatinha. – inclinou-se para trás procurando algo em minha bolsa – Olha, a tal Demi! Será que eu atendo ou não?
Enquanto parecia pensar e se divertir com a situação, consegui destrancar a porta e colocar parte do corpo para fora, sendo segurada apenas pelo braço.
- DEMI! DEMI, EU ESTOU AQUI! DEMIIIIIIII! – gritei –
- Selena? – ouvi o motor da moto roncar – Selena, onde você está? – gritou de volta –
- DEMI! DEMI, AQUI ATRÁS!
Fui puxada novamente para dentro do veículo, e o punho forte desferiu um soco contra a lateral da minha cintura, fazendo-me tossir com a visão embaçada e uma falta de ar insuportável. Estava começando a enxergar o breu quando o barulho da porta sendo aberta me fez virar a cabeça para o lado e lá estava ela, acertando murros seguidos no rosto do garoto que antes fazia o mesmo comigo. Ao ver que ele nem mesmo teve tempo para reagir e já estava com a face ligeiramente ensangüentada, abaixei a cabeça permitindo a mim mesma desmaiar quando soube estar segura.
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- Selena?
Abri os olhos lentamente ao ouvir a voz feminina rouca soar bem no fundo da minha mente. Durante poucos segundos pensei que tudo não havia passado de imaginação e que acordaria deitada no sofá da sala com Demi me observando e sorrindo. De fato, os olhos castanhos que estavam negros naquele momento me encaravam, porém o sorriso não estava presente ali, e o ambiente era iluminado apenas por uma vela.
- Onde nós estamos? – franzi a testa ao ver a mão pálida ser estendida em minha direção –
- Não queira saber. – segurei a mão que percebi estar gelada e tremula e sentei-me – Como você se meteu nisso?
- Eu não me meti nisso. – disse um pouco chateada por ela achar que era minha culpa – Ele me seguiu quando saí e me pegou depois que falei com você. Como você viu, ele era bem maior do que eu e muito mais forte, por mais que eu tentasse gritar ou me soltar ou sei lá o que, a minha chance era praticamente nula. – esfreguei o rosto ainda sentindo os efeitos do nervosismo –
- Ele não foi grande e nem forte o suficiente para lidar comigo.
O sorriso que vi no rosto daquela garota foi amedrontador. Sim, eu senti medo. Havia malicia em cada vinco que o simples tencionar dos músculos faciais causava. Os braços cruzados protegidos pela jaqueta preta soltaram-se e ela voltou a segurar minha mão, guiando-me em silencio através do pequeno cômodo até uma porta onde havia uma cozinha igualmente pequena e escura, porém Demi conseguiu com maestria achar um copo e água, estendendo-a para mim antes de deslizar a mão ainda fria pela lateral do meu rosto, afastando uma parte do meu cabelo dele. Eu não conseguia ver nada, porém um gemido baixo e forte como um trovão me fez agarrar o corpo da garota próxima a mim e novas lágrimas ameaçaram cair.
- Ei, não chore. – perguntei-me como ela poderia estar vendo tudo aquilo com o resquício de luz que a vela acesa na sala proporcionava – Ele está amarrado, não vai fazer nada com você.
- O que ele está fazendo aqui, Demi? – choraminguei –
- Você acha que o cara vai tentar te estuprar e eu vou me contentar em apenas socar a cara dele? – novamente a mão dela percorreu meu rosto e um selinho demorado foi dado em meus lábios – Ele vai pagar por cada segundo que o corpo dele tocou o seu.
- Demi... O que você vai fazer? – sussurrei –
- Não se preocupe, Selena. Ele não vai ter nada além do que merece.
Fui guiada até um terceiro cômodo, esse com uma cadeira no centro e uma mesa encostada na parede. No teto, uma lâmpada fluorescente foi acesa e iluminou o que julguei ser um quarto. Todo o chão e as paredes eram tapados com uma espécie de tecido impermeável extremamente difícil de se encontrar, e bem caro por sinal, mas dinheiro não parecia ser o problema para Demi. Demorou alguns minutos até que ela aparecesse puxando uma corda grossa arrastando o corpo amarrado do garoto até o centro do quarto, e sem dificuldade alguma ela o colocou sentado na cadeira, retirando algemas de uma das gavetas da mesa e usando-as para prender os braços dele nas laterais da cadeira. As pernas também foram presas nas pernas da cadeira.
- Demetria... Eu não posso participar disso. Eu estou sento cúmplice de um crime. – coloquei as mãos atrás da nuca – Isso se chama prisão domiciliar, e pode ser considerado um crime grave.
- Você acha que alguém vai saber de tudo isso? – ela riu alto antes de levantar-se e vir lentamente até mim – Nossos queridos amigos policiais já estão sabendo sobre o que vai acontecer aqui, Selena, e adivinha? Eles estão totalmente de acordo. Então fique calma... Eu não seria capaz de colocar sua carreira e vida em risco. – em raros momentos eu conseguia sentir ou perceber sinceridade na voz e olhar de Demi, entretanto aquele era um desses momentos –
- Acho que ele já pagou pelo que tentou fazer comigo. – suspirei com pesar –
- Não, ele não pagou. Ninguém encosta na minha garota e sai vivo.
O olhar possessivo me fez estremecer. Por mais que minha mente e corpo gritassem para sair dali, meu coração estava batendo acelerado contra minha garganta e ter a noção de que ela estava se vingando por mim deixaram a energia daquele lugar extremamente excitante. Um bastão de baseball foi retirado da primeira gaveta da mesa encostada na parede, e o garoto que antes tinha o olhar na minha direção arregalou os olhos debatendo-se inutilmente contra a cadeira. A boca amordaçada por um pano branco estava semi aberta e o choro o fazia engasgar diversas vezes antes que o pedaço bem trabalhado de madeira tocasse seu rosto delicadamente, como que medindo a distancia e forças necessárias para fazer um estrago na primeira “tacada”. Nunca pensei que diria ou sentiria tal coisa em minha vida, mas ver Demetria “em ação” era melhor do que passar uma tarde inteira assistindo televisão e comendo sorvete, era melhor do que comer uma barra inteira do seu chocolate preferido. O taco foi afastado e antes que você possa dizer ‘primeiro arremesso’ o som da madeira contra o rosto do garoto ecoou através da sala, seguido por um grito agoniado de dor que rompeu a garganta do garoto enquanto lágrimas molhavam toda a face do mesmo. Demi fez um movimento circular com o pescoço como se estivesse se aquecendo e repetiu o movimento de antes, dessa vez conseguindo um corte profundo na lateral direita do rosto dele.
- Você vai aprender a nunca mais encostar sua mão em uma mulher sem ela deixar. – o taco cortou o espaço, acertando agora um pouco acima do corte – Entendeu? Seu filho da puta! – gritou –
- Demi, pare. – senti o choro travar em minha garganta – Por favor. – fechei os olhos quando o sangue começou a pingar pelo rosto dele –
O taco foi abandonado no chão antes que ela estivesse se dirigindo novamente para a mesa. Ao ouvir o som do metal se chocando contra algo, olhei novamente para ela e só então reparei que usava uma touca escondendo o cabelo. Em suas mãos, um bisturi reluzente girava frenéticamente.
- Demi, por Deus. O que você vai fazer?
Sem obter resposta, tudo o que pude fazer foi observar. O objeto cortante roçou a garganta sem retirar uma gota de sangue, e em seguida subiu pela lateral intacta do rosto, ainda sem provocar corte algum. Logo abaixo, o bisturi foi usado para cortar a camiseta pólo preta que o garoto trajava, e Demi arrancou-a com força, jogando no canto do quarto junto com o objeto prateado. Novamente o taco estava em suas mãos e acertou em cheio poucos centímetros abaixo das costelas, fazendo-o abaixar a cabeça dando a entender que havia desmaiado. Senti que se aquilo fosse durar muito mais tempo, iria acabar desacordada como o garoto na cadeira. Era errado estar ali vendo aquele homem ser torturado sem fazer nada para impedir, era errado continuar assistindo a tortura dele enquanto Demi parecia se divertir cada segundo mais, era tudo errado demais. Meu corpo alertou que talvez fosse a hora de sair dali, porém a voz da garota sussurrou baixo contra meu ouvido.
- Eu não vou matá-lo na sua frente, é uma promessa, fique tranqüila. Não me olhe como se não soubesse que isso é parte de quem eu sou, Selena. Você sabia disso desde o início. – fitou-me –
- Sei disso desde o início, mas não preciso viver isso dessa forma, Demetria. – balancei a cabeça em tom negativo –
- Porra Selena, ele ia estuprar você! – exclamou com a voz distorcida pela raiva – E você ainda está com pena desse desgraçado? Não é possível!
- Eu não estou com pena, só acho que já fez mais do que o necessário e ele aprendeu a lição. – tornei a abaixar a cabeça –
- Inacreditável. Gostaria de saber se seu pensamento seria o mesmo caso estivesse estuprada e semi morta agora jogada em algum buraco na rua por aí. – sorriu cínica – Porque não pense que esse tipo de homem faria menos do que isso. Você quer saber o que eu encontrei no carro dele? – ergueu a sobrancelha direita – Eu encontrei drogas, bebida, facas e duas pistolas carregadas no porta luva. Ele não hesitaria em usar isso com você, sua estúpida! – gritou com o rosto afastado do meu – Que porra! Por que você não consegue ver? Se você não vive nesse meio e não entende dessas coisas eu faço questão de te dizer: eu conheci gente como ele, e ele não ia ficar satisfeito até ver você colocar sua última gota de sangue para fora! Ele não é um pobre coitado Selena! Ele é um estuprador e merece muito mais do que tudo isso o que eu estou fazendo com ele! Se você não quer assistir, então faça como achar melhor! A porta está aberta para você sair a hora que quiser! Inferno de garota ingênua!
Toda aquela gritaria me deixou sem ação enquanto observei Demetria aproximar-se novamente dele e prender sua cabeça em um saco plástico transparente enquanto ele se debatia a procura desesperada de ar. Abaixei a cabeça escondendo a mesma entre as mãos para não presenciar aquela cena e em algum momento temi pela minha própria vida. Eu estava em um ambiente com uma assassina que tinha meios e armas para me matar naquele instante caso eu fizesse algo errado. O som das algemas balançando contra a cadeira cessaram e deduzi que era o fim, ele estava morto, contudo a respiração forte me fez entender que ele havia voltado a si e que como prometera, Demi não havia tirado a vida dele. Ergui o rosto e estremeci quando vi o garoto com a face completamente coberta pelo líquido de coloração vermelho vivo assim como o saco plástico na mão dela. Uma música eletrônica começou a tocar e prontamente foi silenciada, dando lugar a voz agora calma e controlada da garota.
- Joseph. – silencio – Sim, eu estou aqui... Não. Porque não, Joe. Quero ver você rir quando eu quebrar todos os seus dentes com um soco. Sim, está tudo bem. É, eu falei com eles antes de vir e deixei o dobro da quantia combinada lá, só para garantir que estaria tudo bem. Não, infelizmente não. Porque eu prometi que não o faria na frente dela, babaca. – ela abaixou a cabeça e riu – Você quer? Certo, vou te esperar chegar. O Nick está por aí? – olhou-me pressionando mais o aparelho contra o ouvido – Ok. Não demore. Tchau.
Encolhi-me contra a parede quase que permitindo ao meu próprio corpo escorregar pelo chão. O rosto desfigurado do homem desmaiado na cadeira trouxe-me a sensação de vulnerabilidade e não consegui conter o choro que rompeu minha garganta, proporcionando ao meu corpo pequenos espasmos e arrepios enquanto ouvia passos indo e vindo no quarto. Em certo momento quando o rapaz acordou, o som do taco novamente chocando-se contra a pele dele foi capturado por meus ouvidos e gemi baixo para que Demi não ouvisse. Abri uma linha para enxergar o que estava acontecendo e até mesmo para me certificar de que ela não estava vindo em minha direção e me deparei com a cena de Demi abrindo a calça dele. Desejei mais do que nunca estar em casa quando o cansaço emocional caiu como uma parede sob minha cabeça. Eu havia me dado conta de que gostava de Demi, quase havia sido estuprada, estava presenciando um homem ter sua parte íntima decepada e além disso estava sozinha no canto de um quarto com um semi morto enquanto a causadora de tudo aquilo parecia sentir prazer com toda a situação. No que minha vida estava se transformando? Depois de algum tempo que não consegui calcular dedos tocaram o alto de minha coluna e levantei a cabeça lentamente para encarar uma Demi com a roupa trocada e os cachos dourados molhados sinalizando que ela havia tomado banho, coisa que eu adoraria fazer. Quando levantei-me, o cheiro de morango pareceu entorpecer minha mente como a droga mais rápida e eficiente do mundo.
- Vou te levar em casa. – tapou minha visão para que pudéssemos sair do quarto sem que eu visse o estado em que o garoto se encontrava –
- Não quero dormir sozinha. – sussurrei cansada –
- Eu não posso dormir fora do Brooklyn hoje. – abraçou-me pela cintura quando já estávamos novamente na sala –
- Vou para a casa de Ashley ou Taylor. – fechei os olhos sem me mover para abraçá-la –
- São quatro da manhã, você não pode ir para a casa das suas amigas agora. – soltou minha cintura e percorreu meus braços antes de entrelaçar nossas mãos –
- E o que quer que eu faça, Demetria? – olhei para ela tentando encontrar uma solução –
- Durma comigo. Eu sei que aqui... – tocou de leve minha têmpora esquerda com o nariz – Tem uma voz gritando que não. Mas sei que no seu coração tem uma voz gritando que sim.
- Só os estúpidos escutam o coração. – meus ombros caíram automaticamente –
- Então seja estúpida.
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