Crime & Música
4 Capítulo 4: Canceriana dramática
Notas iniciais
Como imaginava, Theo e Gus não ficaram nada felizes. Depois da chuva de mensagens, Martina tirou meu celular, enviando um texto rápido no grupo. Ela avisou que era minha prima, que ficaria com meu celular e pediu para ambos esperarem até amanhã para conversarmos pessoalmente.
Eles respeitaram e meu celular ficou em silêncio o resto do dia, que passei com Martina. Ela tentou me distrair o máximo possível com histórias cabulosas que viveu nos EUA e depois fomos ao cinema. Um desperdício, pois não consegui prestar atenção no filme e lá pela metade, mal via a hora de ir para casa.
Quando finalmente pude ficar sozinha, a primeira coisa que faço é tomar um banho longo e deitar, ainda enrolada na toalha. Apago praticamente assim que a cabeça encosta no travesseiro.
Acordo um pouco perdida, horas depois com o som de várias mensagens chegando. Pego o aparelho e vejo uma ligação perdida e diversas mensagens de Martina, que aparentemente está tentado entrar em contato comigo por um bom tempo.
Afasto o cabelo do rosto e sento na cama, ainda um pouco zonza de sono e ajeito o celular para poder responder. Martina não perde tempo em me lembrar como sou uma drama queen e ao ler a mensagem, respiro fundo fechando meus olhos, aceitando o fato de que ela e Gus estão certos.
Ok, não vai ser fácil conviver com o Theo, mas será que vale a pena deixar a Très por conta dele? Quer dizer, a banda não foi criada porque Theo e eu namoramos e o Gus não merece ficar no meio do fogo cruzado. Sair por causa do meu relacionamento, justo quando estamos começando a dar os primeiros passos para o reconhecimento é burrice e egoísmo.
Escondo o rosto nas mãos, percebendo que estou agindo feito uma perfeita mimada e não apenas drama queen. Fiquei tão perdida com o ataque da mãe do Theo que simplesmente não me toquei em como estava agindo de maneira estúpida.
Pego o celular que deixei no colo enquanto minha mente trabalhava e faço uma chamada de vídeo com Martina.
"Ok, você venceu." Digo assim que o rosto dela aparece na tela. "Não estava pensando e fui a maior babaca da face da Terra."
Ela responde jogando a cabeça para trás e dando risada, o que faz com que me sinta ainda mais ridícula, especialmente porque lembro que ainda preciso lidar com Gus e Theo amanhã cedinho no ensaio.
A pior parte de agir feito um drama queen mimada é ter que enfrentar a consequências dos atos depois que a ficha cai. Muitas desculpas são necessárias e nem sempre são aceitas.
Por enquanto tive sorte de não perder ninguém quando entro no modo drama queen, espero que isso não aconteça agora e não perca, meus melhores-amigos — apesar de ter perdido o namorado —, como a Très.
"Finalmente! Como está seu ego?", Martina pergunta ainda rindo e eu suspiro.
"Machucado. Não quero nem pensar em amanhã. E obrigada por ser minha motorista de fuga hoje, mesmo sabendo a estupidez que eu estava fazendo."
Ela dá de ombros.
"Pelo menos os dois te conhecem a ponto de saber como você é canceriana e o drama é praticamente parte do seu charme."
"Não deixa o Theo ouvir você falando isso, ele acha que signos não existem."
Martina faz uma careta ao me ouvir e dou risada.
"Não sei como você pode gostar tanto dele."
Suspiro, antes de responder, um sorriso se forma em meus lábios em um gesto automático sempre que penso em Theo.
"Sinceramente? Nem eu!" Damos risada, mas logo a minha vontade de rir morre ao lembrar do fim do meu relacionamento e como serei obrigada a lidar com ele.
Ao perceber a mudança no meu humor, Martina muda de assunto.
"Acho que já sei como você pode me agradecer por ser sua motorista de fuga e, de quebra, esquecer um pouco essa bad fim de namoro causado por uma sogra filha da mãe."
"Como?"
Martina sorri e então percebo que ela está estranhamente arrumada para o horário. Inclusive, a maquiagem está diferente do que ela usava durante o dia.
"Fiquei sabendo que está rolando uma reuniãozinha na casa de uma menina no lado norte de PP... os pais dela estão viajando."
"Como você sabe disso? Mal chegou aqui e não conhece ninguém!"
Reunião é apenas uma maneira sutil de dizer festa, pois não querem chamar atenção das patrulhas, já que, de vez em quando, há a tendência delas aparecerem antes mesmo de tudo começar para garantir que nenhum vizinho fique incomodado com a música alta e o som de jovens se divertindo.
Havia esquecido completamente da festa. Já sabia dela um pouco antes de terminar com o Theo e estava planejando levar Martina para conhecer os meninos e outras pessoas, mas com o fim do relacionamento e logo depois a morte de Sara, esqueci completamente.
"Eu tenho meus métodos." Martina responde e eu a encaro com uma das sobrancelhas erguidas.
"Ok, o irmão dessa menina é amigo do meu e eu ouvi ele dizendo que ia. Mas e então, vamos?"
"Hoje não, Tina." Suspiro. "Realmente estava dormindo e o ensaio da Très é cedinho amanhã porque de tarde vamos fazer testes com uns baixistas... ou seja, preciso resolver o drama que causei logo cedo. Prometo que na próxima nós vamos e você conhece os meninos, ou pelo menos o Gus."
Não sei se estou preparada para encontrar Theo em uma festa... solteiro. Vai saber se ele não quer seguir em frente, ou pior, encontra algum menino ou menina interessante?
Só de pensar nisso, já quero gritar de raiva. Por que a mãe dele tem que existir?
"Não acredito que você vai me fazer sair com meu irmão!"
Martina e Arthur nunca se deram bem e como ele é dois anos mais novo do que nós duas, nunca fomos próximos. Acho que, mesmo morando em PP, não o vejo desde a última vez que fui visitá-los quando ele ainda morava nos Estados Unidos com Martina e o pai. Sempre que minha tia vem em casa, está apenas com o caçula, Zeca e as vezes que fui na casa dela, não lembro de ter visto Arthur.
"Prometo que a próxima vez você não precisa sair com ele e eu te levo para conhecer gente nova."
"Vou anotar isso e você sabe que vou cobrar."
"Eu sei." Respondo revirando os olhos, mas sem deixar de sorrir.
"Boa noite, Vic. Me deseja sorte em sair com meu irmão e os amigos idiotas dele. Esse é o nível do meu desespero."
"Boa sorte."
Me despeço de Martina dando risada e volto a deitar na cama, me jogando contra os travesseiros. Espero que amanhã chegue logo para poder consertar o que causei.
Quando finalmente consigo dormir, sonho com Theo. Mas infelizmente a mãe dele invade o sonho e ele se torna um pesadelo. Quando acordo no dia seguinte, não consigo parar de pensar em como aquela mulher atrapalhou a minha vida.
Escovo os dentes e me arrumo com a voz da minha ex-sogra na cabeça dizendo "a escolha é toda sua, Victoria". Faço careta porque, apesar dela apresentar dois cenários diferentes, não havia nenhuma escolha a ser feita.
Quando pego minha bicicleta para ir à casa de Gus, meus pensamentos mudam para Sara, que diferente de mim, jamais vai poder viver complicações ou alegrias.
Três mortes. Três pessoas tiveram suas vidas interrompidas por, provavelmente, um louco. Lembro dos documentários e matérias sobre crimes que Martina é tão viciada e me fez assistir e ler junto a ponto de me deixar interessada também, embora desde que a Très nasceu, meu foco ficou basicamente todo na música.
Os crimes todos tiveram similaridades. Todas as meninas tiveram a garganta cortada, menos o menino. Talvez ele tenha sido a primeira morte? Ou como a polícia comentou, os assassinatos não foram cometido pela mesma pessoa?
No entanto, ele foi encontrado no mesmo lugar que as meninas: os bosques de PP. Martina me contou que não houve sinal de luta, o que indica que eles poderiam conhecer o assassino ou pelo menos confiar o suficiente nele para que pudesse atacá-los. Mas será que eles foram mortos dentro do bosque ou colocados lá? Isso a polícia não comentou, aliás, os crimes estão completamente em sigilo, nem mesmo a mídia direcionada apenas para esse tipo de acontecimento tem conseguido informações, o que não surpreende, pois PP é um local onde a privacidade dos moradores é a coisa mais importante.
Paro a bicicleta no meio do caminho e ligo para Martina. Esqueci meus fones, então preciso falar direto do celular.
"Já resolveu com os meninos?" Ela atende com a voz sonolenta de quem acabou de acordar.
"Não, estou indo para o Gus agora."
Volto a pedalar apenas com uma mão enquanto a outra segura o celular parar conversarmos.
"Precisa de apoio moral?" Pergunta bocejando e apenas a imagem mental também me faz bocejar.
"Não, na verdade eu nem tava pensando nisso quando te liguei. Escuta, o que você sabe sobre as mortes?"
Não preciso dizer de que mortes estou falando e Martina se anima, apesar de ainda parecer sonolenta.
"Mais do que as notícias que saíram na tv e o que estão dizendo nas newsletters da administração. Inclusive, ontem conheci um cara que trabalha na polícia interna de PP e ele me contou algumas coisas. Por que esse interresse agora?"
"Estava pensando na Sara e não sei, acho que o choque inicial passou e eu quero entender o que aconteceu, por que ela, sabe? É tão injusto que tenha acontecido."
"Aprendi algumas coisas ontem com o Bernardo. Ele não quis falar muito porque tudo é sigiloso, mas deixou escapar alguns detalhes..."
Martina está falando quando um carro da patrulha toca a sirene atrás de mim, indicando que é para eu parar.
"Podemos nos falar depois? A patrulha quer falar comigo."
"Ok. Me avisa quando seu ensaio acabar."
"Fechado." Paro a bicicleta na calçada e me viro para os policiais, que estacionam ao meu lado com a janela da viatura aberta. "Bom dia."
"Bom dia." Diz o que está do lado do motorista com um sorriso simpático no rosto. Percebo que eles não aparentam ser muito mais velhos do que eu. "Sei que o trânsito de PP é tranquilo, mas queria pedir para que não use o celular enquanto pedala. Para sua segurança e a de outras pessoas, pode ser?"
"Ah, sim. Claro. Desculpa." Fico sem graça e ele sorri para mim.
"Sem problemas. Só espero que não se repita. Se nós um de nós dois a vermos fazendo isso de novo, vamos dar uma advertência, ok?"
Coloco uma mecha de cabelo que soltou do capacete atrás da orelha e sorrio concordando. Ele se despede e vai embora, enquanto sigo o caminho para a casa de Gus sem voltar a falar no telefone até chegar lá.
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