Notas iniciais
Os capítulos contarão histórias de personagens e tempo distintos. Pronúncia Valeyfall: valeifal Ghëiem: Guéiem Grist: Gurist Grunëere: Gruníer Draconys: Dráconys Hathleton: Rátleton Diggle: Dígol

A cidade começava a esvaziar conforme a noite se aproximava. O brilho dos últimos raios de sol já sumiam atrás dos telhados dos casebres da área mais pobre de Valleyfall, a capital do país de Ghëiem. Agora só era possível enxergar o reflexo do pôr do sol nas nuvens rosadas que ganhavam um belíssimo contorno dourado. A medida que a claridade diminuía, o calor se esvaía dando lugar para uma brisa gelada que anunciava a chegada do inverno.

Valleyfall ficava num vale que terminava em um penhasco e dava para o Mar do Oeste. Era cruzada pelo Rio Grist que dividia a parte plebeia da parte nobre da Capital e o Rio Fen, que dividia a parte nobre e o Castelo que ficava em uma montanha ao Norte. Ambos os rios terminavam em cachoeiras no alto do penhasco.

Astrid caminhava de volta para seu humilde quarto, o qual chamava de casa, esfregando as mãos nos braços na tentativa de se aquecer. Vestia apenas uma calça e uma camisa de um tipo de estopa, que além não fornecer proteção alguma contra o frio, ainda pinicava sua sensível pele branca.

Seus cabelos, também brancos, estavam emaranhados devido ao vento e muitos dias sem penteá-los, seus olhos tinham um tom acinzentado e ela era muito magra, pois mal conseguia juntar algumas moedas para comprar uma refeição.

Em Valleyfall os nobres não costumavam se compadecer da plebe, apesar de necessitarem essencialmente dela para sobreviver, já que o trabalho árduo era todo feito pelos pobres. Como na maioria das civilizações, não valorizavam seu trabalho, pagando pouco e exigindo muito.

Astrid tinha dezessete anos, era órfã desde muito nova. Havia sido criada desde seus três anos, por um casal de camponeses que a encontrara nos escombros de uma casa após a cidade ser invadida por magos mercenários no dia da morte do antigo Rei Henry. Infelizmente, perdera seus considerados pais para a idade já havia três anos. Primeiro sua mãe Nancy, depois seu pai John. E de seus pais biológicos, não tinha lembrança alguma, tudo o que sabia é que pertenciam a um povo estrangeiro, que jurara lealdade ao antigo rei e o protegia desde então, pois formavam o exército mais poderoso de toda Grunëere.

O povo de Astrid, os Draconys, era muito próximo de Henry e toda a Realeza. Devido a isso, após a chacina, todos os magos e bruxos de Ghëiem desapareceram. As pessoas acreditavam que o novo Rei, magoado com a morte de seus amigos, mandara caçar e exterminar toda a magia do Reino. Porém a chacina fora entendida pelo Rei como pagamento por alguma dívida que essa gente tinha desde antes de mudarem-se para seu país.

Desde morte de seus pais adotivos, Astrid teve de deixar a casa deles pois onde viviam era cobrado, por mês, a quantia de vinte moedas de prata como aluguel. Seus pais trabalhavam na fazenda de um Lorde, mas após sua morte a garota não pudera continuar trabalhando para ele pois não sabia bordar, nem cozinhar e nem lavar roupas. Sendo assim, mudara-se para um cômodo na parte mais úmida e malcheirosa da cidade.

O lugar era um amontoado de casebres mal feitos, que se apoiavam uns nos outros para manterem-se de pé em ambos os lados da rua, que era estreita e escura. Para chegar à porta, era quase necessário se espremer por entre as caixas de lixo e carroças quebradas que eram abandonadas ali. Dentro do prédio, as escadas rangiam, as paredes de madeira tinham frestas do tamanho de um braço, por onde o vento cortante encanava nos dias de inverno e não deixava ninguém dormir. A umidade impunha ao lugar um cheiro de mofo que entranhava em suas narinas e lhe causava náuseas.

Cansada, subiu três lances de escada, tendo que desviar de montes de estrume de cachorro misturado com vômito dos moradores que chegavam bêbados de madrugada, algumas garrafas vazias e cacos de vidro também faziam parte da macabra decoração das áreas comuns do local. Em alguns cantos, haviam poças no chão de madeira que levantavam um cheiro forte de urina. Mesmo assim as crianças corriam descalças e gritavam pelos corredores e, de quando em quando, suas mães apareciam nas portas e gritavam por seus nomes.

Aquele mausoléu lhe dava arrepios, mas era o único local que tinha para morar. Quando finalmente entrou em seu humilde aposento, jogou-se no punhado de palha úmida no chão, que usava como cama, respirou fundo e fechou os olhos.

Sua cabeça então girou e sentiu seu estômago encostar na espinha. Sua última refeição fora meio pão velho e duro que ganhara de almoço enquanto ajudava um mercador a carregar sua carroça e, antes disso, fora um ensopado ralo de nabos como almoço no dia anterior. Precisava se alimentar se não quisesse desmaiar.

Com dificuldade, levantou-se, foi até a pequena mesa no canto do cômodo e sacudiu uma sacola de estopa que estava ali em cima, pra ver se ainda continha algum suprimento. Havia algo não muito pesado dentro dela, colocou a mão dentro e puxou o conteúdo para fora.

Astrid conteve um grunhido de nojo ao ver um pequeno pedaço de pão coberto de fungos verdes e com sinais de mordidas de rato. A jovem bufou irritada. Além de ter dificuldade de comprar alimentos, a umidade do lugar não permitia nem que sua comida durasse de um dia para outro e, quando durava, os ratos a comiam. O havia ganhado na noite anterior com agradecimento por ter impedido que um cachorro roubasse uma sacola de pães de uma padaria em sua volta para casa.

Como sabia da possibilidade de não ter o que comer no dia seguinte e já se alimentara naquela tarde, resolvera não o jantar. O clima estivera ameno e Astrid deixara a janela aberta o dia todo, era estranho que tivesse estragado tão depressa. Concluiu então que já o ganhara próximo de estragar.

Revoltada pegou de uma prateleira tosca perdurada em cima da mesa um pequeno saquinho onde guardava algumas moedas para casos de emergência. Teria que gastar um pouco de suas economias para ir até a taverna e comprar um prato de comida. Separou cinco moedas de bronze e, contrariada, guardou o saquinho novamente. Aquilo deveria ser o suficiente.

Olhou ao redor para ver se ainda encontrava o roedor, mas o quarto já estava escuro demais para procurá-lo. Aproveitou o que restou da claridade do dia para encontrar uma vela e uma pedra de fogo e deixá-las ao alcance para quando voltasse da taverna.

Quando trancou a porta, escutou passos na escada e uma voz conhecida chegou aos seus ouvidos:

— Deixe-me ajudar, mamãe. A senhora me parece cansada. — Era Vindsen, que falava com sua mãe, Matilde. — Ah, olá Astrid. — Disse quando a viu. Ele subia os últimos degraus da escada, carregando cuidadosamente um embrulho de panos nos braços.

— Boa noite, Vind. — Respondeu a garota esboçando um sorriso no canto dos lábios arroxeados.

— Aonde vai à esta hora? — Perguntou o garoto, entortando a cabeça demonstrando curiosidade.

— Estou faminta e a única refeição que me restava foi tomada pelos fungos e tragada por roedores. — Astrid contou com melancolia. — Vou à Taverna do Trevor.

— Posso ir com você? — Ele pediu ansiosamente. Vind era alguns meses mais novo que Astrid. Era um pouco mais alto e mais encorpado que ela, seus cabelos eram negros, lisos e seus olhos eram grandes e de um verde muito claro. Seu rosto era redondo ele tinha nariz e lábios finos, e apesar de Astrid saber do seu potencial para se colocar em apuros, ele tinha um rosto angelical e doce.

— Por que não a convida para o jantar, Vind?! — Matilde interrompeu sorrindo para Astrid. Ela a conhecia desde pequena, pois também era criada da casa onde Nancy e John haviam trabalhado quando vivos. Por isso Astrid e Vindsen eram amigos há muito tempo e sua mãe tinha muito carinho pela jovem. — Ganhei de Lady Ruth uma deliciosa torta de Blueberries e algumas bagas de pão. Seria um prazer reparti-las com você, Astrid.

— Será um prazer, Sra Hathleton — Agradeceu, sorrindo. Mesmo um pouco encabulada com a situação, a menina não poderia se sentir mais agradecida pelo convite, afinal, qualquer refeição na taverna seria muito mais do que deveria gastar. — Sou muito grata pelo convite.

— Deixe de cerimônias, garota. — Vind falou alegremente. — Sabe que a minha casa é sua casa. Fico feliz em estar com você, mesmo que tenha essa cara emburrada.

Os três riram, pois era verdade que Astrid estava sempre muito séria e carrancuda. Mesmo com toda a dificuldade para sobreviver, era uma pessoa alegre, mas estava sempre perdida em seus próprios pensamentos, concentrada nas tarefas que estava realizando. Era difícil vê-la sorrir.

A casa onde Vind morava era maior que a de Astrid, possuía dois cômodos grandes. Um deles tinha alguns utensílios de cozinha, um fogão à lenha, uma mesa com algumas cadeiras simples, algumas prateleiras onde guardavam ferramentas, baldes, panelas, facas e outros itens do cotidiano. No outro cômodo era o quarto dos dois. Haviam dois colchões de palha, um guarda roupa de madeira e uma cadeira. Tudo muito simples, mesmo assim ainda era bem melhor do que o que ela possuía.

Sentiu-se feliz por estar ali. Sentiu-se feliz por poder fazer uma refeição acompanhada de pessoas que apreciavam sua companhia.

Depois do jantar, a garota ajudou Matilde a lavar a louça em um barril de água no canto da sala e, durante o serviço, não parava de agradecê-la pela refeição, de modo que a senhora ficou até um pouco sem jeito.

Vind ficara sentado na mesa entalhando um pedaço de madeira com uma faca velha. Ele estava esculpindo o que parecia ser um punhal curto. De quando em quando ele levantava o toco na altura dos olhos e fazia alguns movimentos, como se testasse o equilíbrio da arma.

— A quem pretende ferir com esta lâmina?! — Astrid perguntou quando ele mirou a ponta para ela.

— Esta lâmina está destinada à muitas pessoas, Astrid. — Vindsen respondeu sério. Sua expressão turvou-se, seus olhos pareceram encher-se de ódio. Ele a olhou fixamente nos olhos, ainda apontando a ponta da faca para ela. — Mas poucas pessoas a merecem! — Então sorriu e colocou o toco de volta na mesa suspirando.

Astrid terminou de guardar os pratos na pequena prateleira, então voltou-se para o jovem. – Por que não pede uma vaga na ferraria do Velho Cormick? — perguntou pegando a faca de madeira na mão e analisando-a. Mesmo não entendendo nada de combate, Astrid sentiu que era equilibrada. Aquele pequeno pedaço de madeira, de alguma forma parecia fazer parte de seu corpo, como se fosse uma extensão de seu braço.

Vind parecia ter talento para a fabricação de armas e lhe parecia justo que trabalhasse com o ferreiro da cidade.

— Eu não sei... — começou o rapaz. — O Sr. Cormick conhece minha tendência para confusões. Não creio que ele reconheceria meu talento para a forja.

— Creio que não deveria perder a oportunidade. Ele está velho, pode estar procurando um ajudante. Ele é perfeccionista e pode estar em busca de alguém que leve jeito. — A moça insistiu, ainda se sentindo estranha com a sensação de segurar o punhal.

— Talvez eu converse com ele amanhã. — Vind concluiu. — Mas por hora, quero fazer algo mais interessante. Vamos á Taverna comigo? Diggle estará lá esta noite, acredito que ele possa conseguir umas canecas de cerveja para nós.

— Vai é conseguir colocar Astrid em apuros, Vindsen. — Matilde advertiu com severidade. — Já me basta que venham reclamar das suas façanhas, garoto. Não quero que envolva a menina em suas brincadeiras perigosas.

Astrid riu pelo nariz enquanto via as bochechas de Vind corarem como tomates.

— Acalme-se, mamãe. Diggle é meu amigo e trabalha para o Sr. Trevor. Ele o paga muito mal, então algumas vezes consegue que Sr. Trevor se compadeça de sua miserável situação e lhe dê uma gorjeta. – ele sorriu e deu uma piscadela para Astrid.

— Não se preocupe, Sra. Hatleton. — Astrid interveio. — Não deixarei que faça bobagens. Eu não gosto de confusões.

— Oh, Graças aos Deuses. A Srta. deveria se casar com este rapaz. Quem sabe colocaria um pouco de juízo na cabeça dele.

Os dois jovens se entreolharam surpresos com a sugestão dela e então gargalharam juntos. Eles eram muito amigos e a última coisa que passava por suas cabeças era terem um relacionamento. Eram como irmãos. Não conseguiam se ver como homem e mulher, apesar de ambos se acharem muito atraentes.

Então os garotos se despediram de Matilde e saíram do casebre. A noite estava fria e clara. Mesmo com algumas nuvens no céu, o brilho da Lua iluminava o caminho. Astrid olhou para o céu, parou de caminhar tremendo de frio contemplou as estrelas por um momento.

— Acha que existem humanos em Síon? — Questionou mais para si mesma do que para o jovem ao seu lado. Síon era um outro planeta que aparecia no céu de Gruneëre. Ele era azul, mas tinha algumas manchas disformes verdes e outras amarelas menores. Era possível ver alguns rastros brancos, que mudavam constantemente de forma e ela acreditava que fossem nuvens.

— Eu não sei, mas e você? Se eles existem, será que se parecem conosco? — Vind tinha sempre perguntas pertinentes que faziam Astrid pensar. Com isso ela olhou para a estrada novamente e voltou a andar para o Leste, em direção ao centro de Valleyfall.

A taverna não era muito longe de onde moravam, então após caminharem em torno de quinze minutos pelas ruas já mais largas e limpas, começaram a ouvir algumas risadas, barulhos de talheres e conversas. Um pouco mais a frente, quando entraram em uma rua larga de pedras e cheia de comércios fechados, puderam ver uma porta aberta e a luz amarela e quente que saía por ela. Quanto mais se aproximavam, mais nítidos os sons ficavam, até que puderam perceber o som de um alaúde.

Havia um Bardo, na taverna aquela noite. Era por isso que as pessoas estavam tão animadas.

Quando entraram no local, Astrid deixou de sentir frio. Algumas pessoas dançavam ao som do alaúde, outras conversavam em voz alta e outras apenas observavam o movimento com um sorriso na cara e as bochechas vermelhas pelo calor do ambiente e pelo álcool.

Os dois encontraram uma mesa vazia em frente ao bardo no meio do salão e sentaram-se ali. O artista, tinha uma aparência estranha. Vestia uma camisa de linho claro, calças de couro marrom e uma bota surrada. Por cima da roupa usava um manto curto e verde, com um capuz que lhe cobria toda a face. Era possível ver apenas a ponta de seu queixo fino, o resto ficava encoberto pela sombra.

Ele tocava uma música alegre que contrastava com sua aparência sombria, mas as pessoas pareciam não notar isso. Astrid fitou o músico por um longo tempo, até levar uma cotovelada de seu amigo.

— Ele vai pensar que está interessada. — disse o garoto com a voz divertida.

— Eu não estou interessada. Ou melhor, estou, mas é porque ele é estranho. — disse ela sem tirar os olhos do homem. Ela tinha a sensação de que ele também a observava.

Notas finais
Obrigada pela leitura. Aguardo sua opinião!