Crônicas do Olho do Dragão
3 A Princesa de outro Reino
Notas iniciais
Era começo da primavera, flores começavam a brotar nas árvores que rodeavam o feudo de Norton. Norton era um dos maiores feudos do reino de Hendriz, tanto em tamanho quanto de população, seu castelo era enorme, embora fosse rústico e tenha sido projetado para proteger a população do vilarejo em caso de guerra, não deixava de ser admirável.
A construção era inteira de pedras grossas de cor escura, quase preta, além disso, tinha duas torres uma do lado oeste e outra dava para o leste, as duas possuíam bandeiras verde e prata com o símbolo do feudo, assim como as torres da muralha em volta do castelo. Não existia vegetação em volta de toda a fortaleza, para que em caso de um eventual ataque o inimigo, estes seriam obrigados a ficarem expostos. O grande vilarejo era bem cuidado pelos seus moradores e pelo o barão das terras. As ruas eram limpas e as casas perfeitamente construídas, não havia muita pobreza em Norton apesar do vilarejo ser grande, havia trabalho para todo mundo, no castelo, nas lavouras, nos campos ou nos comércios da cidade....
Eilean uma garota de dezessete anos, pele morena olhos castanhos e cabelos pretos longos um pouco queimados pelo sol devido suas atividades à céu aberto, tinha estatura média, assim como a maiorias das garotas da sua idade. Ela voltava para o alojamento no castelo depois de uma tarde de treinamento na floresta. Nesse alojamento ela vivia com alguns adolescentes e algumas crianças. A maioria eram filhos de pais mortos em alguma guerra ou outra fatalidade, mas por serem pessoas do vilarejo e que um dia contribuíram para com o barão, ele as "protegia" até atingirem certa idade.
Mas Eilean não se encontrava nessa situação. Seus pais estavam vivos, ela só não sabia dizer exatamente aonde, a única coisa que sabia que era outro continente, e outro reino além dos mares.
Fazia onze anos que fora deixada no reino de Hendriz, ela era pequena, mas as memórias estavam frescas como se fossem ontem. Lembrava-se da sua vó segurando suas mãozinhas tentado lhe explicar o porquê seria mandada para outro reino, palavras que até hoje não fazia muito sentido, apenas lembrava que tinha algo a ver com uma profecia, que nunca sequer chegara a ouvir.
Lembrava-se da sua mãe segurando para não chorar em sua frente, pois não veria a filha por alguns anos, não a veria crescer e se tornar uma mulher, do seu irmão mais novo brincando no salão do palácio sem saber o que estava acontecendo, se encontrasse o seu irmão agora, não seria capaz de reconhecê-lo, isso dava um aperto no seu peito sempre que pensava sobre o assunto. Todos que ela conhecia foram deixados na promessa de que um dia voltariam a vê-la. Sua última lembrança era do seu pai a pegando no colo e dando um beijo em sua testa, depois disso, o mundo ficou escuro e ela caiu em sono profundo.
Ao acordar já estava em Hendriz, mais especificamente, no feudo de Norton. Quando acordou, viu um homem que depois veio a saber que era o barão daquelas terras, seu nome era Rold, um homem alto cabelos loiros e olhos cor de mel que lhe lançavam um olhar de desculpas pelo o que estava acontecendo. Ele explicou novamente o que tinha acontecido, porém, não havia mais nada que ela não soubesse. Tinha sido obrigada a morar em outro reino, abandonar as pessoas que amava.
Ela não escondeu quando as lágrimas rolaram pelo seu rosto. O barão tentou dizer algo reconfortante, mas ela nem chegou a ouvir, parecia que estava em um luto eterno.
— Seu pai me pediu para lhe entregar isso. — Ele lhe entregou uma carta com o selo de Dunia que, após abrir, Eilean reconheceu ser a letra do seu pai.
Você é a princesa herdeira de Dunia.
Seus poderes estão em seus olhos.
Quando estiver na hora receberá um chamado pra voltar pra casa.
Até lá, treine e se torne uma herdeira forte .
Nós amamos você.
Em todos esses anos o barão Rold ajudou em todo o seu treinamento. Ela havia se tornado a guerreira que o pai queria. Sabia utilizar espada, arco e flecha e também dominava o combate corpo a corpo. Porém, apesar de todo o seu esforço e treinamento todos esses anos, os poderes dos seus olhos ainda não tinham despertado.
— Pelo que sei, há duas maneiras de despertar seus poderes. — O barão explicou um dia em seu escritório quando ela se queixou. — Você precisa ter uma emoção muito forte de felicidade ou de ódio, creio que os dois estão ligados, mas provavelmente você não sentiu nenhuma dessas emoções tão forte a ponto de despertar seus poderes. — Rold e sua família eram os únicos que sabiam que ela era a princesa herdeira, nem seus dois melhores amigos sabiam. Ela sempre imaginava se o barão e seu pai eram amigos ou se ele tinha sofrido uma ameaça tão grande a ponto de não contar para ninguém que ela era a Princesa de Dunia, nem mesmo para o rei Eion.
Haviam muitas coisas do seu reino que eram diferentes em Hendriz, a começar pelo os poderes das pessoas. Poucas delas tinham algum tipo de habilidade, e as que tinham escondiam. Eilean mesmo, só conhecia uma, sua amiga Alena. Desconfiava que era umas das poucas pessoas que sabiam que possuía o poder da cura. Ela era uma jovem de cabelos ruivos e olhos azuis, um pouco alta para sua idade, mas se movia com uma leveza que muitas vezes Eilean pensava que estava flutuando, mas a menina também treinava com Eilean e não era tão delicada quanto aparentava.
— Muitas pessoas da minha família morreram por terem algum tipo de poder. — Ela explicou depois de curar um ferimento feio causado pelo treinamento com facas no abdome de Eilean. — As pessoas não gostam de se sentirem menosprezadas por alguém que possui um dom que elas não têm. Se fossem menos ignorantes saberiam que podemos ajudar. Mas talvez um dia isso mude.
Além de Alena, havia Will. Ela o amava realmente com um irmão embora ele não lembrasse nem um pouco o seu. Will fora a primeira criança a falar com ela depois que chegou ao feudo. Talvez porque fora o único a notar a menina sentada mais retirada do grupo, com os olhos tristes vidrados em um ponto e pensando longe.
— Gosta de pudim? — Perguntou sentando ao lado da garota oferecendo o prato que estava segurando, ela sacudiu a cabeça com um entusiasmo que ele imaginou que não condizia com a menina triste de alguns segundos atrás. — Você é bem fácil de comprar. — disse ele sorrindo largamente. — A propósito, me chamo Will.
— Eu sou Eilean. — Respondeu com a boca cheia de pudim.
— Você não é daqui né? Tem um sotaque diferente.
— Não, sou de Dunia.
— É um reino bem longe, não é? — Perguntou enquanto ela concordava com a cabeça. Já tinha ouvido história de alguns marinheiros bêbados que tinham avistado aquelas terras, mas tinha sumido misteriosamente diante de seus olhos, ou que foram ajudados quando estava perecendo no mar, mas assim que os barcos tinham sidos consertados e as comidas reabastecidas, quando se deram conta já estavam velejando novamente. Haviam muitas histórias sobre essas terras, na sua maioria que ajudavam os que precisavam, mas que os devolviam ao mar assim que estavam recuperadas, sem nunca ninguém conhecer o reino — Você sabe onde fica?
— Na verdade não sei nem como vim parar aqui. — Eilean resmungou dando de ombros e enfiando mais uma colherada de pudim da boca. Dunia não ficava escondida, mas seu pai sempre dizia que as névoas lhe protegiam. Ela não fazia ideia do que ele queria dizer com aquelas palavras.
— Mas o que aconteceu? — Will indagou fazendo uma expressão confusa.
— É complicado, eu mesmo não sei direito. Acho que precisam de alguém que conhecesse outros reinos e que fosse inofensiva.
— Mas você vai voltar, algum dia? — Perguntou curioso. — Se sim, promete que me leva junto?
— Se eu puder, eu prometo que levo.
Eles tinham seis anos na época, mas Will nunca a deixava esquecer essa promessa.
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