Crônicas de um samurai desempregado

3 Mudar a aparência também muda sua identidade visual


Embora à primeira vista parecesse algo ridículo, algo chamava a atenção de Murayama na forma como Gintoki estava posicionado e no jeito que ele empunhava a vassoura. Aquele jovem não era um simples maltrapilho, portava-se como um combatente em batalha. Seria ele um remanescente da guerra, mesmo sendo tão jovem?

O albino percebeu o olhar do homem que empunhava a katana. Sabia que ele estava intrigado com a sua postura, mas não diria nada. Na verdade, não era preciso que ele dissesse que havia lutado na guerra contra os amantos. Estava na cara que era um homem marcado pela guerra, embora fosse um jovem com apenas duas décadas de vida. Ele não precisava se dar ao trabalho de abrir a boca para dizer que esteve nos campos de batalha nos últimos combates.

― Ei, garoto – o homem sorria confiante para manter a pose, apesar de intrigado. – Acha mesmo que vai me vencer com um cabo de vassoura?

― Pra ser sincero, não acho, não. Mas não tô afim de me machucar, é meu primeiro dia de serviço e você tá me atrapalhando!

― Você é péssimo, molambento! Deveria se demitir!

Antes que Murayama conseguisse atacar, Gintoki foi mais rápido. Viu uma brecha na defesa do adversário e, num movimento rápido, acertou uma estocada com a ponta do cabo de vassoura contra o peito do homem. Qualquer desavisado diria que o golpe foi bem simples, mas esta pancada específica foi capaz de jogar o homem contra as mesas e cadeiras do bar, deixando-o inconsciente... E os seguranças do executivo avançaram contra o albino em retaliação.

Obviamente, ele não iria continuar com o cabo de vassoura. Pegou a katana que caíra das mãos de Murayama e com poucos golpes desarmara os adversários, para depois jogar a espada para fora do bar. Os seguranças pegaram seu patrão e saíram correndo atabalhoadamente, enquanto Otose apagava a bituca do cigarro num cinzeiro no balcão e Gintoki suspirava aliviado após aquela confusão.

― Espero que aquele sujeito não volte mais. – a viúva disse. – Ele me deu um prejuízo maior do que aquela garrafa quebrada.

― Se ele não aparecer, não vai pagar o prejuízo.

― Menos uma dor de cabeça para mim. Aquele mão-de-vaca nunca me deu lucro, só me fez passar raiva. Há clientes que não valem a pena manter no bar.

― É... – Gintoki enfiou o dedo mindinho no nariz para começar sua árdua tarefa de limpar o salão enquanto olhava para o bar vazio. – Mas os outros clientes saíram sem pagar no meio da confusão.

― Sim, é mesmo um prejuízo considerável. – Otose concordou enquanto acendia mais um cigarro. – Mas clientes fiéis acabam pagando depois. Alguns têm conta aqui e pagam tudo de uma vez.

Nisso, um homem com penteado chonmage e vestindo terno e gravata se aproximou com cautela da porta, ainda meio bêbado. Percebendo que não havia mais ninguém além da dona do bar e de seu novo empregado, entrou no bar e se aproximou do balcão, tirando alguns ienes de sua carteira para fazer o pagamento.

― Obrigada, Muu-san. – Otose agradeceu. – Tome cuidado na rua.

Assim que Muu saiu, ela pediu a Gintoki para fechar o bar, já estava praticamente na hora de fazê-lo. O albino olhou novamente para a bagunça causada pela breve luta que tivera com Murayama e seus homens, pensando que definitivamente não era isso que esperava de seu primeiro dia trabalhando para a velha.

Esperava que a noite seguinte fosse um pouquinho mais tranquila.

*

Os primeiros raios de sol, embora fracos, lutavam para adentrar aquele andar de cima, onde o silêncio reinava absoluto, a não ser pelo som de alguém que ainda ressonava. Gintoki estava tão cansado da madrugada, que bastou chegar, botar o futon no chão para cair nele e ferrar no sono. Após aquela confusão envolvendo Murayama e seus homens, fora preciso que ele e Otose arrumassem a bagunça e a sujeira que haviam ficado no bar. Não dava para deixar do jeito que estava até a manhã seguinte.

Após algum tempo, o albino acordou. Esfregou os olhos rubros e deu uma ampla espreguiçada e um generoso bocejo. Queria ficar mais um pouco deitado enquanto se esquentava nos cobertores, mas a fome era maior. Havia alimentos na despensa, mas sentia falta de algo mais doce. Até cogitava tomar um pouco de coragem para sair e comprar dangos ou algo do tipo, o único problema era o fato de não ter nem meio iene para tal.

Era contentar-se com o que tinha mesmo. Não podia reclamar, já estivera em situação pior até dois dias atrás, quando estava nas ruas e muitas vezes não tinha absolutamente nada para forrar o estômago. Preparou o café da manhã e fez o seu desjejum, para depois dar uma olhadinha no movimento lá fora, pois gostara da vista que a varanda lhe proporcionava.

Era só para colocar o nariz para fora e olhar e, depois de dez segundos, voltaria a se enfiar embaixo dos cobertores. Entretanto, ao se lembrar do que ocorrera no bar, recordou-se de outra coisa e precisaria procurar por algo que havia deixado para trás quando viera seguindo Otose.

Teria que enfrentar o frio e dar um pulo no cemitério, e essa ideia lhe dava arrepios só de pensar. Dirigiu-se até a entrada e, embaixo da porta, viu um envelope. Provavelmente seria dirigido à viúva do andar de baixo, supôs. Porém, sua suposição estava errada, pois aquele envelope pardo tinha seu nome escrito, embora não tivesse remetente. Achou estranho, pois não conhecia ninguém que soubesse que ele saíra da rua para se abrigar no segundo andar daquele prédio.

Intrigado, abriu o envelope, que continha um maço generoso de dinheiro e um bilhete, o qual leu:

“Gintoki,

Estou adiantando para você metade do seu salário com o que recebi durante a semana no bar, incluindo o dinheiro que entrou ontem. Compre algumas roupas e algo que queira com o que sobrar. Só não se esqueça de estar aqui no bar para trabalhar.

Otose.”

Encucado, o albino se perguntava mais uma vez quem protegia quem. Afinal, só poderia ser uma espécie de proteção mesmo da parte da velha. Talvez algo recíproco após o que ocorrera na noite anterior, em que ele se valera de um cabo de vassoura para começar a cumprir a sua promessa de protegê-la. Fora algo impensado, arriscado, mas seu bushido preconizava que promessa feita deveria ser promessa cumprida.

Deu de ombros. Não poderia recusar aquele dinheiro, visto que realmente precisava de roupas novas... E também de dar alguma decência àquele cabelo caótico, embora duvidasse que ele tivesse algum jeito. Duvidava que aquela permanente natural prateada ficasse melhor do que se apresentava atualmente.

Seu sonho mesmo era ter cabelo liso, mas parecia algo realmente impossível.

Respirou fundo para tomar coragem de encarar o frio somente com um quimono puído e gasto – que nada aquecia – e sandálias. Guardou dentro da vestimenta o envelope com o dinheiro, enquanto anotava que precisaria comprar uma carteira na sua lista mental, que incluía roupa, calçado, corte de cabelo, carteira e um guarda-chuva pra não acumular neve na cabeça.

*

Após sair da barbearia com a permanente natural agora tendo um corte mais definido – embora seus cabelos ainda tivessem uma aparência caótica, Gintoki seguia para a sua próxima missão em meio ao frio do inverno. Cruzara seus braços por dentro do yukata que vestia, em mais uma tentativa de se aquecer até poder estar devidamente agasalhado. Mal conseguia sentir os pés, que estavam congelados por estarem calçados com um par de sandálias bem gastas, o que definitivamente não fazia qualquer diferença entre estar ou não descalço.

Chegando a uma rua na qual havia várias lojas de roupas, observou vitrine por vitrine, onde se refletia seu rosto e seu cabelo visivelmente mais curto, embora em uma irremediável bagunça, por mais que tentasse penteá-los. Aliás, já desistira de penteá-los, pois obviamente voltavam a se bagunçar como se tivessem vida própria. Mesmo assim, um corte já fora suficiente para melhorar ainda mais sua aparência.

Para além do reflexo, ele também observava os preços expostos junto aos manequins. Pensara em comprar quimonos, mas também umas duas calças, o problema era o fato de os preços ao lado das peças serem coisa de louco. Os vendedores também não eram o tipo lá muito simpático. Por mais que tivesse um cabelo bem cortado e estivesse limpo, eles lhe torciam o nariz.

Ser pobre não era muito diferente de ser mendigo, concluiu.

Foi quando passou por uma loja chamada “Casa dos Uniformes Zunboranos”. Era uma loja nova por aquelas bandas, os anúncios mostravam que eram ofertas de inauguração. Um senhor grisalho, com óculos escuros e bigode o convidou para entrar, parecia ansioso para fazer a primeira venda do dia.

― Você parece interessado nas nossas ofertas! Entre, seja bem-vindo!

Gintoki deu de ombros e adentrou a loja. Era ampla, moderna, com vários manequins vestindo camisa preta de manga curta, com colarinho alto e debruns na cor vermelha, além de calças também pretas. Por cima do conjunto, um yukata branco com motivos de ondas azuis nas mangas e na barra, vestido pela metade e preso por uma faixa roxa e com um cinto preto folgado, mais um par de botas pretas arrematando o visual. Encarou um daqueles manequins por alguns instantes, achando aquela roupa peculiar um tanto interessante... Estava barata e com certeza seria mais quente do que o que vestia naquele momento.

Levou um conjunto daqueles ao provador, onde se vestiu para conferir se aquele tamanho era o ideal para um homem de um metro e setenta e sete de altura. Encarou seu reflexo no espelho por algum tempo e decidiu que sim, aquela seria sua nova imagem. Aquela roupa peculiar estranhamente o fazia se sentir bem.

Tirou do quimono velho o envelope com o dinheiro e atirou a roupa em um cesto de lixo. Além de pagar por aquela roupa que passara a usar, tivera um desconto especial para adquirir uma segunda muda e ainda lhe sobraria uns bons ienes para algo mais. Ao voltar a encarar o vento frio da rua, vestiu a manga direita do yukata enquanto caminhava e sentia seus pés confortáveis no par de botas novas. Entrou em outra loja, onde já não olhavam torto, mas com curiosidade. Não era muito comum um humano vestir um uniforme zunborano de Educação Física, definitivamente. Comprou a carteira, onde colocou os ienes restantes, vestiu um dos dois casacos recém-adquiridos e abriu o guarda-chuva vermelho-escuro para se proteger da neve, pois já estava cansado de sentir gelo caindo no cabelo e nos ombros.

Seguiu seu caminho rumo ao cemitério, caminhando por entre as lápides até encontrar a do marido da velha, onde estivera até dois dias atrás. Seus olhos perscrutaram todo o entorno até encontrar o que tanto procurava: uma bokutou, na qual estavam gravados os kanjis que formavam o nome “Lago Toya”. Tirou o gelo da espada de madeira e a colocou em seu cinto preto com o sorriso de quem encontrava um velho companheiro.

De lá, passou por uma loja de conveniência e comprou dois pedaços de bolo, além de pirulitos, bombons e outros doces. Seguiu caminho até chegar em casa e, logo em seguida, desceu para o bar, pois estava na hora de mais uma noite de trabalho. Tão logo abriu a porta corrediça e entrou, Otose o elogiou:

― Nada mau, Gintoki... Mas imagino que tenha tido muita pressa em vestir as roupas novas.

― Por quê? – o albino não entendeu.

― Só alguém muito ansioso para vestir roupas novas é capaz de se esquecer de tirar as etiquetas de preço delas.