Crônicas de um samurai desempregado

4 Quem se gaba demais não passa de um fracassado


Mais uma noite, mais um expediente no bar de Otose. Desta vez, Gintoki percebeu um movimento um pouco maior do que no dia anterior. Após tirar as etiquetas das roupas ainda cheirando a novas, o albino foi encarregado de assumir a pia, onde lavava pratos cujos petiscos já haviam sido comidos pelos clientes e copos usados para beber saquê. A iniciativa da troca partiu da própria viúva, que gostava de atender e conversar com os fregueses além de, claro, ouvi-los no balcão.

Aos poucos o bar recebia mais clientes que saíam de seus trabalhos para fazerem um happy hour básico, principalmente porque o fim de semana apenas estava começando. Embora persistissem as baixas temperaturas daquele inverno, a clientela vinha em bom número e, por consequência, colocava mais dinheiro em caixa.

Tudo indicava que aquele poderia ser um dia mais tranquilo de trabalho para o albino, pois parecia pouco provável que se repetisse aquele incidente da véspera apenas vinte e quatro horas depois do ocorrido. Trabalharia em paz e sossego para fazer jus ao dinheiro que recebera adiantado da velha...

... Só que não.

A porta corrediça se abriu violentamente, permitindo que uma corrente de ar gelado entrasse. Gintoki reconheceu o homem da noite anterior e revirou, aborrecido, os olhos rubros. Pensava que não teria que lidar com freguês chato pelo menos naquela noite, mas estava redondamente enganado. Ele não era o único a perceber o recém-chegado, pois viu que Otose voltava a se colocar atrás do balcão para receber Murayama.

― Seja bem-vindo! – ela cumprimentou. – O que vai querer hoje, Murayama-san?

― Não quero nada mais nesta espelunca... Não, enquanto aquele moleque estiver aqui. O fato de estar usando roupas novas não o faz menos molambento!

― Se você não gosta dele, não vou obrigá-lo a continuar aqui como meu cliente. – Otose disse. – Mas não acharia nem um pouco ruim se me pagasse pelo prejuízo de ontem.

― Quem tem que me pagar – o homem disse enquanto pousava a mão esquerda sobre o cabo da katana que trazia consigo e encarava o albino. – é esse sujeitinho de cabelo ruim. Eu não estou disposto a carregar pelo resto da minha vida a humilhação de ter sido derrotado por um idiota brincando de samurai com um cabo de vassoura.

Murayama era mais um idiota que dizia querer lutar para recuperar sua honra perdida e realmente queria desafiar Gintoki para tal. Otose olhou para o jovem albino, cuja expressão de enfado era bem evidente. Estava na cara que ele não parecia muito afim de lutar. Na véspera, percebera a postura que ele mantinha ao empunhar a vassoura, o que lembrava um pouco seu falecido marido. Era uma postura de um combatente da guerra, não tinha dúvidas. Enquanto ela cuidava do bar, às vezes via seu marido treinando com sua katana, devido ao seu trabalho como policial no Distrito Kabuki. Ele fora convocado para lutar naquela guerra contra os alienígenas invasores e morrera em combate.

Por essa razão, a viúva tinha quase certeza de que aquele jovem que ela acolhera também havia sido um combatente.

― Não vai me dizer nada, moleque? – o homem insistia. – Se não lutar comigo, mandarei meus homens destruírem este lugar.

Desta vez, Murayama estava acompanhado por bem mais do que os quatro homens da véspera. Ele não parecia um executivo, mas sim um yakuza. Dirigiu um sorriso sinistro para o albino e sinalizou para um de seus comandados, que desembainhou a katana e cortou uma das mesas ao meio num rápido golpe.

Obviamente, essa pequena demonstração de ameaça foi o bastante para a maioria dos clientes do bar sair correndo para salvar suas peles...

... E causar mais prejuízo ao bar.

Gintoki decidiu sair de atrás do balcão. Trazia consigo uma espada de madeira à cintura enquanto vestia a manga esquerda do quimono branco e deixava o braço direito livre. Pelo naipe daqueles homens e do tiozinho que os liderava, não se surpreenderia se fosse mesmo um yakuza ou algo do gênero. Ele portava uma katana cujo porte, por lei, era restrito apenas aos servidores do governo e às forças policiais. Só por isso, já estava na cara que ele poderia ser realmente perigoso.

― Lá fora. – ele se limitou a dizer e saiu para o frio invernal em frente ao bar, seguido por Murayama.

Gintoki não chegou a passar pela porta, visto que os homens de Murayama bloqueavam a saída. Não bastou bloquear, um deles o surpreendeu com um golpe de espada em seu peito. O albino recuou, sentindo o ardor repentino do aço cortando sua roupa e sua pele, para em seguida causar um sangramento.

― Você não vai a lugar nenhum, molambento! – o homem de meia-idade falou enquanto desembainhava a sua espada.

O jovem nada respondeu. Apenas encarava o corte feito nas roupas novas e no peito, além de perceber agora que a lâmina daquela espada também resvalara em seu braço esquerdo, causando um corte menor, mas não menos dolorido. Não bastava aquele idiota voltar pra encher o saco, tinha mesmo que causar mais problemas?

― Você vai aprender a respeitar um ex-combatente, garoto!

Murayama avançou para atacar Gintoki, mas foi bloqueado por ele de imediato. O albino sacara a bokutou com agilidade e tempo suficiente para travar o aço da lâmina afiada do homem que afirmava com orgulho ser um ex-combatente. Na verdade, ele não passava de um velho samurai inconformado pela derrota na guerra e pelo declínio de sua classe e agora era um executivo entediado que não tinha glórias a contar para as próximas gerações.

― Eu fui um dos primeiros combatentes a fazer frente a esses invasores alienígenas, enquanto você muito provavelmente ainda estava usando fraldas! Sou diferente de vocês, jovens mimizentos que reclamam de uma falta de luz! Dei o meu sangue pelo meu país enquanto vocês, pirralhos, se alienavam deslumbrados com todas essas modernidades que esses amantos sujos trouxeram! E com certeza você é um trombadinha que cresceu nas ruas batendo carteiras de pessoas de bem como eu e tantos outros que lutaram na guerra!

― Cala a boca, velhote de merda. – Gintoki apenas disse após o discurso de Murayama.

― O que disse?! – o outro disse enquanto tentava se desvencilhar do travamento da bokutou adversária.

― CALA A BOCA, VELHO, TÁ CUSPINDO NA MINHA CARA!

O albino tirou a espada de madeira da posição em que estava e acertou a katana com força para tentar desarmá-lo, o que não deu muito certo. O homem revidou seu golpe e ambos colidiam suas espadas, até que Murayama correu ao seu encontro e deixou outro corte no peito de Gintoki.

― Eu comprei esta roupa hoje, e você a cortou... VAI ME PAGAR OUTRA MUDA, SEU VELHO GAGÁ!

Gintoki, por fim, conseguiu desarmar Murayama e em seguida, acertou sua bokutou com toda a força no queixo do homem, que foi arremessado pela força empregada no golpe contra uma das mesas, que não suportou seu peso e se quebrou. Cerca de cinco “subordinados” entraram no bar para tentar intimidar o albino que, enfurecido pela roupa nova estragada e se vendo no dever de evitar que ocorresse algo a Otose, distribuiu golpes poderosos para derrubá-los no chão. Outros homens já estavam decididos a entrar para vingar a derrota dos companheiros e até mesmo destruir o estabelecimento, mas outro membro do grupo fez sinal para que se detivessem.

― Chega. – o homem de alta estatura disse sem alterar a voz.

Ele possuía pele bronzeada, cabelos castanhos lisos bem curtos, com um topete arrepiado e olhos da mesma cor. Vestindo um yukata roxo e um haori azul-claro, além de um cachecol branco, ele fitou Gintoki como se o reconhecesse de algum lugar. O albino ficou intrigado, mas sustentou seu olhar, encarando aquele indivíduo que provavelmente seria pouco mais velho que ele, talvez próximo aos trinta anos de idade.

― Mas, chefia! – outro homem contestou. – Ele nocauteou Murayama-sama!

― Eu disse “chega”. Tirem o velho daqui e o levem embora.

― Ótimo, assim a gente toca fogo nesta espelunca!

― Não vão atear fogo em nada. – o homem disse lenta e ameaçadoramente. – Esse cara, se quisesse, poderia ter matado todos nós.

― Como assim?

― Já ouviram falar do Shiroyasha?

O silêncio foi a única resposta, e foi sem fazer mais barulho que carregaram Murayama embora. O homem se aproximou de Otose, o que fez com que Gintoki ficasse alarmado, mas isso logo passou quando ele tirou a carteira daquele velho e pagou à viúva o valor referente ao prejuízo causado por toda aquela confusão enquanto se desculpava.

― Farei com que o velho não venha mais perturbá-los. – finalizou. – Eu garanto que, pelo menos dele, vocês ficarão livres.

Assim, o homem que se identificou como Jin deixou o bar, cuja porta fora fechada. Não havia mais razão para continuar aberto, não faltava muito para o horário de fechamento e não viria mais nenhum cliente pelo menos por aquela noite.

― Senta aí no banco, Gintoki. – a velha senhora mandou, enquanto passava pela porta que dava acesso aos cômodos onde ela morava.

Não demorou mais do que um minuto para que Otose trouxesse uma caixa branca de primeiros socorros com materiais para curativo. Só aí é que Gintoki começou a sentir a dor dos ferimentos que recebera.

― Então você também lutou na guerra, Gintoki... Estou certa?