Crônicas de um caderno engavetado
8 Não faz tanto tempo assim...
Notas iniciais

Curitiba, 01 de abril de 2017.
Não faz tanto tempo assim, eu era aquela garotinha de olhos molhados e coração em pedaços, que chorava ao escutar uma música qualquer, que brigava com o destino e não conseguia aceitar o presente. Abusei das verborragias para externar o que dizia respeito somente a mim. Imatura, não entendia que eu perdi aquilo que nunca foi meu para receber o que realmente merecia.
Não faz tanto tempo assim, se parar para pensar, mas muitas coisas já mudaram. E dentro de mim. Percepções que me custaram caro, mas me ajudaram a ser menos dependente. Apesar de as coisas serem diferentes agora, não estou pronta para permitir que cresça em mim um sentimento que tanto pode me ajudar a viver com mais doçura neste novo mundo como pode me deixar em pedaços.
Não faz tanto tempo assim, eu esperava por quem nunca mais iria voltar, uma vez que nunca fez questão de permanecer. Eu não me amava o bastante para aceitar que todo ciclo tem o seu fim e há um limite suportável de sofrimento, padecer por males desnecessários é, além de imaturidade, perda de tempo.
É verdade que me sinto em paz, me sinto em casa, me sinto mulher, me sinto de tantos jeitos, mas ainda assim não me convenço. Ser prudente é o mínimo quando o que está em jogo é mais do que um coração recauchutado. Minha dignidade tem voz. Não pretendo arriscar sem garantias, nunca mais entregar meu coração como se ele fosse um objeto usado, tampouco permitir que alguém roube minha tranquilidade, meu consentimento. Aquele incidente que matou minha inocência foi um ilustre professor. Lecionou com rigor, cobrou de mim uma postura adulta, condizente com alguém que precisava crescer por dentro para não seguir reproduzindo comportamentos doentes.
O mesmo sorriso que te inebria de encanto pode ser aquele que te faz sangrar, sobretudo porque te rouba o chão, mas não te empresta asas para alcançar o céu. Você despenca num infinito escuro e o que te traz de volta à superfície é a raiva, no entanto ela também não é uma boa companheira e até que a dor amorteça, os entendimentos clareiem a percepção, toda paciência do mundo é uma gota de resistência.
Morrer aos poucos por conta de uma ilusão não compensa. Viver chorando pelos cantos por alguém que não tem intenção de me retribuir amor não é sensato. Mendigar qualquer tipo de atenção não é uma grande estratégia para seguir em frente. Cometer os mesmos erros me soa sádico demais, eu sei aonde esse caminho vai me levar, estou procurando outra rota.
Eu me amo o bastante para estar ciente de que engolir veneno não vai matar a minha sede, não faz sentido chamar de amor àquilo que só rebaixa a dignidade.
Então, meu coração, não me perturbe com a sua falta de razão!
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