Crônicas de um caderno engavetado
2 Impressões sobre o tempo
Curitiba, 19 de janeiro de 2017.
A impressão que nutro é a de que os ponteiros do relógio se cansaram de trabalhar e marcam sempre a mesma hora. Tudo não passa de suposição, uma vez que o tempo continua sua solene e incansável caminhada.
E nada ficou do jeito que estava. As mudanças se desdobraram sem qualquer consentimento.
O corpo presente, marcado pelos apegos, pelos incontáveis protestos silenciosos, padece ao pecado do murmúrio, da fé rasteira que trepida ao primeiro sinal de dúvida. Porque às vezes o medo é mais poderoso do que os meus sonhos.
Onde estão os meus sonhos?
Será que os escondi tão bem que não os encontro mais?
Ou em nome de uma aceitação que nunca existiu eu escondi tudo o que realmente (ainda) sou?
Porque mesmo conhecendo tão pouco sobre os imprevisíveis ciclos da vida, posso garantir que quando meus olhos se perdem no horizonte, ainda confio que a saudade não conta o tempo, passa a ser um tanto masoquista contabilizar a ausência.
Sou feita das milhares versões de mim mesma. As mais recentes não me agradam pessoalmente, no entanto enriquecem minha existência porque são partes de mim e também não me imaginaria sem elas.
Muitos sorrisos que vejo por aí são de mentira tanto quanto o "encontro de almas" de alguns. Minha melancolia rabugenta ao menos é franca. Por mais lindo que um sorriso seja, não tenho a pretensão de banalizá-lo.
Às vezes as lembranças boas me ajudam a encarar o dia de amanhã e as ruins me conduzem até a recaída, pois aí fica clara a impressão de "o tempo não ter passado".
Ah se eu pudesse brincar de me esquecer, mesmo me recordando a todo instante que sorrir me custa tanto quanto decifrar um idioma estranho. Custa ao orgulho fazer de conta que me encaixo num mundo virado do avesso, mas tão insano que dou graças por não ser "aceita" nele.
Da janela contemplei as nuvens cinzentas da espera e chorei tanto que a escuridão não mais me escondeu do reflexo do desgosto.
Após o marasmo paralítico causado por tanta dor, cansei-me de retroalimentar a autocomiseração, insistindo na fúria, no isolamento, porque embora me pareça que o tempo tenha "parado", o que não me faltou foram horas para destrinchar suposições, desenhar vinganças silenciosas e mergulhar no pessimismo insuflado pela mágoa.
Não há justiça para aqueles que se contaminam pela sede de vingança. A ferida foi aberta, quem me machucou não dedica o menor indício de arrependimento, logo a atitude mais certa é permitir que o amor cure a alma fatigada. Quando menos me sinto protegida é quando mais sou amada.
Há venturas de que chegou a hora de encarar os fatos: o clamor mais franco é aquele que se manifesta humildemente, que me induz a querer seguir em frente, não importa o que de mim tenha sobrado, é tudo o que tenho!
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