Crônicas de um caderno engavetado

21 Estranha ou não... apenas eu!


Estranha deveria ser incluído ao meu nome no registro civil. Designada dessa forma torpe sem ao menos uma explicação justa que sanasse a gritante curiosidade que se agigantou e me engoliu.

Cresci em busca de respostas, de mim mesma, de encontrar uma versão agradável que afastasse aquela palavrinha tão ofensiva dos meus ouvidos, mas já era tarde demais, feridas foram abertas e levaram embora toda a minha capacidade de resistir.

Qualquer construção idealizada sem os alicerces adequados se desmorona em questão de segundos. A verdade sempre se faz notar e costuma ferir àqueles que se negam a aceitá-la.

Ainda assim, o desespero me fez insistir. Ignorei que a renúncia pesaria no peito tanto quanto o desconforto de não caber por inteiro naquela forma apertada. Minha inocência em retalhos desconhecia as regras daquele jogo imundo que significa seguir religiosamente todos os passos das outras garotas sem garantias de aceitação porque eu não entendia que a inadequação sempre seria meu carma enquanto eu não decidisse por vontade própria buscar o meu lugar.

Repito com veemência: cópias nunca convencem. Em cada máscara há uma rachadura que mais cedo ou mais tarde compromete o restante das estruturas e todas aqueles segredos sufocados por mera conveniência vêm a tona.

Todos, todos eles.

Os medos, traumas, as lembranças amargas, o vazio, a incompreensão, os tabus jamais discutidos sem sutilezas por detrás. Todas as feridas que pareciam fechadas. Todos os cacos do coração estão expostos.

Todos, todos eles.

Toda a extensão da alma nua se encontra no chão. As asas quebradas.

Chove dentro de quem se acostumou a engolir todos os pequenos pingos de dor em nome de alguma dignidade. O receio contido. As obrigações impostas pela convenção. Aquele vazio que gritava todas as vezes em que o amor não se encontrava naqueles beijos ou naquelas projeções sádicas. Desejos inconcebíveis por natureza, quiçá. Ceifar a essência mil vezes e se programar a seguir a multidão.

E em diversas ocasiões almejar a completa invisibilidade porque estranha continuei sendo mesmo que empenhasse todo o meu sangue em nome dessa inglória causa.

Doente esteve minha alma enquanto não fui honesta comigo mesma. Doente eu estive por todos esses anos em que menti para mim mesma e fiz o mundo se convencer de semelhante imbecilidade.

Piegas pode soar, mas o verdadeiro amor pode ser o caminho para que uma alma perdida não apenas se reencontre, como se descubra e se ame o suficiente para reivindicar a liberdade de ser quem se é.

Não posso dizer em que trecho estou dessa jornada, tudo o que posso lhes garantir é que jamais serei a mesma, tampouco almejo. O desabrochar é doloroso, ninguém me contou antes, entendi na carne e na navalha de palavras que me destruíram por partirem de lábios que deveriam inspirar-me confiança e proteção.

E, sabem de uma coisa, a necessidade de não ser forte em tempo integral também deixa de ser um peso para meus despreparados ombros. Por ora. Porque me convém agora dizer que é preferível ser uma estranha em busca do amor a uma pessoa "normal" programada para julgar e odiar, como tantas que me cercaram, me oprimiram, abriram feridas sem mensurar que me transformariam para sempre.

Guerreira para alguns, imatura para os outros. Os conceitos diferem plenamente. Não me detenho a nenhum deles porque tenho sede de me amar do jeito que eu for, com virtudes e defeitos, sem discriminar ou sufocar qualquer parte de mim. E aprender. Com os erros. Com a vida. Com a plena observação do mundo. Manter a mente e o coração abertos. Saber viver e dessa forma um dia poder partilhar todo o meu amor com alguém com vontade de construir comigo uma história de amor onde passaremos por desafios e juntas a todos eles superaremos.

Enquanto não chega o meu tempo de amar, estanco as feridas e com carinho recolho os pedacinhos quebrados do meu coração para remendá-los e nesse processo alinhavar o passado, no balanço ponderar todos os vieses e olhar para frente, onde está o caminho.

Estranha? Esquisita? Até posso ser, cada um me julga da maneira que quiser, não compete a mim o julgamento feito à revelia, contanto que me deixem em paz para ser feliz, enfim. Até porque estranho e doente de verdade é dedicar tanto ódio a alguém que nunca lhes fez qualquer mal, cuja aparência lhes incomodou... Jamais o amor e o seu poder de mostrar o que existe de melhor dentro de cada um.

Estranha ou não, esse dom eu não perdi.