Crônicas de um caderno engavetado

34 Em processo de desconstrução


Curitiba, 20 de janeiro de 2018. ♥

Por tanto tempo fiz-me de surda para não ouvir o que meu coração tinha a dizer porque não dispunha de sensibilidade e algum indício de maturidade para ouvir. Em muitos casos não adianta a resposta encontrar-se diante de meus olhos se eu não souber formular a pertinente questão.

Aos olhos desatentos e viciados na visão simplista das coisas, não passo de uma criatura "confusa" almejando um pouco de atenção. Todos são livres para pensarem de mim o que quiserem, mas não está escrito em parte alguma que devo acatar com as pechas colocadas sobre a minha pessoa.

Aquela garotinha de trejeitos tímidos que sempre foi deixada de lado por todos e nunca se encaixou a nada tomou a decisão de não mendigar mais a atenção de ninguém, a fim de ouvir a voz insistente daquele coração que por tantas vezes bateu mais depressa do que o normal, porque queria gritar, queria dizer que nada fazia o menor sentido, que continuar naquela prisão, cerceada por grades invisíveis e algemas que dificultavam a caminhada era uma espécie de suicídio lento.

Estou me despindo dos velhos padrões que me aprisionaram dentro de sufocantes caixinhas repletas de algoritmos impossíveis de cumprir. Entre ser uma cópia falsa e eu mesma, optei pela segunda alternativa, ciente de que ao assinar esse contrato não me esqueci das cláusulas, tampouco das consequências.

Ouvir a voz do meu coração não me torna insensível e egoísta, indiferente ao que se passa à minha volta, apenas demonstra que estou abandonando também a velha ideia de que sou meu maior demônio e isso pode desagradar àqueles que sentiam certo prazer em ver a garotinha tímida sendo sombra dos outros permitindo que decidissem tudo por ela, lhe definissem de antemão sem um mísero espaço para se manifestar de forma contrária.

Ouvir a voz de meu coração faz com que eu reabra algumas feridas mal cicatrizadas e as veja sangrar, mas não as ignore, faz com que eu reconheça minhas limitações e imperfeições, meu lado sombrio, minhas culpas e meus erros e o maior de todos não foi ocasionado por maldade. Apesar de me valer de um clichê, minhas intenções eram boas.

Foi um equívoco me findar na premissa de que poderia enterrar a sete palmos os meus verdadeiros desejos e a partir de um determinado ponto vivesse a busca incessante pela suposta perfeição que em retribuição aos meus esforços deixou cicatrizes as quais não escondo porque elas servem de atalhos rumo ao meu novo eu e indicam que todas as vezes que caí, tomei decisões erradas e me machuquei, não foi por não ter tentando, foi porque ansiava sobremaneira um alento.

Conhecendo-me de verdade posso me entregar com mais amor a tudo que faço e a quem amo porque posso me doar aos outros por pura satisfação de estender minha mão ao próximo sem esperar que ele retribua ou para querer a todo custo amor e ser vista como uma pessoa "boa".

Os julgamentos partem de quem se sente nesse direito. Nunca estarei livre deles, então o que muda nesse caso é o meu jeito de reagir a eles. Tenho algumas alternativas em mãos e decerto a mais sensata é sem dúvida a mais difícil de colocar em prática.

Seja como for, quero me redescobrir sem interferências e dessa aventura sair mais fortalecida, mais preparada para todos os desafios que a vida ainda colocará diante de mim.

By Mary ♥